quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O sportem em 2014

Queridos filhos e netos,

Escrevo-vos do passado, mais exactamente de Setembro de 2014, para que vocês finalmente percebam por que é que os vossos pais/avós estão sempre a falar “no tal de sportem”. O desprezo com que vocês dizem isto, a maneira como ignoram o grande ódio que nos une no futebol português, é demasiado difícil de suportar para dois adeptos doentes do Porto e do benfica. Por isso, espero ajudar-vos a perceber a razão de eu e o vosso pai/avô nos rirmos tanto quando, no tradicional almoço de domingo, damos todos as mãos para rezar o “Bruno Carvalho que estais no céu”.

O sportem, em 2014, ainda era considerado um grande. Parece estúpido para vocês, eu sei. Bem, na verdade já o era um bocado nessa altura, mas fazia-nos impressão reduzir o campeonato a dois e acabava por ter a sua piada incluir os lagartos nas nossas discussões futebolísticas do dia-a-dia. Por exemplo, se o sportem não fosse considerado um grande em 2014 (como fazia sentido…), não tínhamos o Dias Ferreira, o Eduardo Barroso e o Rui Oliveira e Costa nos programas sobre futebol e, assim, não podíamos ter feito essas compilações das maiores vergonhas televisivas, que vemos sempre ao domingo à tarde todos juntos.

Em 2014, o sportem não era campeão há 12 anos. Hoje, isto para vocês até é um choque, porque quer dizer que o sportem já foi campeão, mas tentem aguentar a notícia. Sejam fortes, porque, antes de 2014, em três décadas, o sportem até foi campeão duas vezes. Chocante, certo? Mas olhem que foram tempos esquisitos no futebol português, vejam lá que até o boavista foi campeão (menos uma vez do que o sportem em 30 anos, reforçamos) e vocês sabem que o boavista andou depois muito tempo em divisões inferiores, que era o que devia ter acontecido ao sportem pelo menos em 2013 e infelizmente só veio a acontecer mais tarde.

Em defesa da nossa rivalidade com o sportem, a verdade é que eles até ganharam vários campeonatos ao longo dos tempos. Troféus internacionais, no entanto, foi mais difícil. Não é do nosso tempo, mas uma vez até ganharam uma Taça das Taças. Escusado será dizer que essa competição acabou. O melhor momento internacional do sportem de sempre está, aliás, encaixilhado na nossa sala - esse quadro enorme que vocês estão a ver é uma montagem das caras dos adeptos verdes quando o sportem falha o empate contra o CSKA e sofre o 3-1 em contra-ataque. Estamos fartos de vos dizer e a sério que a nossa repetição não é um sinal de velhice: aquele lance diz tudo do que era o sportem.

Mas o sportem teve muitos adeptos, juramos. Além de todos os “Bettencourts” e “Bernardos”, havia mesmo dois ou três “Joões” e “Silvas” que torciam pelos verdes. Na nossa família, como sabem, nunca ninguém sofreu desse mal. O vosso sangue pode ser vermelho, da parte rasca do vosso pai/avô, e azul, da parte nobre da vossa mãe/avó, mas nunca verde. Houve uma altura, quando nós lançámos o livro do nosso blog no qual vocês agora também escrevem, que as pessoas diziam muitas vezes que um dia ainda nos ia sair um filho do sportem. Tem piada imaginar como estavam tão enganadas, não tem queridos sócios nº 250273, 250274, 250275 e 250276 do FCPorto?

Bem, dizia eu que o sportem até era um clube a considerar no panorama do futebol português. No início da época 2014/2015, aliás, até se consideravam na “pole position” do ataque ao título. A sério, parem de se rir e continuem a ler até ao fim, chega de malcriadices. Nessa altura, o presidente deles era o tal das nossas rezas (Bruno Carvalho que estais nos céus, Santificado seja o vosso onze, Venha a nós o vosso sexto lugar, Sejam feitos os vossos empates, Assim em casa como fora. Os pontos nossos de cada dia nos dá o sportem. Perdoai-nos as nossas ofensas, Assim como nós perdoamos a quem nos deu o Moutinho. Não nos deixeis cair em alvalade, Mas livrai-nos do mal que é ir lá e não ganhar.) O Bruno Carvalho... Ai, bons tempos… Aliás, querido Jorge Nuno, meu filho mais velho, fica a saber que estiveste para te chamar assim, mas, como vieste na altura em que o Bruno foi parar à prisão, achámos por bem não brincar e dar-te o nome de uma pessoa decente e boa.

Mas, voltando a 2014, o Bruno estava com a pica toda. Quase não havia dia em que não viesse dizer mal do nosso FCPorto. Ninguém lhe respondia, o que tinha ainda mais piada. É que o Bruno achava não só que o sportem ainda podia bater-se com o FCPorto, como ele podia bater-se com o vosso padrinho, aquele que ainda outro dia foi jantar lá em casa e mostrou que está de perfeita saúde, o senhor Pinto da Costa. Todos juntos, agora sim: ámen.

No entanto, a vossa mãe/avó, que como sabem tem sempre razão, avisou logo na altura os outros portistas: não podíamos andar outra vez a dormir com as palavras daquele gajo para depois acabarmos a ser roubados em alvalade (alvalade era o estádio deles, onde agora é aquele cemitério que, sempre que passamos, eu e o vosso pai/avô fazemos coisas das quais não nos orgulhamos com os dedos).

Portanto, em 2014, ainda tínhamos de estar atentos ao sportem. E era bom, sabem? Sempre eram mais uns para nós, portistas e às vezes até o vosso pai/avô lampião, brincarmos. Se bem me lembro, não estávamos em Portugal quando o nosso FCPorto jogou em alvalade nessa altura. A vossa mãe/avó estava muito nervosa, como ainda hoje fica quando o sportem, da III divisão, nos calha para a Taça de Portugal. A rivalidade é assim mesmo: quero ganhar-lhes sempre, sempre. Percebem agora?

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O roubo

Cá em casa, discute-se muito sobre louça mal lavada e roupa fora do sítio, mas pouco sobre arbitragem. Não nos entendam mal: não é que cada um de nós não ache que o seu clube é sempre roubado pelos árbitros (com a diferença que eu, efectivamente, tenho razão, e o M. parece só maluquinho). O que conseguimos foi, ao longo dos anos, perceber que simplesmente não vale a pena.

As pessoas que não nos conhecem ficam muito surpreendidas quando dizemos que não vemos os jogos juntos, porque de um casal, e de um que ainda por cima gosta muito de bola, espera-se que faça tudo em conjunto, especialmente o que mais gosta. Mas o que esta relação nos ensinou é que perder tempo a discutir arbitragens um com o outro não contribui para nada além de um eventual divórcio.

Infelizmente, às vezes não me consigo desmarcar do M., como o Brahimi da defesa do Vitória, e fico, ao contrário do argelino, em fora-de-jogo. Isto é, tenho de ver um jogo com o meu marido. O que já é normalmente mau, mas piora consideravelmente quando estamos perante um grande e escandaloso roubo. Que foi o que aconteceu no último domingo.

Podia vir para aqui falar da má primeira parte do FCPorto, de como entrou mal Tello, de como Evandro parece merecer a titularidade, de como não percebo a entrada de um avançado aos 89 minutos, mas há momentos em que realmente isto não interessa muito. Pode ficar bonito, apontar as falhas que ainda é normal esta equipa ter, dá assim um ar de intelectual da bola porreiro, mas quando estamos a falar de um grandessíssimo roubo acho isso uma perda de tempo para um adepto.

Já devíamos, no entanto, estar habituados. Não é preciso recuar muito. O ano passado, quando até o totó do Fonseca ia em primeiro, uma arbitragem escandalosa fez questão de roubar os primeiros pontos ao FCPorto. Seríamos campeões se não tivesse acontecido? Bem, na verdade não. Mas cansa um bocado isto do primeiro sinal de destabilização vir de fora.

Por isso, espero que desta vez os portistas estejam mais atentos. Eu sei que é quase impossível pedir-vos que não assobiem a próxima hesitação da equipa, mas pensem nisto quando levarem a merda desses dedos à boca: o que estas inocentes arbitragens fazem é levar-nos a duvidar, a criticar, a colocar em questão um trabalho que, a meu ver, está a ser bem feito. E isso parece-me um bocado estúpido.

Portanto, a nossa relação sobreviveu a mais um domingo de roubo ao FCPorto. À custa de muito silêncio, muita omissão de pensamentos e de um controlo notório sobre a vontade que temos de denunciar o outro à polícia, como quando o M. disse que não era penalty a nosso favor. A sério, é nestas alturas que eu não percebo como posso gostar tanto de uma pessoa tão vil.



P.S. Queremos deixar por escrito um elogio ao presidente do Vitória pela atitude depois da vergonhosa carga policial sobre os adeptos. Não é qualquer um que faz aquilo. Os nossos parabéns.

sábado, 13 de setembro de 2014

M. na Benfica TV

Fui à Benfica TV falar da actualidade do clube, do blog e do livro. Muito obrigado ao João Martins pelo convite e pela conversa à Benfica antes do programa.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Época de exame

Eu fui um bom aluno. Na faculdade tinha dois objectivos: acabar o curso com uma boa média - coloquei a meta nos 16 valores e atingi-a sem grandes problemas - e nunca deixar nada para Setembro porque isso me ia lixar as férias. Palavras sábias que alguém uma vez disse ao meu pai: "Ser o melhor aluno dos bebâdos e o mais bebâdo dos melhores alunos". Este objectivo não consegui, mas pronto.

Como aluno de 16, havia vários tipos de exame. Havia os exames em que tinha estudado para mais do que 16, em que o exame era fácil e eu sabia que ia ter boa nota antes de começar. Uma pessoa está plenamente confiante, não há discussões interiores sobre a matéria, aquilo já faz parte de nós. Como, a certa altura, o Benfica de 2013/2014. Em Fevereiro de 2014, quando o Benfica atropelou o Sporting no Estádio da Luz, o Benfica sabia a matéria de cor. Era o aluno sem medo, perfeitamente capacitado do que sabia, que nem imaginava que podia ter dúvidas. Os jogadores abordavam os jogos e os lances sem colocarem a hipótese de não os ganharem. Estavam concentrados, e respondiam a perguntas aparentemente fáceis como "Rio Ave em casa", sem se esquecerem daquela coisinha que o professor tinha dito na aula e que ia ser descontada se não estivesse lá. Não havia engonhanços, ronha, as respostas eram claras, precisas, de quem sabia em que página do livro estava a resposta e ainda tinha preparado uns pozinhos para requintar a resposta. Em perguntas de alínea, como "Guimarães em casa", "Braga fora", o Benfica foi cuidadoso e humilde. Leu as alíneas todas para ir cortando as que tinha a certeza que estavam erradas e assinalou com cuidado, sem arriscar. O Benfica intramuros de 2013/2014, na segunda metade da época, foi o aluno de 20, o menino bonito em que um professor e um adepto se podia orgulhar e a quem se augurava um futuro risonho.

Houve exames que eu odiei fazer. Não gostava da cadeira (o curso de medicina é longo e tem várias coisas que depois nos esquecemos e que nunca vamos usar na vida. Sei mesmo muito pouco - nada? - de otorrinolaringologia, por exemplo), não tinha estudado, enfim. Eram cadeiras que eu fazia, mas em que não me aplicava a 100%. Não era o aluno modelo. E o Benfica, várias vezes, não o é. A preparação é deficiente, não se estudou o suficiente, a coisa vai correr mal. E aqui depende muito do professor que está do lado de lá. Num exame oral é preciso sorte com o professor, com a maneira como ele acordou, com as perguntas, com o facto de ter ou não simpatizado connosco. Uma vez fiz uma oral com um médico que tinha estado de urgência, sem dormir. Acho que se tivesse falado do Benfica em vez de medicina teria tido a mesma nota. E fiz orais com professores brilhantes, inteligentes, capazes de perceber só pela maneira como começávamos a frase se sabíamos ou não do que estávamos a falar (uma saudação à minha tutora de pediatria). Ou seja, muito do sucesso do Benfica depende do Porto (e vice-versa). Quando o Porto é implacável (2010), um Benfica mal preparado só vai levar sovas. Um Porto sem dormir, como o de 2005, foi vencido por um Benfica em que o primeiro médio suplente era o Bruno Aguiar.

Depois havia os exames dúbios. Aqueles onde eu tinha estudado, mas sabia que não eram fáceis. Os exames onde eu gostava da matéria, mas não sabia tudo. Eram as épocas de exames tramadas, com muitos exames em cima uns dos outros,  às vezes na época de Natal, quando eu ia a casa visitar a família. E, nestes exames, as coisas eram imprevisíveis. Tudo é fácil quando se sabe a matéria toda - não há professor nem Estoril que nos tire dois pontos - e tudo é também fácil quando sabemos que não estamos preparados: não há ilusões e vamos só tentar não baixar muito a média e recuperar no próximo. Mas eram estes exames intermédios que eram uma incógnita e que puxavam pelos alunos. Era preciso ser-se esperto, concentrado e ter alguma sorte. Sinceramente, nunca fui suficientemente calmo para ser consistentemente bom nestes exames e, mais desafortunadamente, o Benfica também não. Um exame em que não soubéssemos tudo obrigava a ser inteligente na maneira como respondíamos com confiança, escondendo a matéria que não sabíamos. Era preciso trazer o exame até à nossa zona de conforto, ser inteligente e usar cada bala (os alunos de 20 acabam o exame com pena de não terem mostrado tudo o que sabiam). O Benfica nunca é bom nestes exames. Em anos em que o Porto é do nosso campeonato, nem muito superior nem muito inferior, o Benfica não tem sabido fazer o exame com inteligência (2011/2012), ou não tem tido sorte (2012/2013).

O Benfica de 2014/2015 tem o mesmo treinador de há 5 anos, aguentou Gaitan, Enzo Perez, Salvio, Lima e Luisão. Mas não tem Garay nem grandes avançados. É o bom aluno, o aluno de 16, mas o aluno que não estudou tudo. E tem um professor que sabe a matéria, ainda que haja lacunas. Para ser campeão, o Benfica tem que ser inteligente nas respostas, tem que estar sempre concentrado, tem que puxar persistentemente os jogos para aquilo em que faz melhor. Não pode entrar a achar que não vai ter boa nota, não pode achar que isto é um exame para 20 valores. É um exame duro, no qual é preciso sorte, é preciso que o professor falhe as perguntas e é preciso muita, muita concentração. 2014/2015 é um teste de maturidade, de mentalidade competitiva, de saber sofrer. 2013/2014 foi de cruz, 2014/2015 é uma pergunta de desenvolvimento.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

2014/2015

Perdon a todos los jugadores y a el entrenador del Oporto, pero voy a escribir en portugués porque mi español no es todavia perfecto

Está quase. Vem aí. Preparados? Vai começar uma nova época e nenhum de nós consegue prever se vamos ganhar ou perder tudo, se temos treinador ou contratador de espanhóis, se há uma equipa ou apenas um plantel. É está a beleza da coisa, certo? A expectativa, a ansiedade, o incalculável. Então vamos lá, vamos a isso.

O FCPorto mudou muito em dois meses. Saíram Mangala e Fernando, só o futuro nos dirá o quanto perdemos Helton e graças a nosso senhor Pinto da Costa por agora mantemos Jackson. Afastámos todos os Licás e Josués (moços, nada contra, mas isto é outro nível) e fomos buscar Tellos e Olivers. Temos treinador. Não faço ideia se foi aposta certeira ou não, se seremos tiki-taka ou flop-flop, mas, pela primeira vez em mais de um ano que nos pareceu uma eternidade, vejo uma ideia a ser efectivamente treinada.

Uma ideia. Não era pedir muito, pois não, treinador da equipa que traja de amarelo (sem ser o alternativo do sportem, desculpem a confusão)? Enfim, adiante, que não sou de chorar sobre Fonsecas derramados. O FCPorto da pré-época pelo menos apresentou-se aos adeptos. É isto que eles querem. Bola no pé, muita calma e cabeça no sítio. Só de pensar no duplo pivot, quase que choro a escrever isto, de tão simples que é.

Mas uma ideia e um conjunto de jogadores de qualidade não fazem uma equipa vencedora. São um bom princípio, é verdade, mas não chega. Até porque estamos a falar do FCPorto. E não sei se nuestros hermanos já terão percebido o que isso significa. Nós queremos jogar bem, queremos que eles tenham sucesso e possam sonhar com grandes carreiras, mas, sobretudo e até apenas, nós queremos é ganhar. O mais rapidamente possível.

Sim, eu sei que um treinador inexperiente nestas lides e jogadores muito jovens não são o cenário ideal para as vitórias imediatas, mas, se eu escrevesse que eles têm todo o tempo do mundo para mostrar o que valem, estaria a trair o FCPorto com o qual cresci. Os nossos adversários, ainda inebriados com os títulos aos quais não estão habituados (aqui incluo os verdes, que não ganharam nada mas ostentam aquela aura de vitória simplesmente por estarem vivos), dizem que, se não ganharmos o campeonato este ano, é o fim do mundo. Tentam, desta forma, colocar-nos uma pressão enorme desde o primeiro dia.

O que eles não percebem é que têm toda a razão. No FCPorto, já ninguém anda a celebrar o penta, o duplo Mourinho e o poker de Villas Boas (o quê?? Quatro títulos na mesma época? Isso não é só do benfica??). Jardel, Deco e Falcao são passado. O golo do Kelvin parece que foi há 92 anos. É exactamente essa a pressão que nos colocamos, que nos torna tão diferentes de vocês e, em último caso, que nos faz ganhar mais. No FCPorto, não sabemos nem aceitamos perder. Nunca. Em nenhuma situação. E o ano passado perdemos. Com estrondo, aliás. Como nunca vimos. Daí esta exigência, esta vontade, esta fome.

Ninguém, a não ser os portistas, sabe o que isto é. Queremos tanto que comece, depressa, já não aguentamos mais! Neste momento, ao contrário da grande maioria dos arranques a que o meu clube me habituou nos meus 27 anos, tenho saudades de que as coisas nos corram bem. Tenho saudades de ver entrar 11 jogadores em campo com um espírito de missão em prol da minha, da nossa, felicidade. Tenho saudades de ganhar. Porque, no FCPorto, uma época só com uma Supertaça é mesmo o fim do mundo.

Que volte tudo ao normal. Já.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Até amanhã, camarada

O José Cardoso Pires dizia que não era do Benfica, era do Nené - António Lobo Antunes

Eu devia estar a escrever sobre a terrível pré-época do Benfica, sobre a falta de um guarda-redes, de um central, de um trinco e até de um avançado. Aliás, quando disse à C. que ia escrever sobre o Cardozo, ela até soltou um "Outra vez?", talvez com razão. A verdade é que já escrevi duas vezes sobre Cardozo e nem sequer vos vou prometer que é a última. Se eu escrevesse um texto por cada vez que me sinto agradecido ao Tacuara, era provável que não fizesse mais nada na minha vida. 

O futebol mudou e os nossos ídolos ficaram com a nossa inocência, algures lá atrás, perdida no tempo. O amor à camisola é uma expressão em desuso, é uma fantasia de uns totós que ainda vão ao estádio. Hoje, o futebol (e a vida) é uma combustão muito rápida: os jogadores chegam, metem o emblema no Instagram, dão uma conferência a dizer que sempre ouviram falar no Benfica, têm um estandarte ao segundo jogo, há quatro bandeiras do seu país na central ao terceiro, marcam um golo e são uns heróis e no próximo mercado estão a fazer o mesmo num clube qualquer, sem metade da história do Benfica, mas que lhe paga a quadruplicar. Eu chego a esquecer-me que jogadores fabulosos, como Nemanja Matic, estiveram na Luz: é tudo muito depressa. A culpa é nossa, que pactuámos com isto. Eu, por exemplo, fico logo fã de qualquer gajo que faça bem a transição defensiva (num dos meus dias mais desvairados sou capaz de por o Ramires no melhor onze do futebol do século XXI). Eu, sócio pagante, nem me apercebi que o meu clube já gastou cerca de vinte (!) milhões de euros em jogadores sem conseguir um reforço sem ser Derley. A máquina tritura-nos.

No meio disto, desta confusão toda, com uma pré-época tenebrosa a desenrolar-se, anuncia-se a saída de um ídolo da Luz: Oscar Cardozo. O nosso Tacuara, homem de golos e mais golos, nunca foi consensual. Talvez os maiores aplausos que tenha ouvido na Luz tenham sido na segunda volta de 2013/2014, quando fez os piores jogos vestido à Benfica. Um homem que tantas e tantas vezes nos salvou e foi assobiado, foi aplaudido e incentivado numa fase onde era mais empecilho que o matador ponta de lança que foi, só para que ninguém esqueça, na primeira metade de 2013/2014. 
Uma das coisas mais fantásticas da relação de Cardozo com o Benfica é que sobreviveu ao tempo. Cardozo podia ter-se ido embora na primeira ou na segunda época que fez connosco. Mas não, ficou sete temporadas, número quase irreal nos dias que correm e na realidade do Benfica. Sete, como o número que levava nas costas. Cardozo teve tempo de ser o melhor marcador estrangeiro da história do Benfica, tornar-se o nono (?) melhor marcador do clube de todos os tempos e de inscrever, com letras de ouro e vermelho, o seu nome na história do derby. Com 13 golos aos verdes, Cardozo era já um símbolo de terror. Recordo-me que, o ano passado, naquele 2-0 de banho aos verdes, a Luz praticamente cair quando Tacuara entrou, a poucos minutos do fim. Eles já estavam de rastos, o jogo decidido e o Benfica muito por cima. Mas quando Cardozo se apresentou a arranjar a camisola, junto à linha, todo o estádio achou que íamos marcar mais três ou quatro. Repito, na segunda metade da época, Cardozo era pouco mais que inofensivo, mas sete anos e tantos, tantos golos depois, Cardozo conseguiu aquilo que o futebol moderno parecia fazer impossível: tornou-se um símbolo. E, a ganhar 2-0, com os verdes de rastos, a Luz cresceu porque vinha aí um símbolo de golos, de vitória no derby. Aquele calmeirão podia estar lento e desengonçado, mas aquele sete nas costas já era história.

Essa história vai-se embora. Não vai, sequer, para um Everton, para um Valência ou para qualquer outro clube desses, a milhares de anos da nossa história, mas ainda assim respeitáveis. Não, Cardozo, aquele homem que só de estar prestes a entrar contra o Sporting fazia com que a Luz se sentisse mais forte, vai sair, como se nada fosse. Um homem destes tinha que ter uma saída séria, com agradecimento público de presidente e treinador e com a possibilidade de ser aplaudido de pé pelos adeptos que lhe devem tanto. Um jogador que decidiu ir ao lado do caixão de Eusébio a pé e não no autocarro, com os restantes jogadores. Este homem não é para tratar como os outros, que se despedem no Facebook.
Eu sei, Cardozo hoje já só era isso mesmo - história. Mas a história é para ser respeitada e aplaudida. Cardozo devia sair com cumprimento e vénia de treinador e presidente. E devia ter tido uma saída suficientemente estudada para lhe darmos um último aplauso de pé no estádio da Luz. Eu sei - racionalmente - que tenho que estar mais preocupado com a compra dos 4 reforços que nos faltam urgentemente e com a possibilidade das saídas de Enzo e Gaitan (hoje infinitamente mais úteis que Cardozo), mas vai partir um dos poucos que já merecia mesmo que lhe pedissem a camisola, que merecia um bandeira. 

Eu, ao contrário do José Cardoso Pires, nunca fui do Cardozo. Ele é que decidiu ser do Benfica.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

10 anos do Diário de um Ultra

Um comentário muito simpático no blog lembrou a efeméride: faz hoje 10 - dez! - anos que comecei o Diário de um Ultra. Foi o meu primeiro blog e nasceu na minha fase mais "claqueira". Do Diário vim cá para casa, de onde espero não mais sair. A maior parte dos textos deve já envergonhar-me (é por isso que foram escritos há uma década...), mas a data é para celebrar: faz hoje dez anos que me sentei a escrever pela primeira vez, para vossa manifesta infelicidade.