Ainda hoje vêm-me as lágrimas aos olhos quando penso no momento que aqueles 50.431 viveram e eu não. Apesar da imensa alegria com que o recordo, fico triste por ter perdido uma coisa tão linda. Sinto-me mais ou menos como se tivesse nascido um filho meu e eu não estivesse lá para o abraçar. Que era um bocadinho difícil, porque eu sou mulher e estaria a pari-lo, mas vocês perceberam a beleza desta comparação, certo? O que interessa é: eu não estive lá e há pelo menos 50.431 pessoas que tiveram a sorte de estar. Um estádio cheio, uma maravilha pronta a assistir a um dos golos mais importantes do futebol português, ao fim de um campeonato louco e inesquecível e com uma rivalidade que continua a apimentar não só este blog, mas a vida de tantos adeptos dos dois clubes.
Mas o que já não me surpreende no futebol são os adeptos. Desses 50.431 de que vos falo, muito poucos estiveram ontem no Dragão. E porquê? A crise, sim, a maldita crise. Mas um Porto-benfica sai bem mais caro do que um Porto-rio ave, como sabemos. Portanto, deixemo-nos de outras análises. O estádio estava com pouca gente porque o Porto está a ter uma época terrível e este jogo não decidia nada.
E é aqui, exactamente neste ponto, que quero tocar. Já lá vão treze anos desde que acompanho o FCPorto com a maior regularidade possível. Quando digo acompanho, não digo ler jornais ou ligar a televisão à hora do jogo. Digo estar na fila para comprar bilhete, viajar milhares de quilómetros, gastar muito dinheiro, abdicar de muitas coisas e até de muitas pessoas, cantar muito, apoiar sempre, nunca abandonar a equipa seja em que momento for. Ir a Sevilha ganhar uma Taça UEFA, mas também ir a Bratislava ser eliminada por uma equipa de merda. Ir à luz ser campeã, mas também ir a Alverca, à Madeira, a Olhão. Ganhar muitas vezes, mas perder de vez em quando. E até pode parecer que estou a gabar-me de algo, mas a verdade é que não estou. Primeiro porque conheço muita gente que o faz com mais intensidade e mais sacrifícios do que eu. E depois porque o faço com um gosto enorme.
Sim, para mim foi um gosto ir ao Porto-rio ave. Sem nada para ganhar, sem quase nada para perder. Com uma equipa destruída, que se arrasta, triste, e espera ansiosamente pelo fim da época. Mas eu sinto-me privilegiada de cada vez que lá estou. Porque sei que há muita gente que gostaria de lá ter estado e não pôde. Estavam a trabalhar, não têm dinheiro, vivem longe, sei lá. E, sobretudo, porque é o FCPorto.
O FCPorto é o meu clube. E eu adoro quando ele ganha, quando me deixa feliz, quando recebe o benfica depois de um empate contra o estoril e ganha no último suspiro com um golo do improvável Kelvin. Mas o FCPorto continua a ser o meu clube quando perde o campeonato em Janeiro, quando é eliminado vergonhosamente da Liga Europa e da Taça e quando me torna a pessoa mais infeliz do mundo (uma afirmação que, se convivessem comigo, percebiam que não é exagerada neste momento).
O FCPorto não é o meu clube só quando ganha, só quando há festa. O FCPorto é o meu clube sempre. Mesmo quando vou ao Dragão com mais 17 mil pessoas e 15 mil delas estão ali só para assobiar e dizer mal e até torcer contra. O FCPorto é o meu clube contra o benfica, contra o rio ave, para a Liga dos Campeões ou para a Taça da Carica, no início ou no fim da época. Sempre, sempre.
E a crítica que espero que já tenham percebido nesta altura não é só dirigida aos adeptos do meu clube. Em Portugal, infelizmente, somos todos maus adeptos. O benfica teve assistências vergonhosas esta época, alvalade estava às moscas quando lutavam pela manutenção, o boavista campeão arrastava uma multidão que quase desapareceu nas últimas épocas e provavelmente vai voltar assim que subirem. E sim, claro que há culpas repartidas entre a Liga e os clubes, que não fazem o suficiente para estimular a relação com os adeptos, que não facilitam nada, que não sabem "vender" um "produto" de qualidade.
Mas somos nós, os adeptos, que gostamos de aparecer só nas festas. Estamos lá, entre os 50.431, quando é para gritar o golo do Kelvin e gozar com os coitados de vermelho que lá foram. Mas não admitimos uma má época e por isso não vamos mais. Mas não perdoamos um golo falhado e assobiamos. Mas não estamos lá quando o clube (não esta equipa, note-se) mais precisa.
Há tantos exemplos lá fora de fidelidade que não vou cansar-vos muito com isso. Clubes que estão quase a descer de divisão e têm o estádio cheio e a cantar mesmo quando perdem com o maior rival. Clubes que não ganham nada e têm as bancadas a saltar. Adeptos que, a ganhar ou a perder, estão lá. Sempre, sempre. E nós, aqui, com a mania que somos superiores ao nosso futebol, sem tanta vontade de ir ver um Porto-sevilha como eles de ir ver um sevilha-Porto, porque somos muito bons, já ganhámos duas Liga dos Campeões e queremos lá saber dos quartos-de-final da Liga Europa, porque não estamos para chatices e temos é de sair mais cedo para ir jantar.
O FCPorto surpreendeu-nos esta época. Tudo correu mal e estamos todos arrasados. Mas não ir lá é mostrar que também nós, além dos dirigentes, dos treinadores e dos jogadores, não estamos ao nível deste clube. Parem lá de dizer que somos os melhores adeptos do mundo. Os melhores adeptos do mundo não são os que festejam um golo do Kelvin aos 92 minutos. Os melhores adeptos do mundo são os que forem agora a Olhão na penúltima jornada.
Mas somos nós, os adeptos, que gostamos de aparecer só nas festas. Estamos lá, entre os 50.431, quando é para gritar o golo do Kelvin e gozar com os coitados de vermelho que lá foram. Mas não admitimos uma má época e por isso não vamos mais. Mas não perdoamos um golo falhado e assobiamos. Mas não estamos lá quando o clube (não esta equipa, note-se) mais precisa.
Há tantos exemplos lá fora de fidelidade que não vou cansar-vos muito com isso. Clubes que estão quase a descer de divisão e têm o estádio cheio e a cantar mesmo quando perdem com o maior rival. Clubes que não ganham nada e têm as bancadas a saltar. Adeptos que, a ganhar ou a perder, estão lá. Sempre, sempre. E nós, aqui, com a mania que somos superiores ao nosso futebol, sem tanta vontade de ir ver um Porto-sevilha como eles de ir ver um sevilha-Porto, porque somos muito bons, já ganhámos duas Liga dos Campeões e queremos lá saber dos quartos-de-final da Liga Europa, porque não estamos para chatices e temos é de sair mais cedo para ir jantar.
O FCPorto surpreendeu-nos esta época. Tudo correu mal e estamos todos arrasados. Mas não ir lá é mostrar que também nós, além dos dirigentes, dos treinadores e dos jogadores, não estamos ao nível deste clube. Parem lá de dizer que somos os melhores adeptos do mundo. Os melhores adeptos do mundo não são os que festejam um golo do Kelvin aos 92 minutos. Os melhores adeptos do mundo são os que forem agora a Olhão na penúltima jornada.





