O V. nasceu às 00.29 de 2 de Maio. Filho do D., meu grande, grande amigo de sempre, o V. deverá ler esta carta quando fizer 20 anos (a não ser que a descubra na net antes).
V.:
Na altura em que leres esta carta, se ela te for entregue conforme as instruções, farás 20 anos e fará 20 anos e um dia que o Benfica eliminou a Juventus nas meias-finais da Liga Europa 2013/2014. Nesse dia, eu e o teu pai combinámos que ficarás uns dias ilegal (sem ser sócio do Glorioso), para que possamos os dois ir à Luz daqui a uns dias e para que eu possa ter a honra de te pagar a primeira quota. Se eu bem conheço o teu pai, e conheço, tu hoje és do Benfica, és benfiquista doente e já viste esse jogo no youtube ou numa cena assim que existirá daqui a 20 anos. E digo isto porque tenho a certeza que serás um benfiquista como eu e o teu pai, que sabemos de cor os onzes da nossa infância e alguns que nem vimos jogar, tudo porque passámos muito tempo a ler e a ver vídeos sobre o clube que amamos. Para tu teres uma ideia do louco que o teu pai é: antes do Benfica-Olhanense, que deu o 33º campeonato nacional ao nosso Benfica (tu, com 20 anos, estarás quase a festejar o 49º, suponho eu, numa visão pessimista), recusou-se a andar de elevador porque tinha medo que o elevador parasse e ele não pudesse ir ao jogo do título. Pronto, isto é o teu pai. Há pior, mas isso só quando tiveres 40 anos.
V., tu nasceste campeão (como eu, já agora). Celebrámos o 33º e, umas horas antes de tu nasceres, a nação benfiquista rejubilava com a passagem à final da Liga Europa. À hora que te escrevo, faltam 12 dias para a final. Eu, obviamente, não sei o resultado e morro de medo. Tu sorrirás de alegria ou de tristeza a ler isto. O Juventus-Benfica, umas horas antes de tu nasceres, foi um jogo heróico. Eu estava em Salamanca e ainda nem sei se o teu pai viu ou não o jogo, porque a tua mãe te estava prestes a ter. Até sangue deixámos em Turim, mas passámos. Foi um jogo de luta, de sofrimento, de entrega. V.: foi à Benfica, miúdo. E isso é a melhor coisa do mundo.
V., quando leres esta carta, já me conheces de certeza. Serei frequentador da tua casa e já participaste em mil conversas comigo e com o teu pai a falar do Benfica. Já fomos à Luz juntos mil vezes. Sabes que somos dois cinquentões simpáticos, nostálgicos e que adoramos falar do Benfica do início dos anos 90. Eu e o teu pai conhecemo-nos desde os meus 14 anos (15 dele). Já fizemos um milhão de coisas juntos e gostamos muito um do outro. Eu e o teu pai já fomos para os copos mais vezes do que te podemos admitir, eu e a tua tia C. tivemos das noites mais memoráveis das nossas vidas no casamento dos teus pais. Eu fui colega de curso da tua mãe. E eu e o teu pai partilhámos a tristeza de Amesterdão, quando o Benfica perdeu a final da Liga Europa com o Chelsea depois de fazer um jogão. As lágrimas do teu pai foram o que mais me custou nesse dia. Daí que, um ano depois, o benfiquismo estivesse louco com a hipótese de limpar essas lágrimas e essa injustiça.
O jogo, V., foi uma loucura. Tínhamos ganho 2-1 na primeira mão (Garay e Lima, Tevez por eles). Não havia uma alminha vermelha que não dissesse o mesmo antes do jogo: "Temos de marcar lá porque sofrer vamos de certeza." A Juventus, se nos passasse, jogaria a final em casa (como tu de certeza sabes, o Benfica-Sevilla foi em Turim). Tinham Buffon - grandíssimo guarda-redes - e jogavam com três centrais. Tinham no meio campo Pogba - um possante médio francês - Vidal, bom médio chileno e, sobretudo, Andrea Pirlo. O Pirlo já estava em final de carreira, mas era o Pirlo. Foda-se, que jogador. Foi decisivo em 2006 (ensinaste estas coisas ao puto, certo, D.?), no tetra italiano, e marcava livres como se fossem penalties. À frente tinham o Tevez (grande avançado argentino) e o Llorente (que lixou o Sporting numas meias finais da Liga Europa - ahah). Nós tínhamos o Oblak (que espero que tenha nesta altura uma estátua no Museu), Garay e Luisão - grande dupla de centrais, o Enzo Peréz - craque argentino, foda-se, que saudades do Enzo! - Markovic e Gaitan nas alas (dois craques). Rodrigo e Lima na frente, que o Tacuara fez um 2013/2014 miserável. E ai de ti se, com 20 anos, não souberes quem é o Oscar Tacuara Cardozo.
A primeira parte foi um massacre filha da mãe. Não saímos da toca, tirando nos primeiros 5 minutos. Eles sempre em cima de nós, a ganhar as bolas todas. Algumas oportunidades deles, muita tensão. Uma aflição para sairmos da área. O Luisão tira uma bola de cabeça em cima da linha mesmo em cima do intervalo. Adivinhava-se, a qualquer altura, o golo deles. Os gajos pareciam mais. E pareciam mais altos, mais fortes, mais rápidos. Mudavam a bola de flanco e nós ficávamos à rasca. O intervalo chegou como um milagre. Na segunda parte começámos melhor, mais espevitados, mais espertos a sair no contra-ataque. Até que o Enzo - que foi, de longe, o melhor jogador do campeonato 2013/2014 e que eu espero que, daqui a 20 anos, quando leres esta carta, ainda esteja ligado ao Benfica - fez duas faltas e foi para a rua. Faltavam 25 minutos e nós com 10. O teu pai já te deve ter contado: nos dias anteriores, tínhamos eliminado o Porto (se calhar agora não estás a ver porque eles estão nos distritais, mas eles eram fortes na altura) duas vezes com 10, na Taça de Portugal e na Taça da Liga. A Juve, desesperada e só a precisar de um golo, apertou o cerco. E foi aí, nesses 25 minutos finais, que apareceu o Benfica, o grande Benfica. Os rapazes fizeram das tripas coração e aguentaram. Defenderam cada palmo de terra, fizeram sprints já sem força, lutaram como heróis. O Oblak defendeu tudo (um livre do grande Pirlo, inclusive) e o Luisão fez o jogo de uma vida. Cada minuto pareciam horas e em território inimigo, mas os rapazes aguentaram-se.
A seis minutos do fim, o médio francês, o Pogba, lesionou (sem querer) o Garay - grande central argentino era esse gajo! - e acabámos com 9. O André Almeida, um miúdo que jogava a lateral e a trinco, acabou a central. Foram seis minutos em Turim, 11 contra 9, contra a favorita Juventus que só precisava de um golo para jogar a final em casa. E os rapazes aguentaram. No fim até arranjaram maneira de meter a bola na frente e o Lima aguentou-a um minuto e tal e até sacou uma falta. A batalha foi tal que perdemos Salvio e Markovic (injustamente) para a final. Num bar em Salamanca, quando o árbitro apitou para o fim, eu e o meu pai gritámos e gritámos. Foi um apuramento histórico, um milagre, uma coisa de sangue, suor e lágrimas, provando que em futebol um 0-0 pode ser uma coisa belíssima e poética.
Algumas horas depois, recebi a mensagem que tinhas nascido. Por meia hora não nasceste no dia do trabalhador, no mesmo dia em que o Benfica eliminou a Juventus em Turim.
Quando leres este texto, se as instruções forem cumpridas, já terás 20 anos. Daqui a 12 dias, fará 40 anos o 3-6 em Alvalade, que eu e o teu pai já te contámos cem vezes, e 20 anos a final de Turim.
À hora que te escrevo não sei o resultado do Benfica-Sevilla (e sofro com isso), mas já sei que gosto muito de ti e que tenho muito orgulho em que tu e eu sejamos do Benfica.






