terça-feira, 17 de junho de 2014

Para a M., que quase foi do Porto

Quem pensa que a dificuldade de ter um marido benfiquista passa só por gostar muito de uma pessoa que era capaz de ceder o lugar num autocarro cheio para o Maxi Pereira se sentar, engana-se. É que eu cresci numa família em que toda a gente está do lado certo da paixão clubística e, portanto, há problemas sérios como "De que clube vai ser esta criança?" que nunca tive de enfrentar. Parecendo que não, influencia muito um bebé que todos os pais, irmãos, tios, primos, avós, vizinhos e porventura conhecidos sejam do mesmo clube e, sendo assim, todas as prendas, músicas de embalar e primeiras palavras sejam naturalmente das mesmas cores. Não só isto não me choca nada, como estou convencida que é o ambiente ideal para uma criança desenvolver valores importantes como "Ou és do mesmo clube que nós, ou então vais ter de procurar outra família".

O M. trouxe-me outra família, que eu adoro e que, apesar de claramente não me colocar tanta comida no prato quando o FCPorto ganha, me trata muito bem. E é nessa família que me deparo, pela primeira vez, com crianças a crescer sem a pressão o carinho da orientação clubística sempre no mesmo sentido. Estranhamente para mim, a primeira palavra da nossa sobrinha mais velha não foi "bola", ou "golo", ou "Pôto", que eram os conjuntos de duas sílabas que eu achava que toda a gente tentava ensinar aos pequenos seres humanos. A M. lá foi crescendo à sua maneira, feliz, maravilhosa, querida e fofinha, como uma princesa, sem nunca ligar muito àqueles tios que de vez em quando apareciam e a obrigavam lhe pediam com muito jeitinho para levantar um braço no golo do Porto ou correr para celebrar um golo do benfica.

As dúvidas surgiram por volta dos 4 anos, quando a M. começou a dizer que era do Porto e do benfica, para nos agradar aos dois. Como somos duas pessoas inteligentes e racionais, dissemos-lhe sempre que é impossível ser dos dois clubes ao mesmo tempo e que tinha de se decidir. A pressão O carinho começou a intensificar-se quando, aproveitando aquela fase de menina que vive num mundo de princesas e castelos, o M. lhe mostrou que o benfica tinha uma camisola cor-de-rosa e eu e a mãe a tivemos de convencer que, por dentro do azul e branco às riscas, o equipamento do FCP era cor-de-rosa, mas com brilhantes! Mal sabíamos, claro, que a fantasia um dia não estaria assim tão longe da realidade, mas adiante.

Na verdade, a querida M. sempre tendeu muito para os vermelhos (talvez por ser a cor mais próxima do rosa... percebem, pessoas que desenharam o alternativo deste ano e pessoas que eventualmente o vão comprar?). Durante algum tempo, e porque somos as melhores amigas, gostou de me agradar com uma suposta tolerância ao Porto, mas isso nunca chegou a preocupar o tio M., que às escondidas lhe ensinava músicas que depois eu a apanhava a trautear. Porque as pessoas do benfica são assim: más, porque actuam na sombra e ganham campeonatos nos túneis ou no Algarve, influenciando os árbitros, ou as sobrinhas, sem ninguém a ver. Mas isso eu ensinarei mais à frente à M., quando ela consolidar as ideias do bem e do mal, que é como quem diz do Porto e dos outros todos.

Quando a M. me disse que era só do benfica não consegui evitar ficar triste. Como é que alguém tão doce, tão lindo, tão inteligente, pode torcer pelo benfica? Mas enfim, eu casei com um benfiquista, por isso estas são perguntas às quais ando há muitos anos a tentar responder. Consegui, ainda assim, continuar a gostar da M. da mesma maneira, o que, reparem, mostra como sou uma pessoa espectacular, mas o assunto ganhou outros contornos quando ela se tornou um pequeno Rui Gomes da Silva. Em todas as vitórias, campeonatos e outros títulos ganhos pelo FCPorto nos últimos anos, eu tentei explicar à M. que ainda estava a tempo de mudar para ser mais feliz. Mas ela, mais fiel ao clube do que a todas as regras da lógica, respondia-me sempre: "Isso é mentira. O benfica é que ganha sempre".

E até parece um argumento fácil de contrariar, porque o benfica vai-se a ver e não ganha sempre. Mas experimentem vencer uma criança com factos quando ela coloca aquele ar impenetrável, de quem tem tanta certeza que o benfica ganha sempre como que a Cinderela vai casar com o príncipe. Felizmente, a M. aprendeu a ler muito cedo e então eu pude tomar a atitude mais adulta. Peguei num jornal desportivo, apontei para a tabela classificativa e perguntei-lhe, num tom agressivo descontraído: "Vá, lê lá quem vai em primeiro". Podia ter sido este o meu momento de glória, aquele em que a M., ao ver FCPorto ali em cima, me abraçaria e me diria "Leva-me já ao Estádio do Dragão, não quero ficar mais aqui". Teria sido lindo! Mas não.

"É o Porto... mas o benfica não vai em último!" Portanto, estamos conversadas. A minha sobrinha só admitiria trocar de clube se o benfica fosse em último. E, por muito que eu queira acreditar que um dia o mundo vai ser um local perfeito, onde não há fome nem guerra e o benfica vai em último, achei que estava na altura de desistir. A M. é do benfica e eu juro que não gosto menos dela por isso. O problema, como sabemos, vai ser dela quando descobrir que esteve tão perto de ser de um clube decente.

Talvez ela me venha a culpar porque não aproveitei quando, depois daquele golo do Kelvin que tento encaixar em todos os meus textos, estávamos as duas a brincar e, num programa desportivo que estava a dar na televisão, um comentador diz "Porque o benfica perdeu o campeonato, perdeu a Liga Europa, perdeu a taça, perdeu tudo" e a M., que estava de costas, dá um salto e fica de boca aberta a olhar para a televisão. "C., isto é verdade?", perguntou-me, no seu primeiro duro contacto com o mundo real. E eu, que fui mais tia do que super dragona naquele momento, infelizmente, disse-lhe só "Sim", em vez de lhe enumerar todo o palmarés do FCPorto e de lhe revelar logo ali todos os enganos e falcatruas que os lampiões inventam para convencerem as crianças a torcer pelo benfica. "Mas o meu pai disse-me que o benfica ganha sempre..." Foi ali, aos 6 anos, que a M. descobriu que os adultos não são de confiança, nem que sejam os nossos pais e, claro, muito menos se forem do benfica.

A M. tem agora 7 anos. Já não fala em princesas, já nem sequer gosta de cor-de-rosa. Já passou essa fase, assim como a de me tolerar enquanto 100% portista. Ao meu lado, vai cantando com desprezo a sua versão do cântico "slb... slb... campeões da Liga Europa...", sem saber por que razão eu me estou a rir com aquilo e o tio M. a ficar triste.

"- C., podias ser do Porto, mas gostar do benfica também.
- Não, M., ninguém é do Porto e do benfica ao mesmo tempo.
- Então já sei! Podes só gostar do benfica porque eu e o M. somos do benfica, mas não ficar mesmo a torcer pelo benfica".

Notem que a nossa sobrinha já tem uma dose de humanidade incrível, que lhe permite sugerir que eu podia abdicar de um pouco do meu ódio ao benfica por amor ao meu marido e a ela própria. A pequena M. não vai conseguir o que quer, mas nem por isso desiste.

"- C., por que é que tu não és do benfica?
- Porque o benfica é mau.
- Não é nada. O benfica é o melhor.
- Não é nada, isso é mentira. O Porto é o melhor.
- C., (ar benevolente, de quem está a dizer aquilo só para me ajudar...), se o benfica não fosse o melhor, tu achas que eu era do benfica?"

Mesmo estando do lado errado, tenho de admitir que estou orgulhosa, porque não há factos, derrotas ou números nenhuns que abalem a crença da M. no seu clube. A nossa sobrinha já é uma adepta como nós. Um bocadinho mais convencida, vá.

sábado, 7 de junho de 2014

Mundial à Benfica

Facto chocante 1: prefiro que o Benfica tenha um bom lateral-esquerdo na próxima época a que Portugal vença 3-0 a Alemanha.

Itália-Argentina, meias-finais do campeonato do Mundo. Maradona e Caniggia de um lado, uma Itália com Baggio, Baresi, Vialli e Zenga do outro. Local? Nápoles. Na dramática decisão por grandes penalidades, reza a lenda que quando Maradona marcou o seu penalty se ouviu sotaque napolitano nos festejos do golo. Pelo vídeo de youtube, parece-me que, pelo menos, o grito é evidente.


Ninguém pode censurar os napolitanos: vítimas de todos os ataques de toda a Itália, num tratamento praticamente racista, Maradona dera-lhes a doce vingança de se vingarem de todo o norte. Maradona vencera, por exemplo, a Juventus de Platini. Podia uma selecção nacional, no campeonato do mundo disputado em sua casa, ser mais importante do que isso? Claro que não. 

Facto chocante 2: prefiro que o Mangala, Fernando e Jackson sejam vendidos e que os substitutos não estejam à altura do que Portugal passe a fase de grupos do Mundial.

Um napolitano não podia não torcer por Maradona como nenhum adepto se esquece do seu clube no Campeonato do Mundo. Eu adoro Mundiais porque sou um devoto. Comecei com o Itália 90, lembro-me com exactidão de Romário em 94 e sofri com a Argentina de 1998 (maldito sejas, Bergkamp!) e daí adiante. Mas nunca a magia do Mundial me impediu de ver o Mundial como benfiquista. Em 1994 fiquei chateado com a expulsão de Thern nas meias e quis sempre a eliminação da Bulgária de Balakov e Kostadinov. Em 98 não queria que Doriva fosse campeão do mundo por ser do Porto, em 2006 festejei mais o penalty do Simão contra a Inglaterra do que todos os outros golos. Eu, como os napolitanos, como os restantes fanáticos, não me esqueço de quem sou.

Facto chocante 3: trocava a presença de Portugal neste Mundial e nos próximos quatro se me garantissem que o Benfica teria um substituto à altura de Garay na próxima época.

Vou-vos ser sincero: já me passou a fase em que era anti-selecção só para chatear. A selecção nacional é-me indiferente. Não o digo por mal, não o digo por provocação, digo-o porque o sinto. Não sofro nem me importo com a selecção portuguesa (descobri, às 11 da manhã de hoje, que Portugal tinha jogado com o México ontem) e acho que é porque não há espaço no meu coração futebolístico para isso. Para mim, ser do Benfica veio colado à minha existência - eu não saberia viver sem o Benfica e não tenho dúvidas que não veria razão na continuação da espécie humana no planeta Terra se o Sport Lisboa e Benfica cessasse de existir. Eu nunca senti isto pela selecção e isto não é algo que se possa ensinar. 

Facto chocante 4: a decepção do Portugal-França do Euro 2000, a melhor selecção portuguesa que vi e por quem estava a torcer, não se compara à minha dor com as vergonhosas prestações do andebol do Benfica nos últimos anos.

O que eu quero que a selecção portuguesa ganhe - quando a selecção é futebolisticamente interessante e eu percebo que vai entrar para a história (2000 e 2004) é, no máximo, comparável ao que eu sofro quando vejo um grande jogo de duas equipas estrangeiras e escolho torcer por uma. Eu sei, parece estúpido, mas é verdade. Uma pessoa às vezes empresta o seu apoio a equipas com as quais nada tem a ver (torci, avidamente, pelo Alavés na final da Taça UEFA contra o Liverpool). A selecção, sem ser tão distante como o Alavés, não consegue fazer mais do que isso. Periodicamente, sobretudo no Euro 2000 e no Inglaterra-Portugal de 2004, emprestei o meu apoio à selecção portuguesa. Mas é um empréstimo, uma coisa de curta duração, sem o risco de cicatrizes emocionais.

Facto chocante 5: preferia, na ordem de 821647523178351835406787565223186423653278 vezes mais, que o Benfica ganhasse o primeiro jogo do campeonato (nem que seja contra o Belenenses, em casa) do que Portugal seja campeão do mundo.

Ser adepto é uma paixão louca, uma devoção praticante. Eu sou do Benfica todos os dias, todos os segundos, até nesta altura ridícula do ano em que o Benfica não joga. Sou do Benfica desde sempre, desde que me lembro e tenho a certeza que a minha vida vai ser isto. Não faz sentido sentir dois amores assim. Não faz sentido ter dois clubes. Não se pode ser de dois, não dá. Apoiar uma equipa não é o mesmo que apoiar uma organização não governamental com um postal no Natal, envolve um sacrifício, uma entrega emocional que certos familiares mais distantes não têm direito. Entregar esse carinho a uma selecção que joga de vez em quando é o mesmo que eu dizer que gosto tanto dos meus primos que vi duas vezes na vida do que da minha mulher. 

Facto chocante 6:  eu preferia que a camisola alternativa do Benfica fosse branca (a minha preferida) a que a prestação de Portugal no Mundial fosse considerada a melhor de sempre da selecção.

Como é que, então, eu vivo um Mundial? De duas maneiras: a primeira com sentido histórico. Quero episódios como o de Rijkaard e Voeller em 1990. Quero ironias poéticas como a bola da Inglaterra que dava o 2-2 contra a Alemanha em 2010 e que entrou claramente, mas não foi assinalada, vingando (um pouco) a injustiça de 1996. E gostava que Messi fosse campeão do Mundo para a que a minha geração, que não viu Maradona em 1986, visse a consagração de um monstro. 
A segunda maneira é a do benfiquista. As alegrias de Garay e Enzo serão as minhas e espero que Rojo, Jackson e Mangala sejam raptados numa favela manhosa de São Paulo. Se Portugal for campeão do mundo que seja com 3 golaços do Ruben Amorim, todos com assistência do André Almeida, numa vitória por 3-2 com golos na própria de William Carvalho e Bruno Alves. Ficava contente se Portugal fosse eliminado nos penalties com o Beto a ser expulso por se adiantar. Sempre que Maxi Pereira for a uma bola, estarei por ele. 

Facto chocante 7: eu preferia que o Benfica ganhasse o próximo campeonato nacional a que Portugal ganhasse, consecutivamente, todos os Mundiais e Europeus em todo o meu tempo de vida. 

Imagino um Portugal-Argentina neste Mundial. Garay avança pelo meio campo e contorna facilmente a pressão de Cristiano Ronaldo. Encosta em Enzo que acelera e passa William Carvalho com a mesma facilidade que Markovic passou por ele em Alvalade. Faz uma cueca a Moutinho e tabela com Messi, aparece isolado, senta Patrício e elimina Portugal do Campeonato do Mundo. Talvez se ouvisse sotaque português no festejo do golo. O meu, pelo menos, seria nítido. Afinal, era golo do Benfica. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O factor humano

Campeones! Campeones! Oe, oe, oe! - Mais de 80 anos, doente oncológico, uns óculos garrafais. Entrou feliz na consulta e celebrava o título de campeão do Atletico de Madrid (e é nesta parte que vos explico que estou a trabalhar em Espanha neste momento). Todo ele era satisfação, felicidade. A mulher, mais composta, tinha um comportamento mais normal de quem está numa consulta. Mas aquele doente não. O homem estava completo, estava mais feliz do que nós podíamos estar. Sentia-se acima de todas as pessoas presentes na sala. Rematou, meio a brincar, meio a sério, em jeito de broma: "Ganhamos no sábado ao Madrid e paramos a terapêutica". A mulher abanou a cabeça, mas ele sorriu e olhou para cima, para um local muito distante, para uma glória eterna. "A sério, a sério" e contou-nos que nos últimos 5 minutos do Barça-Atleti foi para a varanda porque não aguentava mais. Foi dele que me lembrei primeiro quando Sergio Ramos empatou o jogo na Luz.

"O Factor Humano" é um romance de Graham Greene e foi-me recomendado pelo meu pai, de quem herdei não só a melhor qualidade do mundo - ser do Benfica - como o vício de policiais. É um livro de espionagem tenso, o mais próximo de Le Carré de todos os que li do Greene. É um livro jogado a meio campo, sem espectacularidade, mas incrivelmente denso e duro. Saltem este parágrafo se têm intenções de ler o livro: Maurice Castle é um agente duplo na Guerra Fria, mas Maurice não é comunista por ideologia ou por estar zangado com o sistema ocidental. Maurice torna-se um agente duplo tão e só por gratidão, porque fora um comunista que salvara a mulher da sua vida na África do Sul. A gratidão de Maurice é natural, é praticamente inevitável. Como pode ele não ajudar quem o ajudou? Mesmo que se comecem a suceder coisas estranhas à sua volta, mesmo que o preço a pagar seja demasiado alto, é inevitável escolher um lado. Mesmo quando nem temos assim tanto a ver com aquele lado. É o factor humano.

Eu identifiquei-me com aquele velhote do Atleti. Há vitórias que sabem tão bem e uma pessoa sente-se tão feliz que parece impossível que haja alguma coisa melhor na vida do que aquilo. Nunca ninguém que gostasse de história, pintura ou música me disse isto, mas já vi, no olhar de vários adeptos, uma felicidade tal que quase garanto que perceberam o sentido da vida e a fórmula da felicidade através dos seus clubes. Identifiquei-me com aquele velhote do Atleti como já me revi nas palavras até de adeptos de clubes rivais e em muitas loucuras que já ouvi relatar sobre adeptos de futebol. Fazemos promessas, dizemos coisas estúpidas, damos a volta à nossa vida por causa de um jogo. Mas acima de tudo, sentimos uma coisa muito forte. Porque só uma coisa muito forte pode fazer com que um velhote de 80 anos, com uma doença, se torne a pessoa mais feliz do mundo por ver o clube campeão e sinta que está a uma vitória da felicidade plena na vida. É impossível não sorrir com isso.

Eu gosto de futebol de duas maneiras: uma mais intelectualizada - a história, a táctica, etc. A segunda é a poética, a humana, a sentimental. O Atleti, como todos sabemos, perdeu dramaticamente a final da Champions, aquela final de sábado. O lado histórico e o sentimental uniram-se e o Atleti perdeu a segunda final da Champions 40 anos depois de perder a primeira da mesma maneira: nos descontos e com um golaço. Só que desta vez contra o maior rival. É uma coisa arrepiante de lixada. É impossível uma pessoa não sentir compaixão pela dor atletica daquele momento. Durante uns segundos, senti mesmo pena pelo Atletico, mas sobretudo pelo velhote que perdeu, de certo, o brilho no olhar. Sentir-me identificado foi natural. E não foi só por ter também já levado uma pancada assim, foi mesmo por solidariedade de adepto. É o factor humano.

Acho que já não trabalharei cá quando ele voltar à consulta. Suponho que vai continuar a terapêutica.

(foto José Goulão)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Notas aos campeões

2012/2013 foi um ano marcante para o futebol português. Não é todos os anos que duas equipas estão tão fortes que chegam à penúltima jornada a jogar a uma final e não é todas as épocas que um chouriço de um gajo com cabelo de atrasado mental define o campeonato. Infelizmente, o Sporting não acaba todos os anos em sétimo, o que é lamentável. 

Ora, 2012/2013 foi de tal maneira marcante e para nós catastrófico, que poucos benfiquistas apostariam um euro nesta equipa. Quando o campeonato começou e vi Jorge Jesus a ver o Marítimo-Benfica sentado em cima de uma geleira, só me apeteceu esconder-me num buraco até ao Mundial. Tinha tido piada eu sair do buraco, ainda a habituar-me à luz, e perguntar: "Então e o campeonato?" e alguém me responder: "Ó homem, já ganhámos isso há sei lá quanto tempo!". 
Como eu, felizmente, não estive escondido e até vi o ano inteiro, vamos então avaliar os nossos rapazes e fechar os assuntos sérios, para depois aproveitarmos o defeso e gozarmos com assuntos menores como a prestação de Portugal no Mundial. 

Artur: a única vantagem de Artur é que não se chama Roberto. Tirando isso, aquele ar meio atrapalhado, meio burro nos cruzamentos e a falta de segurança em cada bola foram uma constante até aquele abençoado dia em que se lesionou. Artur, depois de nos ter feito perder o campeonato do ano passado com frangos contra FCP (casa e fora), Nacional e Estoril, estava apostado na mesma epopeia este ano. Espero que vás para o Porto ou para o Sporting. Nota: 3/10.

Oblak: 26 jogos, 22 sem sofrer golos. Mal batido em Barcelos e faltou-lhe a ratice do Beto nos penalties com o clube espanhol que tem três cornos no emblema (devias ter-te adiantado como o outro cabrão, Jan). Foi um dos bastiões e principais figuras do ano. Quando entrou no jogo com o Olhanense mandei mensagem a um amigo a dizer: "Campeões". Como achei bazófia a mais, apaguei e agora não tenho provas. Oxalá fique cá muitos e bons anos. 8,5/10 


Paulo Lopes: só pelos festejos no campeonato merece a mesma nota do que o Artur. 3/10

Maxi: tenho uma relação ambivalente com o Maxi. Adoro aquela garra, aquele nunca desistir, a maneira como faz tudo para se superar. Mas acho que o Maxi já comete erros a mais e começa a não ter físico para compensar algumas limitações técnicas. Quero-o connosco muitos anos, mas às vezes não sei se o quero titular. 7/10

Siqueira: partia com uma grande vantagem, já que foi a primeira pessoa com dois dígitos de QI a jogar a lateral-esquerdo no Benfica em muitos anos. E sabe Eusébio o que o lugar é difícil. Pedro Henriques, por exemplo, é melhor comentador na Sporttv do que foi defesa-esquerdo na Luz e cada um entenderá a afirmação como quiser. Qualquer gajo que não se perdesse no túnel e voltasse para a segunda parte ia parecer um craque. Teve um começo fraco, com lesões e várias asneiras (expulsão em Barcelos e, mais tarde, expulsão com o Porto em casa), mas foi subindo ao longo do ano. Espero que fique, apesar de nunca vir a ser um Roberto Carlos. 7/10

Luisão: grande época do capitão. Nem me lembro se fez a habitual birra para sair no princípio da época. Esteve impecável, sobressaindo para mim o derby em casa, onde meteu Slimani no bolso. Fundamental. 8,5/10.

Garay: Suspiro. Dos melhores centrais que vi jogar no Glorioso. Um título em três anos é manifestamente pouco para tanta classe. O Zenit é pouco para ti, rapaz, e deixa-me triste que te vás enfiar naquilo. Pergunta ao Witsel se está a gostar daquela calor porreiro de São Petersburgo. 9/10.

Sílvio: importantíssimo ao longo da época. Rodou com Maxi e Siqueira até àquele lance estúpido. Sem ser um craque (nenhum lateral do Benfica o é, é uma das nossas principais lacunas), esteve sempre a bom nível. 7/10

Jardel: é sempre importante ter gajos destes que sabem que são suplentes e que não chateiam. Jogou contra o Vitória na Luz com um buraco na testa quase do tamanho da lesão cerebral do Cortez sem se queixar. 7/10

Bruno Cortez: entrou para o anedotário do futebol nacional. Quero acreditar que alguém ganhou uma valente comissão e que o trouxe sem o ver jogar. O Bruno Cortez tem um ar tão estúpido que dá a sensação que ainda o temos que manter afastado de Legos com peças pequenas para ele não meter nenhuma na boca e se engasgar. Bruno Cortez foi campeão e isso é extraordinário. É gajo para se engasgar com a medalha. 1/10

André Almeida: o miúdo não é nem nunca vai ser nenhum génio, mas cumpre. Muito por culpa de Jorge Jesus, todas as segundas linhas do Benfica conseguem entrar sem se dar por elas e isso foi um dos segredos da equipa. Vê lá se fazes qualquer coisa no Mundial para te vendermos por um preço que tu não vales (aquele abraço, Cedric!). 6,5/10

Steven, Cancelo, Lindelof, Bernardo Silva: mais títulos do que o William Carvalho e isso é giro. 1/10

Fejsa: o homem do ano. Lesionou Artur e permitiu a conquista de três títulos. Para além disso, fez uma senhora exibição no derby (quem não fez? Ah, o Sporting) e foi uma pena a sua lesão. 6,5/10

Djuricic: Filip fez uma grande exibição naquele primeiro jogo de pré-época em que enfrentamos uns agricultores suiços. O futebol português, apesar de todos os seus defeitos, ainda é um bocadinho melhor do que isso. Infelizmente, Djuricic nunca foi tão bom como naquele dia. Flop do ano (Cortez não conta como flop. Cortez era uma carta fora do baralho à partida). 2/10

Matic: espero que a chuvinha de Londres te caia bem e que apanhes mau tempo (como se aqui estivesse bom...). Matic é um craque, um super-jogador. Mas chateia-me que alguém queira sair em Dezembro. Foi importante para o título, mas perdeu a festa no Marquês. Há pessoas que davam a vida para ir naquele autocarro. 6,5/10  

Sulejmani: para um homem com tamanho azar - a queda na final da Liga Europa, que estupidez - foi ainda bastante importante. Marcou uns golitos, fez a posição quando era preciso. Para primeira linha não chega, para segunda linha é óptimo. A ver se compras uma pata de coelho, rapaz. 6/10

André Gomes: só pelo golo ao Porto, só me apetece abraçar-te, puto. Lamento dizer-te que nunca vais ser o Enzo Perez, mas já levantaste o Estádio da Luz e foi isso que eu te pedi uma vez. 7/10 (a nota justa era 6, mas recebes mais 1 pelo golo. Estou um mãos largas)



Rúben Amorim: entre benfiquistas, Rúben: QUE CARALHO TE PASSOU PELA CABEÇA PARA NÃO TERES ESTADO CONNOSCO O ANO PASSADO? Pronto, já passou. Sim, deves ter discutido com o Jesus ou o raio. Mas contigo o ano passado éramos campeões. Não tinha jogado o Roderick (que faz o Cortez parecer o Einstein) no Dragão e tu tinhas ceifado logo o Kelvin. 
Vá, deixa lá isso. Tens um número de sócio mais baixo do que o meu e aquela entrevista na Benfica TV confirmou o que o teu futebol já mostrava: és inteligente e do Benfica. 7/10

Ivan Cavaleiro: matei-te futebolisticamente quando fez a falta sobre Montero que deu o 3-3 aos lagartos no jogo da Taça. Um jogador inteligente nunca faz aquilo. É a segunda linha que menos gosto no Benfica. Desculpa lá, Ivan. Pareces ser bom rapaz e até metes umas coisas simpáticas para o Benfica no instagram, mas não vai dar. 4/10

Salvio: é um luxo ter um homem destes como 12º jogador e foi uma pena que te tivesses lesionado tão cedo. Aquela "mão" em Turim foi uma sacanice do árbitro. Fica connosco, rapaz. Se fores para o Zenit o teu instagram vai ser uma seca, só com bonecos de neve, portanto é melhor ficares com a malta. 7/10

Markovic: miúdo, quando passaste pelo William Carvalho e meio Sporting e fizeste aquela cuecada ao Patrício, fiquei doido. A jogada para o primeiro golo contra o Porto confirmou-o: és areia demais para um clube sem dinheiro como nós. Espero que fiques mais um ano e que saias campeão. Aquela confusão em Turim foi uma burrice, pá. E a tua foto de fundo no twitter é altamente, já agora. 8,5/10

Gaitan: vá, todos: NICO! NICO! NICO! Finalmente, porra! Não sei se bateu com a cabeça na parede e se finalmente acordou, mas abençoada parede. Um dos homens do ano. De brinca na areia (tipo Dominguez) a craque a sério (tipo Enzo Perez). Merecia ir á selecção argentina em vez de Rojo. Sim, até a defesa esquerdo Gaitan é melhor do que o Rojo. Não acredito que haja uma coisa no mundo que o Rojo faça melhor que o Gaitan. 9/10

Enzo Perez: casa comigo, Enzo. Eu enganei-me e casei com uma portista, bem gira até, mas se tu quiseres eu largo tudo e vou ter contigo. 9/10 porque fizeste aquela burrice em Turim (não há homens perfeitos).

Ola John: esqueci-me que foi campeão e não fosse um aviso na caixa de comentários ia continuar a esquecer-me. 1/10

Funes Mori: quem? 1/10

Cardozo: um terço de época de sonho, dois terços para esquecer. Oxalá regresses, meu caro. Eu não esqueço e sei que sem aquele teu terço de época nunca teríamos chegado a Turim onde falhaste o penalty. As tuas lágrimas são as minhas e é de coração partido que te dou negativa. 4/10

Lima: gosto do Lima. Nunca vai ser um ídolo, nunca terá um cântico mítico, nunca é o primeiro de que nos lembramos. Mas está lá, tipo relógio. Um 8/10 sólido

Rodrigo: tu vais já levar uma praga, rapaz. Nós somos o topo da tua carreira. Não vais chegar ao Barça nem ao Real Madrid e nunca passarás de um Zenit ou de um Valência, clubes infinitamente menores que o Glorioso Sport Lisboa e Benfica. És excelente para Portugal, falta-te um bocadinho para seres um grande ponta de lança europeu. 8/10

Jorge Jesus: o nosso mister aprendeu e essa foi a sua maior qualidade. Que JJ nos pôs  a jogar à bola, nunca ninguém duvidou. Mas éramos uma equipa de excessos, um comboio sempre prestes a descarrilar. Este ano não. JJ aprendeu e convidou os adversários a subir para que os pudéssemos matar em contra-ataque. Por defeitos de educação, JJ continua a dar tiros no pé em frases e actos. Ainda assim, espero que continue. Se JJ continuar e não vendermos tudo (ouviu, Vieira?), partimos na pole position para 2014/2015. 9/10

Somos campeões. Enterrámos o fantasma Kelvin, ficou o europeu. Vencemos também porque não havia rival (o Porto de Paulo Fonseca foi o melhor anti-depressivo para o Benfica do ano passado), mas vencemos.
Agora chega de festejos e de bazófia. Tudo concentrado no próximo campeonato (não, não é o do Mundo. É mesmo a Liga 2014/2015).


terça-feira, 20 de maio de 2014

10 razões para o Quaresma não ser convocado

Eu, como sabem, não nutro qualquer afecto pela selecção. Não é por mal, a sério, mas já tenho o meu coração de adepta completamente preenchido. Daí que normalmente a minha única preocupação em qualquer convocatória para um Mundial seja quais os jogadores do FCPorto que vão, em que condições físicas, se convém mostrarem-se bem para os vendermos ou se vou ter de torcer para que nem entrem em campo para ninguém os ver, etc. Coisas bem mais importantes do que torcer por uma bandeira vermelha e verde, como imaginam.

Confesso que nesta altura estou mais preocupada com o Mundial do Mangala, do Jackson, do Quintero, do Ghilas, do Defour, do Reyes e do Herrera do que com o de qualquer outro cidadão do meu país, à excepção do Varela que, se Pinto da Costa quiser, vai fazer um grande Mundial e ser vendido por uns 15 milhões. Posso, eventualmente, pensar um pouco se não seria melhor o Garay brilhar para ser vendido, mas não muito para não render muito dinheiro, ou se o Slimani não podia lesionar-se durante uns 6 ou 8 meses só para garantir que o Montero é titular durante meia época.  Enfim, assuntos que me vão ocupando a cabeça enquanto o Lopetegui não apresenta uns três ou quatro reforços de grande categoria.

Há, no entanto, portistas que se preocupam com a selecção. E custa-me muito ver camaradas a sentirem-se injustiçados quando um dos nossos não é convocado. Eu, que até sou insuspeita, porque não sou grande adepta deste rapaz, percebo a natural insatisfação de um portista que já estava a pensar compilar no YouTube umas fintas e trivelas do Quaresma no Mundial para ainda o vendermos a um árabe maluco qualquer. É por causa disto que estão chateados, certo? Ou é só porque gostam dele? É que se é por isso, isso passa, porque o importante é ele estar bem connosco e não ali. Bem, na verdade também admito que possam estar assim só porque, do ponto da vista da selecção, o Quaresma até merecia ir ao Mundial. E que até parece uma perseguição ao FCPorto, porque um dia um seleccionador brasileiro não convocou o melhor guarda-redes do mundo e arredores para a baliza nacional, e agora é este, porque se o Quaresma fosse de outro clube e não andasse a falar em morrer em campo pela camisola azul e branca ele até o levava, e isso tudo.

Só que eu precisava de ter moral para falar disto e não tenho. Eu festejei quando o Queiroz não levou o Moutinho ao último Mundial, porque estava convencida que “o anão” (era assim que carinhosamente o tratava na altura) não valia nada (parece que foi considerado um dos flops do ano em França, que pena, espero que a conta bancária lhe saiba bem), por isso penso que é neste momento que devo calar-me. Às tantas os lagartos também ficaram furiosos na altura, e continuam porque agora estão convencidos que o Adrien é o Yaya Toure em beto, e por isso não seria justo eu entrar por aí. Se o André Almeida seria convocado se estivesse noutro clube qualquer? Bem, provavelmente não, mas imaginem que o André Almeida chega ao Brasil, partilha o quarto com o Ruben Amorim e depois chateiam-se com a Playstation e para o ano dão início a uma crise de balneário do benfica? Não seria genial? Então não nos cansemos com isto. É nestes cenários que temos de pensar, portistas, tudo o resto são piners.

É do FCPorto

Os jogadores do FCPorto são maus,estão habituados a ganhar títulos quando o que a selecção quer é divertir a malta e ficam melhor de azul do que de vermelho (e nestas coisas das grandes competições de selecções já se sabe que a estética conta muito, até porque o capitão de Portugal gosta de mudar de penteado ao intervalo). Dos prováveis titulares da selecção, pelo menos Pepe, Bruno Alves, João Moutinho, Raul Meireles e Postiga já experimentaram este lado negro e obscuro do futebol português, embora agora sejam todos óptimos e fofinhos e grandes jogadores. Como o Vieirinha, por exemplo, que desde que deixou o Porto passou a ser mais seleccionável para certas pessoas que se incomodam com estas coisas.

É cigano

O Quaresma é feio, tem muitos brincos e anéis e veste-se mal. E é lindo fazer-se piadas pelo facto de ser cigano. Dá imenso jeito para os adversários passarem o jogo a chamar-lhe nomes e para os adeptos soltarem o xenófobo preconceituoso que há em cada um de nós. Vamos, então, poupar os brasileiros de fazerem esta figura triste que tanta gente por cá faz.

Tem mau feitio

O Quaresma chateia-se, fala mal, esbraceja e indigna-se. Com os árbitros, sobretudo, mas também com jogadores adversários que fazem questão de usufruir da alínea anterior. Numa selecção que bate em árbitros, destrói balneários, com treinadores irados atrás de adversários para “proteger o menino” (era o Quaresma, que ironia tão bonita) e um historial de grande categoria como este, não podia haver lugar para um anjinho.

Não joga para a equipa

Ele é muito bom tecnicamente, tens uns pés únicos, dos melhores do mundo mesmo, mas não passa a bola quando deve, só pensa nele, parece que está mais preocupado consigo próprio do que com a selecção, pode ser decisivo no ataque mas depois acabamos a questionar-nos se também não devia ajudar a equipa na defesa, gosta de assumir o jogo mas depois passamos muito tempo a questionar-nos onde anda… Ai, desculpem, isto era para falar do Quaresma a perdi-me aqui a falar do Ronaldo.

É criativo demais

Eu, que mais uma vez sou insuspeita porque não sou fã do Ronaldo, tenho de admitir que esta selecção parece pouco mais do que ele. Se estiver em forma, é capaz de tudo. E quase sozinho, como se viu contra a Suécia. Daí que faça imenso sentido não levar o Quaresma. Para quê ter alguém que sabe o que fazer à bola quando toda a estratégia passa por chutar para a frente para o Ronaldo? Seria um desperdício de talento.

Não sabe defender

Recua pouco, faz faltas desnecessárias, não mete o pé, fica lá à frente à espera que lhe passem a bola em vez de vir atrás tentar organizar o jogo e é tão preguiçoso que depois o apanham em fora-de-jogo. Apesar de passar muito tempo no ataque, marca poucos golos e não decide jogos. Ai, porra, lá estou eu a distrair-me e a falar do Hugo Almeida em vez do Quaresma. (notem que não disse Postiga porque, se há coisa que o homem sabe fazer bem, é defender! Sobretudo na grande área dos outros)

Não respeita tácticas

O Quaresma é um génio e os génios são quase sempre maus tacticamente. Já o Rafa, por exemplo, tem tudo para ser um mestre da táctica, dado que vai continuar no banco mesmo quando for preciso entrar alguém para abanar com o jogo.

Não aguenta 90 minutos

O Quaresma já não é o que era. A finta não sai tão rápida, o cruzamento vai mais baixo e a substituição por um craque tipo Varela seria inevitável. A selecção não precisa de jogadores instáveis fisicamente lá na frente, até porque já tem o Nani, o Vieirinha, o Postiga e o Éder para fazerem esse papel.

O seleccionador

Um treinador cuja maior conquista foi ficar em segundo no campeonato quatro anos seguidos e que tem um palmarés com duas taças e duas supertaças não pode falar a mesma língua que um jogador com 18 títulos oficiais.

Cheira mal dos pés?

Sei lá, mas faltava-me uma e, já que o Paulo Bento pode justificar-se com argumentos estapafúrdios, achei que também podia.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Para sempre

Não sei quando é que tudo isto começou. Tenho uma óptima memória futebolística, mas falta-me o momento do meu nascimento para o benfiquismo. O primeiro jogo que me lembro, com definição, sabendo resultado e pormenores, foi um Nacional-Benfica em que ganhámos 1-4 (e lembro-me perfeitamente que o penalty contra o Benfica foi mal assinalado por esse ilustre ladrão que era o Rosa Santos). Consultando o zerozero, estamos a falar do dia 23 de Setembro de 1989, tinha este que vos escreve 5 anos. Quando eu destaco este jogo, não estou a falar do primeiro jogo que vi, nem da primeira vez que fui ao estádio, estou a falar do primeiro jogo que me lembro de ver, decorar, saber os marcadores dos golos, de falar do jogo no dia seguinte e de ver o resumo no dia seguinte, vendo com cada vez mais nitidez que o Veloso tinha tocado no adversário fora da área (lance na nossa esquerda). 

Vamos lá ver se explico a importância disto: eu não me lembro da cara da minha irmã quando eu tinha 5 anos. Nem dos meus pais. É certo que os vejo muitas vezes e que essas coisas às vezes são mais difíceis, mas eu lembro-me que ganhámos 1-4 ao Nacional a 23 de Setembro de 1989, e só espero que alguém encontre o resumo do jogo para eu ter a certeza que o penalty não era. Isto não é nada contra a minha família, que eu adoro muito, mas é para explicar que, apesar de eu não me lembrar do momento exacto em que nasceu o meu benfiquismo, ser do Benfica, ser do Benfica obsessiva e compulsivamente, é uma coisa que eu tenho desde que existo. Posso ter uma profissão, outros interesses extra-curriculares de forma a parecer uma pessoa minimamente interessante e com quem se pode jantar, mas não vos quero enganar: se há algo que me define, que é de mim do princípio ao fim, de manhã até à noite, todos os dias da semana, do mês e do ano, é ser do Benfica.

Não encontro uma razão para isto. Não há racionalidade, não comecei a gostar do Benfica porque as camisolas são vermelhas e eu gostava da cor. A ver se me explico: nunca, durante a minha existência, se colocou na minha cabeça e no meu corpo a hipótese de ser de outro clube que não o Benfica. Se eu não fosse do Benfica, não era eu. 
Contudo, apesar da consciência do absurdo disto tudo, dos sacrifícios que eu faço em nome do Benfica, das horas que já passei sem dormir (eu consigo dormir em qualquer situação, hábito ganho a fazer urgências, menos quando o Benfica não ganha), apesar de estar plenamente consciente que isto não faria qualquer sentido se eu fosse mesmo racional, também nunca coloquei a hipótese de não o fazer. Não vale a pena mentir: eu sempre soube que a minha felicidade dependia em muito do Benfica. Eu posso estar na profissão que quero, estar casado com a mulher perfeita e ter todos os amigos do mundo. Se o Benfica não estiver bem, eu, pelo menos a 100%, também não o estarei. 
Eu acho que isto é a maior declaração de amor que se pode fazer. Na verdade, quando a C. não está bem, quando ela está chateada com qualquer coisa (Porto aparte) ou quando está doente, eu também me sinto mal e faço tudo que esteja ao meu alcance para que a situação se resolva (reafirmo: derrotas do Porto aparte). O problema - e é, de facto, um dos maiores problemas da minha vida - é que eu pouco posso fazer para resolver os problemas do Benfica quando eles surgem. Quando a C. adoece eu posso ir à farmácia. Quando o Benfica joga não me resta nada senão uma entrega e um sofrimento profundos, maiores do que eu, mas não há nada palpável que eu possa mesmo fazer. Não posso rematar, passar, defender. Entrego o meu coração aos 11 rapazes que fazem isso por mim, mas julgo que isso pouca ajuda a que a bola entre ou não, mas é tudo o que eu tenho.
É um amor-refém. O Benfica não está apaixonado por mim como eu estou por ele. Seria um acaso muito grande que algum jogador do Benfica soubesse, sequer, quem eu sou, enquanto eu sei a posição, o pé preferido e as forças e fraquezas de todos, todos eles. Isto que vos descrevo, esta obsessão, persegue-me desde que eu tenho 5 anos. Vivo há 25 anos assim e, pasmem-se, em crescendo.

O que senti ontem, depois de perdermos com o Sevilla, é de uma força e brutalidade tais que eu tenho vergonha de escrever.  Há pessoas com problemas muito mais sérios no mundo, há problemas de saúde, há pessoas que vivem em países invadidos, eu sei isso tudo e luto contra isso todos os dias. Mas, aos 30 anos, nada disso me bate tão em cheio, tão profundamente e de uma maneira tão orgânica como uma grande derrota do Benfica. Fico com um frio cá dentro que parece que nunca vai passar, ganho um ódio visceral a todos os culpados (eu desejo coisas ao árbitro de ontem e ao Beto que me envergonho de escrever) e tenho uma sensação física terrível de irreversibilidade. Eu percebo, imediatamente, que não há regresso, que a bola já não vai mudar de trajectória e que tenho que viver com isto para sempre.

Já viram "A Residência Espanhola"? "A Residência Espanhola" é um dos meus filmes favoritos (calma, continuem a ler, não mudaram de texto por engano), muito por razões sentimentais. Vi-o com a minha irmã, aos 18 anos. Foi uma noite de irmãos espectacular, em que saímos de casa à chuva, contra todas as ordens familiares, apanhámos um lençol de água até ao cinema até descobrirmos que "O Senhor dos Anéis" estava esgotado. Enfiámo-nos no filme sem saber o que íamos ver e adorámos e rimos os dois em conjunto. "A Residência Espanhola" conta a história de Xavier, que vai fazer Erasmus em Barcelona. É uma comédia que faz com que qualquer pessoa minimamente inteligente queira, de imediato, ir viver em Barcelona numa casa onde há gente de todas as nacionalidades, onde há noite, amigos, amores e desamores. Quando Xavier volta a Paris, para o seu emprego de escritório, há uma cena terrível onde, com o "No Surprises" dos Radiohead atrás, Xavier caminha por Paris, chorando, confrontado com a sua nova realidade, com o facto dos seus amigos terem ficado para trás. Xavier ultrapassará isso e aprenderá que na vida, como nas residências espanholas, toda a gente contribui (e, logo, Xavier é a soma de toda aquela residência).
Eu sinto-me preso nessa cena em Paris. "No Surprises" como banda sonora. O que passou foi bom, foi extraordinário: somos campeões de Portugal. Mas, ao contrário de Xavier, não tenho direito a nenhum twist final que me faça feliz, completamente feliz. 
Quando a final de ontem acabou, eu percebi imediatamente a irreversibilidade disso, como se o ano de Erasmus de Xavier tivesse acabado, como acabaram os meus sonhos. Eu não sou adepto de acordar na manhã seguinte e pensar: "será que aconteceu mesmo?". Não, a mim atropela-me logo a certeza de que o sonho se esfumou, como se estivesse já atrasado para o emprego de merda do Xavier e soubesse que ia passar ali 50 anos até à reforma. Ser fanático é uma prisão. 

Nick Hornby dizia que os verdadeiros adeptos de futebol são amargos, não interessando o resultado final. Como adepto de um clube campeão nacional, mas finalista vencido de uma final europeia, vejo-me obrigado a concordar.
Isto, para mim, começou a sério dia 23 de Setembro de 1989. Foi crescendo, ganhando um peso inacreditável na minha vida. A minha família, a minha mulher, os filmes da minha vida, tudo gira em torno das camisolas vermelhas. Por causa disso, hoje estou amargo, dorido. Num dia como o de hoje, depois de uma derrota dura, injusta, filha da puta, fico preocupado. Preocupado com o facto de saber que a minha vida vai estar sempre, melhor ou pior, profundamente marcada pelo sucesso de um clube a quem jurei fidelidade provavelmente antes de nascer. Preocupado por perceber que desta prisão não saio.
O jogo de ontem não regressa. A minha vida também não volta atrás, para eu escolher não ser doente. Mas também não queria. Não sei viver de outra maneira. 
Eu nunca soube, nunca me lembrei como é que isto tudo começou. Mas sei - tenho a certeza - que é para sempre.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lopetegui

Não gosto de cometer o mesmo erro duas vezes. Como já deve ter percebido, o FCPorto errou na escolha do treinador para a época que agora acabou. Por isso mesmo, mas não só, passámos de tricampeão ao desastre em menos de um ano. E eu, como qualquer portista doente, não admito que isto se repita. Portanto, estou aqui para o ajudar.

Não faço ideia se desta vez acertámos. Pelos vistos não andei a ver tantos jogos das camadas jovens da selecção espanhola como devia, por isso não me sinto em condições de o avaliar já à partida. Vou então acreditar que o mister sabe que o duplo pivot está para o FCP como o Putin para o Prémio Nobel da Paz. Vou partir do princípio que até no País Basco ou na Catalunha se sabe que no Porto não há lugar a medos perante egos e superegos. Vou dar-lhe todo o apoio possível desde que veja trabalho, raça e muita vontade de ganhar.

Até aqui, tudo entendido? Passemos então à parte em que tento explicar-lhe no que veio meter-se. O Futebol Clube do Porto. Isto não é fácil, sabe? Para uma portista doente como eu, este clube é tudo. Foi este clube que já me fez do mais feliz ao mais triste que possa imaginar. São os valores deste clube que partilho desde o berço com uma longa família de portistas. É este clube que eu sigo e que tenciono continuar a seguir até me tornar numa daquelas velhinhas que se vestem com adereços da cabeça aos pés e gritam impropérios muito alto e fininho contra os árbitros e os rivais.

Este é um clube diferente. Sim, eu sei que todos os adeptos estão convencidos que são do melhor clube do mundo. Eu não sou excepção, claro. Mas não é só por isso. O FCPorto é um clube que faz das dificuldades uma força, que torna os obstáculos em factores de união e que, sem esquecer décadas de sofrimento e de derrotas, só admite continuar a ganhar como nos últimos 30 anos.

Nós, no Porto, somos a visão de Pedroto, a ambição de Pinto da Costa, a bi-bota de Fernando Gomes, a sapiência de Robson, as mãos de Baía. Somos os Aliados em festa, o Dragão em chamas ao minuto 92, mas sobretudo as Antas encharcadas numa noite de temporal contra a Lazio. Somos o calcanhar de Madjer e a cabeça de Falcao, somos Costinha em Manchester e Alenitchev nas finais. Somos os meus avós, os meus pais, o meu irmão e até somos um rival à medida do meu marido.

É isto que o mister tem de saber desde já. Não conhecer o Porto, não ser Porto, é um erro que, neste clube, não tem perdão. E não basta ir ao museu ver as taças e os bonecos em 3D. É preciso senti-lo, mesmo. Depois do caos desta época, estamos sedentos de portismo. Queremos ganhar, mas ganhar à Porto. Exigimos sangue, suor e lágrimas por esta camisola. Não toleramos mais brincadeiras, mais incompetência, mais falhanços, mais pernas a tremer contra os rivais, mais bolas atiradas para a bancada com displicência, mais braços caídos e rostos envergonhados.

Isso não é o Porto. Isso que viu até numa vitória no último sábado não é mais do que um muito reduzido esboço da nossa vontade de ser sempre superior aos outros, mesmo a feijões, mesmo quando por vezes se perde, mesmo quando já nada se pode ganhar. Isso é exactamente o que não queremos na próxima época.

Mister, veja se percebe: a sua tarefa não é nada fácil. Nós não estamos só tristes com as derrotas deste ano. Estamos furiosos, revoltados com o que a nossa própria equipa nos fez e cheios de garra para começar de novo. E isto é o Porto, onde uma época só com uma Supertaça é uma catástrofe. Por isso, prepare-se: também nós já estamos a trabalhar na próxima época. Somos muitos, mas serão muitos mais aqueles que estarão contra si, contra nós. Eles estão muito fortes, mas nós somos o Futebol Clube do Porto. Se perceber isto… bienvenido, tio!