domingo, 26 de abril de 2015

Dia de exame

Em primeiro lugar: perdoem a longa ausência. Devido às vicissitudes da vida de médico, os últimos meses da minha vida foram um longo período de hibernação para fazer um exame. Já está feito, correu bem, mas agora falta o mais importante. Falta o exame de hoje, Benfica.

Quando alguém descobria que eu estava em Medicina, um dos primeiros comentários era, quase invariavelmente, que nós estudávamos muito e que sacrificávamos muita coisa. Dá para contornar a afirmação de várias maneiras, e há, sobretudo, muitas histórias para a confirmar: enquanto estudava para Anatomia em Junho/Julho de 2003, se me esquecia do telemóvel ligado, acordava quase sempre com os meus amigos a ligarem-me da noite, pelas 5h da manhã ou coisa assim. Uma pessoa só queria estar umas horas a dormir sem decorar coisas e, se se distraía, acordava com a música do MacGyver, que era a música que fechava a noite num bar em Faro. Portanto, sim, quando acordava de madrugada a saber que os meus amigos estavam bebedíssimos e eu tinha que acordar daí a umas horas para ir estudar a articulação do cotovelo ou uma coisa assim que agora não me lembro, punha em causa se teria feito as melhores escolhas na minha vida.

Mas uma das minhas maiores dores, ou a primeira coisa que me vem à cabeça quando me lembro dos sacrifícios que fiz durante o curso e o internato, é a quantidade de vezes que tive que pôr a Medicina à frente do Benfica, ou, vá, empatada. Faltei ao clássico de 2003/2004 (1-1, Costinha para eles, Simão para nós) por ser véspera do exame de Neuroanatomia. Ouvi os quartos de final da taça desse mesmo ano na rádio, o Benfica-Nacional que ganhámos 2-1 no fim, já com o Argel a ponta de lança, por ter frequência de Bioquímica no dia a seguir. Perco as contas às deslocações que não fiz por ficar a marrar. Quando alguém me pergunta pelos sacrifícios por estar em Medicina, normalmente espera que eu diga: "Oh, sim, dorme-se pouco e estuda-se muito. Quem me dera estar mais tempo com a família e amigos!". Mas eu, como sou doente, penso que foi por causa deste curso e desta vida que não vi o último título de andebol no pavilhão (o D. e o T. mandaram-me mensagens de alegria desde lá), ou que estava a estagiar em Salamanca nas meias-finais com a Juventus do ano passado. 

E nestas épocas de hibernação - insultuosamente frequentes em Medicina - em que estamos fechados em casa, afastados de contactos sociais ao ponto de depois termos alguma dificuldade em interagir com as pessoas normais quando temos ordem de soltura (eu não sei quais são as últimas tendências de literatura, música ou de basicamente nada. No entanto, sei a epidemiologia de linfoma de células do manto, que não interessa a ninguém), o Benfica sempre foi a minha pausa de estudo, o último reduto da saúde mental (ahah, saúde mental e Benfica na mesma frase, a ironia). Em 2008, a estudar para o exame da especialidade, assisti à tímida ascensão e estrondosa queda da equipa cujo treinador era Quique Flores (estive para escrever "era treinada por Quique Flores", mas apercebi-me que são afirmações de valor diferente), em 2006 cheguei a levar uma tabela de qualquer coisa que me estava sempre a esquecer para o intervalo de um jogo, onde a li mais uma vez inutilmente. E, nestes meses, os dias de Benfica eram os dias no meu calendário de estudo (sim, aos 31 anos ainda fiz calendários de estudo e isto é triste) onde não estava lá quase nada porque eu sei que a minha disponibilidade mental nos dias de Benfica é zero e eu penso mais movimentações do Gaitan a vir receber ao meio do que na fisiopatologia de doenças de plaquetas. Não faltei aos jogos na Catedral e enervei-me muito em todos os jogos fora, especialmente nos que correram mal e sabendo que no dia a seguir tinha que voltar a fechar-me com os livros e não podia ir para o Seixal ensinar ao Jardel a sair melhor a jogar quando está apertado.

Quando me disseram a data deste exame, a minha alegria imediata foi saber que foi marcado para antes do clássico. Seria impossível conciliar as duas coisas, tal é o meu estado de nervos. Aliás, o meu habitual pessimismo para estes jogos agrava-se com o facto de eu não ter conseguido ter ficado (muito) nervoso para este clássico nos últimos dias porque estou tão cansado do pós-exame que só consigo dormir.  
Benfica, em Setembro escrevi-te que esta seria a nossa época de exame. Hoje é dia do exame final. É dia de fazeres com que todos os sacrifícios valham a pena, é dia de fazeres valer todas as noites em que não foste sair, ou todas as tardes em que estava a dar um derby de Manchester e ficaste a trabalhar. É hoje o dia, Benfica. Pelos que se sacrificam por ti, pelos que sonham com a festa pós-exame, pelos que se enervaram todos os fins-de-semana, como aqueles alunos que vão às teóricas todas. Força, rapazes. Tirem boa nota.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Reportagem no Porto Canal

A reportagem no Porto Canal comigo, com outros emigrantes em Lisboa e com o momento mais alto da vida do M.: quando ele passou por portista durante um segundo.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Atenção, crianças

Antes de mais nada, deixem-me pedir-vos desculpa por este interregno tão prolongado na nossa escrita. Não se preocupem: cá em casa está tudo bem (apesar do último fim-de-semana atribulado), não houve divórcio (apesar de ter quase a certeza que o meu marido gosta mais de um árbitro qualquer do que de mim) e sobretudo não deixámos de ser estupidamente doentes (apesar de os nossos clubes teimarem em tornar-nos doentiamente estúpidos).



Jogo em casa. Domingo à noite. Frio e ameaça de chuva. Atrás de mim, pai e filho conversam. O Ronaldo perdeu, o Messi está a jogar muito, o Chelsea que não sai lá de trás por causa do Mourinho, o PSG, coitado, sem o Ibra. Já vai longo o debate e nós no campo a sofrer. “E o City, que desilusão”, diz ele. “E o Arouca, que perigo”, temo eu.

Sofro de cada vez que ouço aquele “Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Dói-me que ele lute pelos comandos da Playstation para escolher primeiro o Bayern. Confunde-me aquela camisola do Neymar tão desejada e imaculada lá no armário.

“Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Eu até compreendo, mas acho mesmo é que vocês são idiotas. Eu até desculpo, mas espero mesmo é que vocês não se reproduzam mais. Eu até partilho o mesmo planeta convosco, mas desejo mesmo é não estar na mesma bancada.

Oh, mas o Bayern tem tantos jogadores bons que é impossível não querer jogar com eles na consola. É o Neuer, é o Robben, é o Ribéry, é o Muller. “Ele sabe todos, até os números nas camisolas”. Uau, que prodígio. Isso serve para alguma coisa além de facilitar os insultos nos quartos-de-final da Champions? Quero vê-lo a ter coragem de mandar o Schweinsteiger para o #!”%!%#. Aí sim, tinham valido a pena todos os dias fechado em casa a jogar sem esfolar os joelhos.

Bem, mas afinal quem é que não quer uma camisola do Neymar? “Ele tem estilo...” E tem instagram, e facebook, e twitter, e cenas. #neymarélindo #neymaréomelhordomundo #neymarlevou7daalemanha #neymarselevasodaniloemboratemosproblemas. Pelo menos a camisola é para usar num campeonato de inter-turmas que abrange craques desde o Barcelona ao Ramaldense? “Não, cruzes, foi tão cara, não é para sujar”.

Como é que chegámos até aqui? Como é que, de repente, passámos das bancadas molhadas para o coração seco de um miúdo que sabe citar todos os golos, todas as assistências e todos os penteados do Cristiano Ronaldo? Como é que o tempo passou tão depressa desde aquela taça nas mãos do João Pinto até um hino da Liga dos Campeões que é música para os ouvidos de tantos mini-adeptos do PSG? Como é que não lhes soubemos mostrar que, por mais belo que seja o futebol mundial, é a bola lá da rua que nos distingue?

Queixamo-nos que o futebol já não nos dá valor, que pagamos bilhetes caros, que não temos ídolos nos nossos clubes. Tudo verdade. Tudo mudou. O espectáculo virou moda e a moda virou vaidade. Os jogadores são galácticos, as equipas são montras e para quê insistir na paixão se é o dinheiro que nos move?

Vamos desistir, então. Vamos deixar que as nossas crianças cresçam a saber escrever Lewandowski, mas sem saber o que é a traição de sair para o rival. Vamos deixá-las invejar as tatuagens de um Ibrahimovic, sem perceberem a diferença entre uma Juventus, um Barcelona ou um PSG. Vamos entretê-las com o duelo Ronaldo-Messi, sem as levarmos ao estádio para sentirem, para aprenderem, para sofrerem.

Ou então vamos dar luta. Vamos pegar nelas e ensinar-lhes o que é ter clube, ter uma identidade, apoiar os nossos. Vamos dar-lhes aquele cachecol antigo, vamos cantar-lhes aquela música mais ou menos insultuosa para com os tristes coleguinhas que não partilham este bem comum. Vamos explicar-lhes tudo o que não tem sentido nisto e vamos deixá-las descobrir como só torcer assim faz sentido. Vamos mostrar-lhes que, por muito que tentem afastar-nos das estrelas, dos golos, das vitórias, das derrotas, do futebol... nós nunca vamos separar-nos deste nosso amor.

A nós, casal de doentes de clubes diferentes, perguntam-nos muitas vezes como iremos fazer com um filho. É um drama, já se sabe. Será que vai ser um lampião detestável só para agradar ao pai? Ou será que vai ser um portista exemplar só porque vai gostar de ganhar mais e, vá, para deixar a mãe em êxtase? Não sei, não faço ideia. Tenho um desejo, admito, e prometo tentar tudo para que se realize. Mas de uma coisa tenho a certeza: seja com o M. ou comigo, e apesar de toda a lavagem cerebral que vai levar para decorar toda a história do futebol mundial, o raio da criança nunca irá, durante um jogo essencial com um Arouca, incomodar um verdadeiro adepto com estas merdas. Haja respeito.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Conversa sobre árbitros

Como é que um casal de fanáticos, ele do Benfica e ela do Porto, vivem na mesma casa? Como é que gostam um do outro se detestam tanto o clube do outro? Como é que, nestes dias em que não se fala de outra coisa, não andam constantemente a discutir arbitragens?

Pois, a verdade é que grande parte do segredo desta relação está aqui: não discutir árbitros ou, não o conseguindo evitar, fazendo-o sempre no pressuposto de que o outro vai defender o contrário e não vai mudar de opinião. Não há fanático que o faça racionalmente, não há doente que admita um favorecimento nem há adepto que se esqueça que foi prejudicado.

Na verdade, se nos assumíssemos, a nossa vida seria basicamente isto:


M: Bom dia, C.

C: Colinho. Andas ao colinho.

M: Queres que te faça o pequeno-almoço? Talvez... fruta com café com leite?

C: Não preferes pagar ao Capela para ele mo fazer?

M: Apito Dourado.

C: Vá, M., faz lá isso que estou atrasada. Ao contrário do Maxi, que estava um bocadinho adiantado...

M: Estás atrasada? Mas vais a Penafiel? Lá podes andar à vontade que toda a gente considera que estás atrasada...

C: Calabote.

M: Pronto, vou despachar-me que tenho de ir trabalhar. Tu hoje vais à festa de despedida do Proença não é?

C: Eu e o Cardozo, que ainda se lembra daquelas duas mãos que deu no jogo que vocês tanto falam do Maicon.

M: Escutas.

C: Este fim de semana vamos para a tua casa no Algarve? Tipo Estoril?

M: Sim, mas não vamos pela Cosmos.

C: Rennie.

M: Achas que esta casa é segura? Ou é melhor chamares o Guarda Abel?

C: Vê lá se não faço um túnel no corredor...

M: Azia.

C: Ainda estou à espera que me expulses desta casa. O Cosme demora muito?

M: Calma, não és assim tão caceteira como o Jorge Costa, Paulinho Santos, Bruno Alves, Casemiro...

C: Só choradinho.

M: O Jorge Sousa é dos Super Dragões.

C: O fiscal-de-linha do Guimarães-FCPorto gosta da página de Facebook do Benfica.

M: Andor. Temos de ir trabalhar.

C: Kompensan.

M: Amo-te.

C: Amo-te.



Gostávamos de agradecer aos nossos leitores que enchem a caixa de comentários com argumentos deste género pela preciosa ajuda nesta conversa imaginária.

Também gostaríamos, neste cenário, que alguém do Sporting pudesse viver cá em casa só para acrescentarmos a estes poderosos argumentos os que temos guardados para eles. Mas, infelizmente, como toda a gente sabe, só Benfica e Porto estão unidos pelo casamento. O nosso, portanto. Vamos então tentar mantê-lo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Acordaram o monstro

Foram anos muito bons. De vitórias, de humilhações aos outros, de gozo constante. Ganhar é sempre bom, mas sabe melhor quando é assim. A eles. Obviamente, não podia durar para sempre. É futebol, dizem. Escusávamos, digo eu, de lhes entregar de bandeja um ano completamente perdido.

- Um ano muito mau não apaga os anos anteriores muito bons.

Bem, é verdade...

- Aquela derrota em casa não é o fim do mundo.

Sim, sim, está bem...

- O título está ao nosso alcance, calma.

Hum, ok, ok, eu aguento...

A verdade é que não aguentava mais. Não eram tanto os pontos de distância para cima, era a distância a que estávamos do FCPorto que eu conheci. No Dragão, os assobios, os comentários maldosos, as pipocas. E os rapazes em campo a deixarem-se comer pelo apito. Não pode ser, não pode ser. Ninguém lhes diz nada? Ninguém os avisa? Eles não vêem o que está montado desde a primeira jornada deste campeonato? Sou só eu que estou maluca???

Felizmente, não. Já em Penafiel os tinha visto. Naquele batatal, numa noite gelada, a correrem, a suarem, a darem tudo. Sem esquisitices, sem os penteados da moda a atrapalhar, sem a cabeça a pensar na selfie que iam tirar no balneário. O treinador, à chuva, sempre perto deles. E eles, ainda mais encharcados do que eu, a lutar, a lutar, a lutar... Não foi bonito. Não, não foi. Nem por linhas tortas consigo defender que foi o melhor jogo da época. Mas fez-me ter esperança em algo mais do que três pontos: de que está a construir-se uma equipa. À Porto, se for possível.

O que aconteceu em Braga não nos surpreende. Sabemos o que nos espera este fim-de-semana, para o outro, para o outro ainda e até ao fim.

- Os árbitros erram para todos os lados.

Bem, há uns que se têm safado...

- Os outros jogam bem e estão muito fortes.

Sim, sim, com alguma ajuda...

- Têm que mostrar que são melhores.

Hum, ok, ok, mas também têm de nos deixar...

Ontem, mostrámos isso e muito mais. Em campo, a garra emocionou-me. Helton, desculpa todas as vezes que escrevi que um guarda-redes do FCPorto não pode sofrer um golo na luz por estar a ajudar o Maxi a levantar-se (e não pode, porra, tu sabes que não pode). Acho que, a certa altura, soltei um “amo-te”. É uma palavra forte, eu sei. Demorei mais tempo a dizê-la ao M. do que às tuas defesas de ontem. Mas algo me diz que não fui a única. Obrigada e volta, estás perdoado!

Todos, juntos, foram uns heróis. Aquilo não era para qualquer um. Quando o treinador ameaçou ir embora, eu já estava de malas feitas. Ficar, sofrer, aguentar é que foi difícil. Parabéns. E obrigada. Obrigada por me terem feito acreditar no que aí vem. Apesar de tudo, apesar de todos, eu acredito. Acredito em vocês. Acredito na bancada que ontem tanto vos apoiou. Eu sei que sou uma menina e choro com todos os filmes foleiros, mas fiquei de lágrimas nos olhos ao acompanhá-los, ao longe. Nós, no estádio ou no sofá, os que batem palmas e os que assobiam, os que gastam tanto dinheiro e abdicam de tanta coisa por um jogo e os que comem pipocas, estávamos todos lá. Todos. E temos de continuar a estar. Eles precisam de nós.

Porque ontem, quando ouvi aquele apito final, percebi. Senti. Não teve nada a ver com aquela competiçãozinha, com aquele resultado, com aquele ou o real adversário. Ontem, quando ouvi aquela bancada, soube que o FCPorto está de volta. Acordaram-nos. Obrigada por isso. Agora vão ter que levar connosco.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ser campeão

No fundo, trata-se apenas disto. Contrata-se, vende-se, aposta-se, reza-se, apoia-se, lamenta-se, aponta-se, critica-se, tenta-se. Tudo para um só objectivo: ser campeão. Eu sei que nem me posso queixar: tenho 18 campeonatos nacionais em 28 anos de vida. Mas, no dia em que eu deixar de me lembrar pormenorizadamente como perdi os outros 10, podemos todos ficar preocupados.

Eu não sou mais ou menos do FCPorto consoante a equipa de futebol ganha ou não. Partamos, então, desse princípio que me parece óbvio e deixemo-nos de lamechices. Mas quero ganhar, certo? Portanto, é normal que, um ano e meio após o golo do Kelvin, eu esteja fodida. Certo? Não sou mais nem menos portista por isso, não vou mais nem menos à bola sequer. Passemos, então, a assumir que qualquer adepto deste clube está assim.

O que podemos fazer, então? Comecemos por nós, adeptos. Para mim, esta é a resposta mais fácil: andar atrás deles a apoiá-los. Isto não quer dizer aceitar tudo, ficar feliz nas derrotas porque há sempre um jogo a seguir ou deixar de ser exigente. Isto é só nós a fazermos o nosso papel. Só que não podemos ficar por aqui. Por exemplo, eu não percebo como é que um grande boi pode vir fazer um lançamento a centímetros da bancada e essa bancada estar a bater palminhas ou a comer pipocas. Juro. Só os que se levantaram, o insultaram, vá, até os que eventualmente lhe possam ter cuspido um ou outro pedaço de saliva totalmente justificada estavam a fazer o seu papel. Só esses podem reclamar com o nosso jogador que assistiu passivamente a toda a manha sem se mexer. Percebem a diferença?

Ser adepto não é só comprar bilhete. Como é que chegados aqui, ao jogo mais importante do ano, aos 90+2 minutos em que devíamos ter dado a volta ao filho da puta deste 2014, o Tello cai na área logo a começar e nós todos, todos mesmo, os mais de 40 mil, não nos levantámos todos a pedir penalty? Expliquem-me que eu juro que não percebo. Porque não era? A sério? Vocês viram lá isso? Porque o jogo estava mesmo a começar e havia tempo para ganharmos mesmo sem o penalty? A sério? Vocês são assim tão racionais? Eu, que não só me levantei, gritei penalty e pedi uma expulsão, tudo claríssimo e sem a mínima dúvida, quase que tive de pedir desculpa ao senhor que estava atrás e não viu bem o lance. Pensando bem, talvez eu me tenha levantado mal o Tello pegou na bola e estivesse a pedir falta e expulsão desde quando o André Almeida ainda nem tinha nascido. E então?

Agora passemos aos jogadores. Já toda a gente disse que fizeram o que podiam, que tiveram azar, que os outros executaram na perfeição a chamada táctica à boavista, mas com melhores jogadores. Tudo bem, adiante. Não concordo num pormenor: os nossos jogadores não fizeram tudo o que podiam, porque só quiseram jogar futebol. E esta merda não é o recreio da escola. Isto é e vai ser sempre para ganhar. Eu aplaudo a ideia de jogo, aplaudo o bom plantel que temos, aplaudo a tentativa, juro, mas não posso aceitar que um jogador dos outros e o árbitro, juntos, possam perder minutos em cada lançamento, cada canto, cada falta, sem que um jogador meu vá lá de peito feito. Desculpem, mas quando eu vi o Luisão no chão (já estava de pé a insultá-lo e a insultar a família do árbitro e, portanto, o senhor que estava atrás já não via nada outra vez), só me lembrei do Jorge Costa, do Maniche e do Costinha, a fazerem quase uma fila, ordeiramente, para dar uma festinha ao palhaço do Simão que estava no chão sem que ninguém lhe tivesse tocado (por amor de deus, toda a gente sabe que o Simão nunca sofreu uma falta na vida). O quê, C., mas tu defendes a violência? Violência? Violência é fazerem-me sentir que é melhor ter um Marcano, um Herrera e um Oliver, que, por muito que sejam bons jogadores, nunca na vida perceberão a importância disto.

Contra estes, não podemos ser os anjinhos que já perderam pontos com boavistas, guimarães e estoris. Contra estes, jogar bom futebol pode ser um passo para ganhar, mas é preciso muito mais do que isso. A cada canelada do Maxi nos pés do Brahimi, para não o deixar virar, um truque básico que pelos vistos não se usa nas escolas da Argélia ou do País Basco, tinham de ir todos a correr para cima dele. Não podemos ser só nós a levantarmo-nos, a tapar o senhor que está atrás e ficou sem ver e a pedir para que, se o mundo for justo, aquele Maxi acabar a dar caneladas no canil. O quê? Têm medo? É feio? E então?

Vamos ao treinador. O totó do André Almeida (porra, como é que um gajo com aquela cara tem mais chico-espertice do que um Indi?) levou um amarelo aos 2 minutos de jogo (penso que foi um recorde em jogos do benfica) e não se explora minimamente isso? O lateral esquerdo deles, que não só cumpre serviços mínimos naquela posição como tem cara de estúpido, está amarelado desde os 2 minutos de jogo e a puta da bola nunca mais vai para ali? Mas serei eu maluca? Eu sei que não tenho grande formação em tiki-taka, mas isto não se aprende nas aulas de Educação Física ou assim? E, estando o Brahimi a levar caneladas do Maxi e o Tello sem a bola desse lado, é mesmo preciso esperar tanto tempo para os trocar? Tanto extremo, tanta qualidade, e não há uma cabeça que reaja aos truques do Jesus? Tantos anos depois, o que nos falta aprender?

Não há ninguém que pense “hum, se o Samaris, o Enzo e o Talisca têm carta branca para distribuir pau, às tantas é melhor explicar ao meu meio-campo que pelo menos esta noite têm que parecer um bando de criminosos e não uns rapazinhos do coro”? Porra, mas o treinador não viu nenhum jogo deles? É preciso eu mandar-lhe o vídeo da traulitada que o grego deu no jogo do Arouca? É preciso eu fazer uma lista de pessoas que eu julgo estarem desaparecidas porque estão na cave da casa do argentino, que eu tenho a certeza ser um local de tortura? Oh, C., lá estás a exagerar. E então?

E terminemos lá em cima. O FCPorto-benfica não é um amigável. Admito que seja bonito não haver declarações nos dias anteriores a lembrar todas as roubalheiras que os meteram no primeiro lugar, ou declarações a seguir a notar que o primeiro classificado é um belo exemplo do anti-jogo dos pequeninos. Admito, sim. Mas não é por acaso que, mesmo quando éramos piores do que eles, lhes ganhámos. Não era por acaso que Vítor Pereira vinha falar de bloqueios quando só um ou dois de nós na bancada os tinham visto. E ele sabia tudo, tudo, sobre os truques do Jesus. Não foi por acaso que os destruímos em três décadas e que eu tive 18 campeonatos em 28 anos de vida. Foi porque, lá em cima, nunca ninguém se esqueceu do que é este clube.

Porque, no dia em que eu não passar pelo menos uma semana a pensar numa derrota, no dia em que perder com o maior rival em casa seja só menos 3 pontos, no dia em que um campeonato em risco não me deixar fodida, a comer e dormir mal, nesse dia, meus caros, já não haverá Futebol Clube do Porto.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Oportunidade

Isto não era esperado. A pré-época foi desastrosa, a planificação péssima, a equipa foi quase toda destruída e o nosso rival reforçou-se muito e bem. Tudo apontava para mais um campeonato fácil do Porto, daqueles resolvidos quase antes de acabar a primeira volta. No entanto, recebem-nos a 3 pontos de distância (sim, podem passar para primeiro, mas o campeonato não acaba depois deste clássico como previsto nas minhas sempre pessimistas previsões de Agosto) e com várias dúvidas que têm vindo a ser disfarçadas. Quem é este Porto a quem nós temos de ganhar hoje e porque é que é muito importante e dificil fazê-lo?

O FC Porto é o inimigo público número um do Benfica. Fosse o Benfica um clube sério e toda a estrutura estaria de tal maneira concentrada na sua destruição que eu seria forçado a divorciar-me da C. só para não haver riscos de espionagem. O Benfica só pode voltar a ser o clube hegemónico que já foi se o FC Porto deixar de o ser. Esta frase, aparentemente elementar, ainda não foi assimilada na direcção do Benfica, que se sentou à mesa com os azuis para "salvar o futebol português" ou uma treta do género. Se a destruição do futebol português equivaler à destruição do FC Porto, parece-me que a direcção do Benfica está a cometer um erro que só teria paralelo se António Costa estivesse acampado em greve de fome pelo prisioneiro 44 à frente do estabelecimento prisional de Évora. 
O FC Porto é, pela sua teia de organização, uma estrutura demasiado bem preparada e perigosa. Vou-vos dar um exemplo: Lopetegui. Eu não acho Lopetegui um bom treinador e parece-me que se não tivesse aquela concentração de craques no Olival que o FC Porto estaria bem abaixo do Benfica. No entanto, a sua contratação revela um pensamento estratégico e com visão e isso preocupa-me. Preocupa-me que alguém na Torre das Antas (que eu imagino como um local escuro e cheio de magia negra) tenha pensado que o futebol mudou, que o conceito Guardioliano de posse é o que está na berra e que é preciso alguém que domine isso e a formação: e chegaram a Lopetegui. Não é Lopetegui que me assusta, é quem pensou nele, é quem se debruçou sobre a evolução do futebol mundial actual até chegar a um nome. Esse método, essa capacidade de descobrir Robsons e Mourinhos (os dois desaproveitados em clubes rivais), é o que me preocupa no FC Porto. (eu gostava que alguém me viesse dizer agora que o bom do Julen tem é uma grande cunha de um empresário ou assim, mas eu, como futuro presidente do Benfica, assumo sempre o melhor dos meus adversários)

Porque é que isto é particularmente preocupante? Porque nós somos justamente o contrário: temos uma direcção que historicamente escolheu treinadores sem método até que descobriu, por obra e graça de Eusébio, Jorge Jesus. E Jesus elevou o futebol do Benfica a um nível que obrigou o FC Porto a dar Brahimi, Tello e Oliver ao seu novo treinador, além de manter Jackson e Danilo, jogadores a quem desejo lesões de tal modo graves em ambos os joelhos que serão publicadas no New England Journal of Medicine. Como tal, nós hoje somos reféns de JJ, temendo mais a sua saída do que um eventual regresso do Vale e Azevedo, e eles confiam quase cegamente na direcção deles, mesmo quando tentaram aguentar Paulo Fonseca até a um limite que nem um adepto do Betis ia aguentar (esta piada só será percebida por quem, como eu, viu tudo o que aconteceu ao Betis a época passada). 

E isto leva-nos a uma conjuntura estranha e particularmente bizarra antes do clássico: o Porto, historicamente um clube certeiro e silencioso, aparece a 3 pontos de desvantagem mesmo depois de ter feito all in e o Benfica, que em condições estilo anos 90 já estaria a planificar a época 2015/2016 dado que amanhã se consumariam os 18 pontos de atraso para os azuis, aparece no Dragão com o mesmo treinador e esquema táctico há 5 anos. 

Vamos, então, enfrentar o nosso rival em condições bem melhores do que eu imaginava há uns meses atrás. Nada disto me torna optimista e confesso-vos que odeio visceralmente este jogo e que acho que não vai correr bem. Mas o que eu queria mais explicar é que independentemente do resultado do clássico, há uma organização no FC Porto muito forte e que só várias vitórias consecutivas do Benfica podem fazer cair. Ganhar hoje seria uma delas. Não era e não é esperado que assim fosse, mas é o que é: se o Benfica ganhar, sai do Dragão com 6 pontos de avanço e até a pessoa que raciocinou correctamente até chegar ao nome de Lopetegui fica em causa. Eu sonho com isso há anos. Vamos a eles, rapazes!