terça-feira, 9 de setembro de 2014

Época de exame

Eu fui um bom aluno. Na faculdade tinha dois objectivos: acabar o curso com uma boa média - coloquei a meta nos 16 valores e atingi-a sem grandes problemas - e nunca deixar nada para Setembro porque isso me ia lixar as férias. Palavras sábias que alguém uma vez disse ao meu pai: "Ser o melhor aluno dos bebâdos e o mais bebâdo dos melhores alunos". Este objectivo não consegui, mas pronto.

Como aluno de 16, havia vários tipos de exame. Havia os exames em que tinha estudado para mais do que 16, em que o exame era fácil e eu sabia que ia ter boa nota antes de começar. Uma pessoa está plenamente confiante, não há discussões interiores sobre a matéria, aquilo já faz parte de nós. Como, a certa altura, o Benfica de 2013/2014. Em Fevereiro de 2014, quando o Benfica atropelou o Sporting no Estádio da Luz, o Benfica sabia a matéria de cor. Era o aluno sem medo, perfeitamente capacitado do que sabia, que nem imaginava que podia ter dúvidas. Os jogadores abordavam os jogos e os lances sem colocarem a hipótese de não os ganharem. Estavam concentrados, e respondiam a perguntas aparentemente fáceis como "Rio Ave em casa", sem se esquecerem daquela coisinha que o professor tinha dito na aula e que ia ser descontada se não estivesse lá. Não havia engonhanços, ronha, as respostas eram claras, precisas, de quem sabia em que página do livro estava a resposta e ainda tinha preparado uns pozinhos para requintar a resposta. Em perguntas de alínea, como "Guimarães em casa", "Braga fora", o Benfica foi cuidadoso e humilde. Leu as alíneas todas para ir cortando as que tinha a certeza que estavam erradas e assinalou com cuidado, sem arriscar. O Benfica intramuros de 2013/2014, na segunda metade da época, foi o aluno de 20, o menino bonito em que um professor e um adepto se podia orgulhar e a quem se augurava um futuro risonho.

Houve exames que eu odiei fazer. Não gostava da cadeira (o curso de medicina é longo e tem várias coisas que depois nos esquecemos e que nunca vamos usar na vida. Sei mesmo muito pouco - nada? - de otorrinolaringologia, por exemplo), não tinha estudado, enfim. Eram cadeiras que eu fazia, mas em que não me aplicava a 100%. Não era o aluno modelo. E o Benfica, várias vezes, não o é. A preparação é deficiente, não se estudou o suficiente, a coisa vai correr mal. E aqui depende muito do professor que está do lado de lá. Num exame oral é preciso sorte com o professor, com a maneira como ele acordou, com as perguntas, com o facto de ter ou não simpatizado connosco. Uma vez fiz uma oral com um médico que tinha estado de urgência, sem dormir. Acho que se tivesse falado do Benfica em vez de medicina teria tido a mesma nota. E fiz orais com professores brilhantes, inteligentes, capazes de perceber só pela maneira como começávamos a frase se sabíamos ou não do que estávamos a falar (uma saudação à minha tutora de pediatria). Ou seja, muito do sucesso do Benfica depende do Porto (e vice-versa). Quando o Porto é implacável (2010), um Benfica mal preparado só vai levar sovas. Um Porto sem dormir, como o de 2005, foi vencido por um Benfica em que o primeiro médio suplente era o Bruno Aguiar.

Depois havia os exames dúbios. Aqueles onde eu tinha estudado, mas sabia que não eram fáceis. Os exames onde eu gostava da matéria, mas não sabia tudo. Eram as épocas de exames tramadas, com muitos exames em cima uns dos outros,  às vezes na época de Natal, quando eu ia a casa visitar a família. E, nestes exames, as coisas eram imprevisíveis. Tudo é fácil quando se sabe a matéria toda - não há professor nem Estoril que nos tire dois pontos - e tudo é também fácil quando sabemos que não estamos preparados: não há ilusões e vamos só tentar não baixar muito a média e recuperar no próximo. Mas eram estes exames intermédios que eram uma incógnita e que puxavam pelos alunos. Era preciso ser-se esperto, concentrado e ter alguma sorte. Sinceramente, nunca fui suficientemente calmo para ser consistentemente bom nestes exames e, mais desafortunadamente, o Benfica também não. Um exame em que não soubéssemos tudo obrigava a ser inteligente na maneira como respondíamos com confiança, escondendo a matéria que não sabíamos. Era preciso trazer o exame até à nossa zona de conforto, ser inteligente e usar cada bala (os alunos de 20 acabam o exame com pena de não terem mostrado tudo o que sabiam). O Benfica nunca é bom nestes exames. Em anos em que o Porto é do nosso campeonato, nem muito superior nem muito inferior, o Benfica não tem sabido fazer o exame com inteligência (2011/2012), ou não tem tido sorte (2012/2013).

O Benfica de 2014/2015 tem o mesmo treinador de há 5 anos, aguentou Gaitan, Enzo Perez, Salvio, Lima e Luisão. Mas não tem Garay nem grandes avançados. É o bom aluno, o aluno de 16, mas o aluno que não estudou tudo. E tem um professor que sabe a matéria, ainda que haja lacunas. Para ser campeão, o Benfica tem que ser inteligente nas respostas, tem que estar sempre concentrado, tem que puxar persistentemente os jogos para aquilo em que faz melhor. Não pode entrar a achar que não vai ter boa nota, não pode achar que isto é um exame para 20 valores. É um exame duro, no qual é preciso sorte, é preciso que o professor falhe as perguntas e é preciso muita, muita concentração. 2014/2015 é um teste de maturidade, de mentalidade competitiva, de saber sofrer. 2013/2014 foi de cruz, 2014/2015 é uma pergunta de desenvolvimento.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

2014/2015

Perdon a todos los jugadores y a el entrenador del Oporto, pero voy a escribir en portugués porque mi español no es todavia perfecto

Está quase. Vem aí. Preparados? Vai começar uma nova época e nenhum de nós consegue prever se vamos ganhar ou perder tudo, se temos treinador ou contratador de espanhóis, se há uma equipa ou apenas um plantel. É está a beleza da coisa, certo? A expectativa, a ansiedade, o incalculável. Então vamos lá, vamos a isso.

O FCPorto mudou muito em dois meses. Saíram Mangala e Fernando, só o futuro nos dirá o quanto perdemos Helton e graças a nosso senhor Pinto da Costa por agora mantemos Jackson. Afastámos todos os Licás e Josués (moços, nada contra, mas isto é outro nível) e fomos buscar Tellos e Olivers. Temos treinador. Não faço ideia se foi aposta certeira ou não, se seremos tiki-taka ou flop-flop, mas, pela primeira vez em mais de um ano que nos pareceu uma eternidade, vejo uma ideia a ser efectivamente treinada.

Uma ideia. Não era pedir muito, pois não, treinador da equipa que traja de amarelo (sem ser o alternativo do sportem, desculpem a confusão)? Enfim, adiante, que não sou de chorar sobre Fonsecas derramados. O FCPorto da pré-época pelo menos apresentou-se aos adeptos. É isto que eles querem. Bola no pé, muita calma e cabeça no sítio. Só de pensar no duplo pivot, quase que choro a escrever isto, de tão simples que é.

Mas uma ideia e um conjunto de jogadores de qualidade não fazem uma equipa vencedora. São um bom princípio, é verdade, mas não chega. Até porque estamos a falar do FCPorto. E não sei se nuestros hermanos já terão percebido o que isso significa. Nós queremos jogar bem, queremos que eles tenham sucesso e possam sonhar com grandes carreiras, mas, sobretudo e até apenas, nós queremos é ganhar. O mais rapidamente possível.

Sim, eu sei que um treinador inexperiente nestas lides e jogadores muito jovens não são o cenário ideal para as vitórias imediatas, mas, se eu escrevesse que eles têm todo o tempo do mundo para mostrar o que valem, estaria a trair o FCPorto com o qual cresci. Os nossos adversários, ainda inebriados com os títulos aos quais não estão habituados (aqui incluo os verdes, que não ganharam nada mas ostentam aquela aura de vitória simplesmente por estarem vivos), dizem que, se não ganharmos o campeonato este ano, é o fim do mundo. Tentam, desta forma, colocar-nos uma pressão enorme desde o primeiro dia.

O que eles não percebem é que têm toda a razão. No FCPorto, já ninguém anda a celebrar o penta, o duplo Mourinho e o poker de Villas Boas (o quê?? Quatro títulos na mesma época? Isso não é só do benfica??). Jardel, Deco e Falcao são passado. O golo do Kelvin parece que foi há 92 anos. É exactamente essa a pressão que nos colocamos, que nos torna tão diferentes de vocês e, em último caso, que nos faz ganhar mais. No FCPorto, não sabemos nem aceitamos perder. Nunca. Em nenhuma situação. E o ano passado perdemos. Com estrondo, aliás. Como nunca vimos. Daí esta exigência, esta vontade, esta fome.

Ninguém, a não ser os portistas, sabe o que isto é. Queremos tanto que comece, depressa, já não aguentamos mais! Neste momento, ao contrário da grande maioria dos arranques a que o meu clube me habituou nos meus 27 anos, tenho saudades de que as coisas nos corram bem. Tenho saudades de ver entrar 11 jogadores em campo com um espírito de missão em prol da minha, da nossa, felicidade. Tenho saudades de ganhar. Porque, no FCPorto, uma época só com uma Supertaça é mesmo o fim do mundo.

Que volte tudo ao normal. Já.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Até amanhã, camarada

O José Cardoso Pires dizia que não era do Benfica, era do Nené - António Lobo Antunes

Eu devia estar a escrever sobre a terrível pré-época do Benfica, sobre a falta de um guarda-redes, de um central, de um trinco e até de um avançado. Aliás, quando disse à C. que ia escrever sobre o Cardozo, ela até soltou um "Outra vez?", talvez com razão. A verdade é que já escrevi duas vezes sobre Cardozo e nem sequer vos vou prometer que é a última. Se eu escrevesse um texto por cada vez que me sinto agradecido ao Tacuara, era provável que não fizesse mais nada na minha vida. 

O futebol mudou e os nossos ídolos ficaram com a nossa inocência, algures lá atrás, perdida no tempo. O amor à camisola é uma expressão em desuso, é uma fantasia de uns totós que ainda vão ao estádio. Hoje, o futebol (e a vida) é uma combustão muito rápida: os jogadores chegam, metem o emblema no Instagram, dão uma conferência a dizer que sempre ouviram falar no Benfica, têm um estandarte ao segundo jogo, há quatro bandeiras do seu país na central ao terceiro, marcam um golo e são uns heróis e no próximo mercado estão a fazer o mesmo num clube qualquer, sem metade da história do Benfica, mas que lhe paga a quadruplicar. Eu chego a esquecer-me que jogadores fabulosos, como Nemanja Matic, estiveram na Luz: é tudo muito depressa. A culpa é nossa, que pactuámos com isto. Eu, por exemplo, fico logo fã de qualquer gajo que faça bem a transição defensiva (num dos meus dias mais desvairados sou capaz de por o Ramires no melhor onze do futebol do século XXI). Eu, sócio pagante, nem me apercebi que o meu clube já gastou cerca de vinte (!) milhões de euros em jogadores sem conseguir um reforço sem ser Derley. A máquina tritura-nos.

No meio disto, desta confusão toda, com uma pré-época tenebrosa a desenrolar-se, anuncia-se a saída de um ídolo da Luz: Oscar Cardozo. O nosso Tacuara, homem de golos e mais golos, nunca foi consensual. Talvez os maiores aplausos que tenha ouvido na Luz tenham sido na segunda volta de 2013/2014, quando fez os piores jogos vestido à Benfica. Um homem que tantas e tantas vezes nos salvou e foi assobiado, foi aplaudido e incentivado numa fase onde era mais empecilho que o matador ponta de lança que foi, só para que ninguém esqueça, na primeira metade de 2013/2014. 
Uma das coisas mais fantásticas da relação de Cardozo com o Benfica é que sobreviveu ao tempo. Cardozo podia ter-se ido embora na primeira ou na segunda época que fez connosco. Mas não, ficou sete temporadas, número quase irreal nos dias que correm e na realidade do Benfica. Sete, como o número que levava nas costas. Cardozo teve tempo de ser o melhor marcador estrangeiro da história do Benfica, tornar-se o nono (?) melhor marcador do clube de todos os tempos e de inscrever, com letras de ouro e vermelho, o seu nome na história do derby. Com 13 golos aos verdes, Cardozo era já um símbolo de terror. Recordo-me que, o ano passado, naquele 2-0 de banho aos verdes, a Luz praticamente cair quando Tacuara entrou, a poucos minutos do fim. Eles já estavam de rastos, o jogo decidido e o Benfica muito por cima. Mas quando Cardozo se apresentou a arranjar a camisola, junto à linha, todo o estádio achou que íamos marcar mais três ou quatro. Repito, na segunda metade da época, Cardozo era pouco mais que inofensivo, mas sete anos e tantos, tantos golos depois, Cardozo conseguiu aquilo que o futebol moderno parecia fazer impossível: tornou-se um símbolo. E, a ganhar 2-0, com os verdes de rastos, a Luz cresceu porque vinha aí um símbolo de golos, de vitória no derby. Aquele calmeirão podia estar lento e desengonçado, mas aquele sete nas costas já era história.

Essa história vai-se embora. Não vai, sequer, para um Everton, para um Valência ou para qualquer outro clube desses, a milhares de anos da nossa história, mas ainda assim respeitáveis. Não, Cardozo, aquele homem que só de estar prestes a entrar contra o Sporting fazia com que a Luz se sentisse mais forte, vai sair, como se nada fosse. Um homem destes tinha que ter uma saída séria, com agradecimento público de presidente e treinador e com a possibilidade de ser aplaudido de pé pelos adeptos que lhe devem tanto. Um jogador que decidiu ir ao lado do caixão de Eusébio a pé e não no autocarro, com os restantes jogadores. Este homem não é para tratar como os outros, que se despedem no Facebook.
Eu sei, Cardozo hoje já só era isso mesmo - história. Mas a história é para ser respeitada e aplaudida. Cardozo devia sair com cumprimento e vénia de treinador e presidente. E devia ter tido uma saída suficientemente estudada para lhe darmos um último aplauso de pé no estádio da Luz. Eu sei - racionalmente - que tenho que estar mais preocupado com a compra dos 4 reforços que nos faltam urgentemente e com a possibilidade das saídas de Enzo e Gaitan (hoje infinitamente mais úteis que Cardozo), mas vai partir um dos poucos que já merecia mesmo que lhe pedissem a camisola, que merecia um bandeira. 

Eu, ao contrário do José Cardoso Pires, nunca fui do Cardozo. Ele é que decidiu ser do Benfica.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

10 anos do Diário de um Ultra

Um comentário muito simpático no blog lembrou a efeméride: faz hoje 10 - dez! - anos que comecei o Diário de um Ultra. Foi o meu primeiro blog e nasceu na minha fase mais "claqueira". Do Diário vim cá para casa, de onde espero não mais sair. A maior parte dos textos deve já envergonhar-me (é por isso que foram escritos há uma década...), mas a data é para celebrar: faz hoje dez anos que me sentei a escrever pela primeira vez, para vossa manifesta infelicidade.

sábado, 26 de julho de 2014

Questionário para quem assobiou Messi no Dragão

1. O jogo era...
a) de homenagem ao Deco
b) um Real Madrid-Barcelona
c) um anúncio de champôs

2. O Messi interrompeu as férias para...
a) homenagear o nosso Deco
b) matar crianças em Gaza
c) abater o avião na Ucrânia

3. A grande dúvida que te inquieta é: o melhor jogador de todos os tempos é...
a) Vítor Baía
b) Deco
c) Secretário

4. Assobiaste o Messi porque...
a) é a tua forma de ovacionar um astro do futebol mundial
b) pensaste que dessa forma ele podia olhar para ti e tiravas uma selfie
c) és só atrasado mental

5. Preferes assobiar o Messi do que...
a) o treinador que não festejou a nossa Champions de 2004 e que não apareceu na homenagem ao Deco
b) qualquer jogador de uma equipa adversária do FCPorto nos jogos a sério
c) qualquer jogador formado num rival nosso que nos marque golos e nos elimine da Champions

6. Foste ao Dragão porque...
a) as pipocas estavam baratas
b) acabou-te a Coca Cola em casa
c) o que é o Dragão?

7. Quando começar a época, prometes...
a) assobiar da mesma forma todos os adversários do FCPorto
b) ir ao Dragão fazer cenas além de assobiar
c) dedicares-te à pesca desportiva

8. Agora, a frio, és capaz de admitir que...
a) assobiar o Messi num jogo de homenagem ao Deco foi a coisa mais estúpida que já fizeste
b) o FCPorto não merece ter-te como "adepto"
c) não devias ter nascido

9. Não vais ler mais este blog porque...
a) nós somos fãs do Messi
b) não percebes nada disto
c) não tens tempo para mais nada além de ler o livro da mãe do Ronaldo

10. Vá, agora a sério...
a) choraste com o Deco porque não há igual a ele
b) não consegues dormir porque tens saudades do portismo daqueles jogadores
c) nunca mais começa a bola a sério para nos deixarmos destas merdas


terça-feira, 22 de julho de 2014

Vinte anos depois

Passaram vinte anos desde que começou o capítulo mais negro da história do Benfica, ou seja, passaram vinte anos desde a chegada de Artur Jorge como treinador ao Benfica. Há vinte anos, a nação benfiquista assistia à destruição de uma equipa que fora campeã contra todas as previsões e de maneira heróica. O Benfica, numa fase crescente da história do Porto e arruinado financeiramente, desceu o seu nível desportivo para patamares terríveis que nos afundaram anos. Artur Jorge e Manuel Damásio, se o mundo fosse justo, não se podiam aproximar a menos de 50 Km do Estádio da Luz sem lhes cair um balde de estrume em cima.
Passaram vinte anos, vinte anos de trevas, de ruína. Desde aquela noite de Maio em Alvalade e daquelas tardes de uma alegria melancólica de Braga e na Luz, contra o Guimarães (como se toda a gente já soubesse o futuro), que o Benfica se separou de uma glória e de uma aura que nunca o tinham abandonado nos 90 anos prévios. 

As melhores personagens literárias são, para mim, as que têm passado. O Conde de Monte Cristo - o meu romance favorito - é fantástico porque todas as personagens têm uma história. Ou porque foram traídos ou porque foram conspiradores, ou porque amaram quem não podiam amar ou porque beberam demais numa tarde. Em "Vinte anos depois", também romance de Alexandre Dumas, encontramos os três mosqueteiros e D`Artagnan outra vez. O romance, longe de ser genial (Dumas era um boémio que escrevia muitíssimos livros para pagar os seus ainda maiores excessos), tem o condão de dar ao leitor aquilo que ele mais pode pedir: saber o que se passou, muitos anos depois, com os seus personagens favoritos. 

Chegados aqui, vinte anos depois da aparição do "poeta" Artur (que há quem diga que é exactamente a mesma pessoa que um célebre avançado do Benfica, especialista no pontapé em moinho - mas eu não acredito), temos o prazer de saber o que se vai passar com o Benfica, tal e qual como os quatro mosqueteiros. Maio de 2014, que podia ter sido perfeito não fosse um velhaco ter defendido os penalties quase para lá da própria marca de penalty, foi o melhor ano dos últimos vinte. Pela primeira vez desde a chegada de Artur Jorge, o Benfica foi inequivocamente superior ao Porto, com melhor plantel, melhor treinador e melhores resultados. Passaram-se coisas incríveis, entretanto. Longe da aventura de cordel de D`Artagnan e dos três mosqueteiros, longe do sorriso da Julieta (perdão, Constança. Julieta era no Dartacão) e daquele final de honra e glória, os últimos vinte anos foram uma tragédia onde o Cardeal Richelieu gozou a seu bel-prazer. Mais: apesar da vitória do ano passado e dos seus melhores anos já terem ido, a sua posição ainda é fortíssima. 

Em "Vinte anos depois", D`Artagnan é o único mosqueteiro. Athos, Porthos e Aramis seguiram os seus destinos (como Oblak, Garay, Markovic, Rodrigo...). E é aqui que as metáforas se separam: eu tive um prazer genuíno quando li o "Vinte anos depois" enquanto adolescente porque encontrar o futuro daquelas personagens (tão cheias de passado) era uma ânsia. E vivi aquilo tudo, o drama, as mentiras, a decadências e os erros irreversíveis com avidez. Porque o que eu queria era saber o que aconteceu, como é que estavam as minhas personagens aquele tempo todo depois. Em relação ao Benfica, não houve propriamente uma pausa entre os livros. Eu vivi estes anos, eu cresci com isto. Ou seja, o Benfica é a personagem da qual eu conheço o passado, é a personagem que eu mais estudei, que eu mais absorvi. Mas vinte anos são vinte anos e o marco histórico merece ser assinalado. Para onde queres ir Benfica? 

Vinte anos, além de um número redondo, simbolizam a primeira vez que o Benfica podia ter partido na frente para um bi-campeonato, podiam significar uma vida diferente, uma coroação, podia ser o princípio de qualquer coisa muito diferente das últimas duas décadas. Ao contrário, há uma estranha sensação de deja-vu. Como aquele festejo do título triste de 1993/1994, em que se despediu o último plantel à Benfica, sente-se esse espírito de revolução falhada: foi bonita a festa, pá. 
Eu gosto de personagens tristes, falhadas, com erros (Athos tem um filho com a amante de Aramis, sabiam?), eu gostei que, ao fim de vinte anos, os quatro mosqueteiros não ficassem juntos, num final de nostalgia amarga. Mas, quanto ao Benfica, nada me custava mais que os mesmos erros, que a mesma tragédia se assolasse sobre nós. Já não há paciência para finais tristes, já não há paciência para vinte anos que pareceram vinte séculos. 

Sinto que todos os anos, desde há vinte, começo a época com a mesma sensação. Gostava de, um dia, tantos anos depois, fechar este capítulo. 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

A derrota da incompetência




Se há coisa que eu detesto é a incompetência. Se há coisa que eu detesto são frases começadas por "se há coisa que eu detesto", porque na verdade eu detesto muita coisa, mas agora já está, já está. A incompetência mexe particularmente comigo quando é recompensada. Todos os dias vejo gente incompetente a ser promovida numa empresa, num clube, num Governo, e isso deixa-me realmente irritada. Se o mundo fosse um local perfeito, nunca a minha vida poderia depender de um incompetente, fosse num call-center, num hospital ou num Parlamento. E, se o mundo fosse um local perfeito, sobretudo um treinador como Paulo Fonseca nunca chegaria ao meu clube.

Há, no entanto, um ingrediente que aumenta o meu nível de irritação com a incompetência. Porque há incompetentes que são esforçados, coitados, mas que têm noção do seu pequeno valor. Estes normalmente têm o dom de não pisar ninguém durante a sua estadia neste mundo. Mas há aqueles que, dentro da sua evidente incompetência, precisam de estragar a vida a alguém para consagrar a sua alegre ascensão ao reino dos incompetentes. São estes os que me tiram realmente do sério: os que são uma valente merda e acham que são uma grande coisa.

Já devem ter reparado, portanto, que este texto é sobre Scolari. Devo admitir desde já que acho que o Scolari é a pessoa que eu mais odeio no mundo. O que não diz muito sobre ele, na verdade, mas diz muito sobre a provável demasiada importância que eu dou ao futebol na minha vida. Às tantas devia dizer que a pessoa que eu mais odeio no mundo é o Cavaco,  sei lá, dava assim um ar mais sério e ativista da minha parte, mas hoje estou numa de ser honesta. Eu já não posso ouvir o Presidente falar em consensos pós-troika, mas mais depressa atiro um sapato à televisão quando ouço o Scolari avaliar a Colômbia como uma equipa com muitos talentos individuais e uma grande disciplina táctica, "tal como o meu time".

Não, Scolari, o teu time não é nada disso. Mas voltemos atrás. Scolari foi campeão do mundo em 2002, com uma equipa que tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, ou seja, com uma equipa que seria no mínimo candidata ao título com um pónei a treiná-la. Também tinha o Polga, é verdade, (saudades tuas, Anderson!) mas às vezes um daqueles incompetentes esforçados também dá jeito. Eu não gostava do Brasil de 2002, nem gostei de um Mundial afastado da paixão pelo futebol e dominado pelos esquemas de arbitragem. Mas o nosso problema só surgiu depois.

Scolari chegou à selecção portuguesa e, como toda a gente sabe, adoptou a estratégia de abrir uma guerra com o FCPorto para ganhar credibilidade junto dos nossos adversários e poder, assim, juntar um grupo de jogadores motivados em mostrar que ele tinha razão. Para isso, fez de Vítor Baía, o português com mais títulos de sempre, o seu novo Romário. Não é segredo que eu acho o Baía o melhor jogador de todos os tempos e de todas as constelações e que, se a Terra fosse explodir e me dessem a oportunidade de salvar alguém, ele seria o escolhido (desculpa M., amo-te muito, pensa que pelo menos assim morríamos os dois juntos e não há história de amor mais linda do que essa). Portanto, esta seria uma razão mais do que suficiente para justificar a minha relação com Scolari.

Mas é a incompetência do homem e a respectiva compensação dela que me tira do sério. Vamos, então, ao Euro 2004, maior orgulho dos adeptos da selecção pró-Scolari e, portanto, pessoas menos credíveis do universo. No primeiro jogo, contra a Grécia, Scolari entrou com o seu onze em campo. Resultado? Derrota. Inesperada, dirão aqueles que tinham uma bandeira na janela. Totalmente previsível, tendo em conta as escolhas e o mau trabalho do seleccionador, dirão aqueles que percebem alguma coisa de futebol. No segundo jogo, Scolari, que é incompetente mas não é totalmente burro, fez entrar os campeões europeus em título. Do FCPorto, pois claro. Resultado? Caminho aberto para a final. Demonstrou sabedoria, porque aprendeu com o erro, dirão aqueles que acreditam em Caravaggios. Mostrou que qualquer um podia treinar aquela equipa, dirão aqueles que sabem que o tal pónei também poria o Deco a titular.

Pelo meio, Ricardo tornou-se a figura de proa da selecção de Scolari. Desde logo pelo tal assunto Vítor Baía, que levava aquelas pessoas que pintam a cara de verde e vermelho a acreditar mesmo que o seleccionador tinha escolhido o melhor. E porque defendeu penalties. Uau, penalties. E logo contra a Inglaterra, uma especialista! O que se assemelha àquele momento em que o totó da turma acerta numa resposta e fica toda a gente espantada e com vontade de bater palmas. É fixe para o totó durante dois segundos, mas se está toda a gente tão excitada e emocionada com uma simples resposta certa, então deve ser um mau sinal a longo prazo. O resultado viu-se, aliás, na final desse Europeu.

Ainda hoje tenho de discutir essa final contra a Grécia com gente que acha que Portugal perdeu por azar. Ficou só 1-0, portanto é azar. E a culpa foi dos gregos, que eram feios e maus. Admito que quando fica 7-1 as coisas sejam mais evidentes, mas quem viu aquela final e tem alguma estima por futebol sabe que a grande derrotada foi a incompetência. Scolari não estudou minimamente o adversário (que, surpreendam-se agora, já tinha derrotado a selecção no jogo de estreia, portanto foi mesmo difícil não estar preparado), os gregos foram muito mais organizados e brincaram com a motivação e as rezas dos portugueses e, parem tudo o que estão a fazer, ainda por cima à custa de um enorme frango do menino do Scolari! Se eu fosse mesmo má, diria que foi perfeito. Olhem, já está, já está.

Este Brasil de Scolari mostrou cedo ao que vinha: desorganização máxima, teimosias tipo Fred, que merece o prémio de pior do Mundial (desculpa, Miguel Veloso), choradeiras e santas que defendem penalties, um discurso anti-árbitros e teorias da conspiração que, se não fossem tão idiotas e sem sentido, até nós poderiam incomodar. Mas lá foi passando e juro que quando vi o remate do Pinilla à barra pensei: "Tu queres ver que a €#%£ da Caravaggio me vai estragar o Mundial?" Felizmente, apareceu a Alemanha.

O que a Alemanha fez ontem foi colocar as coisas no lugar, dar sentido ao futebol, consagrar em números a vitória do trabalho sobre a incompetência, do mérito sobre a crença, da organização sobre a sacanagem. E, por isso, eu tenho de agradecer aos alemães, perdão, ao Guardiola. Não é nada contra o Brasil (a minha primeira memória futebolística até são os festejos em família em 94), note-se. O Mundial é que já estava a ser o melhor de sempre para mim, mas ver Scolari e toda a sua filosofia destruída vai muito além disso. O que vimos ontem e nunca vamos esquecer não foi só uma goleada ou uma humilhação, não foi só uma doce sensação de justiça ou uma vingança dos que não acreditam em santas. Foi uma lição de vida.