Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
10 anos do Diário de um Ultra
Um comentário muito simpático no blog lembrou a efeméride: faz hoje 10 - dez! - anos que comecei o Diário de um Ultra. Foi o meu primeiro blog e nasceu na minha fase mais "claqueira". Do Diário vim cá para casa, de onde espero não mais sair. A maior parte dos textos deve já envergonhar-me (é por isso que foram escritos há uma década...), mas a data é para celebrar: faz hoje dez anos que me sentei a escrever pela primeira vez, para vossa manifesta infelicidade.
sábado, 26 de julho de 2014
Questionário para quem assobiou Messi no Dragão
1. O jogo era...
a) de homenagem ao Deco
b) um Real Madrid-Barcelona
c) um anúncio de champôs
2. O Messi interrompeu as férias para...
a) homenagear o nosso Deco
b) matar crianças em Gaza
c) abater o avião na Ucrânia
3. A grande dúvida que te inquieta é: o melhor jogador de todos os tempos é...
a) Vítor Baía
b) Deco
c) Secretário
4. Assobiaste o Messi porque...
a) é a tua forma de ovacionar um astro do futebol mundial
b) pensaste que dessa forma ele podia olhar para ti e tiravas uma selfie
c) és só atrasado mental
5. Preferes assobiar o Messi do que...
a) o treinador que não festejou a nossa Champions de 2004 e que não apareceu na homenagem ao Deco
b) qualquer jogador de uma equipa adversária do FCPorto nos jogos a sério
c) qualquer jogador formado num rival nosso que nos marque golos e nos elimine da Champions
6. Foste ao Dragão porque...
a) as pipocas estavam baratas
b) acabou-te a Coca Cola em casa
c) o que é o Dragão?
7. Quando começar a época, prometes...
a) assobiar da mesma forma todos os adversários do FCPorto
b) ir ao Dragão fazer cenas além de assobiar
c) dedicares-te à pesca desportiva
8. Agora, a frio, és capaz de admitir que...
a) assobiar o Messi num jogo de homenagem ao Deco foi a coisa mais estúpida que já fizeste
b) o FCPorto não merece ter-te como "adepto"
c) não devias ter nascido
9. Não vais ler mais este blog porque...
a) nós somos fãs do Messi
b) não percebes nada disto
c) não tens tempo para mais nada além de ler o livro da mãe do Ronaldo
a) de homenagem ao Deco
b) um Real Madrid-Barcelona
c) um anúncio de champôs
2. O Messi interrompeu as férias para...
a) homenagear o nosso Deco
b) matar crianças em Gaza
c) abater o avião na Ucrânia
3. A grande dúvida que te inquieta é: o melhor jogador de todos os tempos é...
a) Vítor Baía
b) Deco
c) Secretário
4. Assobiaste o Messi porque...
a) é a tua forma de ovacionar um astro do futebol mundial
b) pensaste que dessa forma ele podia olhar para ti e tiravas uma selfie
c) és só atrasado mental
5. Preferes assobiar o Messi do que...
a) o treinador que não festejou a nossa Champions de 2004 e que não apareceu na homenagem ao Deco
b) qualquer jogador de uma equipa adversária do FCPorto nos jogos a sério
c) qualquer jogador formado num rival nosso que nos marque golos e nos elimine da Champions
6. Foste ao Dragão porque...
a) as pipocas estavam baratas
b) acabou-te a Coca Cola em casa
c) o que é o Dragão?
7. Quando começar a época, prometes...
a) assobiar da mesma forma todos os adversários do FCPorto
b) ir ao Dragão fazer cenas além de assobiar
c) dedicares-te à pesca desportiva
8. Agora, a frio, és capaz de admitir que...
a) assobiar o Messi num jogo de homenagem ao Deco foi a coisa mais estúpida que já fizeste
b) o FCPorto não merece ter-te como "adepto"
c) não devias ter nascido
9. Não vais ler mais este blog porque...
a) nós somos fãs do Messi
b) não percebes nada disto
c) não tens tempo para mais nada além de ler o livro da mãe do Ronaldo
10. Vá, agora a sério...
a) choraste com o Deco porque não há igual a ele
b) não consegues dormir porque tens saudades do portismo daqueles jogadores
terça-feira, 22 de julho de 2014
Vinte anos depois
Passaram vinte anos desde que começou o capítulo mais negro da história do Benfica, ou seja, passaram vinte anos desde a chegada de Artur Jorge como treinador ao Benfica. Há vinte anos, a nação benfiquista assistia à destruição de uma equipa que fora campeã contra todas as previsões e de maneira heróica. O Benfica, numa fase crescente da história do Porto e arruinado financeiramente, desceu o seu nível desportivo para patamares terríveis que nos afundaram anos. Artur Jorge e Manuel Damásio, se o mundo fosse justo, não se podiam aproximar a menos de 50 Km do Estádio da Luz sem lhes cair um balde de estrume em cima.
Passaram vinte anos, vinte anos de trevas, de ruína. Desde aquela noite de Maio em Alvalade e daquelas tardes de uma alegria melancólica de Braga e na Luz, contra o Guimarães (como se toda a gente já soubesse o futuro), que o Benfica se separou de uma glória e de uma aura que nunca o tinham abandonado nos 90 anos prévios.
As melhores personagens literárias são, para mim, as que têm passado. O Conde de Monte Cristo - o meu romance favorito - é fantástico porque todas as personagens têm uma história. Ou porque foram traídos ou porque foram conspiradores, ou porque amaram quem não podiam amar ou porque beberam demais numa tarde. Em "Vinte anos depois", também romance de Alexandre Dumas, encontramos os três mosqueteiros e D`Artagnan outra vez. O romance, longe de ser genial (Dumas era um boémio que escrevia muitíssimos livros para pagar os seus ainda maiores excessos), tem o condão de dar ao leitor aquilo que ele mais pode pedir: saber o que se passou, muitos anos depois, com os seus personagens favoritos.
Chegados aqui, vinte anos depois da aparição do "poeta" Artur (que há quem diga que é exactamente a mesma pessoa que um célebre avançado do Benfica, especialista no pontapé em moinho - mas eu não acredito), temos o prazer de saber o que se vai passar com o Benfica, tal e qual como os quatro mosqueteiros. Maio de 2014, que podia ter sido perfeito não fosse um velhaco ter defendido os penalties quase para lá da própria marca de penalty, foi o melhor ano dos últimos vinte. Pela primeira vez desde a chegada de Artur Jorge, o Benfica foi inequivocamente superior ao Porto, com melhor plantel, melhor treinador e melhores resultados. Passaram-se coisas incríveis, entretanto. Longe da aventura de cordel de D`Artagnan e dos três mosqueteiros, longe do sorriso da Julieta (perdão, Constança. Julieta era no Dartacão) e daquele final de honra e glória, os últimos vinte anos foram uma tragédia onde o Cardeal Richelieu gozou a seu bel-prazer. Mais: apesar da vitória do ano passado e dos seus melhores anos já terem ido, a sua posição ainda é fortíssima.
Em "Vinte anos depois", D`Artagnan é o único mosqueteiro. Athos, Porthos e Aramis seguiram os seus destinos (como Oblak, Garay, Markovic, Rodrigo...). E é aqui que as metáforas se separam: eu tive um prazer genuíno quando li o "Vinte anos depois" enquanto adolescente porque encontrar o futuro daquelas personagens (tão cheias de passado) era uma ânsia. E vivi aquilo tudo, o drama, as mentiras, a decadências e os erros irreversíveis com avidez. Porque o que eu queria era saber o que aconteceu, como é que estavam as minhas personagens aquele tempo todo depois. Em relação ao Benfica, não houve propriamente uma pausa entre os livros. Eu vivi estes anos, eu cresci com isto. Ou seja, o Benfica é a personagem da qual eu conheço o passado, é a personagem que eu mais estudei, que eu mais absorvi. Mas vinte anos são vinte anos e o marco histórico merece ser assinalado. Para onde queres ir Benfica?
Vinte anos, além de um número redondo, simbolizam a primeira vez que o Benfica podia ter partido na frente para um bi-campeonato, podiam significar uma vida diferente, uma coroação, podia ser o princípio de qualquer coisa muito diferente das últimas duas décadas. Ao contrário, há uma estranha sensação de deja-vu. Como aquele festejo do título triste de 1993/1994, em que se despediu o último plantel à Benfica, sente-se esse espírito de revolução falhada: foi bonita a festa, pá.
Eu gosto de personagens tristes, falhadas, com erros (Athos tem um filho com a amante de Aramis, sabiam?), eu gostei que, ao fim de vinte anos, os quatro mosqueteiros não ficassem juntos, num final de nostalgia amarga. Mas, quanto ao Benfica, nada me custava mais que os mesmos erros, que a mesma tragédia se assolasse sobre nós. Já não há paciência para finais tristes, já não há paciência para vinte anos que pareceram vinte séculos.
Sinto que todos os anos, desde há vinte, começo a época com a mesma sensação. Gostava de, um dia, tantos anos depois, fechar este capítulo.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
A derrota da incompetência
Se há coisa que eu detesto é a incompetência. Se há coisa que eu detesto são frases começadas por "se há coisa que eu detesto", porque na verdade eu detesto muita coisa, mas agora já está, já está. A incompetência mexe particularmente comigo quando é recompensada. Todos os dias vejo gente incompetente a ser promovida numa empresa, num clube, num Governo, e isso deixa-me realmente irritada. Se o mundo fosse um local perfeito, nunca a minha vida poderia depender de um incompetente, fosse num call-center, num hospital ou num Parlamento. E, se o mundo fosse um local perfeito, sobretudo um treinador como Paulo Fonseca nunca chegaria ao meu clube.
Há, no entanto, um ingrediente que aumenta o meu nível de irritação com a incompetência. Porque há incompetentes que são esforçados, coitados, mas que têm noção do seu pequeno valor. Estes normalmente têm o dom de não pisar ninguém durante a sua estadia neste mundo. Mas há aqueles que, dentro da sua evidente incompetência, precisam de estragar a vida a alguém para consagrar a sua alegre ascensão ao reino dos incompetentes. São estes os que me tiram realmente do sério: os que são uma valente merda e acham que são uma grande coisa.
Já devem ter reparado, portanto, que este texto é sobre Scolari. Devo admitir desde já que acho que o Scolari é a pessoa que eu mais odeio no mundo. O que não diz muito sobre ele, na verdade, mas diz muito sobre a provável demasiada importância que eu dou ao futebol na minha vida. Às tantas devia dizer que a pessoa que eu mais odeio no mundo é o Cavaco, sei lá, dava assim um ar mais sério e ativista da minha parte, mas hoje estou numa de ser honesta. Eu já não posso ouvir o Presidente falar em consensos pós-troika, mas mais depressa atiro um sapato à televisão quando ouço o Scolari avaliar a Colômbia como uma equipa com muitos talentos individuais e uma grande disciplina táctica, "tal como o meu time".
Não, Scolari, o teu time não é nada disso. Mas voltemos atrás. Scolari foi campeão do mundo em 2002, com uma equipa que tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, ou seja, com uma equipa que seria no mínimo candidata ao título com um pónei a treiná-la. Também tinha o Polga, é verdade, (saudades tuas, Anderson!) mas às vezes um daqueles incompetentes esforçados também dá jeito. Eu não gostava do Brasil de 2002, nem gostei de um Mundial afastado da paixão pelo futebol e dominado pelos esquemas de arbitragem. Mas o nosso problema só surgiu depois.
Scolari chegou à selecção portuguesa e, como toda a gente sabe, adoptou a estratégia de abrir uma guerra com o FCPorto para ganhar credibilidade junto dos nossos adversários e poder, assim, juntar um grupo de jogadores motivados em mostrar que ele tinha razão. Para isso, fez de Vítor Baía, o português com mais títulos de sempre, o seu novo Romário. Não é segredo que eu acho o Baía o melhor jogador de todos os tempos e de todas as constelações e que, se a Terra fosse explodir e me dessem a oportunidade de salvar alguém, ele seria o escolhido (desculpa M., amo-te muito, pensa que pelo menos assim morríamos os dois juntos e não há história de amor mais linda do que essa). Portanto, esta seria uma razão mais do que suficiente para justificar a minha relação com Scolari.
Mas é a incompetência do homem e a respectiva compensação dela que me tira do sério. Vamos, então, ao Euro 2004, maior orgulho dos adeptos da selecção pró-Scolari e, portanto, pessoas menos credíveis do universo. No primeiro jogo, contra a Grécia, Scolari entrou com o seu onze em campo. Resultado? Derrota. Inesperada, dirão aqueles que tinham uma bandeira na janela. Totalmente previsível, tendo em conta as escolhas e o mau trabalho do seleccionador, dirão aqueles que percebem alguma coisa de futebol. No segundo jogo, Scolari, que é incompetente mas não é totalmente burro, fez entrar os campeões europeus em título. Do FCPorto, pois claro. Resultado? Caminho aberto para a final. Demonstrou sabedoria, porque aprendeu com o erro, dirão aqueles que acreditam em Caravaggios. Mostrou que qualquer um podia treinar aquela equipa, dirão aqueles que sabem que o tal pónei também poria o Deco a titular.
Pelo meio, Ricardo tornou-se a figura de proa da selecção de Scolari. Desde logo pelo tal assunto Vítor Baía, que levava aquelas pessoas que pintam a cara de verde e vermelho a acreditar mesmo que o seleccionador tinha escolhido o melhor. E porque defendeu penalties. Uau, penalties. E logo contra a Inglaterra, uma especialista! O que se assemelha àquele momento em que o totó da turma acerta numa resposta e fica toda a gente espantada e com vontade de bater palmas. É fixe para o totó durante dois segundos, mas se está toda a gente tão excitada e emocionada com uma simples resposta certa, então deve ser um mau sinal a longo prazo. O resultado viu-se, aliás, na final desse Europeu.
Ainda hoje tenho de discutir essa final contra a Grécia com gente que acha que Portugal perdeu por azar. Ficou só 1-0, portanto é azar. E a culpa foi dos gregos, que eram feios e maus. Admito que quando fica 7-1 as coisas sejam mais evidentes, mas quem viu aquela final e tem alguma estima por futebol sabe que a grande derrotada foi a incompetência. Scolari não estudou minimamente o adversário (que, surpreendam-se agora, já tinha derrotado a selecção no jogo de estreia, portanto foi mesmo difícil não estar preparado), os gregos foram muito mais organizados e brincaram com a motivação e as rezas dos portugueses e, parem tudo o que estão a fazer, ainda por cima à custa de um enorme frango do menino do Scolari! Se eu fosse mesmo má, diria que foi perfeito. Olhem, já está, já está.
Este Brasil de Scolari mostrou cedo ao que vinha: desorganização máxima, teimosias tipo Fred, que merece o prémio de pior do Mundial (desculpa, Miguel Veloso), choradeiras e santas que defendem penalties, um discurso anti-árbitros e teorias da conspiração que, se não fossem tão idiotas e sem sentido, até nós poderiam incomodar. Mas lá foi passando e juro que quando vi o remate do Pinilla à barra pensei: "Tu queres ver que a €#%£ da Caravaggio me vai estragar o Mundial?" Felizmente, apareceu a Alemanha.
O que a Alemanha fez ontem foi colocar as coisas no lugar, dar sentido ao futebol, consagrar em números a vitória do trabalho sobre a incompetência, do mérito sobre a crença, da organização sobre a sacanagem. E, por isso, eu tenho de agradecer aos alemães, perdão, ao Guardiola. Não é nada contra o Brasil (a minha primeira memória futebolística até são os festejos em família em 94), note-se. O Mundial é que já estava a ser o melhor de sempre para mim, mas ver Scolari e toda a sua filosofia destruída vai muito além disso. O que vimos ontem e nunca vamos esquecer não foi só uma goleada ou uma humilhação, não foi só uma doce sensação de justiça ou uma vingança dos que não acreditam em santas. Foi uma lição de vida.
sábado, 21 de junho de 2014
Hasta luego, Xavi
Think quickly, look for spaces. That's what I do: look for spaces. All day. I'm always looking.
Em 2008 eu tinha 24 anos e pensava que já sabia tudo sobre futebol. Era um adepto informado, atento à história, plenamente consciente da evolução física do futebol. Achava que era preciso jogar bem, sim, mas que isso já não chegava. Era preciso ser forte, alto, duro, era preciso ganhar os duelos todos. O futebol tinha evoluído para uma idade mais avançada, robotizada. Kaká e Cristiano Ronaldo eram super-jogadores não pelos seus pés, mas, sobretudo, pelos seus corpos de atleta. Até que tu, Xavi Hernández, me ensinaste que não.
Até ao Europeu de 2008, Xavi era para mim - e penso que para todos - o homem que falhou na substituição de Guardiola. Ninguém ousaria dizer que era mau, mas não era Pep. Guardávamos na memória aquele Barcelona-Valência onde o Barça rodava a bola à volta da área che e Pep, em vez de continuar a rodar o jogo da esquerda para a direita, faz um passe mortal para o meio e descobre Kluivert, que fuzila o guarda-redes. Kluivert corre imediatemente para Pep que lhe aponta a bochecha, pedindo um beijo de agradecimento. Guardiola era inigualável, um cavalheiro, um intelectual. Xavi era uma imitação.
A Espanha de 2008 fez o seu jogo perfeito contra a Rússia, nas meias-finais. Foi um banho, uma aula, a primeira lição. Mas foi na final, com 24 anos, que eu percebi que estava na presença de uma inteligência superior. A Espanha ganha 1-0 à Alemanha (assistência de Xavi) e pode ganhar o seu segundo Europeu. Até aos 24 anos, todas as equipas que eu tinha visto a ganhar em momentos decisivos, por muito superiores ao seu adversários que fossem, encolhiam-se. Era uma coisa normal, explicável por psicologia básica: estás a ganhar e vais defender essa vantagem. E defender significava recolheres. No futebol da primeira década de 2000, dos altos, fortes e duros, nada mais normal do que suportar estoicamente bolas bombeadas pelo adversário a quem se cedia a posse porque se estava a ganhar. Até que, com 24 anos, eu aprendi a ver futebol de maneira diferente: com o jogo a acabar, Xavi recolhe a bola no meio-campo alemão. E em vez de se esconder ou de chutar contra o alemão e ganhar lançamento, esperou calmamente por Cazorla e Iniesta. E tabelou. Pôs a bola no sítio onde queria que os companheiros estivessem. "Põe-te aí." - parecia ordenar, como um jogador de xadrez que coloca as peças. Mexeu-se para o espaço livre como quem diz "Põe aqui. Estão a ver como é fácil?". E, com um minuto para acabar o Europeu, a Espanha defendeu com a bola e acabou a jogar na área alemã, quase fazendo o segundo. Lembro-me perfeitamente de dizer ao meu pai "Nunca vi isto na vida". Felizmente para mim e para o futebol, tinha acabado de começar. Foram anos magníficos.
Ao lado de Iniesta, com os seus pés de ouro e com o pontapé decisivo no Mundial de 2010, e ao lado de Messi, para mim o melhor da história, Xavi parecia apenas um apêndice. Essencial, mas nunca a estrela mais brilhante. São dele as assistências para Torres na final do Euro 2008, para Puyol nas meias de 2010, para Villa nos oitavos de 2010 contra Portugal e para Jordi Alba na final do Euro 2012. Marcou o primeiro da manita ao Madrid, pôs a bola na cabeça de Puyol no 1-2 do 2-6 no Bernabéu e na cabeça de Messi na final da Champions em Roma contra o Manchester United. Quase nada. Mas fez-nos quase acreditar que não era imprescindível. Afinal, tudo o que fazia era receber e dar, não é verdade? Punha aquele ar sério de quem não tinha feito nada, cara fechada enquanto Puyol apertava com força a braçadeira e Casillas levantava as taças. Xavi gozava por dentro sabendo que, no fundo, ele é que os punha ali. Estão a ver como é fácil? Um general que não era o mais alto, o mais forte, o com melhores pés. Era só mais inteligente.
Xavi Hernandéz, que eu tristemente só comecei a dar valor em 2008, quando já era um jogador mais que experiente, foi a maior aula do futebol moderno. Explicou-nos, com o seu futebol, que estávamos todos enganados e que não era preciso ser alto nem bruto nem saltar muito alto. Havia que pensar antes, isso sim. E não bastassem as suas aulas em campo, deu entrevistas maravilhosas à Panenka, ao Guardian, cujas citações começam e acabam este texto, e ainda escreveu uma crónica para o El País sobre a morte de Aragonés. Guardiola já brilhava no banco quando nos apercebemos que talvez Xavi, enquanto futebolista, fosse Pep refinado.
O Mundial de 2014, delicioso até agora, torna-se desde já mítico por ser a mais que provável despedida de Xavi dos grandes palcos. Um homem assim, que mudou o jogo, devia sair pela porta grande. Quanto a saídas lembro-me sempre de Michael Jordan - para mim o melhor desportista da história. O último ponto de Jordan é um deprimente lance livre pelos Washington Wizards no seu segundo e escusado regresso. Não que belisque em nada a sua carreira, mas foi completamente escusado. A última jogada de Jordan pelos Bulls tinha sido épica. Perdiam por 3 contra os Utah Jazz no jogo 6 da final e Jordan marca um lançamento com cerca de 20 segundos para jogar. A ganhar por 1, os Jazz metem a bola em Karl Malone, a sua estrela maior. Jordan rouba-a sem o deixar lançar e não pede desconto de tempo. Um para um, finge que arranca para o cesto, o adversário recua e escorrega. Jordan eleva-se e o tempo pára. Bola dentro, um ponto de avanço. Stockton falharia o triplo decisivo e Jordan conquistaria o seu sexto anel. Era a saída perfeita, heróica, como o Deus que foi. O regresso pelos Wizards, para mim, nunca existiu.
Xavi devia, como Jordan, ter saído em grande. Depois daquela assistência teleguiada para Jordi Alba, em Kiev, devia ter renunciado à selecção. Tipos assim não podem sair pela porta pequena. O seu último momento tem que ser mítico. Como o regresso aos Wizards de Jordan, para mim o Mundial de 2014 de Xavi não existiu. Ficará sempre presente aquela primeira aula de 2008 e tudo o que se seguiu desde então.
Este texto é o meu agradecimento. Até em Madrid se estende a homenagem no merenguíssimo As: "Esto duró lo que duró Xavi Hernández". Foi o melhor médio centro que vi na minha vida. Melhor que Redondo, Guardiola, Deschamps e Pirlo. Admito que a opinião é discutível, mas este foi o homem que, na minha idade adulta, me ensinou a ver futebol de outra maneira. Tu sim, eras o puto amo, o cérebro maior do melhor futebol da história.
7 Ligas, 2 Taças, 3 Champions, 2 vezes campeão do mundo por clubes, 2 vezes campeão da Europa por selecções e Campeão do Mundo. Mas mais do que isso, um futebol diferente. E não há Bola de Ouro que supere isso. Aliás, se ta tivessem dado, suponho que a ias receber e passar logo.
Do you see yourself as a defender of the faith? An ideologue?
terça-feira, 17 de junho de 2014
Para a M., que quase foi do Porto
Quem pensa que a dificuldade de ter um marido benfiquista passa só por gostar muito de uma pessoa que era capaz de ceder o lugar num autocarro cheio para o Maxi Pereira se sentar, engana-se. É que eu cresci numa família em que toda a gente está do lado certo da paixão clubística e, portanto, há problemas sérios como "De que clube vai ser esta criança?" que nunca tive de enfrentar. Parecendo que não, influencia muito um bebé que todos os pais, irmãos, tios, primos, avós, vizinhos e porventura conhecidos sejam do mesmo clube e, sendo assim, todas as prendas, músicas de embalar e primeiras palavras sejam naturalmente das mesmas cores. Não só isto não me choca nada, como estou convencida que é o ambiente ideal para uma criança desenvolver valores importantes como "Ou és do mesmo clube que nós, ou então vais ter de procurar outra família".
O M. trouxe-me outra família, que eu adoro e que, apesar de claramente não me colocar tanta comida no prato quando o FCPorto ganha, me trata muito bem. E é nessa família que me deparo, pela primeira vez, com crianças a crescer sema pressão o carinho da orientação clubística sempre no mesmo sentido. Estranhamente para mim, a primeira palavra da nossa sobrinha mais velha não foi "bola", ou "golo", ou "Pôto", que eram os conjuntos de duas sílabas que eu achava que toda a gente tentava ensinar aos pequenos seres humanos. A M. lá foi crescendo à sua maneira, feliz, maravilhosa, querida e fofinha, como uma princesa, sem nunca ligar muito àqueles tios que de vez em quando apareciam e a obrigavam lhe pediam com muito jeitinho para levantar um braço no golo do Porto ou correr para celebrar um golo do benfica.
As dúvidas surgiram por volta dos 4 anos, quando a M. começou a dizer que era do Porto e do benfica, para nos agradar aos dois. Como somos duas pessoas inteligentes e racionais, dissemos-lhe sempre que é impossível ser dos dois clubes ao mesmo tempo e que tinha de se decidir.A pressão O carinho começou a intensificar-se quando, aproveitando aquela fase de menina que vive num mundo de princesas e castelos, o M. lhe mostrou que o benfica tinha uma camisola cor-de-rosa e eu e a mãe a tivemos de convencer que, por dentro do azul e branco às riscas, o equipamento do FCP era cor-de-rosa, mas com brilhantes! Mal sabíamos, claro, que a fantasia um dia não estaria assim tão longe da realidade, mas adiante.
Na verdade, a querida M. sempre tendeu muito para os vermelhos (talvez por ser a cor mais próxima do rosa... percebem, pessoas que desenharam o alternativo deste ano e pessoas que eventualmente o vão comprar?). Durante algum tempo, e porque somos as melhores amigas, gostou de me agradar com uma suposta tolerância ao Porto, mas isso nunca chegou a preocupar o tio M., que às escondidas lhe ensinava músicas que depois eu a apanhava a trautear. Porque as pessoas do benfica são assim: más, porque actuam na sombra e ganham campeonatos nos túneis ou no Algarve, influenciando os árbitros, ou as sobrinhas, sem ninguém a ver. Mas isso eu ensinarei mais à frente à M., quando ela consolidar as ideias do bem e do mal, que é como quem diz do Porto e dos outros todos.
Quando a M. me disse que era só do benfica não consegui evitar ficar triste. Como é que alguém tão doce, tão lindo, tão inteligente, pode torcer pelo benfica? Mas enfim, eu casei com um benfiquista, por isso estas são perguntas às quais ando há muitos anos a tentar responder. Consegui, ainda assim, continuar a gostar da M. da mesma maneira, o que, reparem, mostra como sou uma pessoa espectacular, mas o assunto ganhou outros contornos quando ela se tornou um pequeno Rui Gomes da Silva. Em todas as vitórias, campeonatos e outros títulos ganhos pelo FCPorto nos últimos anos, eu tentei explicar à M. que ainda estava a tempo de mudar para ser mais feliz. Mas ela, mais fiel ao clube do que a todas as regras da lógica, respondia-me sempre: "Isso é mentira. O benfica é que ganha sempre".
E até parece um argumento fácil de contrariar, porque o benfica vai-se a ver e não ganha sempre. Mas experimentem vencer uma criança com factos quando ela coloca aquele ar impenetrável, de quem tem tanta certeza que o benfica ganha sempre como que a Cinderela vai casar com o príncipe. Felizmente, a M. aprendeu a ler muito cedo e então eu pude tomar a atitude mais adulta. Peguei num jornal desportivo, apontei para a tabela classificativa e perguntei-lhe, num tomagressivo descontraído: "Vá, lê lá quem vai em primeiro". Podia ter sido este o meu momento de glória, aquele em que a M., ao ver FCPorto ali em cima, me abraçaria e me diria "Leva-me já ao Estádio do Dragão, não quero ficar mais aqui". Teria sido lindo! Mas não.
"É o Porto... mas o benfica não vai em último!" Portanto, estamos conversadas. A minha sobrinha só admitiria trocar de clube se o benfica fosse em último. E, por muito que eu queira acreditar que um dia o mundo vai ser um local perfeito, onde não há fome nem guerra e o benfica vai em último, achei que estava na altura de desistir. A M. é do benfica e eu juro que não gosto menos dela por isso. O problema, como sabemos, vai ser dela quando descobrir que esteve tão perto de ser de um clube decente.
Talvez ela me venha a culpar porque não aproveitei quando, depois daquele golo do Kelvin que tento encaixar em todos os meus textos, estávamos as duas a brincar e, num programa desportivo que estava a dar na televisão, um comentador diz "Porque o benfica perdeu o campeonato, perdeu a Liga Europa, perdeu a taça, perdeu tudo" e a M., que estava de costas, dá um salto e fica de boca aberta a olhar para a televisão. "C., isto é verdade?", perguntou-me, no seu primeiro duro contacto com o mundo real. E eu, que fui mais tia do que super dragona naquele momento, infelizmente, disse-lhe só "Sim", em vez de lhe enumerar todo o palmarés do FCPorto e de lhe revelar logo ali todos os enganos e falcatruas que os lampiões inventam para convencerem as crianças a torcer pelo benfica. "Mas o meu pai disse-me que o benfica ganha sempre..." Foi ali, aos 6 anos, que a M. descobriu que os adultos não são de confiança, nem que sejam os nossos pais e, claro, muito menos se forem do benfica.
A M. tem agora 7 anos. Já não fala em princesas, já nem sequer gosta de cor-de-rosa. Já passou essa fase, assim como a de me tolerar enquanto 100% portista. Ao meu lado, vai cantando com desprezo a sua versão do cântico "slb... slb... campeões da Liga Europa...", sem saber por que razão eu me estou a rir com aquilo e o tio M. a ficar triste.
"- C., podias ser do Porto, mas gostar do benfica também.
- Não, M., ninguém é do Porto e do benfica ao mesmo tempo.
- Então já sei! Podes só gostar do benfica porque eu e o M. somos do benfica, mas não ficar mesmo a torcer pelo benfica".
Notem que a nossa sobrinha já tem uma dose de humanidade incrível, que lhe permite sugerir que eu podia abdicar de um pouco do meu ódio ao benfica por amor ao meu marido e a ela própria. A pequena M. não vai conseguir o que quer, mas nem por isso desiste.
"- C., por que é que tu não és do benfica?
- Porque o benfica é mau.
- Não é nada. O benfica é o melhor.
- Não é nada, isso é mentira. O Porto é o melhor.
- C., (ar benevolente, de quem está a dizer aquilo só para me ajudar...), se o benfica não fosse o melhor, tu achas que eu era do benfica?"
Mesmo estando do lado errado, tenho de admitir que estou orgulhosa, porque não há factos, derrotas ou números nenhuns que abalem a crença da M. no seu clube. A nossa sobrinha já é uma adepta como nós. Um bocadinho mais convencida, vá.
O M. trouxe-me outra família, que eu adoro e que, apesar de claramente não me colocar tanta comida no prato quando o FCPorto ganha, me trata muito bem. E é nessa família que me deparo, pela primeira vez, com crianças a crescer sem
As dúvidas surgiram por volta dos 4 anos, quando a M. começou a dizer que era do Porto e do benfica, para nos agradar aos dois. Como somos duas pessoas inteligentes e racionais, dissemos-lhe sempre que é impossível ser dos dois clubes ao mesmo tempo e que tinha de se decidir.
Na verdade, a querida M. sempre tendeu muito para os vermelhos (talvez por ser a cor mais próxima do rosa... percebem, pessoas que desenharam o alternativo deste ano e pessoas que eventualmente o vão comprar?). Durante algum tempo, e porque somos as melhores amigas, gostou de me agradar com uma suposta tolerância ao Porto, mas isso nunca chegou a preocupar o tio M., que às escondidas lhe ensinava músicas que depois eu a apanhava a trautear. Porque as pessoas do benfica são assim: más, porque actuam na sombra e ganham campeonatos nos túneis ou no Algarve, influenciando os árbitros, ou as sobrinhas, sem ninguém a ver. Mas isso eu ensinarei mais à frente à M., quando ela consolidar as ideias do bem e do mal, que é como quem diz do Porto e dos outros todos.
Quando a M. me disse que era só do benfica não consegui evitar ficar triste. Como é que alguém tão doce, tão lindo, tão inteligente, pode torcer pelo benfica? Mas enfim, eu casei com um benfiquista, por isso estas são perguntas às quais ando há muitos anos a tentar responder. Consegui, ainda assim, continuar a gostar da M. da mesma maneira, o que, reparem, mostra como sou uma pessoa espectacular, mas o assunto ganhou outros contornos quando ela se tornou um pequeno Rui Gomes da Silva. Em todas as vitórias, campeonatos e outros títulos ganhos pelo FCPorto nos últimos anos, eu tentei explicar à M. que ainda estava a tempo de mudar para ser mais feliz. Mas ela, mais fiel ao clube do que a todas as regras da lógica, respondia-me sempre: "Isso é mentira. O benfica é que ganha sempre".
E até parece um argumento fácil de contrariar, porque o benfica vai-se a ver e não ganha sempre. Mas experimentem vencer uma criança com factos quando ela coloca aquele ar impenetrável, de quem tem tanta certeza que o benfica ganha sempre como que a Cinderela vai casar com o príncipe. Felizmente, a M. aprendeu a ler muito cedo e então eu pude tomar a atitude mais adulta. Peguei num jornal desportivo, apontei para a tabela classificativa e perguntei-lhe, num tom
"É o Porto... mas o benfica não vai em último!" Portanto, estamos conversadas. A minha sobrinha só admitiria trocar de clube se o benfica fosse em último. E, por muito que eu queira acreditar que um dia o mundo vai ser um local perfeito, onde não há fome nem guerra e o benfica vai em último, achei que estava na altura de desistir. A M. é do benfica e eu juro que não gosto menos dela por isso. O problema, como sabemos, vai ser dela quando descobrir que esteve tão perto de ser de um clube decente.
Talvez ela me venha a culpar porque não aproveitei quando, depois daquele golo do Kelvin que tento encaixar em todos os meus textos, estávamos as duas a brincar e, num programa desportivo que estava a dar na televisão, um comentador diz "Porque o benfica perdeu o campeonato, perdeu a Liga Europa, perdeu a taça, perdeu tudo" e a M., que estava de costas, dá um salto e fica de boca aberta a olhar para a televisão. "C., isto é verdade?", perguntou-me, no seu primeiro duro contacto com o mundo real. E eu, que fui mais tia do que super dragona naquele momento, infelizmente, disse-lhe só "Sim", em vez de lhe enumerar todo o palmarés do FCPorto e de lhe revelar logo ali todos os enganos e falcatruas que os lampiões inventam para convencerem as crianças a torcer pelo benfica. "Mas o meu pai disse-me que o benfica ganha sempre..." Foi ali, aos 6 anos, que a M. descobriu que os adultos não são de confiança, nem que sejam os nossos pais e, claro, muito menos se forem do benfica.
A M. tem agora 7 anos. Já não fala em princesas, já nem sequer gosta de cor-de-rosa. Já passou essa fase, assim como a de me tolerar enquanto 100% portista. Ao meu lado, vai cantando com desprezo a sua versão do cântico "slb... slb... campeões da Liga Europa...", sem saber por que razão eu me estou a rir com aquilo e o tio M. a ficar triste.
"- C., podias ser do Porto, mas gostar do benfica também.
- Não, M., ninguém é do Porto e do benfica ao mesmo tempo.
- Então já sei! Podes só gostar do benfica porque eu e o M. somos do benfica, mas não ficar mesmo a torcer pelo benfica".
Notem que a nossa sobrinha já tem uma dose de humanidade incrível, que lhe permite sugerir que eu podia abdicar de um pouco do meu ódio ao benfica por amor ao meu marido e a ela própria. A pequena M. não vai conseguir o que quer, mas nem por isso desiste.
"- C., por que é que tu não és do benfica?
- Porque o benfica é mau.
- Não é nada. O benfica é o melhor.
- Não é nada, isso é mentira. O Porto é o melhor.
- C., (ar benevolente, de quem está a dizer aquilo só para me ajudar...), se o benfica não fosse o melhor, tu achas que eu era do benfica?"
Mesmo estando do lado errado, tenho de admitir que estou orgulhosa, porque não há factos, derrotas ou números nenhuns que abalem a crença da M. no seu clube. A nossa sobrinha já é uma adepta como nós. Um bocadinho mais convencida, vá.
sábado, 7 de junho de 2014
Mundial à Benfica
Facto chocante 1: prefiro que o Benfica tenha um bom lateral-esquerdo na próxima época a que Portugal vença 3-0 a Alemanha.
Itália-Argentina, meias-finais do campeonato do Mundo. Maradona e Caniggia de um lado, uma Itália com Baggio, Baresi, Vialli e Zenga do outro. Local? Nápoles. Na dramática decisão por grandes penalidades, reza a lenda que quando Maradona marcou o seu penalty se ouviu sotaque napolitano nos festejos do golo. Pelo vídeo de youtube, parece-me que, pelo menos, o grito é evidente.
Ninguém pode censurar os napolitanos: vítimas de todos os ataques de toda a Itália, num tratamento praticamente racista, Maradona dera-lhes a doce vingança de se vingarem de todo o norte. Maradona vencera, por exemplo, a Juventus de Platini. Podia uma selecção nacional, no campeonato do mundo disputado em sua casa, ser mais importante do que isso? Claro que não.
Facto chocante 2: prefiro que o Mangala, Fernando e Jackson sejam vendidos e que os substitutos não estejam à altura do que Portugal passe a fase de grupos do Mundial.
Um napolitano não podia não torcer por Maradona como nenhum adepto se esquece do seu clube no Campeonato do Mundo. Eu adoro Mundiais porque sou um devoto. Comecei com o Itália 90, lembro-me com exactidão de Romário em 94 e sofri com a Argentina de 1998 (maldito sejas, Bergkamp!) e daí adiante. Mas nunca a magia do Mundial me impediu de ver o Mundial como benfiquista. Em 1994 fiquei chateado com a expulsão de Thern nas meias e quis sempre a eliminação da Bulgária de Balakov e Kostadinov. Em 98 não queria que Doriva fosse campeão do mundo por ser do Porto, em 2006 festejei mais o penalty do Simão contra a Inglaterra do que todos os outros golos. Eu, como os napolitanos, como os restantes fanáticos, não me esqueço de quem sou.
Facto chocante 3: trocava a presença de Portugal neste Mundial e nos próximos quatro se me garantissem que o Benfica teria um substituto à altura de Garay na próxima época.
Vou-vos ser sincero: já me passou a fase em que era anti-selecção só para chatear. A selecção nacional é-me indiferente. Não o digo por mal, não o digo por provocação, digo-o porque o sinto. Não sofro nem me importo com a selecção portuguesa (descobri, às 11 da manhã de hoje, que Portugal tinha jogado com o México ontem) e acho que é porque não há espaço no meu coração futebolístico para isso. Para mim, ser do Benfica veio colado à minha existência - eu não saberia viver sem o Benfica e não tenho dúvidas que não veria razão na continuação da espécie humana no planeta Terra se o Sport Lisboa e Benfica cessasse de existir. Eu nunca senti isto pela selecção e isto não é algo que se possa ensinar.
Facto chocante 4: a decepção do Portugal-França do Euro 2000, a melhor selecção portuguesa que vi e por quem estava a torcer, não se compara à minha dor com as vergonhosas prestações do andebol do Benfica nos últimos anos.
O que eu quero que a selecção portuguesa ganhe - quando a selecção é futebolisticamente interessante e eu percebo que vai entrar para a história (2000 e 2004) é, no máximo, comparável ao que eu sofro quando vejo um grande jogo de duas equipas estrangeiras e escolho torcer por uma. Eu sei, parece estúpido, mas é verdade. Uma pessoa às vezes empresta o seu apoio a equipas com as quais nada tem a ver (torci, avidamente, pelo Alavés na final da Taça UEFA contra o Liverpool). A selecção, sem ser tão distante como o Alavés, não consegue fazer mais do que isso. Periodicamente, sobretudo no Euro 2000 e no Inglaterra-Portugal de 2004, emprestei o meu apoio à selecção portuguesa. Mas é um empréstimo, uma coisa de curta duração, sem o risco de cicatrizes emocionais.
Facto chocante 5: preferia, na ordem de 821647523178351835406787565223186423653278 vezes mais, que o Benfica ganhasse o primeiro jogo do campeonato (nem que seja contra o Belenenses, em casa) do que Portugal seja campeão do mundo.
Ser adepto é uma paixão louca, uma devoção praticante. Eu sou do Benfica todos os dias, todos os segundos, até nesta altura ridícula do ano em que o Benfica não joga. Sou do Benfica desde sempre, desde que me lembro e tenho a certeza que a minha vida vai ser isto. Não faz sentido sentir dois amores assim. Não faz sentido ter dois clubes. Não se pode ser de dois, não dá. Apoiar uma equipa não é o mesmo que apoiar uma organização não governamental com um postal no Natal, envolve um sacrifício, uma entrega emocional que certos familiares mais distantes não têm direito. Entregar esse carinho a uma selecção que joga de vez em quando é o mesmo que eu dizer que gosto tanto dos meus primos que vi duas vezes na vida do que da minha mulher.
Facto chocante 6: eu preferia que a camisola alternativa do Benfica fosse branca (a minha preferida) a que a prestação de Portugal no Mundial fosse considerada a melhor de sempre da selecção.
Como é que, então, eu vivo um Mundial? De duas maneiras: a primeira com sentido histórico. Quero episódios como o de Rijkaard e Voeller em 1990. Quero ironias poéticas como a bola da Inglaterra que dava o 2-2 contra a Alemanha em 2010 e que entrou claramente, mas não foi assinalada, vingando (um pouco) a injustiça de 1996. E gostava que Messi fosse campeão do Mundo para a que a minha geração, que não viu Maradona em 1986, visse a consagração de um monstro.
A segunda maneira é a do benfiquista. As alegrias de Garay e Enzo serão as minhas e espero que Rojo, Jackson e Mangala sejam raptados numa favela manhosa de São Paulo. Se Portugal for campeão do mundo que seja com 3 golaços do Ruben Amorim, todos com assistência do André Almeida, numa vitória por 3-2 com golos na própria de William Carvalho e Bruno Alves. Ficava contente se Portugal fosse eliminado nos penalties com o Beto a ser expulso por se adiantar. Sempre que Maxi Pereira for a uma bola, estarei por ele.
Facto chocante 7: eu preferia que o Benfica ganhasse o próximo campeonato nacional a que Portugal ganhasse, consecutivamente, todos os Mundiais e Europeus em todo o meu tempo de vida.
Imagino um Portugal-Argentina neste Mundial. Garay avança pelo meio campo e contorna facilmente a pressão de Cristiano Ronaldo. Encosta em Enzo que acelera e passa William Carvalho com a mesma facilidade que Markovic passou por ele em Alvalade. Faz uma cueca a Moutinho e tabela com Messi, aparece isolado, senta Patrício e elimina Portugal do Campeonato do Mundo. Talvez se ouvisse sotaque português no festejo do golo. O meu, pelo menos, seria nítido. Afinal, era golo do Benfica.
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