Agora parem por momentos de imaginar o Quaresma com aquelas meias com caveiras a chegar ao treino da selecção, porque eu vou fazer uma comparação: Quaresma é aquele rapaz super giro, com grande corpo, demasiada areia para qualquer camião, que tu passas dias a admirar ao longe e a imaginar como é o homem perfeito… até que ele vem falar contigo e não sabe elaborar uma frase. Quaresma é o gajo que conheces na discoteca e ficas imediatamente apaixonada, até que, à primeira mensagem escrita que te manda, vem tudo cheio de erros e vomitas. Quaresma é o idiota com quem dás umas voltas, mas não apresentas a ninguém porque tens vergonha.
Após tantos anos no FCPorto, Quaresma continua a dar-nos umas voltas, a marcar uns golos porreiros, a fazer uns cruzamentos perfeitos, a fazer umas fintas únicas. Mas continuamos a ter vergonha dele. Nem que, de vez em quando, como no ano passado, seja a voz que é capaz de dizer em voz alta que a equipa não vale nada. O que era efectivamente verdade e que até nos fez agradecer-lhe a sinceridade. Mas até aí, nesse desabafo, o que Quaresma nos estava a dizer era que ele é bom demais para aquilo. Desculpem, mas tendo em conta o historial, não acredito no seu amor eterno ao FCPorto.
De qualquer modo, apreciei a sua reacção ao drama Lopetegui. Mais ainda apreciei ter um treinador que coloca a equipa acima das estrelas. Acho até que foi uma situação muito bem gerida, de parte a parte. Os únicos que estiveram mal nesta história, aliás, foram os adeptos, que assobiaram o nosso treinador por causa de um jogador. Vamos lá ver se nos entendemos: o único jogador que justificaria desestabilizar a equipa por um desejo nosso de o querer ver em campo, para mim, seria um jogador chamado Futebol Clube do Porto. Como não há (o que é uma pena, acho que dava um bom nome), não vos percebo.
Portanto, espero que agora, com o golo e a assistência pela selecção, não venham as exigências. Eu quero lá saber se joga o Quaresma ou o Tello, o Oliver ou o Quintero, o cão ou o gato. Se quem jogar der tudo em campo, estou satisfeita. Nenhum jogador está, em nenhuma situação, acima da equipa. Metam isso na vossa cabeça: podem adorar as meias com caveiras, as tatuagens, o estilo, a trivela, o que for… Mas, no estádio, ele é só mais um dos nossos.
E, se dúvidas houvesse sobre por que Quaresma nunca poderá ser um capitão ou um símbolo do FCPorto, hoje li as seguintes palavras: “O sportem vai estar sempre comigo”. E, dizem vocês, é muito lindo que ele não cuspa no prato do qual comeu. E, digo eu, em semana de clássico com o sportem, se ele não quer cuspir nesse prato, que se cale. Até sábado, tudo o que não for atirar esse prato de um 9º andar e ainda ir lá abaixo passar-lhe com uma retroescavadora em cima, é pouco para mim. Eu odeio esse prato e não admito que nenhum jogador que vá vestir a minha camisola nesse jogo pense em menos do que isso.
Porque o FCPorto, Quaresma, não é só o clube que te mostrou ao mundo, que te recuperou e que te paga ao fim do mês para poderes continuar a ter um grande carro. O FCPorto não é só essa conversa dos títulos, do tudo contra todos, do Somos Porto ou Sempre Preparados. O FCPorto é o entrar em campo no sábado com mais vontade do que eles, com as garras todas de fora, como se a vossa (e a nossa) vida dependesse daquela vitória. O FCPorto não é a equipa que jogou em alvalade, que foi roubada e podia ter ganho, note-se, mas que não quis tanto como os outros. E eu não posso admitir que alguém do meu clube não queira mais ganhar do que o beto do Adrien. Não posso admitir que um jogador corra menos do que o Cedric, faça mais asneiras do que o Saar, ou lute menos do que o Slimani.
Quaresma (e todos os outros totós que ainda não perceberam isto): no sábado, não é só um jogo da Taça. É um jogo contra o Acosta, que partiu o queixo ao Paulinho Santos. É um jogo contra o Bruno Paixão em Campomaior, que lhes deu um dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os penáltis do JVP para o Jardel, que lhes deu o outro dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os “tios” e as “tias” que não nos queriam ver a receber a Taça em 1994 e pelos corajosos jogadores que a levantaram. É um jogo contra o “Ricardismo” que afastou o nosso Baía da selecção. É um jogo contra adeptos que passam o jogo a reclamar de um lançamento, que querem é penáltis e expulsões e confusão, que não ganham nada mas são felizes na sua essência. É um jogo contra o presidente, que anda a falar sozinho, mas que tem de perder com os outros todos. É um jogo contra um rival. Portanto, vamos sofrer. Todos juntos, com Quaresma ou Tony Carreira, sei lá, nem quero saber.
Claro que, Quaresma, se marcares dois golos, deres outros dois a marcar, festejares mostrando o rabo à bancada visitante e com uma camisola a dizer “Estava a brincar no outro dia, o sportem afinal cheira a cocó” (perdoem-me a linguagem, ando a ouvir muito o Bruno porque estou viciada na sportem TV), estás perdoadíssimo. E prometo-te que venho aqui e mudo este texto todo, porque, se isso acontecesse, eras o melhor jogador da história do futebol, como é evidente. Aliás, vou mais longe, porque, se fizeres isto tudo, segunda-feira vou assim vestida para o trabalho:




