quinta-feira, 22 de maio de 2014

Notas aos campeões

2012/2013 foi um ano marcante para o futebol português. Não é todos os anos que duas equipas estão tão fortes que chegam à penúltima jornada a jogar a uma final e não é todas as épocas que um chouriço de um gajo com cabelo de atrasado mental define o campeonato. Infelizmente, o Sporting não acaba todos os anos em sétimo, o que é lamentável. 

Ora, 2012/2013 foi de tal maneira marcante e para nós catastrófico, que poucos benfiquistas apostariam um euro nesta equipa. Quando o campeonato começou e vi Jorge Jesus a ver o Marítimo-Benfica sentado em cima de uma geleira, só me apeteceu esconder-me num buraco até ao Mundial. Tinha tido piada eu sair do buraco, ainda a habituar-me à luz, e perguntar: "Então e o campeonato?" e alguém me responder: "Ó homem, já ganhámos isso há sei lá quanto tempo!". 
Como eu, felizmente, não estive escondido e até vi o ano inteiro, vamos então avaliar os nossos rapazes e fechar os assuntos sérios, para depois aproveitarmos o defeso e gozarmos com assuntos menores como a prestação de Portugal no Mundial. 

Artur: a única vantagem de Artur é que não se chama Roberto. Tirando isso, aquele ar meio atrapalhado, meio burro nos cruzamentos e a falta de segurança em cada bola foram uma constante até aquele abençoado dia em que se lesionou. Artur, depois de nos ter feito perder o campeonato do ano passado com frangos contra FCP (casa e fora), Nacional e Estoril, estava apostado na mesma epopeia este ano. Espero que vás para o Porto ou para o Sporting. Nota: 3/10.

Oblak: 26 jogos, 22 sem sofrer golos. Mal batido em Barcelos e faltou-lhe a ratice do Beto nos penalties com o clube espanhol que tem três cornos no emblema (devias ter-te adiantado como o outro cabrão, Jan). Foi um dos bastiões e principais figuras do ano. Quando entrou no jogo com o Olhanense mandei mensagem a um amigo a dizer: "Campeões". Como achei bazófia a mais, apaguei e agora não tenho provas. Oxalá fique cá muitos e bons anos. 8,5/10 


Paulo Lopes: só pelos festejos no campeonato merece a mesma nota do que o Artur. 3/10

Maxi: tenho uma relação ambivalente com o Maxi. Adoro aquela garra, aquele nunca desistir, a maneira como faz tudo para se superar. Mas acho que o Maxi já comete erros a mais e começa a não ter físico para compensar algumas limitações técnicas. Quero-o connosco muitos anos, mas às vezes não sei se o quero titular. 7/10

Siqueira: partia com uma grande vantagem, já que foi a primeira pessoa com dois dígitos de QI a jogar a lateral-esquerdo no Benfica em muitos anos. E sabe Eusébio o que o lugar é difícil. Pedro Henriques, por exemplo, é melhor comentador na Sporttv do que foi defesa-esquerdo na Luz e cada um entenderá a afirmação como quiser. Qualquer gajo que não se perdesse no túnel e voltasse para a segunda parte ia parecer um craque. Teve um começo fraco, com lesões e várias asneiras (expulsão em Barcelos e, mais tarde, expulsão com o Porto em casa), mas foi subindo ao longo do ano. Espero que fique, apesar de nunca vir a ser um Roberto Carlos. 7/10

Luisão: grande época do capitão. Nem me lembro se fez a habitual birra para sair no princípio da época. Esteve impecável, sobressaindo para mim o derby em casa, onde meteu Slimani no bolso. Fundamental. 8,5/10.

Garay: Suspiro. Dos melhores centrais que vi jogar no Glorioso. Um título em três anos é manifestamente pouco para tanta classe. O Zenit é pouco para ti, rapaz, e deixa-me triste que te vás enfiar naquilo. Pergunta ao Witsel se está a gostar daquela calor porreiro de São Petersburgo. 9/10.

Sílvio: importantíssimo ao longo da época. Rodou com Maxi e Siqueira até àquele lance estúpido. Sem ser um craque (nenhum lateral do Benfica o é, é uma das nossas principais lacunas), esteve sempre a bom nível. 7/10

Jardel: é sempre importante ter gajos destes que sabem que são suplentes e que não chateiam. Jogou contra o Vitória na Luz com um buraco na testa quase do tamanho da lesão cerebral do Cortez sem se queixar. 7/10

Bruno Cortez: entrou para o anedotário do futebol nacional. Quero acreditar que alguém ganhou uma valente comissão e que o trouxe sem o ver jogar. O Bruno Cortez tem um ar tão estúpido que dá a sensação que ainda o temos que manter afastado de Legos com peças pequenas para ele não meter nenhuma na boca e se engasgar. Bruno Cortez foi campeão e isso é extraordinário. É gajo para se engasgar com a medalha. 1/10

André Almeida: o miúdo não é nem nunca vai ser nenhum génio, mas cumpre. Muito por culpa de Jorge Jesus, todas as segundas linhas do Benfica conseguem entrar sem se dar por elas e isso foi um dos segredos da equipa. Vê lá se fazes qualquer coisa no Mundial para te vendermos por um preço que tu não vales (aquele abraço, Cedric!). 6,5/10

Steven, Cancelo, Lindelof, Bernardo Silva: mais títulos do que o William Carvalho e isso é giro. 1/10

Fejsa: o homem do ano. Lesionou Artur e permitiu a conquista de três títulos. Para além disso, fez uma senhora exibição no derby (quem não fez? Ah, o Sporting) e foi uma pena a sua lesão. 6,5/10

Djuricic: Filip fez uma grande exibição naquele primeiro jogo de pré-época em que enfrentamos uns agricultores suiços. O futebol português, apesar de todos os seus defeitos, ainda é um bocadinho melhor do que isso. Infelizmente, Djuricic nunca foi tão bom como naquele dia. Flop do ano (Cortez não conta como flop. Cortez era uma carta fora do baralho à partida). 2/10

Matic: espero que a chuvinha de Londres te caia bem e que apanhes mau tempo (como se aqui estivesse bom...). Matic é um craque, um super-jogador. Mas chateia-me que alguém queira sair em Dezembro. Foi importante para o título, mas perdeu a festa no Marquês. Há pessoas que davam a vida para ir naquele autocarro. 6,5/10  

Sulejmani: para um homem com tamanho azar - a queda na final da Liga Europa, que estupidez - foi ainda bastante importante. Marcou uns golitos, fez a posição quando era preciso. Para primeira linha não chega, para segunda linha é óptimo. A ver se compras uma pata de coelho, rapaz. 6/10

André Gomes: só pelo golo ao Porto, só me apetece abraçar-te, puto. Lamento dizer-te que nunca vais ser o Enzo Perez, mas já levantaste o Estádio da Luz e foi isso que eu te pedi uma vez. 7/10 (a nota justa era 6, mas recebes mais 1 pelo golo. Estou um mãos largas)



Rúben Amorim: entre benfiquistas, Rúben: QUE CARALHO TE PASSOU PELA CABEÇA PARA NÃO TERES ESTADO CONNOSCO O ANO PASSADO? Pronto, já passou. Sim, deves ter discutido com o Jesus ou o raio. Mas contigo o ano passado éramos campeões. Não tinha jogado o Roderick (que faz o Cortez parecer o Einstein) no Dragão e tu tinhas ceifado logo o Kelvin. 
Vá, deixa lá isso. Tens um número de sócio mais baixo do que o meu e aquela entrevista na Benfica TV confirmou o que o teu futebol já mostrava: és inteligente e do Benfica. 7/10

Ivan Cavaleiro: matei-te futebolisticamente quando fez a falta sobre Montero que deu o 3-3 aos lagartos no jogo da Taça. Um jogador inteligente nunca faz aquilo. É a segunda linha que menos gosto no Benfica. Desculpa lá, Ivan. Pareces ser bom rapaz e até metes umas coisas simpáticas para o Benfica no instagram, mas não vai dar. 4/10

Salvio: é um luxo ter um homem destes como 12º jogador e foi uma pena que te tivesses lesionado tão cedo. Aquela "mão" em Turim foi uma sacanice do árbitro. Fica connosco, rapaz. Se fores para o Zenit o teu instagram vai ser uma seca, só com bonecos de neve, portanto é melhor ficares com a malta. 7/10

Markovic: miúdo, quando passaste pelo William Carvalho e meio Sporting e fizeste aquela cuecada ao Patrício, fiquei doido. A jogada para o primeiro golo contra o Porto confirmou-o: és areia demais para um clube sem dinheiro como nós. Espero que fiques mais um ano e que saias campeão. Aquela confusão em Turim foi uma burrice, pá. E a tua foto de fundo no twitter é altamente, já agora. 8,5/10

Gaitan: vá, todos: NICO! NICO! NICO! Finalmente, porra! Não sei se bateu com a cabeça na parede e se finalmente acordou, mas abençoada parede. Um dos homens do ano. De brinca na areia (tipo Dominguez) a craque a sério (tipo Enzo Perez). Merecia ir á selecção argentina em vez de Rojo. Sim, até a defesa esquerdo Gaitan é melhor do que o Rojo. Não acredito que haja uma coisa no mundo que o Rojo faça melhor que o Gaitan. 9/10

Enzo Perez: casa comigo, Enzo. Eu enganei-me e casei com uma portista, bem gira até, mas se tu quiseres eu largo tudo e vou ter contigo. 9/10 porque fizeste aquela burrice em Turim (não há homens perfeitos).

Ola John: esqueci-me que foi campeão e não fosse um aviso na caixa de comentários ia continuar a esquecer-me. 1/10

Funes Mori: quem? 1/10

Cardozo: um terço de época de sonho, dois terços para esquecer. Oxalá regresses, meu caro. Eu não esqueço e sei que sem aquele teu terço de época nunca teríamos chegado a Turim onde falhaste o penalty. As tuas lágrimas são as minhas e é de coração partido que te dou negativa. 4/10

Lima: gosto do Lima. Nunca vai ser um ídolo, nunca terá um cântico mítico, nunca é o primeiro de que nos lembramos. Mas está lá, tipo relógio. Um 8/10 sólido

Rodrigo: tu vais já levar uma praga, rapaz. Nós somos o topo da tua carreira. Não vais chegar ao Barça nem ao Real Madrid e nunca passarás de um Zenit ou de um Valência, clubes infinitamente menores que o Glorioso Sport Lisboa e Benfica. És excelente para Portugal, falta-te um bocadinho para seres um grande ponta de lança europeu. 8/10

Jorge Jesus: o nosso mister aprendeu e essa foi a sua maior qualidade. Que JJ nos pôs  a jogar à bola, nunca ninguém duvidou. Mas éramos uma equipa de excessos, um comboio sempre prestes a descarrilar. Este ano não. JJ aprendeu e convidou os adversários a subir para que os pudéssemos matar em contra-ataque. Por defeitos de educação, JJ continua a dar tiros no pé em frases e actos. Ainda assim, espero que continue. Se JJ continuar e não vendermos tudo (ouviu, Vieira?), partimos na pole position para 2014/2015. 9/10

Somos campeões. Enterrámos o fantasma Kelvin, ficou o europeu. Vencemos também porque não havia rival (o Porto de Paulo Fonseca foi o melhor anti-depressivo para o Benfica do ano passado), mas vencemos.
Agora chega de festejos e de bazófia. Tudo concentrado no próximo campeonato (não, não é o do Mundo. É mesmo a Liga 2014/2015).


terça-feira, 20 de maio de 2014

10 razões para o Quaresma não ser convocado

Eu, como sabem, não nutro qualquer afecto pela selecção. Não é por mal, a sério, mas já tenho o meu coração de adepta completamente preenchido. Daí que normalmente a minha única preocupação em qualquer convocatória para um Mundial seja quais os jogadores do FCPorto que vão, em que condições físicas, se convém mostrarem-se bem para os vendermos ou se vou ter de torcer para que nem entrem em campo para ninguém os ver, etc. Coisas bem mais importantes do que torcer por uma bandeira vermelha e verde, como imaginam.

Confesso que nesta altura estou mais preocupada com o Mundial do Mangala, do Jackson, do Quintero, do Ghilas, do Defour, do Reyes e do Herrera do que com o de qualquer outro cidadão do meu país, à excepção do Varela que, se Pinto da Costa quiser, vai fazer um grande Mundial e ser vendido por uns 15 milhões. Posso, eventualmente, pensar um pouco se não seria melhor o Garay brilhar para ser vendido, mas não muito para não render muito dinheiro, ou se o Slimani não podia lesionar-se durante uns 6 ou 8 meses só para garantir que o Montero é titular durante meia época.  Enfim, assuntos que me vão ocupando a cabeça enquanto o Lopetegui não apresenta uns três ou quatro reforços de grande categoria.

Há, no entanto, portistas que se preocupam com a selecção. E custa-me muito ver camaradas a sentirem-se injustiçados quando um dos nossos não é convocado. Eu, que até sou insuspeita, porque não sou grande adepta deste rapaz, percebo a natural insatisfação de um portista que já estava a pensar compilar no YouTube umas fintas e trivelas do Quaresma no Mundial para ainda o vendermos a um árabe maluco qualquer. É por causa disto que estão chateados, certo? Ou é só porque gostam dele? É que se é por isso, isso passa, porque o importante é ele estar bem connosco e não ali. Bem, na verdade também admito que possam estar assim só porque, do ponto da vista da selecção, o Quaresma até merecia ir ao Mundial. E que até parece uma perseguição ao FCPorto, porque um dia um seleccionador brasileiro não convocou o melhor guarda-redes do mundo e arredores para a baliza nacional, e agora é este, porque se o Quaresma fosse de outro clube e não andasse a falar em morrer em campo pela camisola azul e branca ele até o levava, e isso tudo.

Só que eu precisava de ter moral para falar disto e não tenho. Eu festejei quando o Queiroz não levou o Moutinho ao último Mundial, porque estava convencida que “o anão” (era assim que carinhosamente o tratava na altura) não valia nada (parece que foi considerado um dos flops do ano em França, que pena, espero que a conta bancária lhe saiba bem), por isso penso que é neste momento que devo calar-me. Às tantas os lagartos também ficaram furiosos na altura, e continuam porque agora estão convencidos que o Adrien é o Yaya Toure em beto, e por isso não seria justo eu entrar por aí. Se o André Almeida seria convocado se estivesse noutro clube qualquer? Bem, provavelmente não, mas imaginem que o André Almeida chega ao Brasil, partilha o quarto com o Ruben Amorim e depois chateiam-se com a Playstation e para o ano dão início a uma crise de balneário do benfica? Não seria genial? Então não nos cansemos com isto. É nestes cenários que temos de pensar, portistas, tudo o resto são piners.

É do FCPorto

Os jogadores do FCPorto são maus,estão habituados a ganhar títulos quando o que a selecção quer é divertir a malta e ficam melhor de azul do que de vermelho (e nestas coisas das grandes competições de selecções já se sabe que a estética conta muito, até porque o capitão de Portugal gosta de mudar de penteado ao intervalo). Dos prováveis titulares da selecção, pelo menos Pepe, Bruno Alves, João Moutinho, Raul Meireles e Postiga já experimentaram este lado negro e obscuro do futebol português, embora agora sejam todos óptimos e fofinhos e grandes jogadores. Como o Vieirinha, por exemplo, que desde que deixou o Porto passou a ser mais seleccionável para certas pessoas que se incomodam com estas coisas.

É cigano

O Quaresma é feio, tem muitos brincos e anéis e veste-se mal. E é lindo fazer-se piadas pelo facto de ser cigano. Dá imenso jeito para os adversários passarem o jogo a chamar-lhe nomes e para os adeptos soltarem o xenófobo preconceituoso que há em cada um de nós. Vamos, então, poupar os brasileiros de fazerem esta figura triste que tanta gente por cá faz.

Tem mau feitio

O Quaresma chateia-se, fala mal, esbraceja e indigna-se. Com os árbitros, sobretudo, mas também com jogadores adversários que fazem questão de usufruir da alínea anterior. Numa selecção que bate em árbitros, destrói balneários, com treinadores irados atrás de adversários para “proteger o menino” (era o Quaresma, que ironia tão bonita) e um historial de grande categoria como este, não podia haver lugar para um anjinho.

Não joga para a equipa

Ele é muito bom tecnicamente, tens uns pés únicos, dos melhores do mundo mesmo, mas não passa a bola quando deve, só pensa nele, parece que está mais preocupado consigo próprio do que com a selecção, pode ser decisivo no ataque mas depois acabamos a questionar-nos se também não devia ajudar a equipa na defesa, gosta de assumir o jogo mas depois passamos muito tempo a questionar-nos onde anda… Ai, desculpem, isto era para falar do Quaresma a perdi-me aqui a falar do Ronaldo.

É criativo demais

Eu, que mais uma vez sou insuspeita porque não sou fã do Ronaldo, tenho de admitir que esta selecção parece pouco mais do que ele. Se estiver em forma, é capaz de tudo. E quase sozinho, como se viu contra a Suécia. Daí que faça imenso sentido não levar o Quaresma. Para quê ter alguém que sabe o que fazer à bola quando toda a estratégia passa por chutar para a frente para o Ronaldo? Seria um desperdício de talento.

Não sabe defender

Recua pouco, faz faltas desnecessárias, não mete o pé, fica lá à frente à espera que lhe passem a bola em vez de vir atrás tentar organizar o jogo e é tão preguiçoso que depois o apanham em fora-de-jogo. Apesar de passar muito tempo no ataque, marca poucos golos e não decide jogos. Ai, porra, lá estou eu a distrair-me e a falar do Hugo Almeida em vez do Quaresma. (notem que não disse Postiga porque, se há coisa que o homem sabe fazer bem, é defender! Sobretudo na grande área dos outros)

Não respeita tácticas

O Quaresma é um génio e os génios são quase sempre maus tacticamente. Já o Rafa, por exemplo, tem tudo para ser um mestre da táctica, dado que vai continuar no banco mesmo quando for preciso entrar alguém para abanar com o jogo.

Não aguenta 90 minutos

O Quaresma já não é o que era. A finta não sai tão rápida, o cruzamento vai mais baixo e a substituição por um craque tipo Varela seria inevitável. A selecção não precisa de jogadores instáveis fisicamente lá na frente, até porque já tem o Nani, o Vieirinha, o Postiga e o Éder para fazerem esse papel.

O seleccionador

Um treinador cuja maior conquista foi ficar em segundo no campeonato quatro anos seguidos e que tem um palmarés com duas taças e duas supertaças não pode falar a mesma língua que um jogador com 18 títulos oficiais.

Cheira mal dos pés?

Sei lá, mas faltava-me uma e, já que o Paulo Bento pode justificar-se com argumentos estapafúrdios, achei que também podia.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Para sempre

Não sei quando é que tudo isto começou. Tenho uma óptima memória futebolística, mas falta-me o momento do meu nascimento para o benfiquismo. O primeiro jogo que me lembro, com definição, sabendo resultado e pormenores, foi um Nacional-Benfica em que ganhámos 1-4 (e lembro-me perfeitamente que o penalty contra o Benfica foi mal assinalado por esse ilustre ladrão que era o Rosa Santos). Consultando o zerozero, estamos a falar do dia 23 de Setembro de 1989, tinha este que vos escreve 5 anos. Quando eu destaco este jogo, não estou a falar do primeiro jogo que vi, nem da primeira vez que fui ao estádio, estou a falar do primeiro jogo que me lembro de ver, decorar, saber os marcadores dos golos, de falar do jogo no dia seguinte e de ver o resumo no dia seguinte, vendo com cada vez mais nitidez que o Veloso tinha tocado no adversário fora da área (lance na nossa esquerda). 

Vamos lá ver se explico a importância disto: eu não me lembro da cara da minha irmã quando eu tinha 5 anos. Nem dos meus pais. É certo que os vejo muitas vezes e que essas coisas às vezes são mais difíceis, mas eu lembro-me que ganhámos 1-4 ao Nacional a 23 de Setembro de 1989, e só espero que alguém encontre o resumo do jogo para eu ter a certeza que o penalty não era. Isto não é nada contra a minha família, que eu adoro muito, mas é para explicar que, apesar de eu não me lembrar do momento exacto em que nasceu o meu benfiquismo, ser do Benfica, ser do Benfica obsessiva e compulsivamente, é uma coisa que eu tenho desde que existo. Posso ter uma profissão, outros interesses extra-curriculares de forma a parecer uma pessoa minimamente interessante e com quem se pode jantar, mas não vos quero enganar: se há algo que me define, que é de mim do princípio ao fim, de manhã até à noite, todos os dias da semana, do mês e do ano, é ser do Benfica.

Não encontro uma razão para isto. Não há racionalidade, não comecei a gostar do Benfica porque as camisolas são vermelhas e eu gostava da cor. A ver se me explico: nunca, durante a minha existência, se colocou na minha cabeça e no meu corpo a hipótese de ser de outro clube que não o Benfica. Se eu não fosse do Benfica, não era eu. 
Contudo, apesar da consciência do absurdo disto tudo, dos sacrifícios que eu faço em nome do Benfica, das horas que já passei sem dormir (eu consigo dormir em qualquer situação, hábito ganho a fazer urgências, menos quando o Benfica não ganha), apesar de estar plenamente consciente que isto não faria qualquer sentido se eu fosse mesmo racional, também nunca coloquei a hipótese de não o fazer. Não vale a pena mentir: eu sempre soube que a minha felicidade dependia em muito do Benfica. Eu posso estar na profissão que quero, estar casado com a mulher perfeita e ter todos os amigos do mundo. Se o Benfica não estiver bem, eu, pelo menos a 100%, também não o estarei. 
Eu acho que isto é a maior declaração de amor que se pode fazer. Na verdade, quando a C. não está bem, quando ela está chateada com qualquer coisa (Porto aparte) ou quando está doente, eu também me sinto mal e faço tudo que esteja ao meu alcance para que a situação se resolva (reafirmo: derrotas do Porto aparte). O problema - e é, de facto, um dos maiores problemas da minha vida - é que eu pouco posso fazer para resolver os problemas do Benfica quando eles surgem. Quando a C. adoece eu posso ir à farmácia. Quando o Benfica joga não me resta nada senão uma entrega e um sofrimento profundos, maiores do que eu, mas não há nada palpável que eu possa mesmo fazer. Não posso rematar, passar, defender. Entrego o meu coração aos 11 rapazes que fazem isso por mim, mas julgo que isso pouca ajuda a que a bola entre ou não, mas é tudo o que eu tenho.
É um amor-refém. O Benfica não está apaixonado por mim como eu estou por ele. Seria um acaso muito grande que algum jogador do Benfica soubesse, sequer, quem eu sou, enquanto eu sei a posição, o pé preferido e as forças e fraquezas de todos, todos eles. Isto que vos descrevo, esta obsessão, persegue-me desde que eu tenho 5 anos. Vivo há 25 anos assim e, pasmem-se, em crescendo.

O que senti ontem, depois de perdermos com o Sevilla, é de uma força e brutalidade tais que eu tenho vergonha de escrever.  Há pessoas com problemas muito mais sérios no mundo, há problemas de saúde, há pessoas que vivem em países invadidos, eu sei isso tudo e luto contra isso todos os dias. Mas, aos 30 anos, nada disso me bate tão em cheio, tão profundamente e de uma maneira tão orgânica como uma grande derrota do Benfica. Fico com um frio cá dentro que parece que nunca vai passar, ganho um ódio visceral a todos os culpados (eu desejo coisas ao árbitro de ontem e ao Beto que me envergonho de escrever) e tenho uma sensação física terrível de irreversibilidade. Eu percebo, imediatamente, que não há regresso, que a bola já não vai mudar de trajectória e que tenho que viver com isto para sempre.

Já viram "A Residência Espanhola"? "A Residência Espanhola" é um dos meus filmes favoritos (calma, continuem a ler, não mudaram de texto por engano), muito por razões sentimentais. Vi-o com a minha irmã, aos 18 anos. Foi uma noite de irmãos espectacular, em que saímos de casa à chuva, contra todas as ordens familiares, apanhámos um lençol de água até ao cinema até descobrirmos que "O Senhor dos Anéis" estava esgotado. Enfiámo-nos no filme sem saber o que íamos ver e adorámos e rimos os dois em conjunto. "A Residência Espanhola" conta a história de Xavier, que vai fazer Erasmus em Barcelona. É uma comédia que faz com que qualquer pessoa minimamente inteligente queira, de imediato, ir viver em Barcelona numa casa onde há gente de todas as nacionalidades, onde há noite, amigos, amores e desamores. Quando Xavier volta a Paris, para o seu emprego de escritório, há uma cena terrível onde, com o "No Surprises" dos Radiohead atrás, Xavier caminha por Paris, chorando, confrontado com a sua nova realidade, com o facto dos seus amigos terem ficado para trás. Xavier ultrapassará isso e aprenderá que na vida, como nas residências espanholas, toda a gente contribui (e, logo, Xavier é a soma de toda aquela residência).
Eu sinto-me preso nessa cena em Paris. "No Surprises" como banda sonora. O que passou foi bom, foi extraordinário: somos campeões de Portugal. Mas, ao contrário de Xavier, não tenho direito a nenhum twist final que me faça feliz, completamente feliz. 
Quando a final de ontem acabou, eu percebi imediatamente a irreversibilidade disso, como se o ano de Erasmus de Xavier tivesse acabado, como acabaram os meus sonhos. Eu não sou adepto de acordar na manhã seguinte e pensar: "será que aconteceu mesmo?". Não, a mim atropela-me logo a certeza de que o sonho se esfumou, como se estivesse já atrasado para o emprego de merda do Xavier e soubesse que ia passar ali 50 anos até à reforma. Ser fanático é uma prisão. 

Nick Hornby dizia que os verdadeiros adeptos de futebol são amargos, não interessando o resultado final. Como adepto de um clube campeão nacional, mas finalista vencido de uma final europeia, vejo-me obrigado a concordar.
Isto, para mim, começou a sério dia 23 de Setembro de 1989. Foi crescendo, ganhando um peso inacreditável na minha vida. A minha família, a minha mulher, os filmes da minha vida, tudo gira em torno das camisolas vermelhas. Por causa disso, hoje estou amargo, dorido. Num dia como o de hoje, depois de uma derrota dura, injusta, filha da puta, fico preocupado. Preocupado com o facto de saber que a minha vida vai estar sempre, melhor ou pior, profundamente marcada pelo sucesso de um clube a quem jurei fidelidade provavelmente antes de nascer. Preocupado por perceber que desta prisão não saio.
O jogo de ontem não regressa. A minha vida também não volta atrás, para eu escolher não ser doente. Mas também não queria. Não sei viver de outra maneira. 
Eu nunca soube, nunca me lembrei como é que isto tudo começou. Mas sei - tenho a certeza - que é para sempre.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lopetegui

Não gosto de cometer o mesmo erro duas vezes. Como já deve ter percebido, o FCPorto errou na escolha do treinador para a época que agora acabou. Por isso mesmo, mas não só, passámos de tricampeão ao desastre em menos de um ano. E eu, como qualquer portista doente, não admito que isto se repita. Portanto, estou aqui para o ajudar.

Não faço ideia se desta vez acertámos. Pelos vistos não andei a ver tantos jogos das camadas jovens da selecção espanhola como devia, por isso não me sinto em condições de o avaliar já à partida. Vou então acreditar que o mister sabe que o duplo pivot está para o FCP como o Putin para o Prémio Nobel da Paz. Vou partir do princípio que até no País Basco ou na Catalunha se sabe que no Porto não há lugar a medos perante egos e superegos. Vou dar-lhe todo o apoio possível desde que veja trabalho, raça e muita vontade de ganhar.

Até aqui, tudo entendido? Passemos então à parte em que tento explicar-lhe no que veio meter-se. O Futebol Clube do Porto. Isto não é fácil, sabe? Para uma portista doente como eu, este clube é tudo. Foi este clube que já me fez do mais feliz ao mais triste que possa imaginar. São os valores deste clube que partilho desde o berço com uma longa família de portistas. É este clube que eu sigo e que tenciono continuar a seguir até me tornar numa daquelas velhinhas que se vestem com adereços da cabeça aos pés e gritam impropérios muito alto e fininho contra os árbitros e os rivais.

Este é um clube diferente. Sim, eu sei que todos os adeptos estão convencidos que são do melhor clube do mundo. Eu não sou excepção, claro. Mas não é só por isso. O FCPorto é um clube que faz das dificuldades uma força, que torna os obstáculos em factores de união e que, sem esquecer décadas de sofrimento e de derrotas, só admite continuar a ganhar como nos últimos 30 anos.

Nós, no Porto, somos a visão de Pedroto, a ambição de Pinto da Costa, a bi-bota de Fernando Gomes, a sapiência de Robson, as mãos de Baía. Somos os Aliados em festa, o Dragão em chamas ao minuto 92, mas sobretudo as Antas encharcadas numa noite de temporal contra a Lazio. Somos o calcanhar de Madjer e a cabeça de Falcao, somos Costinha em Manchester e Alenitchev nas finais. Somos os meus avós, os meus pais, o meu irmão e até somos um rival à medida do meu marido.

É isto que o mister tem de saber desde já. Não conhecer o Porto, não ser Porto, é um erro que, neste clube, não tem perdão. E não basta ir ao museu ver as taças e os bonecos em 3D. É preciso senti-lo, mesmo. Depois do caos desta época, estamos sedentos de portismo. Queremos ganhar, mas ganhar à Porto. Exigimos sangue, suor e lágrimas por esta camisola. Não toleramos mais brincadeiras, mais incompetência, mais falhanços, mais pernas a tremer contra os rivais, mais bolas atiradas para a bancada com displicência, mais braços caídos e rostos envergonhados.

Isso não é o Porto. Isso que viu até numa vitória no último sábado não é mais do que um muito reduzido esboço da nossa vontade de ser sempre superior aos outros, mesmo a feijões, mesmo quando por vezes se perde, mesmo quando já nada se pode ganhar. Isso é exactamente o que não queremos na próxima época.

Mister, veja se percebe: a sua tarefa não é nada fácil. Nós não estamos só tristes com as derrotas deste ano. Estamos furiosos, revoltados com o que a nossa própria equipa nos fez e cheios de garra para começar de novo. E isto é o Porto, onde uma época só com uma Supertaça é uma catástrofe. Por isso, prepare-se: também nós já estamos a trabalhar na próxima época. Somos muitos, mas serão muitos mais aqueles que estarão contra si, contra nós. Eles estão muito fortes, mas nós somos o Futebol Clube do Porto. Se perceber isto… bienvenido, tio!

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Juventus-Benfica contado ao V.

O V. nasceu às 00.29 de 2 de Maio. Filho do D., meu grande, grande amigo de sempre, o V. deverá ler esta carta quando fizer 20 anos (a não ser que a descubra na net antes).

V.:

Na altura em que leres esta carta, se ela te for entregue conforme as instruções, farás 20 anos e fará 20 anos e um dia que o Benfica eliminou a Juventus nas meias-finais da Liga Europa 2013/2014. Nesse dia, eu e o teu pai combinámos que ficarás uns dias ilegal (sem ser sócio do Glorioso), para que possamos os dois ir à Luz daqui a uns dias e para que eu possa ter a honra de te pagar a primeira quota. Se eu bem conheço o teu pai, e conheço, tu hoje és do Benfica, és benfiquista doente e já viste esse jogo no youtube ou numa cena assim que existirá daqui a 20 anos. E digo isto porque tenho a certeza que serás um benfiquista como eu e o teu pai, que sabemos de cor os onzes da nossa infância e alguns que nem vimos jogar, tudo porque passámos muito tempo a ler e a ver vídeos sobre o clube que amamos. Para tu teres uma ideia do louco que o teu pai é: antes do Benfica-Olhanense, que deu o 33º campeonato nacional ao nosso Benfica (tu, com 20 anos, estarás quase a festejar o 49º, suponho eu, numa visão pessimista), recusou-se a andar de elevador porque tinha medo que o elevador parasse e ele não pudesse ir ao jogo do título. Pronto, isto é o teu pai. Há pior, mas isso só quando tiveres 40 anos.

V., tu nasceste campeão (como eu, já agora). Celebrámos o 33º e, umas horas antes de tu nasceres, a nação benfiquista rejubilava com a passagem à final da Liga Europa. À hora que te escrevo, faltam 12 dias para a final. Eu, obviamente, não sei o resultado e morro de medo. Tu sorrirás de alegria ou de tristeza a ler isto. O Juventus-Benfica, umas horas antes de tu nasceres, foi um jogo heróico. Eu estava em Salamanca e ainda nem sei se o teu pai viu ou não o jogo, porque a tua mãe te estava prestes a ter. Até sangue deixámos em Turim, mas passámos. Foi um jogo de luta, de sofrimento, de entrega. V.: foi à Benfica, miúdo. E isso é a melhor coisa do mundo.

V., quando leres esta carta, já me conheces de certeza. Serei frequentador da tua casa e já participaste em mil conversas comigo e com o teu pai a falar do Benfica. Já fomos à Luz juntos mil vezes. Sabes que somos dois cinquentões simpáticos, nostálgicos e que adoramos falar do Benfica do início dos anos 90. Eu e o teu pai conhecemo-nos desde os meus 14 anos (15 dele). Já fizemos um milhão de coisas juntos e gostamos muito um do outro. Eu e o teu pai já fomos para os copos mais vezes do que te podemos admitir, eu e a tua tia C. tivemos das noites mais memoráveis das nossas vidas no casamento dos teus pais. Eu fui colega de curso da tua mãe. E eu e o teu pai partilhámos a tristeza de Amesterdão, quando o Benfica perdeu a final da Liga Europa com o Chelsea depois de fazer um jogão. As lágrimas do teu pai foram o que mais me custou nesse dia. Daí que, um ano depois, o benfiquismo estivesse louco com a hipótese de limpar essas lágrimas e essa injustiça. 

O jogo, V., foi uma loucura. Tínhamos ganho 2-1 na primeira mão (Garay e Lima, Tevez por eles). Não havia uma alminha vermelha que não dissesse o mesmo antes do jogo: "Temos de marcar lá porque sofrer vamos de certeza." A Juventus, se nos passasse, jogaria a final em casa (como tu de certeza sabes, o Benfica-Sevilla foi em Turim). Tinham Buffon - grandíssimo guarda-redes - e jogavam com três centrais. Tinham no meio campo Pogba - um possante médio francês - Vidal, bom médio chileno e, sobretudo, Andrea Pirlo. O Pirlo já estava em final de carreira, mas era o Pirlo. Foda-se, que jogador. Foi decisivo em 2006 (ensinaste estas coisas ao puto, certo, D.?), no tetra italiano, e marcava livres como se fossem penalties. À frente tinham o Tevez (grande avançado argentino) e o Llorente (que lixou o Sporting numas meias finais da Liga Europa - ahah). Nós tínhamos o Oblak (que espero que tenha nesta altura uma estátua no Museu), Garay e Luisão - grande dupla de centrais, o Enzo Peréz - craque argentino, foda-se, que saudades do Enzo! - Markovic e Gaitan nas alas (dois craques). Rodrigo e Lima na frente, que o Tacuara fez um 2013/2014 miserável. E ai de ti se, com 20 anos, não souberes quem é o Oscar Tacuara Cardozo.

A primeira parte foi um massacre filha da mãe. Não saímos da toca, tirando nos primeiros 5 minutos. Eles sempre em cima de nós, a ganhar as bolas todas. Algumas oportunidades deles, muita tensão. Uma aflição para sairmos da área. O Luisão tira uma bola de cabeça em cima da linha mesmo em cima do intervalo. Adivinhava-se, a qualquer altura, o golo deles. Os gajos pareciam mais. E pareciam mais altos, mais fortes, mais rápidos. Mudavam a bola de flanco e nós ficávamos à rasca. O intervalo chegou como um milagre. Na segunda parte começámos melhor, mais espevitados, mais espertos a sair no contra-ataque. Até que o Enzo - que foi, de longe, o melhor jogador do campeonato 2013/2014 e que eu espero que, daqui a 20 anos, quando leres esta carta, ainda esteja ligado ao Benfica - fez duas faltas e foi para a rua. Faltavam 25 minutos e nós com 10. O teu pai já te deve ter contado: nos dias anteriores, tínhamos eliminado o Porto (se calhar agora não estás a ver porque eles estão nos distritais, mas eles eram fortes na altura) duas vezes com 10, na Taça de Portugal e na Taça da Liga. A Juve, desesperada e só a precisar de um golo, apertou o cerco. E foi aí, nesses 25 minutos finais, que apareceu o Benfica, o grande Benfica. Os rapazes fizeram das tripas coração e aguentaram. Defenderam cada palmo de terra, fizeram sprints já sem força, lutaram como heróis. O Oblak defendeu tudo (um livre do grande Pirlo, inclusive) e o Luisão fez o jogo de uma vida. Cada minuto pareciam horas e em território inimigo, mas os rapazes aguentaram-se. 

A seis minutos do fim, o médio francês, o Pogba, lesionou (sem querer) o Garay - grande central argentino era esse gajo! - e acabámos com 9. O André Almeida, um miúdo que jogava a lateral e a trinco, acabou a central. Foram seis minutos em Turim, 11 contra 9, contra a favorita Juventus que só precisava de um golo para jogar a final em casa. E os rapazes aguentaram. No fim até arranjaram maneira de meter a bola na frente e o Lima aguentou-a um minuto e tal e até sacou uma falta. A batalha foi tal que perdemos Salvio e Markovic (injustamente) para a final. Num bar em Salamanca, quando o árbitro apitou para o fim, eu e o meu pai gritámos e gritámos. Foi um apuramento histórico, um milagre, uma coisa de sangue, suor e lágrimas, provando que em futebol um 0-0 pode ser uma coisa belíssima e poética. 

Algumas horas depois, recebi a mensagem que tinhas nascido. Por meia hora não nasceste no dia do trabalhador, no mesmo dia em que o Benfica eliminou a Juventus em Turim. 
Quando leres este texto, se as instruções forem cumpridas, já terás 20 anos. Daqui a 12 dias, fará 40 anos o 3-6 em Alvalade, que eu e o teu pai já te contámos cem vezes, e 20 anos a final de Turim.

À hora que te escrevo não sei o resultado do Benfica-Sevilla (e sofro com isso), mas já sei que gosto muito de ti e que tenho muito orgulho em que tu e eu sejamos do Benfica.


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Alma de campeão

Quando André Gomes passou a bola por cima de Fernando e a meteu na baliza do Fabiano, o Estádio da Luz veio abaixo. Abraços loucos, lágrimas, gente em cima de cadeiras, gente em cima de gente, uma confusão de sons, de berros, palavrões que me fez, onze meses depois, sentir que o futebol, afinal, podia fazer-me feliz.

Vamos por partes: se na quarta-feira às 18h tivessem falado comigo, eu ter-vos-ia dito que importava era o jogo com o Olhanense e depois o jogo com a Juventus. Eu sou um adepto com alma de treinador e, mal grado toda a gente querer vingar-se do Porto, eu assumia que o jogo não era tão importante porque era da terceira competição mais importante para nós. A verdade é que eu, por muito que tenha a mania que vou ser treinador quando for grande, sou um adepto. E os adeptos sentem, sofrem, têm cicatrizes, têm memória e desejos passionais que ultrapassam a racionalidade (por muito que eu seja óptimo a fazer a linha defensiva do Benfica subir em conjunto). 

A verdade é que já ninguém  (nem eu, que sou a pessoa mais pessimista do mundo no que ao Benfica diz respeito) acreditava que o Benfica perdesse este título. Antes do jogo de domingo eram já dez vitórias consecutivas e uma solidez defensiva impressionante, com três golos sofridos nos últimos 14 jogos no campeonato (se estiver enganado corrijam-me, faço gala de mandar estas bocas sem verificar). Daí que, apesar daquele nervoso miudinho e dos falhanços do Lima na primeira parte, já poucas dúvidas restassem que o 33º vinha a caminho. Mas faltava qualquer coisa. A verdade é que nestes últimos anos o Benfica sofreu muito, mesmo muito às mãos do Porto. Não vou, por razões do foro psiquiátrico, enumerar. E, se o Benfica tivesse sido eliminado pelo Porto, o campeonato não limpava a ferida totalmente. Se o pior Porto dos últimos acabasse no Jamor com a Taça na mão, não só fechava a época já moralizado para a próxima, como podia fazer mais um risco na sua espada, mantendo o medo dos clássicos do lado de cá. A verdade é que o Porto tem sido de tal maneira superior ao Benfica nos confrontos directos que 15 pontos de avanço não eram suficientes. Precisávamos de ganhar-lhes cara à cara, um para um num duelo ao por-do-sol. E assim foi. Com 10, a ter que marcar 2, o Benfica fez das tripas coração e ganhou. Ganhou porque foi melhor, mais inteligente, mais forte que o seu adversário. O Benfica, finalmente, não se escondeu e jogou com o orgulho ferido que nós temos desde Maio de 2013. Foi humilde em vez de ser fanfarrão. Foi lutador em vez de cobarde. Quis mais que o Porto quando na maioria das vezes se sente o contrário. O Benfica (foda-se, finalmente!) jogou à campeão.

Eu não acredito em funerais antecipados nem anuncio novos ciclos sem que eles aconteçam. Mas na quarta-feira, até eu, que sou a pessoa mais crítica, o adepto mais treinador, o primeiro a ter medo e a ver sinais de fraqueza em todo o lado, me senti orgulhoso. 
Escusam de vir escrever para a caixa de comentários que o meu campeonato é ganhar ao Porto. Não, não é. É erguer a taça de campeão, independentemente de quem ganha os clássicos. Mas este texto é também um elogio ao nossos rivais. Se nos sabe bem ganhar ao Porto é porque é difícil, porque custa. E sim, precisávamos de uma reviravolta assim para nos sentirmos campeões, para irmos para casa com aquela sensação de invencibilidade, de sermos melhores que toda a gente que joga cá no burgo. Precisávamos, pelo passado recente, de uma noite de exorcização, de uma noite que afastasse fantasmas, de um berro que nos fizesse esquecer tantas noites em silêncio.

A Luz não estava cheia e o ambiente era o de tensão máxima, sem festa. Estávamos 40 e tal mil. Mas festejámos aquilo com o sangue, o suor e as lágrimas de Maio de 2013. Eu sei que foram os golos do Lima ao Olhanense que fecharam isto e foi a soma de não sei quantas vitórias que permitiu a noite no Marquês. Não trocava a eliminatória da taça pelo campeonato. Não fui para o Marquês. Mas eu precisava de um golo assim. De um golo que me libertasse. Foi quando o André Gomes a meteu lá dentro que eu percebi que este ano o campeonato já não fugia, que podíamos deixar de ter medo que um Estoril aparecesse outra vez na estrada (apesar de, admito, ter mantido o discurso só por causa das tosses). Foi quando o André Gomes passou a bola por cima do Fernando e a chutou lá para dentro que eu me esqueci de tudo, da racionalidade, das contas, da gestão do plantel.

Quando aquela bola entrou esqueci-me da alma de treinador. Quando aquela bola entrou foi quando eu me senti campeão.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Aos 50.431 espectadores do golo do Kelvin

O futebol está sempre a surpreender-me. Há um ano, eu vivia com o terrível medo de ver o benfica ganhar tudo. Não tenho vergonha nenhuma em escrevê-lo: eu não era um daqueles adeptos que dizem acreditar sempre, até ao fim, enquanto é possível. Para mim, o FCPorto tinha uma hipótese em 92 de ser campeão. Não foi, no entanto, por isso que não fui ao Dragão ver aquele jogo, até porque nessa altura o empate com o estoril já nos deixava "por cima" e com outro nível de crença. Já o contei numa reportagem do Porto Canal: estava a trabalhar, a 300 quilómetros dos 50.431 espectadores que viram o golo do Kelvin.

Ainda hoje vêm-me as lágrimas aos olhos quando penso no momento que aqueles 50.431 viveram e eu não. Apesar da imensa alegria com que o recordo, fico triste por ter perdido uma coisa tão linda. Sinto-me mais ou menos como se tivesse nascido um filho meu e eu não estivesse lá para o abraçar. Que era um bocadinho difícil, porque eu sou mulher e estaria a pari-lo, mas vocês perceberam a beleza desta comparação, certo? O que interessa é: eu não estive lá e há pelo menos 50.431 pessoas que tiveram a sorte de estar. Um estádio cheio, uma maravilha pronta a assistir a um dos golos mais importantes do futebol português, ao fim de um campeonato louco e inesquecível e com uma rivalidade que continua a apimentar não só este blog, mas a vida de tantos adeptos dos dois clubes.

Mas o que já não me surpreende no futebol são os adeptos. Desses 50.431 de que vos falo, muito poucos estiveram ontem no Dragão. E porquê? A crise, sim, a maldita crise. Mas um Porto-benfica sai bem mais caro do que um Porto-rio ave, como sabemos. Portanto, deixemo-nos de outras análises. O estádio estava com pouca gente porque o Porto está a ter uma época terrível e este jogo não decidia nada.

E é aqui, exactamente neste ponto, que quero tocar. Já lá vão treze anos desde que acompanho o FCPorto com a maior regularidade possível. Quando digo acompanho, não digo ler jornais ou ligar a televisão à hora do jogo. Digo estar na fila para comprar bilhete, viajar milhares de quilómetros, gastar muito dinheiro, abdicar de muitas coisas e até de muitas pessoas, cantar muito, apoiar sempre, nunca abandonar a equipa seja em que momento for. Ir a Sevilha ganhar uma Taça UEFA, mas também ir a Bratislava ser eliminada por uma equipa de merda. Ir à luz ser campeã, mas também ir a Alverca, à Madeira, a Olhão. Ganhar muitas vezes, mas perder de vez em quando. E até pode parecer que estou a gabar-me de algo, mas a verdade é que não estou. Primeiro porque conheço muita gente que o faz com mais intensidade e mais sacrifícios do que eu. E depois porque o faço com um gosto enorme.

Sim, para mim foi um gosto ir ao Porto-rio ave. Sem nada para ganhar, sem quase nada para perder. Com uma equipa destruída, que se arrasta, triste, e espera ansiosamente pelo fim da época. Mas eu sinto-me privilegiada de cada vez que lá estou. Porque sei que há muita gente que gostaria de lá ter estado e não pôde. Estavam a trabalhar, não têm dinheiro, vivem longe, sei lá. E, sobretudo, porque é o FCPorto.

O FCPorto é o meu clube. E eu adoro quando ele ganha, quando me deixa feliz, quando recebe o benfica depois de um empate contra o estoril e ganha no último suspiro com um golo do improvável Kelvin. Mas o FCPorto continua a ser o meu clube quando perde o campeonato em Janeiro, quando é eliminado vergonhosamente da Liga Europa e da Taça e quando me torna a pessoa mais infeliz do mundo (uma afirmação que, se convivessem comigo, percebiam que não é exagerada neste momento).

O FCPorto não é o meu clube só quando ganha, só quando há festa. O FCPorto é o meu clube sempre. Mesmo quando vou ao Dragão com mais 17 mil pessoas e 15 mil delas estão ali só para assobiar e dizer mal e até torcer contra. O FCPorto é o meu clube contra o benfica, contra o rio ave, para a Liga dos Campeões ou para a Taça da Carica, no início ou no fim da época. Sempre, sempre.

E a crítica que espero que já tenham percebido nesta altura não é só dirigida aos adeptos do meu clube. Em Portugal, infelizmente, somos todos maus adeptos. O benfica teve assistências vergonhosas esta época, alvalade estava às moscas quando lutavam pela manutenção, o boavista campeão arrastava uma multidão que quase desapareceu nas últimas épocas e provavelmente vai voltar assim que subirem. E sim, claro que há culpas repartidas entre a Liga e os clubes, que não fazem o suficiente para estimular a relação com os adeptos, que não facilitam nada, que não sabem "vender" um "produto" de qualidade.

Mas somos nós, os adeptos, que gostamos de aparecer só nas festas. Estamos lá, entre os 50.431, quando é para gritar o golo do Kelvin e gozar com os coitados de vermelho que lá foram. Mas não admitimos uma má época e por isso não vamos mais. Mas não perdoamos um golo falhado e assobiamos. Mas não estamos lá quando o clube (não esta equipa, note-se) mais precisa.

Há tantos exemplos lá fora de fidelidade que não vou cansar-vos muito com isso. Clubes que estão quase a descer de divisão e têm o estádio cheio e a cantar mesmo quando perdem com o maior rival. Clubes que não ganham nada e têm as bancadas a saltar. Adeptos que, a ganhar ou a perder, estão lá. Sempre, sempre. E nós, aqui, com a mania que somos superiores ao nosso futebol, sem tanta vontade de ir ver um Porto-sevilha como eles de ir ver um sevilha-Porto, porque somos muito bons, já ganhámos duas Liga dos Campeões e queremos lá saber dos quartos-de-final da Liga Europa, porque não estamos para chatices e temos é de sair mais cedo para ir jantar.

O FCPorto surpreendeu-nos esta época. Tudo correu mal e estamos todos arrasados. Mas não ir lá é mostrar que também nós, além dos dirigentes, dos treinadores e dos jogadores, não estamos ao nível deste clube. Parem lá de dizer que somos os melhores adeptos do mundo. Os melhores adeptos do mundo não são os que festejam um golo do Kelvin aos 92 minutos. Os melhores adeptos do mundo são os que forem agora a Olhão na penúltima jornada.