quarta-feira, 23 de abril de 2014

Alma de campeão

Quando André Gomes passou a bola por cima de Fernando e a meteu na baliza do Fabiano, o Estádio da Luz veio abaixo. Abraços loucos, lágrimas, gente em cima de cadeiras, gente em cima de gente, uma confusão de sons, de berros, palavrões que me fez, onze meses depois, sentir que o futebol, afinal, podia fazer-me feliz.

Vamos por partes: se na quarta-feira às 18h tivessem falado comigo, eu ter-vos-ia dito que importava era o jogo com o Olhanense e depois o jogo com a Juventus. Eu sou um adepto com alma de treinador e, mal grado toda a gente querer vingar-se do Porto, eu assumia que o jogo não era tão importante porque era da terceira competição mais importante para nós. A verdade é que eu, por muito que tenha a mania que vou ser treinador quando for grande, sou um adepto. E os adeptos sentem, sofrem, têm cicatrizes, têm memória e desejos passionais que ultrapassam a racionalidade (por muito que eu seja óptimo a fazer a linha defensiva do Benfica subir em conjunto). 

A verdade é que já ninguém  (nem eu, que sou a pessoa mais pessimista do mundo no que ao Benfica diz respeito) acreditava que o Benfica perdesse este título. Antes do jogo de domingo eram já dez vitórias consecutivas e uma solidez defensiva impressionante, com três golos sofridos nos últimos 14 jogos no campeonato (se estiver enganado corrijam-me, faço gala de mandar estas bocas sem verificar). Daí que, apesar daquele nervoso miudinho e dos falhanços do Lima na primeira parte, já poucas dúvidas restassem que o 33º vinha a caminho. Mas faltava qualquer coisa. A verdade é que nestes últimos anos o Benfica sofreu muito, mesmo muito às mãos do Porto. Não vou, por razões do foro psiquiátrico, enumerar. E, se o Benfica tivesse sido eliminado pelo Porto, o campeonato não limpava a ferida totalmente. Se o pior Porto dos últimos acabasse no Jamor com a Taça na mão, não só fechava a época já moralizado para a próxima, como podia fazer mais um risco na sua espada, mantendo o medo dos clássicos do lado de cá. A verdade é que o Porto tem sido de tal maneira superior ao Benfica nos confrontos directos que 15 pontos de avanço não eram suficientes. Precisávamos de ganhar-lhes cara à cara, um para um num duelo ao por-do-sol. E assim foi. Com 10, a ter que marcar 2, o Benfica fez das tripas coração e ganhou. Ganhou porque foi melhor, mais inteligente, mais forte que o seu adversário. O Benfica, finalmente, não se escondeu e jogou com o orgulho ferido que nós temos desde Maio de 2013. Foi humilde em vez de ser fanfarrão. Foi lutador em vez de cobarde. Quis mais que o Porto quando na maioria das vezes se sente o contrário. O Benfica (foda-se, finalmente!) jogou à campeão.

Eu não acredito em funerais antecipados nem anuncio novos ciclos sem que eles aconteçam. Mas na quarta-feira, até eu, que sou a pessoa mais crítica, o adepto mais treinador, o primeiro a ter medo e a ver sinais de fraqueza em todo o lado, me senti orgulhoso. 
Escusam de vir escrever para a caixa de comentários que o meu campeonato é ganhar ao Porto. Não, não é. É erguer a taça de campeão, independentemente de quem ganha os clássicos. Mas este texto é também um elogio ao nossos rivais. Se nos sabe bem ganhar ao Porto é porque é difícil, porque custa. E sim, precisávamos de uma reviravolta assim para nos sentirmos campeões, para irmos para casa com aquela sensação de invencibilidade, de sermos melhores que toda a gente que joga cá no burgo. Precisávamos, pelo passado recente, de uma noite de exorcização, de uma noite que afastasse fantasmas, de um berro que nos fizesse esquecer tantas noites em silêncio.

A Luz não estava cheia e o ambiente era o de tensão máxima, sem festa. Estávamos 40 e tal mil. Mas festejámos aquilo com o sangue, o suor e as lágrimas de Maio de 2013. Eu sei que foram os golos do Lima ao Olhanense que fecharam isto e foi a soma de não sei quantas vitórias que permitiu a noite no Marquês. Não trocava a eliminatória da taça pelo campeonato. Não fui para o Marquês. Mas eu precisava de um golo assim. De um golo que me libertasse. Foi quando o André Gomes a meteu lá dentro que eu percebi que este ano o campeonato já não fugia, que podíamos deixar de ter medo que um Estoril aparecesse outra vez na estrada (apesar de, admito, ter mantido o discurso só por causa das tosses). Foi quando o André Gomes passou a bola por cima do Fernando e a chutou lá para dentro que eu me esqueci de tudo, da racionalidade, das contas, da gestão do plantel.

Quando aquela bola entrou esqueci-me da alma de treinador. Quando aquela bola entrou foi quando eu me senti campeão.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Aos 50.431 espectadores do golo do Kelvin

O futebol está sempre a surpreender-me. Há um ano, eu vivia com o terrível medo de ver o benfica ganhar tudo. Não tenho vergonha nenhuma em escrevê-lo: eu não era um daqueles adeptos que dizem acreditar sempre, até ao fim, enquanto é possível. Para mim, o FCPorto tinha uma hipótese em 92 de ser campeão. Não foi, no entanto, por isso que não fui ao Dragão ver aquele jogo, até porque nessa altura o empate com o estoril já nos deixava "por cima" e com outro nível de crença. Já o contei numa reportagem do Porto Canal: estava a trabalhar, a 300 quilómetros dos 50.431 espectadores que viram o golo do Kelvin.

Ainda hoje vêm-me as lágrimas aos olhos quando penso no momento que aqueles 50.431 viveram e eu não. Apesar da imensa alegria com que o recordo, fico triste por ter perdido uma coisa tão linda. Sinto-me mais ou menos como se tivesse nascido um filho meu e eu não estivesse lá para o abraçar. Que era um bocadinho difícil, porque eu sou mulher e estaria a pari-lo, mas vocês perceberam a beleza desta comparação, certo? O que interessa é: eu não estive lá e há pelo menos 50.431 pessoas que tiveram a sorte de estar. Um estádio cheio, uma maravilha pronta a assistir a um dos golos mais importantes do futebol português, ao fim de um campeonato louco e inesquecível e com uma rivalidade que continua a apimentar não só este blog, mas a vida de tantos adeptos dos dois clubes.

Mas o que já não me surpreende no futebol são os adeptos. Desses 50.431 de que vos falo, muito poucos estiveram ontem no Dragão. E porquê? A crise, sim, a maldita crise. Mas um Porto-benfica sai bem mais caro do que um Porto-rio ave, como sabemos. Portanto, deixemo-nos de outras análises. O estádio estava com pouca gente porque o Porto está a ter uma época terrível e este jogo não decidia nada.

E é aqui, exactamente neste ponto, que quero tocar. Já lá vão treze anos desde que acompanho o FCPorto com a maior regularidade possível. Quando digo acompanho, não digo ler jornais ou ligar a televisão à hora do jogo. Digo estar na fila para comprar bilhete, viajar milhares de quilómetros, gastar muito dinheiro, abdicar de muitas coisas e até de muitas pessoas, cantar muito, apoiar sempre, nunca abandonar a equipa seja em que momento for. Ir a Sevilha ganhar uma Taça UEFA, mas também ir a Bratislava ser eliminada por uma equipa de merda. Ir à luz ser campeã, mas também ir a Alverca, à Madeira, a Olhão. Ganhar muitas vezes, mas perder de vez em quando. E até pode parecer que estou a gabar-me de algo, mas a verdade é que não estou. Primeiro porque conheço muita gente que o faz com mais intensidade e mais sacrifícios do que eu. E depois porque o faço com um gosto enorme.

Sim, para mim foi um gosto ir ao Porto-rio ave. Sem nada para ganhar, sem quase nada para perder. Com uma equipa destruída, que se arrasta, triste, e espera ansiosamente pelo fim da época. Mas eu sinto-me privilegiada de cada vez que lá estou. Porque sei que há muita gente que gostaria de lá ter estado e não pôde. Estavam a trabalhar, não têm dinheiro, vivem longe, sei lá. E, sobretudo, porque é o FCPorto.

O FCPorto é o meu clube. E eu adoro quando ele ganha, quando me deixa feliz, quando recebe o benfica depois de um empate contra o estoril e ganha no último suspiro com um golo do improvável Kelvin. Mas o FCPorto continua a ser o meu clube quando perde o campeonato em Janeiro, quando é eliminado vergonhosamente da Liga Europa e da Taça e quando me torna a pessoa mais infeliz do mundo (uma afirmação que, se convivessem comigo, percebiam que não é exagerada neste momento).

O FCPorto não é o meu clube só quando ganha, só quando há festa. O FCPorto é o meu clube sempre. Mesmo quando vou ao Dragão com mais 17 mil pessoas e 15 mil delas estão ali só para assobiar e dizer mal e até torcer contra. O FCPorto é o meu clube contra o benfica, contra o rio ave, para a Liga dos Campeões ou para a Taça da Carica, no início ou no fim da época. Sempre, sempre.

E a crítica que espero que já tenham percebido nesta altura não é só dirigida aos adeptos do meu clube. Em Portugal, infelizmente, somos todos maus adeptos. O benfica teve assistências vergonhosas esta época, alvalade estava às moscas quando lutavam pela manutenção, o boavista campeão arrastava uma multidão que quase desapareceu nas últimas épocas e provavelmente vai voltar assim que subirem. E sim, claro que há culpas repartidas entre a Liga e os clubes, que não fazem o suficiente para estimular a relação com os adeptos, que não facilitam nada, que não sabem "vender" um "produto" de qualidade.

Mas somos nós, os adeptos, que gostamos de aparecer só nas festas. Estamos lá, entre os 50.431, quando é para gritar o golo do Kelvin e gozar com os coitados de vermelho que lá foram. Mas não admitimos uma má época e por isso não vamos mais. Mas não perdoamos um golo falhado e assobiamos. Mas não estamos lá quando o clube (não esta equipa, note-se) mais precisa.

Há tantos exemplos lá fora de fidelidade que não vou cansar-vos muito com isso. Clubes que estão quase a descer de divisão e têm o estádio cheio e a cantar mesmo quando perdem com o maior rival. Clubes que não ganham nada e têm as bancadas a saltar. Adeptos que, a ganhar ou a perder, estão lá. Sempre, sempre. E nós, aqui, com a mania que somos superiores ao nosso futebol, sem tanta vontade de ir ver um Porto-sevilha como eles de ir ver um sevilha-Porto, porque somos muito bons, já ganhámos duas Liga dos Campeões e queremos lá saber dos quartos-de-final da Liga Europa, porque não estamos para chatices e temos é de sair mais cedo para ir jantar.

O FCPorto surpreendeu-nos esta época. Tudo correu mal e estamos todos arrasados. Mas não ir lá é mostrar que também nós, além dos dirigentes, dos treinadores e dos jogadores, não estamos ao nível deste clube. Parem lá de dizer que somos os melhores adeptos do mundo. Os melhores adeptos do mundo não são os que festejam um golo do Kelvin aos 92 minutos. Os melhores adeptos do mundo são os que forem agora a Olhão na penúltima jornada.




sábado, 19 de abril de 2014

Já chega

Foi naqueles instantes que se seguiram ao golo do Varela que percebi. O resultado estava todo a nosso favor e a superioridade numérica ajudava. O passado recente assustava as bancadas vermelhas e fazia-nos acreditar, naquele pedaço azul lá em cima. Mas eles, no relvado, estavam calmos, serenos, à espera do inevitável. E nós com a bola a queimar nos pés e uma insegurança sofrível.

Há coisas que uma pessoa conta nunca escrever na vida, mas o benfica foi mesmo melhor do que o Porto. Não há como fugir. E isso, mesmo depois de uma época em que praticamente já nos aconteceu tudo de mal, é assustador. Um portista sabe que não é possível ganhar sempre, mas nunca esteve preparado para isto. Arrisco até acrescentar que nem sequer um benfiquista estaria.

O que aconteceu na quarta-feira não foi só uma meia-final da Taça, não foi só mais uma eliminação inglória, não foi só mais um clássico. O que aconteceu na quarta-feira foi que, por momentos, nós vimos o que é estar do outro lado. O que é não estar à altura de um rival. O que é perder não só no resultado, mas sobretudo no nosso orgulho.

O que eu percebi naqueles instantes é que este ano nenhum resultado está a nosso favor e nenhuma superioridade numérica ajuda. Porque o Porto, o meu Porto, não é este.

O Porto que eu conheço sempre teve adversidades, mas alimentou-se delas. O Porto que nós vivemos tão intensamente não faz aquela figura triste de cair em todas as armadilhas (vergonhosas, diga-se) do adversário. O nosso Porto não é ingénuo, nem desiste, e não tem medo de correr mais, suar mais, lutar mais.

E isto tem de acabar. Já, agora. Estamos todos a pensar na próxima época, mas eu até já só exijo que saiam desta com o mínimo de respeito pela camisola que vestem. Que se lixe o próximo treinador, que se lixem as vendas e as contratações, que se lixe o Mundial e a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. O que é preciso, imediatamente, é recuperar o Porto.



Temos de voltar a ser o clube que se une quando as coisas não estão fáceis, que grita, com sotaque, quando nos querem roubar o que é nosso, que nunca baixa a cabeça de vergonha e que, mais ainda do que vitórias, exige o máximo respeito pela nossa identidade. Temos de voltar a ter um treinador competente e jogadores que percebam que esta merda não é um estágio para um clube de outro campeonato. Temos de voltar a exigir não que o Porto ganhe sempre, mas que, mesmo quando perca, seja à Porto. Temos de voltar a acreditar que, tal como noutras épocas más, vamos sair disto mais fortes, mais avisados do que temos de superar e mais atentos aos obstáculos que nos aparecem à frente. E só assim, azul e branca, esta bandeira avançará.

sábado, 12 de abril de 2014

Vendetta

Don Corleone: I'm gonna make him an offer he can't refuse. Okay? I want you to leave it all to me. Go on, go back to the party.


O Padrinho, livro de Mario Puzo, filme de Francis Ford Coppola (1972) 

Vou ser-vos sincero: eu queria a Juventus. Porque acho mais provável passar a Juve em dois jogos do que ganhar-lhes uma hipotética final a um jogo em casa deles, porque é uma eliminatória em que eles são favoritos, mas, sobretudo, porque está na hora de ajustar contas. Está na hora de nos deixarmos de choros, de traumas e temores. É hora de matar fantasmas.

Quando em 1993 calhámos com a Juventus nos quartos de final da Taça UEFA, eu era um menino inocente e puro. Mal conhecia o nome Juventus para além de um pequeno quadradinho da banda-desenhada de Eusébio, lembrando um golo seu do meio-campo, que eu já tinha lido vezes sem conta. Quando os recebemos na Luz e vi o jogo com o meu pai na televisão pequenina do quarto dos meus pais, achei estranho os constantes berros dele, cheio de medo dos contra-ataques dos Baggio e de Vialli. Lembro-me do jogão de Vítor Paneira, dos dois golos e daquele pontapé de bicicleta de Vialli à barra que silenciou a Luz e aquele quarto. Ganhámos 2-1. Eu, na minha inocência, achei que ganhar já era bom e que íamos passar. O meu pai condenou-nos logo. Foi o único jogo que essa Juventus perdeu na Taça UEFA. 


A equipa do Benfica de 92/93 tinha Neno, Veloso, William, Mozer, Hélder, Schwartz, Traidor de Viseu, Rui Costa, Kulkov, Yuran, Mostovoi, Isaías, Paulo Futre (que não podia jogar com a Juve), Rui Águas, João Vieira Pinto e o grande Vítor Paneira. Não fossem os irmãos Calheiros e teriam sido naturalmente campeões nacionais. Aos 9 anos (e aos 99) eu morreria com este plantel e, apesar de todos os avisos paternais, pedi à minha mãe para me ir buscar mais cedo ao infantário para eu ver a segunda-mão, que dava na SIC. Do outro lado estavam Moeller, Kohler, Dino e Roberto Baggio, David Platt, Vialli, Torricelli, Antonio Conte. Mas eu não tinha medo. E nem as sábias palavras do meu pai que ainda hoje me ecoam nos ouvidos me inibiram: "M.: estes roubam mais do que o Porto."

Logo a abrir, canto para a Juve. Eu tinha só 9 anos, mas eu sabia que a pequena-área é dos guarda-redes nestes lances. Quando Kohler se atirou de cotovelo em riste e partiu o nariz ao Silvino, pedi falta. Nada. Golo. Silvino, de nariz a sangrar, é substituído. Como sempre que o Benfica sofria um golo, comecei a chorar. A minha mãe, cheia do seu instinto maravilhoso, veio consolar-me, mas mal tenho memória dos outros dois golos da tarde. Lembro-me de soluçar muito de choro e de não querer lanchar. O meu ódio à Juventus é jurado desde esse dia. Eu, que era uma criança boa e gentil, ri-me com vontade quando li, uns meses mais tarde num quadradinho recôndito n`"A Bola", que o central da Juventus Júlio César, num jogo do Brasil, tinha sido assaltado e perdido a medalha de vencedor dessa Taça UEFA. Anos mais tarde, com os ultras da AS Roma num Roma-D. Kiev, foi com prazer e raiva que cantei o mítico cântico anti-juventino: E’ lunedì, che umiliazione, andare in fabbrica a servire il tuo padrone, oh Juventino cucciapiselli, di tutta quanta la famiglia Agnelli, e Juve merda, Juve juve merda, e Juve merda...


Desde Maio do ano passado que todos nós, benfiquistas, vivemos com medo. Do Kelvin, do Ivanovic, da nossa própria sombra. A equipa passeia pelo campeonato, está segura de si mesma e está rodeada de adeptos em coletes de forças, cheios de medo de serem felizes (isto não é nenhuma crítica, ninguém tem mais medo e está mais traumatizado do que eu). Em Maio do ano passado, fomos pontapeados na cabeça várias vezes, gozados por tudo e por todos. Em Abril deste ano, estamos mais do que vivos, às portas de tudo. Exijo o campeonato. Está aí mesmo, quase, quase. É o nosso principal objectivo, aquele em que estamos todos concentrados. Mas é tempo, também, de o Benfica querer mais. O Benfica far-nos-á imensamente feliz se for campeão, mas nesta fase não pode querer só campeão. Tem mais por conquistar e deve olhar para a Juventus e para a Liga Europa como uma oportunidade. Uma oportunidade de lembrar o grande Eusébio e o seu golo histórico à Juve em 1968. Uma oportunidade de vingar aquela fabulosa equipa de 1993. E tem uma oportunidade de ir a Turim e conquistar aquilo que Amesterdão nos tirou. 

O Benfica, se for campeão, já faz uma grande época. Mas, se o Benfica eliminar a Juventus e for a Turim ganhar a Liga Europa, esquecerá não só os traumas de 2013, como lembrará Eusébio e vingará uma geração que ficou marcada por não poder continuar a celebrar aqueles dois golos de Vítor Paneira. 

Benfica, vou fazer-te uma oferta que não podes recusar: está na hora de te vingares. Está na hora da vendetta.






quinta-feira, 10 de abril de 2014

Para a C., com amor

Há quase um ano, a C. escreveu-me isto. O Benfica tinha acabado de se qualificar para a final da Liga Europa e eu não cabia em mim de contente com o que Cardozo acabara de fazer ao Fenerbahçe. O amor e a raiva dela resultaram num feitiço de tal maneira poderoso que nem a Taça escapou. E hoje aqui estou para devolver a gracinha.

A C. é a pessoa mais do Porto que eu conheço. Antes de conhecer a C. e a família, eu achava que os adeptos do Porto eram todos uns selvagens que comiam com as mãos. Para mim, ser do Porto era ser mau. Ser do Porto significava não só torcer pelo clube que mais merece acabar no mundo, mas também simbolizar tudo o de mais maligno que há no planeta. E não era um mau fixe, tipo Darth Vader ou Dexter. Era mais tipo Miguel Relvas. 
Mas não, a C., exceptuando o clube, é a melhor pessoa do mundo. Tem pinta, sentido de humor e dá uma abada ao mundo inteiro em bondade. Só que é do Porto. Há um ano, a C. escrevia a que foi, para mim, a melhor frase de sempre do blog: "Eu amo o M. e o M. ama o benfica. E estar a apenas um ser humano de distância de amar o benfica envergonha-me". É-me impossível verbalizar melhor do que isto. Mesmo depois de casados, a viver debaixo do mesmo tecto uma série de tempo, ainda me é estranho quando a C., a melhor mulher, filha, irmã, tia e nora do mundo, diz que vai jogar "o Portinho" como se aquele clube não merecesse passar 50 séculos debaixo do Atlântico.

A C., que já correu mais estádios do que eu, que é - repito - a pessoa mais do Porto que eu conheço (e, convenhamos, espero ficar por aqui. Adoro a C. e a família dela, mas há um limite de portismo na vida de uma pessoa e eu já estou a fazer quatro ou cinco quotas), anda furiosa. Não se podem juntar o nome próprio Paulo e o apelido Fonseca na mesma frase sem ela espernear e fazer um esgar de vómito. Vê os jogos do Porto num estado de ansiedade entre partir a televisão e partir a televisão com ainda mais força. Eu, infelizmente, compreendo. A C. está mal habituada. O Porto, infelizmente, ganhou mais do que perdeu no tempo de vida dela, e esta época tão Benfica 1998 está a dar cabo dela. 

Eu amo a C. e todos os dias me apetece abraçá-la, mesmo sendo ela uma pessoa que é incapaz de admitir que o Katsouranis tocou na bola e só na bola naquele lance com o Anderson. Mas, apesar deste amor que não tenho vergonha nenhuma de aclamar em público, preciso muito que a mulher da minha vida pague a praga que me rogou o ano passado. Portanto, C., o que eu mais quero - além de todos os títulos do Benfica esta época em futebol masculino de seniores (convém uma pessoa especificar bem que é para o divino não nos entregar um título de futsal por engano) - é que o teu clube se afunde ainda mais esta época. 
Assim, deviam começar por perder já daqui a umas horas nos penalties em Sevilha, com lesões graves de Mangala, Danilo e Ghilas e com o Beto a marcar o penalty decisivo. Espero ainda que o meu clube passe as meias das duas taças contra o teu com golos em fora-de-jogo aos 92 minutos (o Cardozo, ao fazer o 0-7 aos 92 minutos  na Taça da Liga, levanta uma camisola com a inscrição: "Espaço C."). 

Depois de tudo isto, só porque gosto muito de ti e tu não mereces tanto sofrimento, assino um empate no clássico da última jornada que te permite segurar o 4º lugar à frente do Nacional, dado que o Estoril dá 3-0 em Alvalade à mesma hora. Desde que, claro, o Benfica entre em campo já campeão e com todos os jogadores com o cabelo à Paulo Fonseca. 

Pré-venda do livro

O livro "Lá em casa mando eu!" já está disponível para encomenda. Podem ver aqui:

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Wook

A partir de 18 de Abril, estará à venda nas principais livrarias: FNAC, Bertrand, Continente, etc.