Confesso-vos que demorei a ver o Bernardo Silva. Por escolhas erradas que tomei ao longo da vida, nomeadamente ter escolhido ser médico em vez de jogador de futebol do Sport Lisboa e Benfica, só tenho tempo para saber tudo e mais alguma coisa da nossa equipa de futebol. Os juniores, a equipa B e as modalidades não têm a atenção que merecem a minha parte e penitencio-me por isso. Assim, ao invés de pessoas mais bem informadas do que eu, a minha atenção só se virou para o Bernardo quando começaram a correr nas redes sociais as fotografias dele no instagram: foi como uma bomba, havia um jogador do Benfica B que era do Benfica desde pequenino e que vive o clube como nós.
Comecei a espreitar resumos da equipa B, a ver os consecutivos golos e prémios de melhor em campo e dei por mim, mesmo sem lhe ver 90 minutos completos, a torcer por ele. O Bernardo Silva - independentemente do que venha a ser enquanto jogador de futebol - é um adepto do Benfica. E aos adeptos do Benfica quer-se sempre o melhor. Se o Bernardo chegar a jogar na Luz pelo Glorioso e marcar, virá festejar connosco e vai ter a alegria que nós teríamos. Só uma pessoa sem coração (ou sem acesso às redes sociais) podia não torcer por um jogador que ia à Luz de cachecol como nós.
Apesar de ser um adepto e de ter um ideal romântico sobre o mundo da bola, sou muito pragmático: não há Bernardos que substituam os Enzos, os Oblaks, os Garays, os craques a sério. Eu também sou mesmo muito do Benfica e duvido que fosse útil, neste meu momento de forma, à equipa de futebol, portanto não sou nenhum fundamentalista do "jogador da formação", do "jogador português" e dessas coisas. Eu quero que o Benfica tenha os melhores, não me interessa a idade, a nacionalidade nem se são vegetarianos ou se comem três bitoques ao pequeno-almoço. O que me faz confusão é que, em condições iguais, não se dê prioridade ao jogador da formação, ou - e isto ainda é mais importante - que sente o clube. Porque uma coisa é comparar o Ivan Cavaleiro ao Markovic, em que o primeiro será uma eterna promessa do futebol português e o segundo, enfim (pausa para chorar de saudades), outra é achar que o Bernardo não tem lugar neste plantel do Benfica.
A questão é grave por dois prismas: em primeiro lugar, porque o Benfica perde um jogador que lhe podia ser muito útil porque me parece muito bom, ponto. Eu sei que desde que desperdiçámos Mario Stanic e Deco que o Bernardo pode não parecer muito grave, mas algo me diz que sim. Em segundo, pela identidade do clube. Este que vos escreve tem a mania que sabe muito de futebol e que acerta muito, mas, assim que vi o Talisca, ia morrendo. O Talisca, a número oito então, pareceu-me ser rapaz para ser responsável por 275 cateterismos e 12 pacemakers só na minha pessoa. Em todos os jogos, era sempre o jogador que eu tirava na primeira substituição. E o que é facto é que o rapaz tem 6 golos e que está a humilhar a minha opinião inicial sobre ele. Eu, sobre o Benfica, não faço questão de ter razão. Oxalá o Talisca se sagre Bota de Ouro este ano e que nunca mais ninguém ligue ao que eu escrevo. Mas o Talisca, apesar da sua meia dúzia de golos, além de não saber quem é o D'Artagnan, não sabe o que é o Benfica. Tanto assim é, que decidiu tirar fotografias com o Kelvin e escrever inclusivamente que o ama.
As boas notícias (para os adeptos do Porto) é que o Kelvin está vivo, as más é que a jovem promessa goleadora do Benfica não percebe que uma fotografia destas é um choque para os adeptos do clube que representa. Tenho a certeza que o Bernardo não metia uma foto com o Kelvin nem que este lhe salvasse a família inteira e lhe entregasse três chaves vencedoras do Euromilhões. E isto é importante, isto é fundamental para um clube. Não acho que haja uma escolha Talisca versus Bernardo; o Benfica podia ter perfeitamente os dois e beneficiava disso. Eu prefiro o Talisca ao Ivan Cavaleiro e ao Nélson Oliveira. Mas prefiro uma oportunidade ao Bernardo do que aos negócios estilo Djavan, Candeias e Luís Felipes. É aí que me dói, que o Bernardo não tenha uma oportunidade no Benfica. É que há jogadores francamente maus que a têm só por jogos de comissões e empresários. O Bernardo não merece lugar cativo no Benfica só porque tem um número de sócio baixo, mas o seu futebol e o mais que declarado amor ao clube têm que se sobrepor a várias negociatas estranhas.
É que o Bernardo tem tudo para ser um Paneira. Um daqueles que só de vestir a camisola do Benfica se sente maior. E essa raça de jogadores que se confunde com a camisola tem uma grande virtude: torna o clube mais forte. Porque passa a haver alguém no balneário que lhes explica por que sofrem tanto os adeptos, que lhes explica por que é especial este ou aquele acontecimento, este ou aquele jogo. Porque esses jogadores comunicam melhor com os adeptos, fazem-nos sentir menos clientes, fazem-nos sentir mais próximos das camisolas. E esses clubes são melhores, são mais fortes, ganham mais do que os outros. É isso que eu quero para o Benfica. Porque eu sou do Benfica como o Bernardo Silva.




