1. Silêncio que só pode ser interrompido por asneiras
Estou fodida. Mal falei desde as 19.00 de sábado e continuo a não ter grande coisa para dizer. Sinto uma impotência do caralho. Estou farta desta merda.
2. Mandar todos para o caralho
Não considero adepto qualquer um que, nestas alturas, se dirige a outro adepto com piadolas ou provocações. Eu adoro gozar o benfica e o sportem nas suas humilhantes derrotas (e já vi tantas, foda-se!), mas nunca serei a pessoa que acha lindo ir massacrar o amigo adepto desses clubes. Vocês, que estão tão habituados a esta merda de sensação, deixem-me em paz. Não preciso de piadolas ou provocações, esta merda já custa que chegue. E isto estende-se a portistas que ficam contentes por estas coisas acontecerem, porque assim vêem validadas todas as suas previsões de catástrofe. Não são melhores do que eles, caralho.
3. Tentar pensar noutras merdas
Como se fosse possível. Tentar esquecer que esta merda não está a resultar, que já vimos este filme, que isto vai ser um filho da puta de um sofrimento até ao fim. Tentar não culpar tudo e todos, quando a vontade é toda essa. Tentar não desistir, nunca, não pode ser.
4. Acreditar que esta merda vai mudar
Foda-se, eu já me enganei muitas vezes em relação a treinadores, jogadores ou formas de jogar. Juro, sou uma merda de uma inutilidade como visionária. Mas até eu, até o caralho do meu peluche que é um urso azul com um símbolo do FCPorto, já percebemos que assim não dá. O que falta acontecer para o treinador perceber o mesmo? Um jogador do FCPorto entrar com uma bandeja no campo, colocar lá a bola e entregar tudo a um filho da puta de um adversário? Foda-se, parece-me que isso já está!!! Podemos seguir em frente, por favor??
5. Querer mais do que os outros filhos da puta
Já não via o Dragão assim há muito tempo. Que vontade! Cantei o hino até me engasgar, literalmente. Nas bancadas, entrámos com tudo, caralho. Estávamos capazes de os comer vivos. Estávamos a ser o Porto, foda-se, finalmente! Ao 8262044o passe falhado na defesa, levantámo-nos todos e juro que por momentos pensei que eram os nossos que não saíam dali vivos. Porra, isto é o Porto! Sofrer com aquilo até aos ossos! Se eles percebessem, se eles soubessem o que isto é...
6. Rezar para que alguém acorde aqueles cabrões
Andamos há muito tempo com esta conversa. Há tanto, que alguém lá em cima já a devia ter percebido. Falta Porto ao Porto. É assim tão difícil de aceitar a crítica? Seremos assim todos tão maluquinhos que não tenhamos percebido que é óptimo ter um jogador como Jackson, que foi um negócio do caralho ficar com ele mais um ano, mas que um capitão, um capitão à Porto, nunca tremeria naquela merda de penálti? Será assim tão de loucos esperar que um gajo que faz as asneiras do Marcano e do Casemiro se atire para o chão desesperado, chore, peça desculpa ou o caralho? Será assim tão impossível imaginar um mundo onde esses gajos tivessem de passar por nós na rua para saber como nós estamos depois da merda que fizeram? Foda-se, eu não peço um 11 de jogadores nascidos e criados no Porto. Já só queria um, UM gajo qualquer naquele relvado que percebesse um caralho do que é o nosso clube e do que estava ali em causa.
7. Manter alguma postura no meio desta merda toda
Nós não somos os gajos que foram campeões duas vezes nos últimos 30 anos. Nós não somos os gajos humilhados umas 92 vezes só nos últimos anos e que nem uma merda de uma final europeia são capazes de ganhar. Nós somos o Porto. Foda-se, e isso é um orgulho do caralho mesmo! Ninguém nos tirou nada, nem nós podemos deixar que se atrevam a tirar. Esta merda custa, mas não acaba aqui.
8. Levantar a cabeça, o caralho!
A partir de agora, a tolerância é 0! Recuso-me a repetir o mesmo erro dois anos seguidos. Se eu não vir imediatamente uma reacção à Porto, está tudo fodido.
9. Isto é só futebol? Foda-se!
Se acham que estou muito afectada, se vos parece que exagerei no tom, se nunca passaram por esta filha da puta de tristeza, então falamos daqui a uns dias, ou semanas, é mais seguro. O pouco que quero falar é com malucos que sabem o que é esta merda.
10. Amo-te muito, M.
Desculpa não te teres apaixonado por uma pessoa normal, que hoje chegaria aos teus braços feliz por te rever. Obrigada por perceberes o que se está a passar comigo, obrigada por aquela SMS no final do jogo a lembrar-me como o sportem é uma merda. És um marido do caraças, juro, mesmo sendo da merda do benfica. Foda-se, é que nem me posso lembrar dessa merda que ainda fico mais fodida.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
domingo, 19 de outubro de 2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Quaresma
Ricardo Quaresma é um óptimo exemplo do tipo de jogador de quem eu não gosto: individualista, egocêntrico, egoísta, incontrolável. É um jogador que irá sempre preferir fintar a passar ao lado, é um homem que irá sempre dizer ou pensar “eu” em vez de “nós”. Os especialistas dizem que nunca respeitou o suficiente a táctica, eu acrescento que o principal problema é nunca respeitar o suficiente a equipa. Mas também é, provavelmente, o jogador português mais talentoso desta geração. Ninguém tem aquela técnica, nem aqui nem em nenhum lado. O que Quaresma faz, só Quaresma é capaz de fazer. É único, não há igual e não dá para ensinar ou treinar.
Agora parem por momentos de imaginar o Quaresma com aquelas meias com caveiras a chegar ao treino da selecção, porque eu vou fazer uma comparação: Quaresma é aquele rapaz super giro, com grande corpo, demasiada areia para qualquer camião, que tu passas dias a admirar ao longe e a imaginar como é o homem perfeito… até que ele vem falar contigo e não sabe elaborar uma frase. Quaresma é o gajo que conheces na discoteca e ficas imediatamente apaixonada, até que, à primeira mensagem escrita que te manda, vem tudo cheio de erros e vomitas. Quaresma é o idiota com quem dás umas voltas, mas não apresentas a ninguém porque tens vergonha.
Após tantos anos no FCPorto, Quaresma continua a dar-nos umas voltas, a marcar uns golos porreiros, a fazer uns cruzamentos perfeitos, a fazer umas fintas únicas. Mas continuamos a ter vergonha dele. Nem que, de vez em quando, como no ano passado, seja a voz que é capaz de dizer em voz alta que a equipa não vale nada. O que era efectivamente verdade e que até nos fez agradecer-lhe a sinceridade. Mas até aí, nesse desabafo, o que Quaresma nos estava a dizer era que ele é bom demais para aquilo. Desculpem, mas tendo em conta o historial, não acredito no seu amor eterno ao FCPorto.
De qualquer modo, apreciei a sua reacção ao drama Lopetegui. Mais ainda apreciei ter um treinador que coloca a equipa acima das estrelas. Acho até que foi uma situação muito bem gerida, de parte a parte. Os únicos que estiveram mal nesta história, aliás, foram os adeptos, que assobiaram o nosso treinador por causa de um jogador. Vamos lá ver se nos entendemos: o único jogador que justificaria desestabilizar a equipa por um desejo nosso de o querer ver em campo, para mim, seria um jogador chamado Futebol Clube do Porto. Como não há (o que é uma pena, acho que dava um bom nome), não vos percebo.
Portanto, espero que agora, com o golo e a assistência pela selecção, não venham as exigências. Eu quero lá saber se joga o Quaresma ou o Tello, o Oliver ou o Quintero, o cão ou o gato. Se quem jogar der tudo em campo, estou satisfeita. Nenhum jogador está, em nenhuma situação, acima da equipa. Metam isso na vossa cabeça: podem adorar as meias com caveiras, as tatuagens, o estilo, a trivela, o que for… Mas, no estádio, ele é só mais um dos nossos.
E, se dúvidas houvesse sobre por que Quaresma nunca poderá ser um capitão ou um símbolo do FCPorto, hoje li as seguintes palavras: “O sportem vai estar sempre comigo”. E, dizem vocês, é muito lindo que ele não cuspa no prato do qual comeu. E, digo eu, em semana de clássico com o sportem, se ele não quer cuspir nesse prato, que se cale. Até sábado, tudo o que não for atirar esse prato de um 9º andar e ainda ir lá abaixo passar-lhe com uma retroescavadora em cima, é pouco para mim. Eu odeio esse prato e não admito que nenhum jogador que vá vestir a minha camisola nesse jogo pense em menos do que isso.
Porque o FCPorto, Quaresma, não é só o clube que te mostrou ao mundo, que te recuperou e que te paga ao fim do mês para poderes continuar a ter um grande carro. O FCPorto não é só essa conversa dos títulos, do tudo contra todos, do Somos Porto ou Sempre Preparados. O FCPorto é o entrar em campo no sábado com mais vontade do que eles, com as garras todas de fora, como se a vossa (e a nossa) vida dependesse daquela vitória. O FCPorto não é a equipa que jogou em alvalade, que foi roubada e podia ter ganho, note-se, mas que não quis tanto como os outros. E eu não posso admitir que alguém do meu clube não queira mais ganhar do que o beto do Adrien. Não posso admitir que um jogador corra menos do que o Cedric, faça mais asneiras do que o Saar, ou lute menos do que o Slimani.
Quaresma (e todos os outros totós que ainda não perceberam isto): no sábado, não é só um jogo da Taça. É um jogo contra o Acosta, que partiu o queixo ao Paulinho Santos. É um jogo contra o Bruno Paixão em Campomaior, que lhes deu um dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os penáltis do JVP para o Jardel, que lhes deu o outro dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os “tios” e as “tias” que não nos queriam ver a receber a Taça em 1994 e pelos corajosos jogadores que a levantaram. É um jogo contra o “Ricardismo” que afastou o nosso Baía da selecção. É um jogo contra adeptos que passam o jogo a reclamar de um lançamento, que querem é penáltis e expulsões e confusão, que não ganham nada mas são felizes na sua essência. É um jogo contra o presidente, que anda a falar sozinho, mas que tem de perder com os outros todos. É um jogo contra um rival. Portanto, vamos sofrer. Todos juntos, com Quaresma ou Tony Carreira, sei lá, nem quero saber.
Claro que, Quaresma, se marcares dois golos, deres outros dois a marcar, festejares mostrando o rabo à bancada visitante e com uma camisola a dizer “Estava a brincar no outro dia, o sportem afinal cheira a cocó” (perdoem-me a linguagem, ando a ouvir muito o Bruno porque estou viciada na sportem TV), estás perdoadíssimo. E prometo-te que venho aqui e mudo este texto todo, porque, se isso acontecesse, eras o melhor jogador da história do futebol, como é evidente. Aliás, vou mais longe, porque, se fizeres isto tudo, segunda-feira vou assim vestida para o trabalho:
Agora parem por momentos de imaginar o Quaresma com aquelas meias com caveiras a chegar ao treino da selecção, porque eu vou fazer uma comparação: Quaresma é aquele rapaz super giro, com grande corpo, demasiada areia para qualquer camião, que tu passas dias a admirar ao longe e a imaginar como é o homem perfeito… até que ele vem falar contigo e não sabe elaborar uma frase. Quaresma é o gajo que conheces na discoteca e ficas imediatamente apaixonada, até que, à primeira mensagem escrita que te manda, vem tudo cheio de erros e vomitas. Quaresma é o idiota com quem dás umas voltas, mas não apresentas a ninguém porque tens vergonha.
Após tantos anos no FCPorto, Quaresma continua a dar-nos umas voltas, a marcar uns golos porreiros, a fazer uns cruzamentos perfeitos, a fazer umas fintas únicas. Mas continuamos a ter vergonha dele. Nem que, de vez em quando, como no ano passado, seja a voz que é capaz de dizer em voz alta que a equipa não vale nada. O que era efectivamente verdade e que até nos fez agradecer-lhe a sinceridade. Mas até aí, nesse desabafo, o que Quaresma nos estava a dizer era que ele é bom demais para aquilo. Desculpem, mas tendo em conta o historial, não acredito no seu amor eterno ao FCPorto.
De qualquer modo, apreciei a sua reacção ao drama Lopetegui. Mais ainda apreciei ter um treinador que coloca a equipa acima das estrelas. Acho até que foi uma situação muito bem gerida, de parte a parte. Os únicos que estiveram mal nesta história, aliás, foram os adeptos, que assobiaram o nosso treinador por causa de um jogador. Vamos lá ver se nos entendemos: o único jogador que justificaria desestabilizar a equipa por um desejo nosso de o querer ver em campo, para mim, seria um jogador chamado Futebol Clube do Porto. Como não há (o que é uma pena, acho que dava um bom nome), não vos percebo.
Portanto, espero que agora, com o golo e a assistência pela selecção, não venham as exigências. Eu quero lá saber se joga o Quaresma ou o Tello, o Oliver ou o Quintero, o cão ou o gato. Se quem jogar der tudo em campo, estou satisfeita. Nenhum jogador está, em nenhuma situação, acima da equipa. Metam isso na vossa cabeça: podem adorar as meias com caveiras, as tatuagens, o estilo, a trivela, o que for… Mas, no estádio, ele é só mais um dos nossos.
E, se dúvidas houvesse sobre por que Quaresma nunca poderá ser um capitão ou um símbolo do FCPorto, hoje li as seguintes palavras: “O sportem vai estar sempre comigo”. E, dizem vocês, é muito lindo que ele não cuspa no prato do qual comeu. E, digo eu, em semana de clássico com o sportem, se ele não quer cuspir nesse prato, que se cale. Até sábado, tudo o que não for atirar esse prato de um 9º andar e ainda ir lá abaixo passar-lhe com uma retroescavadora em cima, é pouco para mim. Eu odeio esse prato e não admito que nenhum jogador que vá vestir a minha camisola nesse jogo pense em menos do que isso.
Porque o FCPorto, Quaresma, não é só o clube que te mostrou ao mundo, que te recuperou e que te paga ao fim do mês para poderes continuar a ter um grande carro. O FCPorto não é só essa conversa dos títulos, do tudo contra todos, do Somos Porto ou Sempre Preparados. O FCPorto é o entrar em campo no sábado com mais vontade do que eles, com as garras todas de fora, como se a vossa (e a nossa) vida dependesse daquela vitória. O FCPorto não é a equipa que jogou em alvalade, que foi roubada e podia ter ganho, note-se, mas que não quis tanto como os outros. E eu não posso admitir que alguém do meu clube não queira mais ganhar do que o beto do Adrien. Não posso admitir que um jogador corra menos do que o Cedric, faça mais asneiras do que o Saar, ou lute menos do que o Slimani.
Quaresma (e todos os outros totós que ainda não perceberam isto): no sábado, não é só um jogo da Taça. É um jogo contra o Acosta, que partiu o queixo ao Paulinho Santos. É um jogo contra o Bruno Paixão em Campomaior, que lhes deu um dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os penáltis do JVP para o Jardel, que lhes deu o outro dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os “tios” e as “tias” que não nos queriam ver a receber a Taça em 1994 e pelos corajosos jogadores que a levantaram. É um jogo contra o “Ricardismo” que afastou o nosso Baía da selecção. É um jogo contra adeptos que passam o jogo a reclamar de um lançamento, que querem é penáltis e expulsões e confusão, que não ganham nada mas são felizes na sua essência. É um jogo contra o presidente, que anda a falar sozinho, mas que tem de perder com os outros todos. É um jogo contra um rival. Portanto, vamos sofrer. Todos juntos, com Quaresma ou Tony Carreira, sei lá, nem quero saber.
Claro que, Quaresma, se marcares dois golos, deres outros dois a marcar, festejares mostrando o rabo à bancada visitante e com uma camisola a dizer “Estava a brincar no outro dia, o sportem afinal cheira a cocó” (perdoem-me a linguagem, ando a ouvir muito o Bruno porque estou viciada na sportem TV), estás perdoadíssimo. E prometo-te que venho aqui e mudo este texto todo, porque, se isso acontecesse, eras o melhor jogador da história do futebol, como é evidente. Aliás, vou mais longe, porque, se fizeres isto tudo, segunda-feira vou assim vestida para o trabalho:
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
O Bernardo do Benfica
Confesso-vos que demorei a ver o Bernardo Silva. Por escolhas erradas que tomei ao longo da vida, nomeadamente ter escolhido ser médico em vez de jogador de futebol do Sport Lisboa e Benfica, só tenho tempo para saber tudo e mais alguma coisa da nossa equipa de futebol. Os juniores, a equipa B e as modalidades não têm a atenção que merecem a minha parte e penitencio-me por isso. Assim, ao invés de pessoas mais bem informadas do que eu, a minha atenção só se virou para o Bernardo quando começaram a correr nas redes sociais as fotografias dele no instagram: foi como uma bomba, havia um jogador do Benfica B que era do Benfica desde pequenino e que vive o clube como nós.
Comecei a espreitar resumos da equipa B, a ver os consecutivos golos e prémios de melhor em campo e dei por mim, mesmo sem lhe ver 90 minutos completos, a torcer por ele. O Bernardo Silva - independentemente do que venha a ser enquanto jogador de futebol - é um adepto do Benfica. E aos adeptos do Benfica quer-se sempre o melhor. Se o Bernardo chegar a jogar na Luz pelo Glorioso e marcar, virá festejar connosco e vai ter a alegria que nós teríamos. Só uma pessoa sem coração (ou sem acesso às redes sociais) podia não torcer por um jogador que ia à Luz de cachecol como nós.
Apesar de ser um adepto e de ter um ideal romântico sobre o mundo da bola, sou muito pragmático: não há Bernardos que substituam os Enzos, os Oblaks, os Garays, os craques a sério. Eu também sou mesmo muito do Benfica e duvido que fosse útil, neste meu momento de forma, à equipa de futebol, portanto não sou nenhum fundamentalista do "jogador da formação", do "jogador português" e dessas coisas. Eu quero que o Benfica tenha os melhores, não me interessa a idade, a nacionalidade nem se são vegetarianos ou se comem três bitoques ao pequeno-almoço. O que me faz confusão é que, em condições iguais, não se dê prioridade ao jogador da formação, ou - e isto ainda é mais importante - que sente o clube. Porque uma coisa é comparar o Ivan Cavaleiro ao Markovic, em que o primeiro será uma eterna promessa do futebol português e o segundo, enfim (pausa para chorar de saudades), outra é achar que o Bernardo não tem lugar neste plantel do Benfica.
A questão é grave por dois prismas: em primeiro lugar, porque o Benfica perde um jogador que lhe podia ser muito útil porque me parece muito bom, ponto. Eu sei que desde que desperdiçámos Mario Stanic e Deco que o Bernardo pode não parecer muito grave, mas algo me diz que sim. Em segundo, pela identidade do clube. Este que vos escreve tem a mania que sabe muito de futebol e que acerta muito, mas, assim que vi o Talisca, ia morrendo. O Talisca, a número oito então, pareceu-me ser rapaz para ser responsável por 275 cateterismos e 12 pacemakers só na minha pessoa. Em todos os jogos, era sempre o jogador que eu tirava na primeira substituição. E o que é facto é que o rapaz tem 6 golos e que está a humilhar a minha opinião inicial sobre ele. Eu, sobre o Benfica, não faço questão de ter razão. Oxalá o Talisca se sagre Bota de Ouro este ano e que nunca mais ninguém ligue ao que eu escrevo. Mas o Talisca, apesar da sua meia dúzia de golos, além de não saber quem é o D'Artagnan, não sabe o que é o Benfica. Tanto assim é, que decidiu tirar fotografias com o Kelvin e escrever inclusivamente que o ama.
As boas notícias (para os adeptos do Porto) é que o Kelvin está vivo, as más é que a jovem promessa goleadora do Benfica não percebe que uma fotografia destas é um choque para os adeptos do clube que representa. Tenho a certeza que o Bernardo não metia uma foto com o Kelvin nem que este lhe salvasse a família inteira e lhe entregasse três chaves vencedoras do Euromilhões. E isto é importante, isto é fundamental para um clube. Não acho que haja uma escolha Talisca versus Bernardo; o Benfica podia ter perfeitamente os dois e beneficiava disso. Eu prefiro o Talisca ao Ivan Cavaleiro e ao Nélson Oliveira. Mas prefiro uma oportunidade ao Bernardo do que aos negócios estilo Djavan, Candeias e Luís Felipes. É aí que me dói, que o Bernardo não tenha uma oportunidade no Benfica. É que há jogadores francamente maus que a têm só por jogos de comissões e empresários. O Bernardo não merece lugar cativo no Benfica só porque tem um número de sócio baixo, mas o seu futebol e o mais que declarado amor ao clube têm que se sobrepor a várias negociatas estranhas.
É que o Bernardo tem tudo para ser um Paneira. Um daqueles que só de vestir a camisola do Benfica se sente maior. E essa raça de jogadores que se confunde com a camisola tem uma grande virtude: torna o clube mais forte. Porque passa a haver alguém no balneário que lhes explica por que sofrem tanto os adeptos, que lhes explica por que é especial este ou aquele acontecimento, este ou aquele jogo. Porque esses jogadores comunicam melhor com os adeptos, fazem-nos sentir menos clientes, fazem-nos sentir mais próximos das camisolas. E esses clubes são melhores, são mais fortes, ganham mais do que os outros. É isso que eu quero para o Benfica. Porque eu sou do Benfica como o Bernardo Silva.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
O sportem em 2014
Queridos filhos e netos,
Escrevo-vos do passado, mais exactamente de Setembro de 2014, para que vocês finalmente percebam por que é que os vossos pais/avós estão sempre a falar “no tal de sportem”. O desprezo com que vocês dizem isto, a maneira como ignoram o grande ódio que nos une no futebol português, é demasiado difícil de suportar para dois adeptos doentes do Porto e do benfica. Por isso, espero ajudar-vos a perceber a razão de eu e o vosso pai/avô nos rirmos tanto quando, no tradicional almoço de domingo, damos todos as mãos para rezar o “Bruno Carvalho que estais no céu”.
O sportem, em 2014, ainda era considerado um grande. Parece estúpido para vocês, eu sei. Bem, na verdade já o era um bocado nessa altura, mas fazia-nos impressão reduzir o campeonato a dois e acabava por ter a sua piada incluir os lagartos nas nossas discussões futebolísticas do dia-a-dia. Por exemplo, se o sportem não fosse considerado um grande em 2014 (como fazia sentido…), não tínhamos o Dias Ferreira, o Eduardo Barroso e o Rui Oliveira e Costa nos programas sobre futebol e, assim, não podíamos ter feito essas compilações das maiores vergonhas televisivas, que vemos sempre ao domingo à tarde todos juntos.
Em 2014, o sportem não era campeão há 12 anos. Hoje, isto para vocês até é um choque, porque quer dizer que o sportem já foi campeão, mas tentem aguentar a notícia. Sejam fortes, porque, antes de 2014, em três décadas, o sportem até foi campeão duas vezes. Chocante, certo? Mas olhem que foram tempos esquisitos no futebol português, vejam lá que até o boavista foi campeão (menos uma vez do que o sportem em 30 anos, reforçamos) e vocês sabem que o boavista andou depois muito tempo em divisões inferiores, que era o que devia ter acontecido ao sportem pelo menos em 2013 e infelizmente só veio a acontecer mais tarde.
Em defesa da nossa rivalidade com o sportem, a verdade é que eles até ganharam vários campeonatos ao longo dos tempos. Troféus internacionais, no entanto, foi mais difícil. Não é do nosso tempo, mas uma vez até ganharam uma Taça das Taças. Escusado será dizer que essa competição acabou. O melhor momento internacional do sportem de sempre está, aliás, encaixilhado na nossa sala - esse quadro enorme que vocês estão a ver é uma montagem das caras dos adeptos verdes quando o sportem falha o empate contra o CSKA e sofre o 3-1 em contra-ataque. Estamos fartos de vos dizer e a sério que a nossa repetição não é um sinal de velhice: aquele lance diz tudo do que era o sportem.
Mas o sportem teve muitos adeptos, juramos. Além de todos os “Bettencourts” e “Bernardos”, havia mesmo dois ou três “Joões” e “Silvas” que torciam pelos verdes. Na nossa família, como sabem, nunca ninguém sofreu desse mal. O vosso sangue pode ser vermelho, da parte rasca do vosso pai/avô, e azul, da parte nobre da vossa mãe/avó, mas nunca verde. Houve uma altura, quando nós lançámos o livro do nosso blog no qual vocês agora também escrevem, que as pessoas diziam muitas vezes que um dia ainda nos ia sair um filho do sportem. Tem piada imaginar como estavam tão enganadas, não tem queridos sócios nº 250273, 250274, 250275 e 250276 do FCPorto?
Bem, dizia eu que o sportem até era um clube a considerar no panorama do futebol português. No início da época 2014/2015, aliás, até se consideravam na “pole position” do ataque ao título. A sério, parem de se rir e continuem a ler até ao fim, chega de malcriadices. Nessa altura, o presidente deles era o tal das nossas rezas (Bruno Carvalho que estais nos céus, Santificado seja o vosso onze, Venha a nós o vosso sexto lugar, Sejam feitos os vossos empates, Assim em casa como fora. Os pontos nossos de cada dia nos dá o sportem. Perdoai-nos as nossas ofensas, Assim como nós perdoamos a quem nos deu o Moutinho. Não nos deixeis cair em alvalade, Mas livrai-nos do mal que é ir lá e não ganhar.) O Bruno Carvalho... Ai, bons tempos… Aliás, querido Jorge Nuno, meu filho mais velho, fica a saber que estiveste para te chamar assim, mas, como vieste na altura em que o Bruno foi parar à prisão, achámos por bem não brincar e dar-te o nome de uma pessoa decente e boa.
Mas, voltando a 2014, o Bruno estava com a pica toda. Quase não havia dia em que não viesse dizer mal do nosso FCPorto. Ninguém lhe respondia, o que tinha ainda mais piada. É que o Bruno achava não só que o sportem ainda podia bater-se com o FCPorto, como ele podia bater-se com o vosso padrinho, aquele que ainda outro dia foi jantar lá em casa e mostrou que está de perfeita saúde, o senhor Pinto da Costa. Todos juntos, agora sim: ámen.
No entanto, a vossa mãe/avó, que como sabem tem sempre razão, avisou logo na altura os outros portistas: não podíamos andar outra vez a dormir com as palavras daquele gajo para depois acabarmos a ser roubados em alvalade (alvalade era o estádio deles, onde agora é aquele cemitério que, sempre que passamos, eu e o vosso pai/avô fazemos coisas das quais não nos orgulhamos com os dedos).
Portanto, em 2014, ainda tínhamos de estar atentos ao sportem. E era bom, sabem? Sempre eram mais uns para nós, portistas e às vezes até o vosso pai/avô lampião, brincarmos. Se bem me lembro, não estávamos em Portugal quando o nosso FCPorto jogou em alvalade nessa altura. A vossa mãe/avó estava muito nervosa, como ainda hoje fica quando o sportem, da III divisão, nos calha para a Taça de Portugal. A rivalidade é assim mesmo: quero ganhar-lhes sempre, sempre. Percebem agora?
Escrevo-vos do passado, mais exactamente de Setembro de 2014, para que vocês finalmente percebam por que é que os vossos pais/avós estão sempre a falar “no tal de sportem”. O desprezo com que vocês dizem isto, a maneira como ignoram o grande ódio que nos une no futebol português, é demasiado difícil de suportar para dois adeptos doentes do Porto e do benfica. Por isso, espero ajudar-vos a perceber a razão de eu e o vosso pai/avô nos rirmos tanto quando, no tradicional almoço de domingo, damos todos as mãos para rezar o “Bruno Carvalho que estais no céu”.
O sportem, em 2014, ainda era considerado um grande. Parece estúpido para vocês, eu sei. Bem, na verdade já o era um bocado nessa altura, mas fazia-nos impressão reduzir o campeonato a dois e acabava por ter a sua piada incluir os lagartos nas nossas discussões futebolísticas do dia-a-dia. Por exemplo, se o sportem não fosse considerado um grande em 2014 (como fazia sentido…), não tínhamos o Dias Ferreira, o Eduardo Barroso e o Rui Oliveira e Costa nos programas sobre futebol e, assim, não podíamos ter feito essas compilações das maiores vergonhas televisivas, que vemos sempre ao domingo à tarde todos juntos.
Em 2014, o sportem não era campeão há 12 anos. Hoje, isto para vocês até é um choque, porque quer dizer que o sportem já foi campeão, mas tentem aguentar a notícia. Sejam fortes, porque, antes de 2014, em três décadas, o sportem até foi campeão duas vezes. Chocante, certo? Mas olhem que foram tempos esquisitos no futebol português, vejam lá que até o boavista foi campeão (menos uma vez do que o sportem em 30 anos, reforçamos) e vocês sabem que o boavista andou depois muito tempo em divisões inferiores, que era o que devia ter acontecido ao sportem pelo menos em 2013 e infelizmente só veio a acontecer mais tarde.
Em defesa da nossa rivalidade com o sportem, a verdade é que eles até ganharam vários campeonatos ao longo dos tempos. Troféus internacionais, no entanto, foi mais difícil. Não é do nosso tempo, mas uma vez até ganharam uma Taça das Taças. Escusado será dizer que essa competição acabou. O melhor momento internacional do sportem de sempre está, aliás, encaixilhado na nossa sala - esse quadro enorme que vocês estão a ver é uma montagem das caras dos adeptos verdes quando o sportem falha o empate contra o CSKA e sofre o 3-1 em contra-ataque. Estamos fartos de vos dizer e a sério que a nossa repetição não é um sinal de velhice: aquele lance diz tudo do que era o sportem.
Mas o sportem teve muitos adeptos, juramos. Além de todos os “Bettencourts” e “Bernardos”, havia mesmo dois ou três “Joões” e “Silvas” que torciam pelos verdes. Na nossa família, como sabem, nunca ninguém sofreu desse mal. O vosso sangue pode ser vermelho, da parte rasca do vosso pai/avô, e azul, da parte nobre da vossa mãe/avó, mas nunca verde. Houve uma altura, quando nós lançámos o livro do nosso blog no qual vocês agora também escrevem, que as pessoas diziam muitas vezes que um dia ainda nos ia sair um filho do sportem. Tem piada imaginar como estavam tão enganadas, não tem queridos sócios nº 250273, 250274, 250275 e 250276 do FCPorto?
Bem, dizia eu que o sportem até era um clube a considerar no panorama do futebol português. No início da época 2014/2015, aliás, até se consideravam na “pole position” do ataque ao título. A sério, parem de se rir e continuem a ler até ao fim, chega de malcriadices. Nessa altura, o presidente deles era o tal das nossas rezas (Bruno Carvalho que estais nos céus, Santificado seja o vosso onze, Venha a nós o vosso sexto lugar, Sejam feitos os vossos empates, Assim em casa como fora. Os pontos nossos de cada dia nos dá o sportem. Perdoai-nos as nossas ofensas, Assim como nós perdoamos a quem nos deu o Moutinho. Não nos deixeis cair em alvalade, Mas livrai-nos do mal que é ir lá e não ganhar.) O Bruno Carvalho... Ai, bons tempos… Aliás, querido Jorge Nuno, meu filho mais velho, fica a saber que estiveste para te chamar assim, mas, como vieste na altura em que o Bruno foi parar à prisão, achámos por bem não brincar e dar-te o nome de uma pessoa decente e boa.
Mas, voltando a 2014, o Bruno estava com a pica toda. Quase não havia dia em que não viesse dizer mal do nosso FCPorto. Ninguém lhe respondia, o que tinha ainda mais piada. É que o Bruno achava não só que o sportem ainda podia bater-se com o FCPorto, como ele podia bater-se com o vosso padrinho, aquele que ainda outro dia foi jantar lá em casa e mostrou que está de perfeita saúde, o senhor Pinto da Costa. Todos juntos, agora sim: ámen.
No entanto, a vossa mãe/avó, que como sabem tem sempre razão, avisou logo na altura os outros portistas: não podíamos andar outra vez a dormir com as palavras daquele gajo para depois acabarmos a ser roubados em alvalade (alvalade era o estádio deles, onde agora é aquele cemitério que, sempre que passamos, eu e o vosso pai/avô fazemos coisas das quais não nos orgulhamos com os dedos).
Portanto, em 2014, ainda tínhamos de estar atentos ao sportem. E era bom, sabem? Sempre eram mais uns para nós, portistas e às vezes até o vosso pai/avô lampião, brincarmos. Se bem me lembro, não estávamos em Portugal quando o nosso FCPorto jogou em alvalade nessa altura. A vossa mãe/avó estava muito nervosa, como ainda hoje fica quando o sportem, da III divisão, nos calha para a Taça de Portugal. A rivalidade é assim mesmo: quero ganhar-lhes sempre, sempre. Percebem agora?
terça-feira, 16 de setembro de 2014
O roubo
Cá em casa, discute-se muito sobre louça mal lavada e roupa fora do sítio, mas pouco sobre arbitragem. Não nos entendam mal: não é que cada um de nós não ache que o seu clube é sempre roubado pelos árbitros (com a diferença que eu, efectivamente, tenho razão, e o M. parece só maluquinho). O que conseguimos foi, ao longo dos anos, perceber que simplesmente não vale a pena.
As pessoas que não nos conhecem ficam muito surpreendidas quando dizemos que não vemos os jogos juntos, porque de um casal, e de um que ainda por cima gosta muito de bola, espera-se que faça tudo em conjunto, especialmente o que mais gosta. Mas o que esta relação nos ensinou é que perder tempo a discutir arbitragens um com o outro não contribui para nada além de um eventual divórcio.
As pessoas que não nos conhecem ficam muito surpreendidas quando dizemos que não vemos os jogos juntos, porque de um casal, e de um que ainda por cima gosta muito de bola, espera-se que faça tudo em conjunto, especialmente o que mais gosta. Mas o que esta relação nos ensinou é que perder tempo a discutir arbitragens um com o outro não contribui para nada além de um eventual divórcio.
Infelizmente, às vezes não me consigo desmarcar do M., como o Brahimi da defesa do Vitória, e fico, ao contrário do argelino, em fora-de-jogo. Isto é, tenho de ver um jogo com o meu marido. O que já é normalmente mau, mas piora consideravelmente quando estamos perante um grande e escandaloso roubo. Que foi o que aconteceu no último domingo.
Podia vir para aqui falar da má primeira parte do FCPorto, de como entrou mal Tello, de como Evandro parece merecer a titularidade, de como não percebo a entrada de um avançado aos 89 minutos, mas há momentos em que realmente isto não interessa muito. Pode ficar bonito, apontar as falhas que ainda é normal esta equipa ter, dá assim um ar de intelectual da bola porreiro, mas quando estamos a falar de um grandessíssimo roubo acho isso uma perda de tempo para um adepto.
Já devíamos, no entanto, estar habituados. Não é preciso recuar muito. O ano passado, quando até o totó do Fonseca ia em primeiro, uma arbitragem escandalosa fez questão de roubar os primeiros pontos ao FCPorto. Seríamos campeões se não tivesse acontecido? Bem, na verdade não. Mas cansa um bocado isto do primeiro sinal de destabilização vir de fora.
Por isso, espero que desta vez os portistas estejam mais atentos. Eu sei que é quase impossível pedir-vos que não assobiem a próxima hesitação da equipa, mas pensem nisto quando levarem a merda desses dedos à boca: o que estas inocentes arbitragens fazem é levar-nos a duvidar, a criticar, a colocar em questão um trabalho que, a meu ver, está a ser bem feito. E isso parece-me um bocado estúpido.
Portanto, a nossa relação sobreviveu a mais um domingo de roubo ao FCPorto. À custa de muito silêncio, muita omissão de pensamentos e de um controlo notório sobre a vontade que temos de denunciar o outro à polícia, como quando o M. disse que não era penalty a nosso favor. A sério, é nestas alturas que eu não percebo como posso gostar tanto de uma pessoa tão vil.
P.S. Queremos deixar por escrito um elogio ao presidente do Vitória pela atitude depois da vergonhosa carga policial sobre os adeptos. Não é qualquer um que faz aquilo. Os nossos parabéns.
Podia vir para aqui falar da má primeira parte do FCPorto, de como entrou mal Tello, de como Evandro parece merecer a titularidade, de como não percebo a entrada de um avançado aos 89 minutos, mas há momentos em que realmente isto não interessa muito. Pode ficar bonito, apontar as falhas que ainda é normal esta equipa ter, dá assim um ar de intelectual da bola porreiro, mas quando estamos a falar de um grandessíssimo roubo acho isso uma perda de tempo para um adepto.
Já devíamos, no entanto, estar habituados. Não é preciso recuar muito. O ano passado, quando até o totó do Fonseca ia em primeiro, uma arbitragem escandalosa fez questão de roubar os primeiros pontos ao FCPorto. Seríamos campeões se não tivesse acontecido? Bem, na verdade não. Mas cansa um bocado isto do primeiro sinal de destabilização vir de fora.
Por isso, espero que desta vez os portistas estejam mais atentos. Eu sei que é quase impossível pedir-vos que não assobiem a próxima hesitação da equipa, mas pensem nisto quando levarem a merda desses dedos à boca: o que estas inocentes arbitragens fazem é levar-nos a duvidar, a criticar, a colocar em questão um trabalho que, a meu ver, está a ser bem feito. E isso parece-me um bocado estúpido.
Portanto, a nossa relação sobreviveu a mais um domingo de roubo ao FCPorto. À custa de muito silêncio, muita omissão de pensamentos e de um controlo notório sobre a vontade que temos de denunciar o outro à polícia, como quando o M. disse que não era penalty a nosso favor. A sério, é nestas alturas que eu não percebo como posso gostar tanto de uma pessoa tão vil.
P.S. Queremos deixar por escrito um elogio ao presidente do Vitória pela atitude depois da vergonhosa carga policial sobre os adeptos. Não é qualquer um que faz aquilo. Os nossos parabéns.
sábado, 13 de setembro de 2014
M. na Benfica TV
Fui à Benfica TV falar da actualidade do clube, do blog e do livro. Muito obrigado ao João Martins pelo convite e pela conversa à Benfica antes do programa.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Época de exame
Eu fui um bom aluno. Na faculdade tinha dois objectivos: acabar o curso com uma boa média - coloquei a meta nos 16 valores e atingi-a sem grandes problemas - e nunca deixar nada para Setembro porque isso me ia lixar as férias. Palavras sábias que alguém uma vez disse ao meu pai: "Ser o melhor aluno dos bebâdos e o mais bebâdo dos melhores alunos". Este objectivo não consegui, mas pronto.
Como aluno de 16, havia vários tipos de exame. Havia os exames em que tinha estudado para mais do que 16, em que o exame era fácil e eu sabia que ia ter boa nota antes de começar. Uma pessoa está plenamente confiante, não há discussões interiores sobre a matéria, aquilo já faz parte de nós. Como, a certa altura, o Benfica de 2013/2014. Em Fevereiro de 2014, quando o Benfica atropelou o Sporting no Estádio da Luz, o Benfica sabia a matéria de cor. Era o aluno sem medo, perfeitamente capacitado do que sabia, que nem imaginava que podia ter dúvidas. Os jogadores abordavam os jogos e os lances sem colocarem a hipótese de não os ganharem. Estavam concentrados, e respondiam a perguntas aparentemente fáceis como "Rio Ave em casa", sem se esquecerem daquela coisinha que o professor tinha dito na aula e que ia ser descontada se não estivesse lá. Não havia engonhanços, ronha, as respostas eram claras, precisas, de quem sabia em que página do livro estava a resposta e ainda tinha preparado uns pozinhos para requintar a resposta. Em perguntas de alínea, como "Guimarães em casa", "Braga fora", o Benfica foi cuidadoso e humilde. Leu as alíneas todas para ir cortando as que tinha a certeza que estavam erradas e assinalou com cuidado, sem arriscar. O Benfica intramuros de 2013/2014, na segunda metade da época, foi o aluno de 20, o menino bonito em que um professor e um adepto se podia orgulhar e a quem se augurava um futuro risonho.
Houve exames que eu odiei fazer. Não gostava da cadeira (o curso de medicina é longo e tem várias coisas que depois nos esquecemos e que nunca vamos usar na vida. Sei mesmo muito pouco - nada? - de otorrinolaringologia, por exemplo), não tinha estudado, enfim. Eram cadeiras que eu fazia, mas em que não me aplicava a 100%. Não era o aluno modelo. E o Benfica, várias vezes, não o é. A preparação é deficiente, não se estudou o suficiente, a coisa vai correr mal. E aqui depende muito do professor que está do lado de lá. Num exame oral é preciso sorte com o professor, com a maneira como ele acordou, com as perguntas, com o facto de ter ou não simpatizado connosco. Uma vez fiz uma oral com um médico que tinha estado de urgência, sem dormir. Acho que se tivesse falado do Benfica em vez de medicina teria tido a mesma nota. E fiz orais com professores brilhantes, inteligentes, capazes de perceber só pela maneira como começávamos a frase se sabíamos ou não do que estávamos a falar (uma saudação à minha tutora de pediatria). Ou seja, muito do sucesso do Benfica depende do Porto (e vice-versa). Quando o Porto é implacável (2010), um Benfica mal preparado só vai levar sovas. Um Porto sem dormir, como o de 2005, foi vencido por um Benfica em que o primeiro médio suplente era o Bruno Aguiar.
Depois havia os exames dúbios. Aqueles onde eu tinha estudado, mas sabia que não eram fáceis. Os exames onde eu gostava da matéria, mas não sabia tudo. Eram as épocas de exames tramadas, com muitos exames em cima uns dos outros, às vezes na época de Natal, quando eu ia a casa visitar a família. E, nestes exames, as coisas eram imprevisíveis. Tudo é fácil quando se sabe a matéria toda - não há professor nem Estoril que nos tire dois pontos - e tudo é também fácil quando sabemos que não estamos preparados: não há ilusões e vamos só tentar não baixar muito a média e recuperar no próximo. Mas eram estes exames intermédios que eram uma incógnita e que puxavam pelos alunos. Era preciso ser-se esperto, concentrado e ter alguma sorte. Sinceramente, nunca fui suficientemente calmo para ser consistentemente bom nestes exames e, mais desafortunadamente, o Benfica também não. Um exame em que não soubéssemos tudo obrigava a ser inteligente na maneira como respondíamos com confiança, escondendo a matéria que não sabíamos. Era preciso trazer o exame até à nossa zona de conforto, ser inteligente e usar cada bala (os alunos de 20 acabam o exame com pena de não terem mostrado tudo o que sabiam). O Benfica nunca é bom nestes exames. Em anos em que o Porto é do nosso campeonato, nem muito superior nem muito inferior, o Benfica não tem sabido fazer o exame com inteligência (2011/2012), ou não tem tido sorte (2012/2013).
O Benfica de 2014/2015 tem o mesmo treinador de há 5 anos, aguentou Gaitan, Enzo Perez, Salvio, Lima e Luisão. Mas não tem Garay nem grandes avançados. É o bom aluno, o aluno de 16, mas o aluno que não estudou tudo. E tem um professor que sabe a matéria, ainda que haja lacunas. Para ser campeão, o Benfica tem que ser inteligente nas respostas, tem que estar sempre concentrado, tem que puxar persistentemente os jogos para aquilo em que faz melhor. Não pode entrar a achar que não vai ter boa nota, não pode achar que isto é um exame para 20 valores. É um exame duro, no qual é preciso sorte, é preciso que o professor falhe as perguntas e é preciso muita, muita concentração. 2014/2015 é um teste de maturidade, de mentalidade competitiva, de saber sofrer. 2013/2014 foi de cruz, 2014/2015 é uma pergunta de desenvolvimento.
Como aluno de 16, havia vários tipos de exame. Havia os exames em que tinha estudado para mais do que 16, em que o exame era fácil e eu sabia que ia ter boa nota antes de começar. Uma pessoa está plenamente confiante, não há discussões interiores sobre a matéria, aquilo já faz parte de nós. Como, a certa altura, o Benfica de 2013/2014. Em Fevereiro de 2014, quando o Benfica atropelou o Sporting no Estádio da Luz, o Benfica sabia a matéria de cor. Era o aluno sem medo, perfeitamente capacitado do que sabia, que nem imaginava que podia ter dúvidas. Os jogadores abordavam os jogos e os lances sem colocarem a hipótese de não os ganharem. Estavam concentrados, e respondiam a perguntas aparentemente fáceis como "Rio Ave em casa", sem se esquecerem daquela coisinha que o professor tinha dito na aula e que ia ser descontada se não estivesse lá. Não havia engonhanços, ronha, as respostas eram claras, precisas, de quem sabia em que página do livro estava a resposta e ainda tinha preparado uns pozinhos para requintar a resposta. Em perguntas de alínea, como "Guimarães em casa", "Braga fora", o Benfica foi cuidadoso e humilde. Leu as alíneas todas para ir cortando as que tinha a certeza que estavam erradas e assinalou com cuidado, sem arriscar. O Benfica intramuros de 2013/2014, na segunda metade da época, foi o aluno de 20, o menino bonito em que um professor e um adepto se podia orgulhar e a quem se augurava um futuro risonho.
Houve exames que eu odiei fazer. Não gostava da cadeira (o curso de medicina é longo e tem várias coisas que depois nos esquecemos e que nunca vamos usar na vida. Sei mesmo muito pouco - nada? - de otorrinolaringologia, por exemplo), não tinha estudado, enfim. Eram cadeiras que eu fazia, mas em que não me aplicava a 100%. Não era o aluno modelo. E o Benfica, várias vezes, não o é. A preparação é deficiente, não se estudou o suficiente, a coisa vai correr mal. E aqui depende muito do professor que está do lado de lá. Num exame oral é preciso sorte com o professor, com a maneira como ele acordou, com as perguntas, com o facto de ter ou não simpatizado connosco. Uma vez fiz uma oral com um médico que tinha estado de urgência, sem dormir. Acho que se tivesse falado do Benfica em vez de medicina teria tido a mesma nota. E fiz orais com professores brilhantes, inteligentes, capazes de perceber só pela maneira como começávamos a frase se sabíamos ou não do que estávamos a falar (uma saudação à minha tutora de pediatria). Ou seja, muito do sucesso do Benfica depende do Porto (e vice-versa). Quando o Porto é implacável (2010), um Benfica mal preparado só vai levar sovas. Um Porto sem dormir, como o de 2005, foi vencido por um Benfica em que o primeiro médio suplente era o Bruno Aguiar.
Depois havia os exames dúbios. Aqueles onde eu tinha estudado, mas sabia que não eram fáceis. Os exames onde eu gostava da matéria, mas não sabia tudo. Eram as épocas de exames tramadas, com muitos exames em cima uns dos outros, às vezes na época de Natal, quando eu ia a casa visitar a família. E, nestes exames, as coisas eram imprevisíveis. Tudo é fácil quando se sabe a matéria toda - não há professor nem Estoril que nos tire dois pontos - e tudo é também fácil quando sabemos que não estamos preparados: não há ilusões e vamos só tentar não baixar muito a média e recuperar no próximo. Mas eram estes exames intermédios que eram uma incógnita e que puxavam pelos alunos. Era preciso ser-se esperto, concentrado e ter alguma sorte. Sinceramente, nunca fui suficientemente calmo para ser consistentemente bom nestes exames e, mais desafortunadamente, o Benfica também não. Um exame em que não soubéssemos tudo obrigava a ser inteligente na maneira como respondíamos com confiança, escondendo a matéria que não sabíamos. Era preciso trazer o exame até à nossa zona de conforto, ser inteligente e usar cada bala (os alunos de 20 acabam o exame com pena de não terem mostrado tudo o que sabiam). O Benfica nunca é bom nestes exames. Em anos em que o Porto é do nosso campeonato, nem muito superior nem muito inferior, o Benfica não tem sabido fazer o exame com inteligência (2011/2012), ou não tem tido sorte (2012/2013).
O Benfica de 2014/2015 tem o mesmo treinador de há 5 anos, aguentou Gaitan, Enzo Perez, Salvio, Lima e Luisão. Mas não tem Garay nem grandes avançados. É o bom aluno, o aluno de 16, mas o aluno que não estudou tudo. E tem um professor que sabe a matéria, ainda que haja lacunas. Para ser campeão, o Benfica tem que ser inteligente nas respostas, tem que estar sempre concentrado, tem que puxar persistentemente os jogos para aquilo em que faz melhor. Não pode entrar a achar que não vai ter boa nota, não pode achar que isto é um exame para 20 valores. É um exame duro, no qual é preciso sorte, é preciso que o professor falhe as perguntas e é preciso muita, muita concentração. 2014/2015 é um teste de maturidade, de mentalidade competitiva, de saber sofrer. 2013/2014 foi de cruz, 2014/2015 é uma pergunta de desenvolvimento.
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