A reportagem no Porto Canal comigo, com outros emigrantes em Lisboa e com o momento mais alto da vida do M.: quando ele passou por portista durante um segundo.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
quarta-feira, 25 de março de 2015
Atenção, crianças
Antes de mais nada, deixem-me pedir-vos desculpa por este interregno tão prolongado na nossa escrita. Não se preocupem: cá em casa está tudo bem (apesar do último fim-de-semana atribulado), não houve divórcio (apesar de ter quase a certeza que o meu marido gosta mais de um árbitro qualquer do que de mim) e sobretudo não deixámos de ser estupidamente doentes (apesar de os nossos clubes teimarem em tornar-nos doentiamente estúpidos).
Jogo em casa. Domingo à noite. Frio e ameaça de chuva. Atrás de mim, pai e filho conversam. O Ronaldo perdeu, o Messi está a jogar muito, o Chelsea que não sai lá de trás por causa do Mourinho, o PSG, coitado, sem o Ibra. Já vai longo o debate e nós no campo a sofrer. “E o City, que desilusão”, diz ele. “E o Arouca, que perigo”, temo eu.
Sofro de cada vez que ouço aquele “Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Dói-me que ele lute pelos comandos da Playstation para escolher primeiro o Bayern. Confunde-me aquela camisola do Neymar tão desejada e imaculada lá no armário.
“Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Eu até compreendo, mas acho mesmo é que vocês são idiotas. Eu até desculpo, mas espero mesmo é que vocês não se reproduzam mais. Eu até partilho o mesmo planeta convosco, mas desejo mesmo é não estar na mesma bancada.
Oh, mas o Bayern tem tantos jogadores bons que é impossível não querer jogar com eles na consola. É o Neuer, é o Robben, é o Ribéry, é o Muller. “Ele sabe todos, até os números nas camisolas”. Uau, que prodígio. Isso serve para alguma coisa além de facilitar os insultos nos quartos-de-final da Champions? Quero vê-lo a ter coragem de mandar o Schweinsteiger para o #!”%!%#. Aí sim, tinham valido a pena todos os dias fechado em casa a jogar sem esfolar os joelhos.
Bem, mas afinal quem é que não quer uma camisola do Neymar? “Ele tem estilo...” E tem instagram, e facebook, e twitter, e cenas. #neymarélindo #neymaréomelhordomundo #neymarlevou7daalemanha #neymarselevasodaniloemboratemosproblemas. Pelo menos a camisola é para usar num campeonato de inter-turmas que abrange craques desde o Barcelona ao Ramaldense? “Não, cruzes, foi tão cara, não é para sujar”.
Como é que chegámos até aqui? Como é que, de repente, passámos das bancadas molhadas para o coração seco de um miúdo que sabe citar todos os golos, todas as assistências e todos os penteados do Cristiano Ronaldo? Como é que o tempo passou tão depressa desde aquela taça nas mãos do João Pinto até um hino da Liga dos Campeões que é música para os ouvidos de tantos mini-adeptos do PSG? Como é que não lhes soubemos mostrar que, por mais belo que seja o futebol mundial, é a bola lá da rua que nos distingue?
Queixamo-nos que o futebol já não nos dá valor, que pagamos bilhetes caros, que não temos ídolos nos nossos clubes. Tudo verdade. Tudo mudou. O espectáculo virou moda e a moda virou vaidade. Os jogadores são galácticos, as equipas são montras e para quê insistir na paixão se é o dinheiro que nos move?
Vamos desistir, então. Vamos deixar que as nossas crianças cresçam a saber escrever Lewandowski, mas sem saber o que é a traição de sair para o rival. Vamos deixá-las invejar as tatuagens de um Ibrahimovic, sem perceberem a diferença entre uma Juventus, um Barcelona ou um PSG. Vamos entretê-las com o duelo Ronaldo-Messi, sem as levarmos ao estádio para sentirem, para aprenderem, para sofrerem.
Jogo em casa. Domingo à noite. Frio e ameaça de chuva. Atrás de mim, pai e filho conversam. O Ronaldo perdeu, o Messi está a jogar muito, o Chelsea que não sai lá de trás por causa do Mourinho, o PSG, coitado, sem o Ibra. Já vai longo o debate e nós no campo a sofrer. “E o City, que desilusão”, diz ele. “E o Arouca, que perigo”, temo eu.
Sofro de cada vez que ouço aquele “Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Dói-me que ele lute pelos comandos da Playstation para escolher primeiro o Bayern. Confunde-me aquela camisola do Neymar tão desejada e imaculada lá no armário.
“Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Eu até compreendo, mas acho mesmo é que vocês são idiotas. Eu até desculpo, mas espero mesmo é que vocês não se reproduzam mais. Eu até partilho o mesmo planeta convosco, mas desejo mesmo é não estar na mesma bancada.
Oh, mas o Bayern tem tantos jogadores bons que é impossível não querer jogar com eles na consola. É o Neuer, é o Robben, é o Ribéry, é o Muller. “Ele sabe todos, até os números nas camisolas”. Uau, que prodígio. Isso serve para alguma coisa além de facilitar os insultos nos quartos-de-final da Champions? Quero vê-lo a ter coragem de mandar o Schweinsteiger para o #!”%!%#. Aí sim, tinham valido a pena todos os dias fechado em casa a jogar sem esfolar os joelhos.
Bem, mas afinal quem é que não quer uma camisola do Neymar? “Ele tem estilo...” E tem instagram, e facebook, e twitter, e cenas. #neymarélindo #neymaréomelhordomundo #neymarlevou7daalemanha #neymarselevasodaniloemboratemosproblemas. Pelo menos a camisola é para usar num campeonato de inter-turmas que abrange craques desde o Barcelona ao Ramaldense? “Não, cruzes, foi tão cara, não é para sujar”.
Como é que chegámos até aqui? Como é que, de repente, passámos das bancadas molhadas para o coração seco de um miúdo que sabe citar todos os golos, todas as assistências e todos os penteados do Cristiano Ronaldo? Como é que o tempo passou tão depressa desde aquela taça nas mãos do João Pinto até um hino da Liga dos Campeões que é música para os ouvidos de tantos mini-adeptos do PSG? Como é que não lhes soubemos mostrar que, por mais belo que seja o futebol mundial, é a bola lá da rua que nos distingue?
Queixamo-nos que o futebol já não nos dá valor, que pagamos bilhetes caros, que não temos ídolos nos nossos clubes. Tudo verdade. Tudo mudou. O espectáculo virou moda e a moda virou vaidade. Os jogadores são galácticos, as equipas são montras e para quê insistir na paixão se é o dinheiro que nos move?
Vamos desistir, então. Vamos deixar que as nossas crianças cresçam a saber escrever Lewandowski, mas sem saber o que é a traição de sair para o rival. Vamos deixá-las invejar as tatuagens de um Ibrahimovic, sem perceberem a diferença entre uma Juventus, um Barcelona ou um PSG. Vamos entretê-las com o duelo Ronaldo-Messi, sem as levarmos ao estádio para sentirem, para aprenderem, para sofrerem.
Ou então vamos dar luta. Vamos pegar nelas e ensinar-lhes o que é ter clube, ter uma identidade, apoiar os nossos. Vamos dar-lhes aquele cachecol antigo, vamos cantar-lhes aquela música mais ou menos insultuosa para com os tristes coleguinhas que não partilham este bem comum. Vamos explicar-lhes tudo o que não tem sentido nisto e vamos deixá-las descobrir como só torcer assim faz sentido. Vamos mostrar-lhes que, por muito que tentem afastar-nos das estrelas, dos golos, das vitórias, das derrotas, do futebol... nós nunca vamos separar-nos deste nosso amor.
A nós, casal de doentes de clubes diferentes, perguntam-nos muitas vezes como iremos fazer com um filho. É um drama, já se sabe. Será que vai ser um lampião detestável só para agradar ao pai? Ou será que vai ser um portista exemplar só porque vai gostar de ganhar mais e, vá, para deixar a mãe em êxtase? Não sei, não faço ideia. Tenho um desejo, admito, e prometo tentar tudo para que se realize. Mas de uma coisa tenho a certeza: seja com o M. ou comigo, e apesar de toda a lavagem cerebral que vai levar para decorar toda a história do futebol mundial, o raio da criança nunca irá, durante um jogo essencial com um Arouca, incomodar um verdadeiro adepto com estas merdas. Haja respeito.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Conversa sobre árbitros
Como é que um casal de fanáticos, ele do Benfica e ela do Porto, vivem na mesma casa? Como é que gostam um do outro se detestam tanto o clube do outro? Como é que, nestes dias em que não se fala de outra coisa, não andam constantemente a discutir arbitragens?
Pois, a verdade é que grande parte do segredo desta relação está aqui: não discutir árbitros ou, não o conseguindo evitar, fazendo-o sempre no pressuposto de que o outro vai defender o contrário e não vai mudar de opinião. Não há fanático que o faça racionalmente, não há doente que admita um favorecimento nem há adepto que se esqueça que foi prejudicado.
Na verdade, se nos assumíssemos, a nossa vida seria basicamente isto:
M: Bom dia, C.
C: Colinho. Andas ao colinho.
M: Queres que te faça o pequeno-almoço? Talvez... fruta com café com leite?
C: Não preferes pagar ao Capela para ele mo fazer?
M: Apito Dourado.
C: Vá, M., faz lá isso que estou atrasada. Ao contrário do Maxi, que estava um bocadinho adiantado...
M: Estás atrasada? Mas vais a Penafiel? Lá podes andar à vontade que toda a gente considera que estás atrasada...
C: Calabote.
M: Pronto, vou despachar-me que tenho de ir trabalhar. Tu hoje vais à festa de despedida do Proença não é?
C: Eu e o Cardozo, que ainda se lembra daquelas duas mãos que deu no jogo que vocês tanto falam do Maicon.
M: Escutas.
C: Este fim de semana vamos para a tua casa no Algarve? Tipo Estoril?
M: Sim, mas não vamos pela Cosmos.
C: Rennie.
M: Achas que esta casa é segura? Ou é melhor chamares o Guarda Abel?
C: Vê lá se não faço um túnel no corredor...
M: Azia.
C: Ainda estou à espera que me expulses desta casa. O Cosme demora muito?
M: Calma, não és assim tão caceteira como o Jorge Costa, Paulinho Santos, Bruno Alves, Casemiro...
C: Só choradinho.
M: O Jorge Sousa é dos Super Dragões.
C: O fiscal-de-linha do Guimarães-FCPorto gosta da página de Facebook do Benfica.
M: Andor. Temos de ir trabalhar.
C: Kompensan.
M: Amo-te.
C: Amo-te.
Gostávamos de agradecer aos nossos leitores que enchem a caixa de comentários com argumentos deste género pela preciosa ajuda nesta conversa imaginária.
Também gostaríamos, neste cenário, que alguém do Sporting pudesse viver cá em casa só para acrescentarmos a estes poderosos argumentos os que temos guardados para eles. Mas, infelizmente, como toda a gente sabe, só Benfica e Porto estão unidos pelo casamento. O nosso, portanto. Vamos então tentar mantê-lo.
Pois, a verdade é que grande parte do segredo desta relação está aqui: não discutir árbitros ou, não o conseguindo evitar, fazendo-o sempre no pressuposto de que o outro vai defender o contrário e não vai mudar de opinião. Não há fanático que o faça racionalmente, não há doente que admita um favorecimento nem há adepto que se esqueça que foi prejudicado.
Na verdade, se nos assumíssemos, a nossa vida seria basicamente isto:
M: Bom dia, C.
C: Colinho. Andas ao colinho.
M: Queres que te faça o pequeno-almoço? Talvez... fruta com café com leite?
C: Não preferes pagar ao Capela para ele mo fazer?
M: Apito Dourado.
C: Vá, M., faz lá isso que estou atrasada. Ao contrário do Maxi, que estava um bocadinho adiantado...
M: Estás atrasada? Mas vais a Penafiel? Lá podes andar à vontade que toda a gente considera que estás atrasada...
C: Calabote.
M: Pronto, vou despachar-me que tenho de ir trabalhar. Tu hoje vais à festa de despedida do Proença não é?
C: Eu e o Cardozo, que ainda se lembra daquelas duas mãos que deu no jogo que vocês tanto falam do Maicon.
M: Escutas.
C: Este fim de semana vamos para a tua casa no Algarve? Tipo Estoril?
M: Sim, mas não vamos pela Cosmos.
C: Rennie.
M: Achas que esta casa é segura? Ou é melhor chamares o Guarda Abel?
C: Vê lá se não faço um túnel no corredor...
M: Azia.
C: Ainda estou à espera que me expulses desta casa. O Cosme demora muito?
M: Calma, não és assim tão caceteira como o Jorge Costa, Paulinho Santos, Bruno Alves, Casemiro...
C: Só choradinho.
M: O Jorge Sousa é dos Super Dragões.
C: O fiscal-de-linha do Guimarães-FCPorto gosta da página de Facebook do Benfica.
M: Andor. Temos de ir trabalhar.
C: Kompensan.
M: Amo-te.
C: Amo-te.
Gostávamos de agradecer aos nossos leitores que enchem a caixa de comentários com argumentos deste género pela preciosa ajuda nesta conversa imaginária.
Também gostaríamos, neste cenário, que alguém do Sporting pudesse viver cá em casa só para acrescentarmos a estes poderosos argumentos os que temos guardados para eles. Mas, infelizmente, como toda a gente sabe, só Benfica e Porto estão unidos pelo casamento. O nosso, portanto. Vamos então tentar mantê-lo.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Acordaram o monstro
Foram anos muito bons. De vitórias, de humilhações aos outros, de gozo constante. Ganhar é sempre bom, mas sabe melhor quando é assim. A eles. Obviamente, não podia durar para sempre. É futebol, dizem. Escusávamos, digo eu, de lhes entregar de bandeja um ano completamente perdido.
- Um ano muito mau não apaga os anos anteriores muito bons.
Bem, é verdade...
- Aquela derrota em casa não é o fim do mundo.
Sim, sim, está bem...
- O título está ao nosso alcance, calma.
Hum, ok, ok, eu aguento...
A verdade é que não aguentava mais. Não eram tanto os pontos de distância para cima, era a distância a que estávamos do FCPorto que eu conheci. No Dragão, os assobios, os comentários maldosos, as pipocas. E os rapazes em campo a deixarem-se comer pelo apito. Não pode ser, não pode ser. Ninguém lhes diz nada? Ninguém os avisa? Eles não vêem o que está montado desde a primeira jornada deste campeonato? Sou só eu que estou maluca???
Felizmente, não. Já em Penafiel os tinha visto. Naquele batatal, numa noite gelada, a correrem, a suarem, a darem tudo. Sem esquisitices, sem os penteados da moda a atrapalhar, sem a cabeça a pensar na selfie que iam tirar no balneário. O treinador, à chuva, sempre perto deles. E eles, ainda mais encharcados do que eu, a lutar, a lutar, a lutar... Não foi bonito. Não, não foi. Nem por linhas tortas consigo defender que foi o melhor jogo da época. Mas fez-me ter esperança em algo mais do que três pontos: de que está a construir-se uma equipa. À Porto, se for possível.
O que aconteceu em Braga não nos surpreende. Sabemos o que nos espera este fim-de-semana, para o outro, para o outro ainda e até ao fim.
- Os árbitros erram para todos os lados.
Bem, há uns que se têm safado...
- Os outros jogam bem e estão muito fortes.
Sim, sim, com alguma ajuda...
- Têm que mostrar que são melhores.
Hum, ok, ok, mas também têm de nos deixar...
Ontem, mostrámos isso e muito mais. Em campo, a garra emocionou-me. Helton, desculpa todas as vezes que escrevi que um guarda-redes do FCPorto não pode sofrer um golo na luz por estar a ajudar o Maxi a levantar-se (e não pode, porra, tu sabes que não pode). Acho que, a certa altura, soltei um “amo-te”. É uma palavra forte, eu sei. Demorei mais tempo a dizê-la ao M. do que às tuas defesas de ontem. Mas algo me diz que não fui a única. Obrigada e volta, estás perdoado!
Todos, juntos, foram uns heróis. Aquilo não era para qualquer um. Quando o treinador ameaçou ir embora, eu já estava de malas feitas. Ficar, sofrer, aguentar é que foi difícil. Parabéns. E obrigada. Obrigada por me terem feito acreditar no que aí vem. Apesar de tudo, apesar de todos, eu acredito. Acredito em vocês. Acredito na bancada que ontem tanto vos apoiou. Eu sei que sou uma menina e choro com todos os filmes foleiros, mas fiquei de lágrimas nos olhos ao acompanhá-los, ao longe. Nós, no estádio ou no sofá, os que batem palmas e os que assobiam, os que gastam tanto dinheiro e abdicam de tanta coisa por um jogo e os que comem pipocas, estávamos todos lá. Todos. E temos de continuar a estar. Eles precisam de nós.
Porque ontem, quando ouvi aquele apito final, percebi. Senti. Não teve nada a ver com aquela competiçãozinha, com aquele resultado, com aquele ou o real adversário. Ontem, quando ouvi aquela bancada, soube que o FCPorto está de volta. Acordaram-nos. Obrigada por isso. Agora vão ter que levar connosco.
- Um ano muito mau não apaga os anos anteriores muito bons.
Bem, é verdade...
- Aquela derrota em casa não é o fim do mundo.
Sim, sim, está bem...
- O título está ao nosso alcance, calma.
Hum, ok, ok, eu aguento...
A verdade é que não aguentava mais. Não eram tanto os pontos de distância para cima, era a distância a que estávamos do FCPorto que eu conheci. No Dragão, os assobios, os comentários maldosos, as pipocas. E os rapazes em campo a deixarem-se comer pelo apito. Não pode ser, não pode ser. Ninguém lhes diz nada? Ninguém os avisa? Eles não vêem o que está montado desde a primeira jornada deste campeonato? Sou só eu que estou maluca???
Felizmente, não. Já em Penafiel os tinha visto. Naquele batatal, numa noite gelada, a correrem, a suarem, a darem tudo. Sem esquisitices, sem os penteados da moda a atrapalhar, sem a cabeça a pensar na selfie que iam tirar no balneário. O treinador, à chuva, sempre perto deles. E eles, ainda mais encharcados do que eu, a lutar, a lutar, a lutar... Não foi bonito. Não, não foi. Nem por linhas tortas consigo defender que foi o melhor jogo da época. Mas fez-me ter esperança em algo mais do que três pontos: de que está a construir-se uma equipa. À Porto, se for possível.
O que aconteceu em Braga não nos surpreende. Sabemos o que nos espera este fim-de-semana, para o outro, para o outro ainda e até ao fim.
- Os árbitros erram para todos os lados.
Bem, há uns que se têm safado...
- Os outros jogam bem e estão muito fortes.
Sim, sim, com alguma ajuda...
- Têm que mostrar que são melhores.
Hum, ok, ok, mas também têm de nos deixar...
Ontem, mostrámos isso e muito mais. Em campo, a garra emocionou-me. Helton, desculpa todas as vezes que escrevi que um guarda-redes do FCPorto não pode sofrer um golo na luz por estar a ajudar o Maxi a levantar-se (e não pode, porra, tu sabes que não pode). Acho que, a certa altura, soltei um “amo-te”. É uma palavra forte, eu sei. Demorei mais tempo a dizê-la ao M. do que às tuas defesas de ontem. Mas algo me diz que não fui a única. Obrigada e volta, estás perdoado!
Todos, juntos, foram uns heróis. Aquilo não era para qualquer um. Quando o treinador ameaçou ir embora, eu já estava de malas feitas. Ficar, sofrer, aguentar é que foi difícil. Parabéns. E obrigada. Obrigada por me terem feito acreditar no que aí vem. Apesar de tudo, apesar de todos, eu acredito. Acredito em vocês. Acredito na bancada que ontem tanto vos apoiou. Eu sei que sou uma menina e choro com todos os filmes foleiros, mas fiquei de lágrimas nos olhos ao acompanhá-los, ao longe. Nós, no estádio ou no sofá, os que batem palmas e os que assobiam, os que gastam tanto dinheiro e abdicam de tanta coisa por um jogo e os que comem pipocas, estávamos todos lá. Todos. E temos de continuar a estar. Eles precisam de nós.
Porque ontem, quando ouvi aquele apito final, percebi. Senti. Não teve nada a ver com aquela competiçãozinha, com aquele resultado, com aquele ou o real adversário. Ontem, quando ouvi aquela bancada, soube que o FCPorto está de volta. Acordaram-nos. Obrigada por isso. Agora vão ter que levar connosco.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Ser campeão
No fundo, trata-se apenas disto. Contrata-se, vende-se, aposta-se, reza-se, apoia-se, lamenta-se, aponta-se, critica-se, tenta-se. Tudo para um só objectivo: ser campeão. Eu sei que nem me posso queixar: tenho 18 campeonatos nacionais em 28 anos de vida. Mas, no dia em que eu deixar de me lembrar pormenorizadamente como perdi os outros 10, podemos todos ficar preocupados.
Eu não sou mais ou menos do FCPorto consoante a equipa de futebol ganha ou não. Partamos, então, desse princípio que me parece óbvio e deixemo-nos de lamechices. Mas quero ganhar, certo? Portanto, é normal que, um ano e meio após o golo do Kelvin, eu esteja fodida. Certo? Não sou mais nem menos portista por isso, não vou mais nem menos à bola sequer. Passemos, então, a assumir que qualquer adepto deste clube está assim.
O que podemos fazer, então? Comecemos por nós, adeptos. Para mim, esta é a resposta mais fácil: andar atrás deles a apoiá-los. Isto não quer dizer aceitar tudo, ficar feliz nas derrotas porque há sempre um jogo a seguir ou deixar de ser exigente. Isto é só nós a fazermos o nosso papel. Só que não podemos ficar por aqui. Por exemplo, eu não percebo como é que um grande boi pode vir fazer um lançamento a centímetros da bancada e essa bancada estar a bater palminhas ou a comer pipocas. Juro. Só os que se levantaram, o insultaram, vá, até os que eventualmente lhe possam ter cuspido um ou outro pedaço de saliva totalmente justificada estavam a fazer o seu papel. Só esses podem reclamar com o nosso jogador que assistiu passivamente a toda a manha sem se mexer. Percebem a diferença?
Ser adepto não é só comprar bilhete. Como é que chegados aqui, ao jogo mais importante do ano, aos 90+2 minutos em que devíamos ter dado a volta ao filho da puta deste 2014, o Tello cai na área logo a começar e nós todos, todos mesmo, os mais de 40 mil, não nos levantámos todos a pedir penalty? Expliquem-me que eu juro que não percebo. Porque não era? A sério? Vocês viram lá isso? Porque o jogo estava mesmo a começar e havia tempo para ganharmos mesmo sem o penalty? A sério? Vocês são assim tão racionais? Eu, que não só me levantei, gritei penalty e pedi uma expulsão, tudo claríssimo e sem a mínima dúvida, quase que tive de pedir desculpa ao senhor que estava atrás e não viu bem o lance. Pensando bem, talvez eu me tenha levantado mal o Tello pegou na bola e estivesse a pedir falta e expulsão desde quando o André Almeida ainda nem tinha nascido. E então?
Agora passemos aos jogadores. Já toda a gente disse que fizeram o que podiam, que tiveram azar, que os outros executaram na perfeição a chamada táctica à boavista, mas com melhores jogadores. Tudo bem, adiante. Não concordo num pormenor: os nossos jogadores não fizeram tudo o que podiam, porque só quiseram jogar futebol. E esta merda não é o recreio da escola. Isto é e vai ser sempre para ganhar. Eu aplaudo a ideia de jogo, aplaudo o bom plantel que temos, aplaudo a tentativa, juro, mas não posso aceitar que um jogador dos outros e o árbitro, juntos, possam perder minutos em cada lançamento, cada canto, cada falta, sem que um jogador meu vá lá de peito feito. Desculpem, mas quando eu vi o Luisão no chão (já estava de pé a insultá-lo e a insultar a família do árbitro e, portanto, o senhor que estava atrás já não via nada outra vez), só me lembrei do Jorge Costa, do Maniche e do Costinha, a fazerem quase uma fila, ordeiramente, para dar uma festinha ao palhaço do Simão que estava no chão sem que ninguém lhe tivesse tocado (por amor de deus, toda a gente sabe que o Simão nunca sofreu uma falta na vida). O quê, C., mas tu defendes a violência? Violência? Violência é fazerem-me sentir que é melhor ter um Marcano, um Herrera e um Oliver, que, por muito que sejam bons jogadores, nunca na vida perceberão a importância disto.
Contra estes, não podemos ser os anjinhos que já perderam pontos com boavistas, guimarães e estoris. Contra estes, jogar bom futebol pode ser um passo para ganhar, mas é preciso muito mais do que isso. A cada canelada do Maxi nos pés do Brahimi, para não o deixar virar, um truque básico que pelos vistos não se usa nas escolas da Argélia ou do País Basco, tinham de ir todos a correr para cima dele. Não podemos ser só nós a levantarmo-nos, a tapar o senhor que está atrás e ficou sem ver e a pedir para que, se o mundo for justo, aquele Maxi acabar a dar caneladas no canil. O quê? Têm medo? É feio? E então?
Vamos ao treinador. O totó do André Almeida (porra, como é que um gajo com aquela cara tem mais chico-espertice do que um Indi?) levou um amarelo aos 2 minutos de jogo (penso que foi um recorde em jogos do benfica) e não se explora minimamente isso? O lateral esquerdo deles, que não só cumpre serviços mínimos naquela posição como tem cara de estúpido, está amarelado desde os 2 minutos de jogo e a puta da bola nunca mais vai para ali? Mas serei eu maluca? Eu sei que não tenho grande formação em tiki-taka, mas isto não se aprende nas aulas de Educação Física ou assim? E, estando o Brahimi a levar caneladas do Maxi e o Tello sem a bola desse lado, é mesmo preciso esperar tanto tempo para os trocar? Tanto extremo, tanta qualidade, e não há uma cabeça que reaja aos truques do Jesus? Tantos anos depois, o que nos falta aprender?
Não há ninguém que pense “hum, se o Samaris, o Enzo e o Talisca têm carta branca para distribuir pau, às tantas é melhor explicar ao meu meio-campo que pelo menos esta noite têm que parecer um bando de criminosos e não uns rapazinhos do coro”? Porra, mas o treinador não viu nenhum jogo deles? É preciso eu mandar-lhe o vídeo da traulitada que o grego deu no jogo do Arouca? É preciso eu fazer uma lista de pessoas que eu julgo estarem desaparecidas porque estão na cave da casa do argentino, que eu tenho a certeza ser um local de tortura? Oh, C., lá estás a exagerar. E então?
E terminemos lá em cima. O FCPorto-benfica não é um amigável. Admito que seja bonito não haver declarações nos dias anteriores a lembrar todas as roubalheiras que os meteram no primeiro lugar, ou declarações a seguir a notar que o primeiro classificado é um belo exemplo do anti-jogo dos pequeninos. Admito, sim. Mas não é por acaso que, mesmo quando éramos piores do que eles, lhes ganhámos. Não era por acaso que Vítor Pereira vinha falar de bloqueios quando só um ou dois de nós na bancada os tinham visto. E ele sabia tudo, tudo, sobre os truques do Jesus. Não foi por acaso que os destruímos em três décadas e que eu tive 18 campeonatos em 28 anos de vida. Foi porque, lá em cima, nunca ninguém se esqueceu do que é este clube.
Porque, no dia em que eu não passar pelo menos uma semana a pensar numa derrota, no dia em que perder com o maior rival em casa seja só menos 3 pontos, no dia em que um campeonato em risco não me deixar fodida, a comer e dormir mal, nesse dia, meus caros, já não haverá Futebol Clube do Porto.
Eu não sou mais ou menos do FCPorto consoante a equipa de futebol ganha ou não. Partamos, então, desse princípio que me parece óbvio e deixemo-nos de lamechices. Mas quero ganhar, certo? Portanto, é normal que, um ano e meio após o golo do Kelvin, eu esteja fodida. Certo? Não sou mais nem menos portista por isso, não vou mais nem menos à bola sequer. Passemos, então, a assumir que qualquer adepto deste clube está assim.
O que podemos fazer, então? Comecemos por nós, adeptos. Para mim, esta é a resposta mais fácil: andar atrás deles a apoiá-los. Isto não quer dizer aceitar tudo, ficar feliz nas derrotas porque há sempre um jogo a seguir ou deixar de ser exigente. Isto é só nós a fazermos o nosso papel. Só que não podemos ficar por aqui. Por exemplo, eu não percebo como é que um grande boi pode vir fazer um lançamento a centímetros da bancada e essa bancada estar a bater palminhas ou a comer pipocas. Juro. Só os que se levantaram, o insultaram, vá, até os que eventualmente lhe possam ter cuspido um ou outro pedaço de saliva totalmente justificada estavam a fazer o seu papel. Só esses podem reclamar com o nosso jogador que assistiu passivamente a toda a manha sem se mexer. Percebem a diferença?
Ser adepto não é só comprar bilhete. Como é que chegados aqui, ao jogo mais importante do ano, aos 90+2 minutos em que devíamos ter dado a volta ao filho da puta deste 2014, o Tello cai na área logo a começar e nós todos, todos mesmo, os mais de 40 mil, não nos levantámos todos a pedir penalty? Expliquem-me que eu juro que não percebo. Porque não era? A sério? Vocês viram lá isso? Porque o jogo estava mesmo a começar e havia tempo para ganharmos mesmo sem o penalty? A sério? Vocês são assim tão racionais? Eu, que não só me levantei, gritei penalty e pedi uma expulsão, tudo claríssimo e sem a mínima dúvida, quase que tive de pedir desculpa ao senhor que estava atrás e não viu bem o lance. Pensando bem, talvez eu me tenha levantado mal o Tello pegou na bola e estivesse a pedir falta e expulsão desde quando o André Almeida ainda nem tinha nascido. E então?
Agora passemos aos jogadores. Já toda a gente disse que fizeram o que podiam, que tiveram azar, que os outros executaram na perfeição a chamada táctica à boavista, mas com melhores jogadores. Tudo bem, adiante. Não concordo num pormenor: os nossos jogadores não fizeram tudo o que podiam, porque só quiseram jogar futebol. E esta merda não é o recreio da escola. Isto é e vai ser sempre para ganhar. Eu aplaudo a ideia de jogo, aplaudo o bom plantel que temos, aplaudo a tentativa, juro, mas não posso aceitar que um jogador dos outros e o árbitro, juntos, possam perder minutos em cada lançamento, cada canto, cada falta, sem que um jogador meu vá lá de peito feito. Desculpem, mas quando eu vi o Luisão no chão (já estava de pé a insultá-lo e a insultar a família do árbitro e, portanto, o senhor que estava atrás já não via nada outra vez), só me lembrei do Jorge Costa, do Maniche e do Costinha, a fazerem quase uma fila, ordeiramente, para dar uma festinha ao palhaço do Simão que estava no chão sem que ninguém lhe tivesse tocado (por amor de deus, toda a gente sabe que o Simão nunca sofreu uma falta na vida). O quê, C., mas tu defendes a violência? Violência? Violência é fazerem-me sentir que é melhor ter um Marcano, um Herrera e um Oliver, que, por muito que sejam bons jogadores, nunca na vida perceberão a importância disto.
Contra estes, não podemos ser os anjinhos que já perderam pontos com boavistas, guimarães e estoris. Contra estes, jogar bom futebol pode ser um passo para ganhar, mas é preciso muito mais do que isso. A cada canelada do Maxi nos pés do Brahimi, para não o deixar virar, um truque básico que pelos vistos não se usa nas escolas da Argélia ou do País Basco, tinham de ir todos a correr para cima dele. Não podemos ser só nós a levantarmo-nos, a tapar o senhor que está atrás e ficou sem ver e a pedir para que, se o mundo for justo, aquele Maxi acabar a dar caneladas no canil. O quê? Têm medo? É feio? E então?
Vamos ao treinador. O totó do André Almeida (porra, como é que um gajo com aquela cara tem mais chico-espertice do que um Indi?) levou um amarelo aos 2 minutos de jogo (penso que foi um recorde em jogos do benfica) e não se explora minimamente isso? O lateral esquerdo deles, que não só cumpre serviços mínimos naquela posição como tem cara de estúpido, está amarelado desde os 2 minutos de jogo e a puta da bola nunca mais vai para ali? Mas serei eu maluca? Eu sei que não tenho grande formação em tiki-taka, mas isto não se aprende nas aulas de Educação Física ou assim? E, estando o Brahimi a levar caneladas do Maxi e o Tello sem a bola desse lado, é mesmo preciso esperar tanto tempo para os trocar? Tanto extremo, tanta qualidade, e não há uma cabeça que reaja aos truques do Jesus? Tantos anos depois, o que nos falta aprender?
Não há ninguém que pense “hum, se o Samaris, o Enzo e o Talisca têm carta branca para distribuir pau, às tantas é melhor explicar ao meu meio-campo que pelo menos esta noite têm que parecer um bando de criminosos e não uns rapazinhos do coro”? Porra, mas o treinador não viu nenhum jogo deles? É preciso eu mandar-lhe o vídeo da traulitada que o grego deu no jogo do Arouca? É preciso eu fazer uma lista de pessoas que eu julgo estarem desaparecidas porque estão na cave da casa do argentino, que eu tenho a certeza ser um local de tortura? Oh, C., lá estás a exagerar. E então?
E terminemos lá em cima. O FCPorto-benfica não é um amigável. Admito que seja bonito não haver declarações nos dias anteriores a lembrar todas as roubalheiras que os meteram no primeiro lugar, ou declarações a seguir a notar que o primeiro classificado é um belo exemplo do anti-jogo dos pequeninos. Admito, sim. Mas não é por acaso que, mesmo quando éramos piores do que eles, lhes ganhámos. Não era por acaso que Vítor Pereira vinha falar de bloqueios quando só um ou dois de nós na bancada os tinham visto. E ele sabia tudo, tudo, sobre os truques do Jesus. Não foi por acaso que os destruímos em três décadas e que eu tive 18 campeonatos em 28 anos de vida. Foi porque, lá em cima, nunca ninguém se esqueceu do que é este clube.
Porque, no dia em que eu não passar pelo menos uma semana a pensar numa derrota, no dia em que perder com o maior rival em casa seja só menos 3 pontos, no dia em que um campeonato em risco não me deixar fodida, a comer e dormir mal, nesse dia, meus caros, já não haverá Futebol Clube do Porto.
domingo, 14 de dezembro de 2014
Oportunidade
Isto não era esperado. A pré-época foi desastrosa, a planificação péssima, a equipa foi quase toda destruída e o nosso rival reforçou-se muito e bem. Tudo apontava para mais um campeonato fácil do Porto, daqueles resolvidos quase antes de acabar a primeira volta. No entanto, recebem-nos a 3 pontos de distância (sim, podem passar para primeiro, mas o campeonato não acaba depois deste clássico como previsto nas minhas sempre pessimistas previsões de Agosto) e com várias dúvidas que têm vindo a ser disfarçadas. Quem é este Porto a quem nós temos de ganhar hoje e porque é que é muito importante e dificil fazê-lo?
O FC Porto é o inimigo público número um do Benfica. Fosse o Benfica um clube sério e toda a estrutura estaria de tal maneira concentrada na sua destruição que eu seria forçado a divorciar-me da C. só para não haver riscos de espionagem. O Benfica só pode voltar a ser o clube hegemónico que já foi se o FC Porto deixar de o ser. Esta frase, aparentemente elementar, ainda não foi assimilada na direcção do Benfica, que se sentou à mesa com os azuis para "salvar o futebol português" ou uma treta do género. Se a destruição do futebol português equivaler à destruição do FC Porto, parece-me que a direcção do Benfica está a cometer um erro que só teria paralelo se António Costa estivesse acampado em greve de fome pelo prisioneiro 44 à frente do estabelecimento prisional de Évora.
O FC Porto é, pela sua teia de organização, uma estrutura demasiado bem preparada e perigosa. Vou-vos dar um exemplo: Lopetegui. Eu não acho Lopetegui um bom treinador e parece-me que se não tivesse aquela concentração de craques no Olival que o FC Porto estaria bem abaixo do Benfica. No entanto, a sua contratação revela um pensamento estratégico e com visão e isso preocupa-me. Preocupa-me que alguém na Torre das Antas (que eu imagino como um local escuro e cheio de magia negra) tenha pensado que o futebol mudou, que o conceito Guardioliano de posse é o que está na berra e que é preciso alguém que domine isso e a formação: e chegaram a Lopetegui. Não é Lopetegui que me assusta, é quem pensou nele, é quem se debruçou sobre a evolução do futebol mundial actual até chegar a um nome. Esse método, essa capacidade de descobrir Robsons e Mourinhos (os dois desaproveitados em clubes rivais), é o que me preocupa no FC Porto. (eu gostava que alguém me viesse dizer agora que o bom do Julen tem é uma grande cunha de um empresário ou assim, mas eu, como futuro presidente do Benfica, assumo sempre o melhor dos meus adversários)
Porque é que isto é particularmente preocupante? Porque nós somos justamente o contrário: temos uma direcção que historicamente escolheu treinadores sem método até que descobriu, por obra e graça de Eusébio, Jorge Jesus. E Jesus elevou o futebol do Benfica a um nível que obrigou o FC Porto a dar Brahimi, Tello e Oliver ao seu novo treinador, além de manter Jackson e Danilo, jogadores a quem desejo lesões de tal modo graves em ambos os joelhos que serão publicadas no New England Journal of Medicine. Como tal, nós hoje somos reféns de JJ, temendo mais a sua saída do que um eventual regresso do Vale e Azevedo, e eles confiam quase cegamente na direcção deles, mesmo quando tentaram aguentar Paulo Fonseca até a um limite que nem um adepto do Betis ia aguentar (esta piada só será percebida por quem, como eu, viu tudo o que aconteceu ao Betis a época passada).
E isto leva-nos a uma conjuntura estranha e particularmente bizarra antes do clássico: o Porto, historicamente um clube certeiro e silencioso, aparece a 3 pontos de desvantagem mesmo depois de ter feito all in e o Benfica, que em condições estilo anos 90 já estaria a planificar a época 2015/2016 dado que amanhã se consumariam os 18 pontos de atraso para os azuis, aparece no Dragão com o mesmo treinador e esquema táctico há 5 anos.
Vamos, então, enfrentar o nosso rival em condições bem melhores do que eu imaginava há uns meses atrás. Nada disto me torna optimista e confesso-vos que odeio visceralmente este jogo e que acho que não vai correr bem. Mas o que eu queria mais explicar é que independentemente do resultado do clássico, há uma organização no FC Porto muito forte e que só várias vitórias consecutivas do Benfica podem fazer cair. Ganhar hoje seria uma delas. Não era e não é esperado que assim fosse, mas é o que é: se o Benfica ganhar, sai do Dragão com 6 pontos de avanço e até a pessoa que raciocinou correctamente até chegar ao nome de Lopetegui fica em causa. Eu sonho com isso há anos. Vamos a eles, rapazes!
terça-feira, 28 de outubro de 2014
O Benfica ainda acredita em contos de fadas
A nossa sobrinha mais velha, sobre a qual a C. já escreveu, quando tinha os seus três ou quatro anos , adorava as princesas da Disney, como todas as meninas da idade dela. A M., loura e com os seus olhinhos muito azuis, sentava-se muito concentrada no canto do sofá a ver de seguida as cassetes de vídeo e perdia-se completamente naquilo. O meu irmão, o tio mais novo da M., que é um bocadinho um irmão (muito) mais velho dela, adorava fazer-lhe a seguinte maldade: chegava a casa vindo do surf com a prancha na mão e, sem sequer olhar para a miúda, antes de fechar a porta virava-se lá para fora e despedia-se: "Adeus, Branca de Neve! Amanhã fazemos surf outra vez! Beijinhos!", fazia adeus e fechava a porta. A M., coitadinha, levanta-se a correr, abria a porta e gritava: "BRAAAAAAAAANCA DE NEEEEEEEEVEEEEE!?" e ficava muito triste quando via que ela não lá estava. Olhava para o meu irmão à procura de respostas e o sacana dizia-lhe, muito calmo: "Se calhar ela não é tua amiga, é só minha", para fúria e desespero da nossa sobrinha. Obviamente, porque a M. é brilhantemente inteligente (um misto de Ramires em transição defensiva com Aimar com a bola nos pés, mas numa criança), a brincadeira acabou por se perder. O meu irmão despedia-se da Jasmine (é a namorada do Aladino) ou da Pequena Sereia, ou fingia que estava ao telefone com elas, mas a M. dizia-lhe "Não está nada a Branca de Neve lá fora" e continuava no sofá. A história é uma delícia, mas já não resulta (estamos à espera que a F. cresça para lhe fazermos o mesmo).
O Benfica foi este domingo a Braga. Tinha quatro pontos de avanço e o nosso principal rival estava em crise, com exibições coxas e uma eliminação prematura na Taça de Portugal com contornos de escândalo. O Benfica visitava um estádio de uma equipa treinada por um ex-jogador do FC Porto (ok, isto só não se aplica a duas ou três equipas do campeonato), cujo ambiente chega a ser pior que o Dragão e onde já tivemos desde agressões nos túneis (onde Cardozo foi expulso por levar um soco) a cortes de luz quando o Benfica ganhava o controlo do jogo. O que é que seria de esperar? Obviamente uma arbitragem à portuguesa, que permitisse toda a violência possível e imaginária e uma entrega de jogadores como Ruben Micael que raiasse o heróico. (Aproveito este parágrafo para anunciar que, se um dia eu presidir a instituição secular e gloriosa do Sport Lisboa e Benfica, vou mandar raptar o Ruben Micael e que este será colocado numa cave do estádio da Luz. Cada vez que um benfiquista pagar as quotas, terá direito a dar uma carga de porrada no madeirense, para aliviar o stress. Prevejo chegar aos 500 mil sócios nos dois primeiros meses.) O Benfica até entrou bem e fez uma primeira parte que me pareceu competente (não pude ver o jogo todo, admito). Perdeu por erros do JJ, por erros individuais e por alguma dose de azar (aquela última bola, se fosse cabeceada por um jogador do Porto ou do Sevilha, tinha batido de seguida na barra, na cabeça do defesa e na barriga do fiscal de linha, acabando por entrar), acontece. A minha crítica não é por aí. Fico pior que fodido, dá-me vontade de mandar pontapés em coisas e acho que o país devia fechar para podermos debater os problemas técnicos e tácticos que nos assolam, mas não é por aí que escrevo o texto.
O que me choca, o que me põe mesmo nervoso, é a meninice do Benfica. Que a bola não entre naquele último lance, eu perdoo (apetece-me que o mundo acabe, mas perdoo). Que aquele primeiro golo entre, eu perdoo (que charutada impressionante), agora, que o Benfica vá a Braga sem perceber que tem que lá entrar como se fosse combater pela Palestina em Jerusalém é que me faz impressão. Mas ninguém avisou para o que se ia passar? Mas ninguém pediu a expulsão do Danilo a um ponto que o árbitro fosse obrigado a parar de compactuar com o que se estava a passar em campo? Mas que cambada de crianças é que estava vestida à Benfica para se ter permitido que o Ruben Micael faça uma falta em cima da área sobre o Jonas e que ninguém tenha pedido amarelo? E depois, claro, a cereja no topo do bolo: aquela confusão final, aquele perder a cabeça completo e ridículo que nos impediu de aproveitar os minutos finais e que nos pode ainda valer castigos. Pareciam a M. irritada depois de descobrir que não estava nenhuma princesa da Disney lá fora. Já tinham idade para ser mais crescidos, rapazes.
O que pergunto é: mas, além de mim e vários doentes que conheço, ninguém estava mentalmente preparado para ir a Braga? É que a nossa sobrinha, coitadinha, tinha três, quatro anos e queria muito conhecer a Branca de Neve. Mas o Benfica também é assim tão ingénuo?
Eu acho que o JJ esteve mal no domingo, sim. Acho que vários jogadores não foram felizes em vários lances (porra, Lima, volta), sim. Mas isso, num campeonato de 34 jornadas, acontece (mas não pode acontecer muito!). Agora, exijo sempre, mas sempre, que os jogadores deixem a pele em campo. E, mesmo admitindo que a concentração de um jogador e de uma equipa não é a mesma durante todo o ano, não se admite, não se pode permitir uma exibição daquelas em Braga, num terreno minado onde ganhar seria uma cartada psicológica fortíssima e que ia dar suores frios aos nossos rivais que, ao invés, já esfregam as mãos. A M. dava saltos e pedia o telefone ao meu irmão e gritava: "Deixa-me falar com ela!" quando o meu irmão fingia que estava a combinar sair à noite com a Pequena Sereia, mas o Benfica não pode ser uma criança de três anos, enternecedora de tão inocente.
Eu sei que já escrevi este texto mil vezes, eu sei que estou sempre a pedir isto: um Benfica obcecado em ser campeão nacional e com gente que só pense nisso a tempo inteiro e que prepare a equipa técnica e os jogadores para todos os factores que não podem controlar. Eu, que sou médico e que tenho outras coisas para pensar e fazer, passo 90% (perdão, 900%) do meu tempo a pensar nisto. E, no entanto, isto não acontece e domingos como o último acabam por aparecer.
A cereja no topo do bolo é ver o presidente do Benfica a confraternizar alegremente com o presidente de um clube que eu só espero que acabe nas distritais da Libéria. Como é que eu me posso chatear com o Talisca por meter no instagram uma fotografia com o Kelvin quando o presidente do Benfica se dá bem com o presidente de uma equipa que nos recebe assim todos os anos? Assim é difícil acreditar que o Benfica vai mudar para o Benfica que eu sonho. Mais depressa o meu irmão vai fazer surf com a Branca de Neve.
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