segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lopetegui

Não gosto de cometer o mesmo erro duas vezes. Como já deve ter percebido, o FCPorto errou na escolha do treinador para a época que agora acabou. Por isso mesmo, mas não só, passámos de tricampeão ao desastre em menos de um ano. E eu, como qualquer portista doente, não admito que isto se repita. Portanto, estou aqui para o ajudar.

Não faço ideia se desta vez acertámos. Pelos vistos não andei a ver tantos jogos das camadas jovens da selecção espanhola como devia, por isso não me sinto em condições de o avaliar já à partida. Vou então acreditar que o mister sabe que o duplo pivot está para o FCP como o Putin para o Prémio Nobel da Paz. Vou partir do princípio que até no País Basco ou na Catalunha se sabe que no Porto não há lugar a medos perante egos e superegos. Vou dar-lhe todo o apoio possível desde que veja trabalho, raça e muita vontade de ganhar.

Até aqui, tudo entendido? Passemos então à parte em que tento explicar-lhe no que veio meter-se. O Futebol Clube do Porto. Isto não é fácil, sabe? Para uma portista doente como eu, este clube é tudo. Foi este clube que já me fez do mais feliz ao mais triste que possa imaginar. São os valores deste clube que partilho desde o berço com uma longa família de portistas. É este clube que eu sigo e que tenciono continuar a seguir até me tornar numa daquelas velhinhas que se vestem com adereços da cabeça aos pés e gritam impropérios muito alto e fininho contra os árbitros e os rivais.

Este é um clube diferente. Sim, eu sei que todos os adeptos estão convencidos que são do melhor clube do mundo. Eu não sou excepção, claro. Mas não é só por isso. O FCPorto é um clube que faz das dificuldades uma força, que torna os obstáculos em factores de união e que, sem esquecer décadas de sofrimento e de derrotas, só admite continuar a ganhar como nos últimos 30 anos.

Nós, no Porto, somos a visão de Pedroto, a ambição de Pinto da Costa, a bi-bota de Fernando Gomes, a sapiência de Robson, as mãos de Baía. Somos os Aliados em festa, o Dragão em chamas ao minuto 92, mas sobretudo as Antas encharcadas numa noite de temporal contra a Lazio. Somos o calcanhar de Madjer e a cabeça de Falcao, somos Costinha em Manchester e Alenitchev nas finais. Somos os meus avós, os meus pais, o meu irmão e até somos um rival à medida do meu marido.

É isto que o mister tem de saber desde já. Não conhecer o Porto, não ser Porto, é um erro que, neste clube, não tem perdão. E não basta ir ao museu ver as taças e os bonecos em 3D. É preciso senti-lo, mesmo. Depois do caos desta época, estamos sedentos de portismo. Queremos ganhar, mas ganhar à Porto. Exigimos sangue, suor e lágrimas por esta camisola. Não toleramos mais brincadeiras, mais incompetência, mais falhanços, mais pernas a tremer contra os rivais, mais bolas atiradas para a bancada com displicência, mais braços caídos e rostos envergonhados.

Isso não é o Porto. Isso que viu até numa vitória no último sábado não é mais do que um muito reduzido esboço da nossa vontade de ser sempre superior aos outros, mesmo a feijões, mesmo quando por vezes se perde, mesmo quando já nada se pode ganhar. Isso é exactamente o que não queremos na próxima época.

Mister, veja se percebe: a sua tarefa não é nada fácil. Nós não estamos só tristes com as derrotas deste ano. Estamos furiosos, revoltados com o que a nossa própria equipa nos fez e cheios de garra para começar de novo. E isto é o Porto, onde uma época só com uma Supertaça é uma catástrofe. Por isso, prepare-se: também nós já estamos a trabalhar na próxima época. Somos muitos, mas serão muitos mais aqueles que estarão contra si, contra nós. Eles estão muito fortes, mas nós somos o Futebol Clube do Porto. Se perceber isto… bienvenido, tio!

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Juventus-Benfica contado ao V.

O V. nasceu às 00.29 de 2 de Maio. Filho do D., meu grande, grande amigo de sempre, o V. deverá ler esta carta quando fizer 20 anos (a não ser que a descubra na net antes).

V.:

Na altura em que leres esta carta, se ela te for entregue conforme as instruções, farás 20 anos e fará 20 anos e um dia que o Benfica eliminou a Juventus nas meias-finais da Liga Europa 2013/2014. Nesse dia, eu e o teu pai combinámos que ficarás uns dias ilegal (sem ser sócio do Glorioso), para que possamos os dois ir à Luz daqui a uns dias e para que eu possa ter a honra de te pagar a primeira quota. Se eu bem conheço o teu pai, e conheço, tu hoje és do Benfica, és benfiquista doente e já viste esse jogo no youtube ou numa cena assim que existirá daqui a 20 anos. E digo isto porque tenho a certeza que serás um benfiquista como eu e o teu pai, que sabemos de cor os onzes da nossa infância e alguns que nem vimos jogar, tudo porque passámos muito tempo a ler e a ver vídeos sobre o clube que amamos. Para tu teres uma ideia do louco que o teu pai é: antes do Benfica-Olhanense, que deu o 33º campeonato nacional ao nosso Benfica (tu, com 20 anos, estarás quase a festejar o 49º, suponho eu, numa visão pessimista), recusou-se a andar de elevador porque tinha medo que o elevador parasse e ele não pudesse ir ao jogo do título. Pronto, isto é o teu pai. Há pior, mas isso só quando tiveres 40 anos.

V., tu nasceste campeão (como eu, já agora). Celebrámos o 33º e, umas horas antes de tu nasceres, a nação benfiquista rejubilava com a passagem à final da Liga Europa. À hora que te escrevo, faltam 12 dias para a final. Eu, obviamente, não sei o resultado e morro de medo. Tu sorrirás de alegria ou de tristeza a ler isto. O Juventus-Benfica, umas horas antes de tu nasceres, foi um jogo heróico. Eu estava em Salamanca e ainda nem sei se o teu pai viu ou não o jogo, porque a tua mãe te estava prestes a ter. Até sangue deixámos em Turim, mas passámos. Foi um jogo de luta, de sofrimento, de entrega. V.: foi à Benfica, miúdo. E isso é a melhor coisa do mundo.

V., quando leres esta carta, já me conheces de certeza. Serei frequentador da tua casa e já participaste em mil conversas comigo e com o teu pai a falar do Benfica. Já fomos à Luz juntos mil vezes. Sabes que somos dois cinquentões simpáticos, nostálgicos e que adoramos falar do Benfica do início dos anos 90. Eu e o teu pai conhecemo-nos desde os meus 14 anos (15 dele). Já fizemos um milhão de coisas juntos e gostamos muito um do outro. Eu e o teu pai já fomos para os copos mais vezes do que te podemos admitir, eu e a tua tia C. tivemos das noites mais memoráveis das nossas vidas no casamento dos teus pais. Eu fui colega de curso da tua mãe. E eu e o teu pai partilhámos a tristeza de Amesterdão, quando o Benfica perdeu a final da Liga Europa com o Chelsea depois de fazer um jogão. As lágrimas do teu pai foram o que mais me custou nesse dia. Daí que, um ano depois, o benfiquismo estivesse louco com a hipótese de limpar essas lágrimas e essa injustiça. 

O jogo, V., foi uma loucura. Tínhamos ganho 2-1 na primeira mão (Garay e Lima, Tevez por eles). Não havia uma alminha vermelha que não dissesse o mesmo antes do jogo: "Temos de marcar lá porque sofrer vamos de certeza." A Juventus, se nos passasse, jogaria a final em casa (como tu de certeza sabes, o Benfica-Sevilla foi em Turim). Tinham Buffon - grandíssimo guarda-redes - e jogavam com três centrais. Tinham no meio campo Pogba - um possante médio francês - Vidal, bom médio chileno e, sobretudo, Andrea Pirlo. O Pirlo já estava em final de carreira, mas era o Pirlo. Foda-se, que jogador. Foi decisivo em 2006 (ensinaste estas coisas ao puto, certo, D.?), no tetra italiano, e marcava livres como se fossem penalties. À frente tinham o Tevez (grande avançado argentino) e o Llorente (que lixou o Sporting numas meias finais da Liga Europa - ahah). Nós tínhamos o Oblak (que espero que tenha nesta altura uma estátua no Museu), Garay e Luisão - grande dupla de centrais, o Enzo Peréz - craque argentino, foda-se, que saudades do Enzo! - Markovic e Gaitan nas alas (dois craques). Rodrigo e Lima na frente, que o Tacuara fez um 2013/2014 miserável. E ai de ti se, com 20 anos, não souberes quem é o Oscar Tacuara Cardozo.

A primeira parte foi um massacre filha da mãe. Não saímos da toca, tirando nos primeiros 5 minutos. Eles sempre em cima de nós, a ganhar as bolas todas. Algumas oportunidades deles, muita tensão. Uma aflição para sairmos da área. O Luisão tira uma bola de cabeça em cima da linha mesmo em cima do intervalo. Adivinhava-se, a qualquer altura, o golo deles. Os gajos pareciam mais. E pareciam mais altos, mais fortes, mais rápidos. Mudavam a bola de flanco e nós ficávamos à rasca. O intervalo chegou como um milagre. Na segunda parte começámos melhor, mais espevitados, mais espertos a sair no contra-ataque. Até que o Enzo - que foi, de longe, o melhor jogador do campeonato 2013/2014 e que eu espero que, daqui a 20 anos, quando leres esta carta, ainda esteja ligado ao Benfica - fez duas faltas e foi para a rua. Faltavam 25 minutos e nós com 10. O teu pai já te deve ter contado: nos dias anteriores, tínhamos eliminado o Porto (se calhar agora não estás a ver porque eles estão nos distritais, mas eles eram fortes na altura) duas vezes com 10, na Taça de Portugal e na Taça da Liga. A Juve, desesperada e só a precisar de um golo, apertou o cerco. E foi aí, nesses 25 minutos finais, que apareceu o Benfica, o grande Benfica. Os rapazes fizeram das tripas coração e aguentaram. Defenderam cada palmo de terra, fizeram sprints já sem força, lutaram como heróis. O Oblak defendeu tudo (um livre do grande Pirlo, inclusive) e o Luisão fez o jogo de uma vida. Cada minuto pareciam horas e em território inimigo, mas os rapazes aguentaram-se. 

A seis minutos do fim, o médio francês, o Pogba, lesionou (sem querer) o Garay - grande central argentino era esse gajo! - e acabámos com 9. O André Almeida, um miúdo que jogava a lateral e a trinco, acabou a central. Foram seis minutos em Turim, 11 contra 9, contra a favorita Juventus que só precisava de um golo para jogar a final em casa. E os rapazes aguentaram. No fim até arranjaram maneira de meter a bola na frente e o Lima aguentou-a um minuto e tal e até sacou uma falta. A batalha foi tal que perdemos Salvio e Markovic (injustamente) para a final. Num bar em Salamanca, quando o árbitro apitou para o fim, eu e o meu pai gritámos e gritámos. Foi um apuramento histórico, um milagre, uma coisa de sangue, suor e lágrimas, provando que em futebol um 0-0 pode ser uma coisa belíssima e poética. 

Algumas horas depois, recebi a mensagem que tinhas nascido. Por meia hora não nasceste no dia do trabalhador, no mesmo dia em que o Benfica eliminou a Juventus em Turim. 
Quando leres este texto, se as instruções forem cumpridas, já terás 20 anos. Daqui a 12 dias, fará 40 anos o 3-6 em Alvalade, que eu e o teu pai já te contámos cem vezes, e 20 anos a final de Turim.

À hora que te escrevo não sei o resultado do Benfica-Sevilla (e sofro com isso), mas já sei que gosto muito de ti e que tenho muito orgulho em que tu e eu sejamos do Benfica.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Alma de campeão

Quando André Gomes passou a bola por cima de Fernando e a meteu na baliza do Fabiano, o Estádio da Luz veio abaixo. Abraços loucos, lágrimas, gente em cima de cadeiras, gente em cima de gente, uma confusão de sons, de berros, palavrões que me fez, onze meses depois, sentir que o futebol, afinal, podia fazer-me feliz.

Vamos por partes: se na quarta-feira às 18h tivessem falado comigo, eu ter-vos-ia dito que importava era o jogo com o Olhanense e depois o jogo com a Juventus. Eu sou um adepto com alma de treinador e, mal grado toda a gente querer vingar-se do Porto, eu assumia que o jogo não era tão importante porque era da terceira competição mais importante para nós. A verdade é que eu, por muito que tenha a mania que vou ser treinador quando for grande, sou um adepto. E os adeptos sentem, sofrem, têm cicatrizes, têm memória e desejos passionais que ultrapassam a racionalidade (por muito que eu seja óptimo a fazer a linha defensiva do Benfica subir em conjunto). 

A verdade é que já ninguém  (nem eu, que sou a pessoa mais pessimista do mundo no que ao Benfica diz respeito) acreditava que o Benfica perdesse este título. Antes do jogo de domingo eram já dez vitórias consecutivas e uma solidez defensiva impressionante, com três golos sofridos nos últimos 14 jogos no campeonato (se estiver enganado corrijam-me, faço gala de mandar estas bocas sem verificar). Daí que, apesar daquele nervoso miudinho e dos falhanços do Lima na primeira parte, já poucas dúvidas restassem que o 33º vinha a caminho. Mas faltava qualquer coisa. A verdade é que nestes últimos anos o Benfica sofreu muito, mesmo muito às mãos do Porto. Não vou, por razões do foro psiquiátrico, enumerar. E, se o Benfica tivesse sido eliminado pelo Porto, o campeonato não limpava a ferida totalmente. Se o pior Porto dos últimos acabasse no Jamor com a Taça na mão, não só fechava a época já moralizado para a próxima, como podia fazer mais um risco na sua espada, mantendo o medo dos clássicos do lado de cá. A verdade é que o Porto tem sido de tal maneira superior ao Benfica nos confrontos directos que 15 pontos de avanço não eram suficientes. Precisávamos de ganhar-lhes cara à cara, um para um num duelo ao por-do-sol. E assim foi. Com 10, a ter que marcar 2, o Benfica fez das tripas coração e ganhou. Ganhou porque foi melhor, mais inteligente, mais forte que o seu adversário. O Benfica, finalmente, não se escondeu e jogou com o orgulho ferido que nós temos desde Maio de 2013. Foi humilde em vez de ser fanfarrão. Foi lutador em vez de cobarde. Quis mais que o Porto quando na maioria das vezes se sente o contrário. O Benfica (foda-se, finalmente!) jogou à campeão.

Eu não acredito em funerais antecipados nem anuncio novos ciclos sem que eles aconteçam. Mas na quarta-feira, até eu, que sou a pessoa mais crítica, o adepto mais treinador, o primeiro a ter medo e a ver sinais de fraqueza em todo o lado, me senti orgulhoso. 
Escusam de vir escrever para a caixa de comentários que o meu campeonato é ganhar ao Porto. Não, não é. É erguer a taça de campeão, independentemente de quem ganha os clássicos. Mas este texto é também um elogio ao nossos rivais. Se nos sabe bem ganhar ao Porto é porque é difícil, porque custa. E sim, precisávamos de uma reviravolta assim para nos sentirmos campeões, para irmos para casa com aquela sensação de invencibilidade, de sermos melhores que toda a gente que joga cá no burgo. Precisávamos, pelo passado recente, de uma noite de exorcização, de uma noite que afastasse fantasmas, de um berro que nos fizesse esquecer tantas noites em silêncio.

A Luz não estava cheia e o ambiente era o de tensão máxima, sem festa. Estávamos 40 e tal mil. Mas festejámos aquilo com o sangue, o suor e as lágrimas de Maio de 2013. Eu sei que foram os golos do Lima ao Olhanense que fecharam isto e foi a soma de não sei quantas vitórias que permitiu a noite no Marquês. Não trocava a eliminatória da taça pelo campeonato. Não fui para o Marquês. Mas eu precisava de um golo assim. De um golo que me libertasse. Foi quando o André Gomes a meteu lá dentro que eu percebi que este ano o campeonato já não fugia, que podíamos deixar de ter medo que um Estoril aparecesse outra vez na estrada (apesar de, admito, ter mantido o discurso só por causa das tosses). Foi quando o André Gomes passou a bola por cima do Fernando e a chutou lá para dentro que eu me esqueci de tudo, da racionalidade, das contas, da gestão do plantel.

Quando aquela bola entrou esqueci-me da alma de treinador. Quando aquela bola entrou foi quando eu me senti campeão.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Aos 50.431 espectadores do golo do Kelvin

O futebol está sempre a surpreender-me. Há um ano, eu vivia com o terrível medo de ver o benfica ganhar tudo. Não tenho vergonha nenhuma em escrevê-lo: eu não era um daqueles adeptos que dizem acreditar sempre, até ao fim, enquanto é possível. Para mim, o FCPorto tinha uma hipótese em 92 de ser campeão. Não foi, no entanto, por isso que não fui ao Dragão ver aquele jogo, até porque nessa altura o empate com o estoril já nos deixava "por cima" e com outro nível de crença. Já o contei numa reportagem do Porto Canal: estava a trabalhar, a 300 quilómetros dos 50.431 espectadores que viram o golo do Kelvin.

Ainda hoje vêm-me as lágrimas aos olhos quando penso no momento que aqueles 50.431 viveram e eu não. Apesar da imensa alegria com que o recordo, fico triste por ter perdido uma coisa tão linda. Sinto-me mais ou menos como se tivesse nascido um filho meu e eu não estivesse lá para o abraçar. Que era um bocadinho difícil, porque eu sou mulher e estaria a pari-lo, mas vocês perceberam a beleza desta comparação, certo? O que interessa é: eu não estive lá e há pelo menos 50.431 pessoas que tiveram a sorte de estar. Um estádio cheio, uma maravilha pronta a assistir a um dos golos mais importantes do futebol português, ao fim de um campeonato louco e inesquecível e com uma rivalidade que continua a apimentar não só este blog, mas a vida de tantos adeptos dos dois clubes.

Mas o que já não me surpreende no futebol são os adeptos. Desses 50.431 de que vos falo, muito poucos estiveram ontem no Dragão. E porquê? A crise, sim, a maldita crise. Mas um Porto-benfica sai bem mais caro do que um Porto-rio ave, como sabemos. Portanto, deixemo-nos de outras análises. O estádio estava com pouca gente porque o Porto está a ter uma época terrível e este jogo não decidia nada.

E é aqui, exactamente neste ponto, que quero tocar. Já lá vão treze anos desde que acompanho o FCPorto com a maior regularidade possível. Quando digo acompanho, não digo ler jornais ou ligar a televisão à hora do jogo. Digo estar na fila para comprar bilhete, viajar milhares de quilómetros, gastar muito dinheiro, abdicar de muitas coisas e até de muitas pessoas, cantar muito, apoiar sempre, nunca abandonar a equipa seja em que momento for. Ir a Sevilha ganhar uma Taça UEFA, mas também ir a Bratislava ser eliminada por uma equipa de merda. Ir à luz ser campeã, mas também ir a Alverca, à Madeira, a Olhão. Ganhar muitas vezes, mas perder de vez em quando. E até pode parecer que estou a gabar-me de algo, mas a verdade é que não estou. Primeiro porque conheço muita gente que o faz com mais intensidade e mais sacrifícios do que eu. E depois porque o faço com um gosto enorme.

Sim, para mim foi um gosto ir ao Porto-rio ave. Sem nada para ganhar, sem quase nada para perder. Com uma equipa destruída, que se arrasta, triste, e espera ansiosamente pelo fim da época. Mas eu sinto-me privilegiada de cada vez que lá estou. Porque sei que há muita gente que gostaria de lá ter estado e não pôde. Estavam a trabalhar, não têm dinheiro, vivem longe, sei lá. E, sobretudo, porque é o FCPorto.

O FCPorto é o meu clube. E eu adoro quando ele ganha, quando me deixa feliz, quando recebe o benfica depois de um empate contra o estoril e ganha no último suspiro com um golo do improvável Kelvin. Mas o FCPorto continua a ser o meu clube quando perde o campeonato em Janeiro, quando é eliminado vergonhosamente da Liga Europa e da Taça e quando me torna a pessoa mais infeliz do mundo (uma afirmação que, se convivessem comigo, percebiam que não é exagerada neste momento).

O FCPorto não é o meu clube só quando ganha, só quando há festa. O FCPorto é o meu clube sempre. Mesmo quando vou ao Dragão com mais 17 mil pessoas e 15 mil delas estão ali só para assobiar e dizer mal e até torcer contra. O FCPorto é o meu clube contra o benfica, contra o rio ave, para a Liga dos Campeões ou para a Taça da Carica, no início ou no fim da época. Sempre, sempre.

E a crítica que espero que já tenham percebido nesta altura não é só dirigida aos adeptos do meu clube. Em Portugal, infelizmente, somos todos maus adeptos. O benfica teve assistências vergonhosas esta época, alvalade estava às moscas quando lutavam pela manutenção, o boavista campeão arrastava uma multidão que quase desapareceu nas últimas épocas e provavelmente vai voltar assim que subirem. E sim, claro que há culpas repartidas entre a Liga e os clubes, que não fazem o suficiente para estimular a relação com os adeptos, que não facilitam nada, que não sabem "vender" um "produto" de qualidade.

Mas somos nós, os adeptos, que gostamos de aparecer só nas festas. Estamos lá, entre os 50.431, quando é para gritar o golo do Kelvin e gozar com os coitados de vermelho que lá foram. Mas não admitimos uma má época e por isso não vamos mais. Mas não perdoamos um golo falhado e assobiamos. Mas não estamos lá quando o clube (não esta equipa, note-se) mais precisa.

Há tantos exemplos lá fora de fidelidade que não vou cansar-vos muito com isso. Clubes que estão quase a descer de divisão e têm o estádio cheio e a cantar mesmo quando perdem com o maior rival. Clubes que não ganham nada e têm as bancadas a saltar. Adeptos que, a ganhar ou a perder, estão lá. Sempre, sempre. E nós, aqui, com a mania que somos superiores ao nosso futebol, sem tanta vontade de ir ver um Porto-sevilha como eles de ir ver um sevilha-Porto, porque somos muito bons, já ganhámos duas Liga dos Campeões e queremos lá saber dos quartos-de-final da Liga Europa, porque não estamos para chatices e temos é de sair mais cedo para ir jantar.

O FCPorto surpreendeu-nos esta época. Tudo correu mal e estamos todos arrasados. Mas não ir lá é mostrar que também nós, além dos dirigentes, dos treinadores e dos jogadores, não estamos ao nível deste clube. Parem lá de dizer que somos os melhores adeptos do mundo. Os melhores adeptos do mundo não são os que festejam um golo do Kelvin aos 92 minutos. Os melhores adeptos do mundo são os que forem agora a Olhão na penúltima jornada.




sábado, 19 de abril de 2014

Já chega

Foi naqueles instantes que se seguiram ao golo do Varela que percebi. O resultado estava todo a nosso favor e a superioridade numérica ajudava. O passado recente assustava as bancadas vermelhas e fazia-nos acreditar, naquele pedaço azul lá em cima. Mas eles, no relvado, estavam calmos, serenos, à espera do inevitável. E nós com a bola a queimar nos pés e uma insegurança sofrível.

Há coisas que uma pessoa conta nunca escrever na vida, mas o benfica foi mesmo melhor do que o Porto. Não há como fugir. E isso, mesmo depois de uma época em que praticamente já nos aconteceu tudo de mal, é assustador. Um portista sabe que não é possível ganhar sempre, mas nunca esteve preparado para isto. Arrisco até acrescentar que nem sequer um benfiquista estaria.

O que aconteceu na quarta-feira não foi só uma meia-final da Taça, não foi só mais uma eliminação inglória, não foi só mais um clássico. O que aconteceu na quarta-feira foi que, por momentos, nós vimos o que é estar do outro lado. O que é não estar à altura de um rival. O que é perder não só no resultado, mas sobretudo no nosso orgulho.

O que eu percebi naqueles instantes é que este ano nenhum resultado está a nosso favor e nenhuma superioridade numérica ajuda. Porque o Porto, o meu Porto, não é este.

O Porto que eu conheço sempre teve adversidades, mas alimentou-se delas. O Porto que nós vivemos tão intensamente não faz aquela figura triste de cair em todas as armadilhas (vergonhosas, diga-se) do adversário. O nosso Porto não é ingénuo, nem desiste, e não tem medo de correr mais, suar mais, lutar mais.

E isto tem de acabar. Já, agora. Estamos todos a pensar na próxima época, mas eu até já só exijo que saiam desta com o mínimo de respeito pela camisola que vestem. Que se lixe o próximo treinador, que se lixem as vendas e as contratações, que se lixe o Mundial e a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. O que é preciso, imediatamente, é recuperar o Porto.



Temos de voltar a ser o clube que se une quando as coisas não estão fáceis, que grita, com sotaque, quando nos querem roubar o que é nosso, que nunca baixa a cabeça de vergonha e que, mais ainda do que vitórias, exige o máximo respeito pela nossa identidade. Temos de voltar a ter um treinador competente e jogadores que percebam que esta merda não é um estágio para um clube de outro campeonato. Temos de voltar a exigir não que o Porto ganhe sempre, mas que, mesmo quando perca, seja à Porto. Temos de voltar a acreditar que, tal como noutras épocas más, vamos sair disto mais fortes, mais avisados do que temos de superar e mais atentos aos obstáculos que nos aparecem à frente. E só assim, azul e branca, esta bandeira avançará.

sábado, 12 de abril de 2014

Vendetta

Don Corleone: I'm gonna make him an offer he can't refuse. Okay? I want you to leave it all to me. Go on, go back to the party.


O Padrinho, livro de Mario Puzo, filme de Francis Ford Coppola (1972) 

Vou ser-vos sincero: eu queria a Juventus. Porque acho mais provável passar a Juve em dois jogos do que ganhar-lhes uma hipotética final a um jogo em casa deles, porque é uma eliminatória em que eles são favoritos, mas, sobretudo, porque está na hora de ajustar contas. Está na hora de nos deixarmos de choros, de traumas e temores. É hora de matar fantasmas.

Quando em 1993 calhámos com a Juventus nos quartos de final da Taça UEFA, eu era um menino inocente e puro. Mal conhecia o nome Juventus para além de um pequeno quadradinho da banda-desenhada de Eusébio, lembrando um golo seu do meio-campo, que eu já tinha lido vezes sem conta. Quando os recebemos na Luz e vi o jogo com o meu pai na televisão pequenina do quarto dos meus pais, achei estranho os constantes berros dele, cheio de medo dos contra-ataques dos Baggio e de Vialli. Lembro-me do jogão de Vítor Paneira, dos dois golos e daquele pontapé de bicicleta de Vialli à barra que silenciou a Luz e aquele quarto. Ganhámos 2-1. Eu, na minha inocência, achei que ganhar já era bom e que íamos passar. O meu pai condenou-nos logo. Foi o único jogo que essa Juventus perdeu na Taça UEFA. 


A equipa do Benfica de 92/93 tinha Neno, Veloso, William, Mozer, Hélder, Schwartz, Traidor de Viseu, Rui Costa, Kulkov, Yuran, Mostovoi, Isaías, Paulo Futre (que não podia jogar com a Juve), Rui Águas, João Vieira Pinto e o grande Vítor Paneira. Não fossem os irmãos Calheiros e teriam sido naturalmente campeões nacionais. Aos 9 anos (e aos 99) eu morreria com este plantel e, apesar de todos os avisos paternais, pedi à minha mãe para me ir buscar mais cedo ao infantário para eu ver a segunda-mão, que dava na SIC. Do outro lado estavam Moeller, Kohler, Dino e Roberto Baggio, David Platt, Vialli, Torricelli, Antonio Conte. Mas eu não tinha medo. E nem as sábias palavras do meu pai que ainda hoje me ecoam nos ouvidos me inibiram: "M.: estes roubam mais do que o Porto."

Logo a abrir, canto para a Juve. Eu tinha só 9 anos, mas eu sabia que a pequena-área é dos guarda-redes nestes lances. Quando Kohler se atirou de cotovelo em riste e partiu o nariz ao Silvino, pedi falta. Nada. Golo. Silvino, de nariz a sangrar, é substituído. Como sempre que o Benfica sofria um golo, comecei a chorar. A minha mãe, cheia do seu instinto maravilhoso, veio consolar-me, mas mal tenho memória dos outros dois golos da tarde. Lembro-me de soluçar muito de choro e de não querer lanchar. O meu ódio à Juventus é jurado desde esse dia. Eu, que era uma criança boa e gentil, ri-me com vontade quando li, uns meses mais tarde num quadradinho recôndito n`"A Bola", que o central da Juventus Júlio César, num jogo do Brasil, tinha sido assaltado e perdido a medalha de vencedor dessa Taça UEFA. Anos mais tarde, com os ultras da AS Roma num Roma-D. Kiev, foi com prazer e raiva que cantei o mítico cântico anti-juventino: E’ lunedì, che umiliazione, andare in fabbrica a servire il tuo padrone, oh Juventino cucciapiselli, di tutta quanta la famiglia Agnelli, e Juve merda, Juve juve merda, e Juve merda...


Desde Maio do ano passado que todos nós, benfiquistas, vivemos com medo. Do Kelvin, do Ivanovic, da nossa própria sombra. A equipa passeia pelo campeonato, está segura de si mesma e está rodeada de adeptos em coletes de forças, cheios de medo de serem felizes (isto não é nenhuma crítica, ninguém tem mais medo e está mais traumatizado do que eu). Em Maio do ano passado, fomos pontapeados na cabeça várias vezes, gozados por tudo e por todos. Em Abril deste ano, estamos mais do que vivos, às portas de tudo. Exijo o campeonato. Está aí mesmo, quase, quase. É o nosso principal objectivo, aquele em que estamos todos concentrados. Mas é tempo, também, de o Benfica querer mais. O Benfica far-nos-á imensamente feliz se for campeão, mas nesta fase não pode querer só campeão. Tem mais por conquistar e deve olhar para a Juventus e para a Liga Europa como uma oportunidade. Uma oportunidade de lembrar o grande Eusébio e o seu golo histórico à Juve em 1968. Uma oportunidade de vingar aquela fabulosa equipa de 1993. E tem uma oportunidade de ir a Turim e conquistar aquilo que Amesterdão nos tirou. 

O Benfica, se for campeão, já faz uma grande época. Mas, se o Benfica eliminar a Juventus e for a Turim ganhar a Liga Europa, esquecerá não só os traumas de 2013, como lembrará Eusébio e vingará uma geração que ficou marcada por não poder continuar a celebrar aqueles dois golos de Vítor Paneira. 

Benfica, vou fazer-te uma oferta que não podes recusar: está na hora de te vingares. Está na hora da vendetta.