A época correu mal. Não pode tirar-se outra conclusão quando se trata do FCPorto e, por isso, se trata de ganhar. Não há desculpas, não há atenuantes: a época correu mal porque não ganhámos.
Reconhecer o óbvio não pode passar, no entanto, pelo esquecimento. A “desculpa”, dizem, são as arbitragens. Recorremos a elas para justificar um pedaço do falhanço. Mas lembremo-nos sempre que, a determinado momento, quando o primeiro classificado tremia, foram cruciais. Ainda assim, o FCPorto chegou a cinco jornadas do fim com a possibilidade de ir ao estádio do rival discutir o título. “Ainda assim”, aqui, é a expressão fundamental.
Mais. A “atenuante” foi a maneira como chegámos lá. Com uma carreira muito boa na Liga dos Campeões, por um lado, e uma derrota tão humilhante quanto esperada, por outro. Estávamos cansados, fisicamente e de espírito. Ninguém se pode esquecer daqueles 3-1 ao Bayern, pois está claro. Nem dos 6-1.
Recorrer a estas “desculpas” e “atenuantes” é pouco para o que estamos habituados. Ganhar contra tudo e contra todos, lembram-se? O mínimo que tinha de exigir-se naquele jogo decisivo era o que sempre se exigiu ao FCPorto: meter mais o pé, querer mais. Nada disto aconteceu. Bater palmas àquilo envergonha-nos.
Do outro lado, um vazio. O campeão em título podia ter acabado com uma equipa de miúdos, desmotivados pela goleada sofrida, de rastos. Imaginem o cenário ao contrário: no Dragão, o FCPorto que viria a ser bicampeão tinha esmagado o rival. O KO desta época não seria um amigo gil vicente ou guimarães, não mais se falaria em capelas, não seriam necessários mais bate-bocas nem trocas de nomes. Seria um murro em cheio nas “desculpas” e “atenuantes” dos outros. É a isso que estamos habituados. Eles não.
A nós, no entanto, interessa-nos a lição a tirar de duas épocas seguidas sem sermos campeões. O que aconteceu depois daquele golo do Kelvin? Fácil: enquanto nós dançávamos, eles agarraram-se às feridas e voltaram à luta. Não venderam tanto quanto precisavam, seguraram o treinador falhado. E nós a dormir. O 92 sempre na nossa cabeça. Fomos buscar um “treinador da moda”, um daqueles que os comentadores tornam no melhor do mundo mas depois fazem de conta que não ficaram surpreendidos com o fracasso. Não construímos um plantel. No FCPorto, até um Paulo Fonseca é campeão. Não foi, claro.
As feridas, desta vez, eram nossas, e eram muitas. Como também estamos habituados, a estratégia mudou, e para melhor. Fomos à luta. Fomos buscar um treinador, um daqueles que ninguém gosta, e é chato, e é arrogante, e fala muito, e mexe-se ainda mais. Incomoda. Ainda por cima fala espanhol. “O basco”. Que horror. Fomos buscar uma ideia. Fomos buscar jovens, talentosos, com vontade de se mostrar e de jogar bom futebol. Fizemos um esforço raramente visto e conseguimos manter Jackson. Boa. Vamos a eles, então.
Eu não me esqueço das expectativas, assim como não me esqueço do que falhou. No início, faltou criar um 11. Depois, faltou conhecer bem o campeonato português. Já antes, tinha faltado o que nos falta há uma década. Faltou-nos pegar neles e explicar-lhes o que isto é. Faltou-nos algum dos nossos entre eles. Faltou-nos o que os maluquinhos como eu ainda acham possível neste futebol global dos likes no facebook e equipamentos cor-de-rosa. Faltou-nos Porto.
Coube ao treinador disfarçar isso. Foi ele que nos defendeu, foi ele que falou, foi ele que foi à luta. Cada vez que o ouvi a falar de arbitragens, a virar-se contra jornalistas e rivais, quis e quero acreditar que o fazia e faz por perceber o que é o FCPorto. Contra tudo e contra todos, lá está. A equipa cresceu, melhorou, levou-nos a gostar dela e de futebol, outra vez. Mas falhou, outra vez, caraças. Falhou na Madeira e na luz. Ensinou-nos, espero, que o FCPorto não luta só em conferências de imprensa. Luta, sobretudo, em campo.
Resumo assim o ponto onde ficamos: estamos muito melhores do que há um ano, mas muito piores do que o FCPorto nos habituou. Temos de ir à luta, outra vez. Entre as vendas inevitáveis, os empréstimos e as manias das estrelas que querem “dar o salto”, temos de encontrar o nosso equilíbrio. Temos de crescer, mas crescer à Porto. Não podemos querer ganhar a Liga dos Campeões para mostrar ao mundo o que é o Porto e ao mesmo tempo não ir a casa do rival mostrar-lhes quem somos.
Não se pode ganhar sempre, mas também não se pode perder sempre da mesma maneira. O ano passado perdemos por falta de comparência, este ano perdemos com “desculpas”, “atenuantes” e erros que não podemos repetir. Não podemos voltar a ficar surpreendidos com equipas pequenas que só defendem, dão pau e perdem tempo. Não podemos voltar a ficar indignados cá fora, mas uns anjinhos lá dentro. Não podemos assobiar quando se está a tentar construir alguma coisa, nem podemos bater palmas quando se destruiu tudo. Também precisamos de encontrar esse equilíbrio na bancada, já agora.
Porque o benfica vai ser bicampeão. Não o benfica dos 15-0, mas também não o benfica dos 5-0 no Dragão, nem o que nos deixou ser campeões em sua casa. Nem sequer o benfica do Maicon e do Kelvin. O benfica que vai ser bicampeão é o benfica que Jorge Jesus demorou quatro anos a construir. É um benfica esperto mas saloio, feio mas duro. É um benfica que goleia mortos, mas que não tem coragem de nos matar. É um benfica que já percebeu que nós não somos o FCPorto a que nos habituámos, mas que também já percebeu que eles não são o benfica que apregoam.
E Jorge Jesus vai ser campeão pela terceira vez em seis anos. No benfica, temos de admitir que é um feito. E vai sê-lo porque aprendeu com os erros. Deixou de gostar de futebol, abdicou de tudo pelo resultado. Em seis anos, mudou muito. Só continua o mesmo asco. O mesmo que quando ganha diz “eu”, mas quando perde diz “nós” ou “eles”. O mesmo que nunca admite um erro, mas dá raspanetes públicos a qualquer “Manel”. O mesmo que agride jogadores adversários ou funcionários do seu clube, o mesmo que não fala mal só porque não sabe falar, mas sobretudo porque não diz nada de jeito. O mesmo que não teve a coragem de vencer este campeonato contra o FCPorto, mas que precisou de vir cá para fora tentar humilhar quem não teve a coragem de vencer o campeonato contra ele.
É Jorge Jesus no seu “melhor”. O treinador que achou que ia ser considerado o melhor do mundo no belenenses nunca poderia acertar no nome do treinador que lhe pediu satisfações. Não podia ficar calado quando, dias depois, sentiu finalmente o título no papo. O Jorge Jesus que foi humilhado de mil maneiras diferentes pelo FCPorto não provocou só Lopetegui, provocou-nos a todos. Não é um nome ou uma época que estão em causa. É que, quando ganha uma luta desta forma, Jorge Jesus esquece-se não só do manto protector que o cobriu, mas sobretudo do manto sagrado da ver-go-nha. Ou Governha. Ou Nhavergo. Como quiserem.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Prazer e guerra
Quando Leo Messi dobrou Boateng e o mandou ao chão, encontrando, pela enésima vez, o pé de apoio do adversário e fintando-o para esse lado (o lado do pé preso), levantei-me do sofá. Uma onda de prazer já me tinha percorrido o corpo, mas torci para que a obra de arte ficasse completa - uma finta daquelas tem de dar golo - mas nunca pensei que Messi, sempre à frente do mundo inteiro, resolvesse fazer um chapéu com o seu pé "mau", quando Neuer e todos nós esperávamos algo daquele pé esquerdo. Messi faz-me ter prazer a ver bola. É o jogador por quem eu torço, o homem que me faz feliz a ver futebol. É o jogo pelo jogo. Messi é futebol. O futebol. Perfeito, irreverente, imprevisível, genial. Todas as palavras são poucas, mas as melhores que vi foram estas:
Quando Suljemani, num gesto muitíssimo inteligente, centrou em vez de chutar no primeiro golo em Barcelos, o meu coração parou meio segundo com medo que Jonas e Maxi se atrapalhassem e a bola não entrasse. Fiquei aflito, dobrado já pela dor que seria desperdiçar tão soberana oportunidade em tão importante jogo. O meu festejo foi o de sempre no primeiro golo do Benfica contra estas equipas pequenas: um grunho de sílabas que soa qualquer coisa como "GOOOOOOOOOOOOOAAAHAAAARAAAGHAHCARALHOOOOFODA-SEBORAAAAAAAAAAHHHHHLOOOOOOOOOO". É um misto de alívio, sofrimento (porque já marcámos o 1-0, mas eles agora podem fazer o 1-1 e a equipa desmoraliza e falta o Salvio, e a falta que o Enzo faz! Defende JJ! Não, ainda não, que se eles empatam mesmo depois não temos ninguém para meter para a frente! `Bora Benfica! Grande Maxi! Defender! BEN-FI-CA! BEN-FI-CA!) e uma dose exagerada de irracionalidade. Um bocadinho distante de comparações com pinturas de Picasso. É um misto de cobardia, sofrimento e alívio. No segundo golo o meu coração já consegue festejar um bocadinho e admito que festejei o quinto golo acima das minhas possibilidades, cometendo a loucura de acreditar que, com longos 15 minutos por disputar, o penúltimo classificado Gil Vicente já não ia conseguir marcar 5 golos ao Benfica. O mais estúpido é que assim que eu festejo os 3 pontos, algo em mim sussurra: "Se eles empatarem, a culpa é tua".
É também por isso que eu adoro ver Leo Messi. Os jogos do Benfica são para ver contraído, com concentração máxima, como se eu fosse um soldado americano no meio do Vietname, sempre com medo de pisar uma mina. Artur Semedo, que era um sofredor como eu, dizia que se punha debaixo da mesa quando o Benfica jogava. A maioria das pessoas não percebe que não há ali metáfora nenhuma. O homem metia-se debaixo da mesa com os nervos, esmagado pelo peso do jogo. Quando eu vejo Leo Messi, não tenho que me esconder debaixo da mesa. Posso deitar-me no sofá, descalço, de pernas cruzadas, e sei que é como abrir um bom livro. Se correr mal, fecho o livro e pronto, espero pelo próximo. Quando corre bem, só me apetece contar o livro a toda a gente. Eu não gosto de falar do Benfica às 2ª feiras, depois do jogo, porque, exceptuando algumas vitórias demasiado doces para não serem partilhadas, os jogos do Benfica são para mim demasiado sérios para serem discutidos com leviandade enquanto se põe açúcar no café. O Benfica é para ser discutido com correlegionários, com pessoas que também sentem o campeonato como uma guerra, quer o enfrentem com coragem ou se ponham debaixo da mesa.
Leo Messi não. Leo Messi é a ópera, a literatura, é brincar na praia com os meus sobrinhos. Messi é o prazer descomprometido, o futebol onde cada passe é para ser apreciado, onde cada finta é uma sobremesa. É ler uma crónica do Lobo Antunes, um livro do Saramago. As fintas de Messi, como aquela coisa que ele fez a Boateng (por amor de Eusébio, aquilo é tão bonito) criam a antecipação que eu tinha quando era miúdo antes de abrir uma carteirinha de cromos. Messi é o último cromo da caderneta, é marcar o golo decisivo no intervalo da escola, é toda a alegria do mundo.
Não deixa de ser curioso que esta minha alegria com o mago argentino só possa acontecer porque ele não é do Benfica. Se Messi fosse do Benfica (vamos fazer uma pausa para pensarmos nisto. Suspiro), eu não ia ter este prazer todo. Ia-me zangar quando uma finta saísse mal ("dá a bola, porra!", "Foda-se, tu hoje não estás bem!"), ia passar-me quando os companheiros não o percebessem ("não passes a bola a esse burro!") e ia perder a distância que me permite admirá-lo tanto.
Escrevo isto para vos dizer, com alguma vergonha, que falei sem parar sobre o golo de Messi nas últimas 48 horas. Foi o acontecimento mais bonito de 2015, em todas as artes. Mas festejei mais aquele encostar do Maxi, e faria desaparecer aquele drible para garantir que amanhã ganhávamos com um golo do Eliseu, de barriga. E escrevo isto por me sentir culpado. Enquanto o Benfica não for campeão, não nos devemos distrair com nada. Estamos no Vietname. Não há tempo para artes, para descobrir a penicilina, para apreciar escultura. Temos é de ganhar ao Penafiel. Eu amo futebol, adoro ver Messi com a bola colada ao pé esquerdo, mas o meu amor pelo Benfica é maior. Pelo Benfica, eu queimava a Guernica e partia a escultura de Miguel Ângelo. A minha doença pelo Benfica fazia cair dez Boatengs. Força, rapaziada. Ganhem a guerra, que não há maior prazer no mundo.
Correcção: O acontecimento mais bonito de 2015 foi a recepção do Jonas contra o Braga. O golo de Messi fica num honroso segundo lugar.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Uma semana
Boa noite, caro leitor. Enquanto lhe escrevo estou a ouvir uma música triste. Comecei a fazer isto quando tinha desgostos amorosos com rapazes. Agora tenho um marido maravilhoso, por isso posso finalmente fazê-lo só quando tenho desgostos amorosos com o meu clube.
É que eu levo isto mesmo muito a sério. Quando o FCPorto ganha, o meu pensamento não é “vou gozar o meu marido”, embora isso tornasse este blog (e este casal) muito mais interessante. Quando o FCPorto ganha, eu fico mesmo é feliz. Sou mais eu, não sei explicar. Quando o FCPorto perde, eu venho escrever-lhe porque nem sequer consigo dormir. E eu, caro leitor, gosto mesmo de dormir. Quase tanto como do FCPorto.
Mas tenho de admitir que há uma semana quase que vim aqui escrever-lhe. Não sei o que me travou, caro leitor. Provavelmente, o saber que tudo podia mudar em breve. Não arrisquei ouvir uma música mais alegre, dançar até um bocadinho, e agora estou arrependida. Devia ter aproveitado. Devia ter dançado. Devia ter escrito.
Vamos lá imaginar o que teria saído. Que o FCPorto fez um jogão. Que estou mesmo feliz. Que o Lopetegui é a nossa melhor contratação. Que o Jackson é o melhor do mundo. Que o Quaresma está feito um jogador de equipa. Que estes rapazes querem mesmo. Que só podemos acreditar. Caro leitor, seja sincero: a música alegre deixa-me mais estúpida ou ainda se lembra que isto era mesmo assim?
Hoje, a música é outra. Tenho de escrever que já vi amigáveis mais emocionantes do que este clássico. Que eles não jogam nadinha. Que nós não quisemos nadinha. Que não festejo épocas sem títulos. Que não me revejo em beijos e abraços a rivais. Que estou triste e não é só pelo desgosto do empate. É porque temo, caro leitor, que esta história esteja a tornar-se repetitiva.
Há uns anos, a verdade é que eu não teria hesitado em escrever. Há uns anos, o FCPorto também não teria hesitado em vencer. Falhámos os dois. Não adianta, caro leitor, pensar muito sobre quem tem mais culpa. Se eu, por ter mudado de texto numa semana, se o FCPorto, por ter mudado de vontade numa semana. O mundo não vai acabar por causa disso. O campeonato, muito provavelmente.
Mas tenho de admitir que há uma semana quase que vim aqui escrever-lhe. Não sei o que me travou, caro leitor. Provavelmente, o saber que tudo podia mudar em breve. Não arrisquei ouvir uma música mais alegre, dançar até um bocadinho, e agora estou arrependida. Devia ter aproveitado. Devia ter dançado. Devia ter escrito.
Vamos lá imaginar o que teria saído. Que o FCPorto fez um jogão. Que estou mesmo feliz. Que o Lopetegui é a nossa melhor contratação. Que o Jackson é o melhor do mundo. Que o Quaresma está feito um jogador de equipa. Que estes rapazes querem mesmo. Que só podemos acreditar. Caro leitor, seja sincero: a música alegre deixa-me mais estúpida ou ainda se lembra que isto era mesmo assim?
Hoje, a música é outra. Tenho de escrever que já vi amigáveis mais emocionantes do que este clássico. Que eles não jogam nadinha. Que nós não quisemos nadinha. Que não festejo épocas sem títulos. Que não me revejo em beijos e abraços a rivais. Que estou triste e não é só pelo desgosto do empate. É porque temo, caro leitor, que esta história esteja a tornar-se repetitiva.
Há uns anos, a verdade é que eu não teria hesitado em escrever. Há uns anos, o FCPorto também não teria hesitado em vencer. Falhámos os dois. Não adianta, caro leitor, pensar muito sobre quem tem mais culpa. Se eu, por ter mudado de texto numa semana, se o FCPorto, por ter mudado de vontade numa semana. O mundo não vai acabar por causa disso. O campeonato, muito provavelmente.
domingo, 26 de abril de 2015
Dia de exame
Em primeiro lugar: perdoem a longa ausência. Devido às vicissitudes da vida de médico, os últimos meses da minha vida foram um longo período de hibernação para fazer um exame. Já está feito, correu bem, mas agora falta o mais importante. Falta o exame de hoje, Benfica.
Quando alguém descobria que eu estava em Medicina, um dos primeiros comentários era, quase invariavelmente, que nós estudávamos muito e que sacrificávamos muita coisa. Dá para contornar a afirmação de várias maneiras, e há, sobretudo, muitas histórias para a confirmar: enquanto estudava para Anatomia em Junho/Julho de 2003, se me esquecia do telemóvel ligado, acordava quase sempre com os meus amigos a ligarem-me da noite, pelas 5h da manhã ou coisa assim. Uma pessoa só queria estar umas horas a dormir sem decorar coisas e, se se distraía, acordava com a música do MacGyver, que era a música que fechava a noite num bar em Faro. Portanto, sim, quando acordava de madrugada a saber que os meus amigos estavam bebedíssimos e eu tinha que acordar daí a umas horas para ir estudar a articulação do cotovelo ou uma coisa assim que agora não me lembro, punha em causa se teria feito as melhores escolhas na minha vida.
Mas uma das minhas maiores dores, ou a primeira coisa que me vem à cabeça quando me lembro dos sacrifícios que fiz durante o curso e o internato, é a quantidade de vezes que tive que pôr a Medicina à frente do Benfica, ou, vá, empatada. Faltei ao clássico de 2003/2004 (1-1, Costinha para eles, Simão para nós) por ser véspera do exame de Neuroanatomia. Ouvi os quartos de final da taça desse mesmo ano na rádio, o Benfica-Nacional que ganhámos 2-1 no fim, já com o Argel a ponta de lança, por ter frequência de Bioquímica no dia a seguir. Perco as contas às deslocações que não fiz por ficar a marrar. Quando alguém me pergunta pelos sacrifícios por estar em Medicina, normalmente espera que eu diga: "Oh, sim, dorme-se pouco e estuda-se muito. Quem me dera estar mais tempo com a família e amigos!". Mas eu, como sou doente, penso que foi por causa deste curso e desta vida que não vi o último título de andebol no pavilhão (o D. e o T. mandaram-me mensagens de alegria desde lá), ou que estava a estagiar em Salamanca nas meias-finais com a Juventus do ano passado.
E nestas épocas de hibernação - insultuosamente frequentes em Medicina - em que estamos fechados em casa, afastados de contactos sociais ao ponto de depois termos alguma dificuldade em interagir com as pessoas normais quando temos ordem de soltura (eu não sei quais são as últimas tendências de literatura, música ou de basicamente nada. No entanto, sei a epidemiologia de linfoma de células do manto, que não interessa a ninguém), o Benfica sempre foi a minha pausa de estudo, o último reduto da saúde mental (ahah, saúde mental e Benfica na mesma frase, a ironia). Em 2008, a estudar para o exame da especialidade, assisti à tímida ascensão e estrondosa queda da equipa cujo treinador era Quique Flores (estive para escrever "era treinada por Quique Flores", mas apercebi-me que são afirmações de valor diferente), em 2006 cheguei a levar uma tabela de qualquer coisa que me estava sempre a esquecer para o intervalo de um jogo, onde a li mais uma vez inutilmente. E, nestes meses, os dias de Benfica eram os dias no meu calendário de estudo (sim, aos 31 anos ainda fiz calendários de estudo e isto é triste) onde não estava lá quase nada porque eu sei que a minha disponibilidade mental nos dias de Benfica é zero e eu penso mais movimentações do Gaitan a vir receber ao meio do que na fisiopatologia de doenças de plaquetas. Não faltei aos jogos na Catedral e enervei-me muito em todos os jogos fora, especialmente nos que correram mal e sabendo que no dia a seguir tinha que voltar a fechar-me com os livros e não podia ir para o Seixal ensinar ao Jardel a sair melhor a jogar quando está apertado.
Quando me disseram a data deste exame, a minha alegria imediata foi saber que foi marcado para antes do clássico. Seria impossível conciliar as duas coisas, tal é o meu estado de nervos. Aliás, o meu habitual pessimismo para estes jogos agrava-se com o facto de eu não ter conseguido ter ficado (muito) nervoso para este clássico nos últimos dias porque estou tão cansado do pós-exame que só consigo dormir.
Benfica, em Setembro escrevi-te que esta seria a nossa época de exame. Hoje é dia do exame final. É dia de fazeres com que todos os sacrifícios valham a pena, é dia de fazeres valer todas as noites em que não foste sair, ou todas as tardes em que estava a dar um derby de Manchester e ficaste a trabalhar. É hoje o dia, Benfica. Pelos que se sacrificam por ti, pelos que sonham com a festa pós-exame, pelos que se enervaram todos os fins-de-semana, como aqueles alunos que vão às teóricas todas. Força, rapazes. Tirem boa nota.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Reportagem no Porto Canal
A reportagem no Porto Canal comigo, com outros emigrantes em Lisboa e com o momento mais alto da vida do M.: quando ele passou por portista durante um segundo.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Atenção, crianças
Antes de mais nada, deixem-me pedir-vos desculpa por este interregno tão prolongado na nossa escrita. Não se preocupem: cá em casa está tudo bem (apesar do último fim-de-semana atribulado), não houve divórcio (apesar de ter quase a certeza que o meu marido gosta mais de um árbitro qualquer do que de mim) e sobretudo não deixámos de ser estupidamente doentes (apesar de os nossos clubes teimarem em tornar-nos doentiamente estúpidos).
Jogo em casa. Domingo à noite. Frio e ameaça de chuva. Atrás de mim, pai e filho conversam. O Ronaldo perdeu, o Messi está a jogar muito, o Chelsea que não sai lá de trás por causa do Mourinho, o PSG, coitado, sem o Ibra. Já vai longo o debate e nós no campo a sofrer. “E o City, que desilusão”, diz ele. “E o Arouca, que perigo”, temo eu.
Sofro de cada vez que ouço aquele “Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Dói-me que ele lute pelos comandos da Playstation para escolher primeiro o Bayern. Confunde-me aquela camisola do Neymar tão desejada e imaculada lá no armário.
“Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Eu até compreendo, mas acho mesmo é que vocês são idiotas. Eu até desculpo, mas espero mesmo é que vocês não se reproduzam mais. Eu até partilho o mesmo planeta convosco, mas desejo mesmo é não estar na mesma bancada.
Oh, mas o Bayern tem tantos jogadores bons que é impossível não querer jogar com eles na consola. É o Neuer, é o Robben, é o Ribéry, é o Muller. “Ele sabe todos, até os números nas camisolas”. Uau, que prodígio. Isso serve para alguma coisa além de facilitar os insultos nos quartos-de-final da Champions? Quero vê-lo a ter coragem de mandar o Schweinsteiger para o #!”%!%#. Aí sim, tinham valido a pena todos os dias fechado em casa a jogar sem esfolar os joelhos.
Bem, mas afinal quem é que não quer uma camisola do Neymar? “Ele tem estilo...” E tem instagram, e facebook, e twitter, e cenas. #neymarélindo #neymaréomelhordomundo #neymarlevou7daalemanha #neymarselevasodaniloemboratemosproblemas. Pelo menos a camisola é para usar num campeonato de inter-turmas que abrange craques desde o Barcelona ao Ramaldense? “Não, cruzes, foi tão cara, não é para sujar”.
Como é que chegámos até aqui? Como é que, de repente, passámos das bancadas molhadas para o coração seco de um miúdo que sabe citar todos os golos, todas as assistências e todos os penteados do Cristiano Ronaldo? Como é que o tempo passou tão depressa desde aquela taça nas mãos do João Pinto até um hino da Liga dos Campeões que é música para os ouvidos de tantos mini-adeptos do PSG? Como é que não lhes soubemos mostrar que, por mais belo que seja o futebol mundial, é a bola lá da rua que nos distingue?
Queixamo-nos que o futebol já não nos dá valor, que pagamos bilhetes caros, que não temos ídolos nos nossos clubes. Tudo verdade. Tudo mudou. O espectáculo virou moda e a moda virou vaidade. Os jogadores são galácticos, as equipas são montras e para quê insistir na paixão se é o dinheiro que nos move?
Vamos desistir, então. Vamos deixar que as nossas crianças cresçam a saber escrever Lewandowski, mas sem saber o que é a traição de sair para o rival. Vamos deixá-las invejar as tatuagens de um Ibrahimovic, sem perceberem a diferença entre uma Juventus, um Barcelona ou um PSG. Vamos entretê-las com o duelo Ronaldo-Messi, sem as levarmos ao estádio para sentirem, para aprenderem, para sofrerem.
Jogo em casa. Domingo à noite. Frio e ameaça de chuva. Atrás de mim, pai e filho conversam. O Ronaldo perdeu, o Messi está a jogar muito, o Chelsea que não sai lá de trás por causa do Mourinho, o PSG, coitado, sem o Ibra. Já vai longo o debate e nós no campo a sofrer. “E o City, que desilusão”, diz ele. “E o Arouca, que perigo”, temo eu.
Sofro de cada vez que ouço aquele “Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Dói-me que ele lute pelos comandos da Playstation para escolher primeiro o Bayern. Confunde-me aquela camisola do Neymar tão desejada e imaculada lá no armário.
“Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Eu até compreendo, mas acho mesmo é que vocês são idiotas. Eu até desculpo, mas espero mesmo é que vocês não se reproduzam mais. Eu até partilho o mesmo planeta convosco, mas desejo mesmo é não estar na mesma bancada.
Oh, mas o Bayern tem tantos jogadores bons que é impossível não querer jogar com eles na consola. É o Neuer, é o Robben, é o Ribéry, é o Muller. “Ele sabe todos, até os números nas camisolas”. Uau, que prodígio. Isso serve para alguma coisa além de facilitar os insultos nos quartos-de-final da Champions? Quero vê-lo a ter coragem de mandar o Schweinsteiger para o #!”%!%#. Aí sim, tinham valido a pena todos os dias fechado em casa a jogar sem esfolar os joelhos.
Bem, mas afinal quem é que não quer uma camisola do Neymar? “Ele tem estilo...” E tem instagram, e facebook, e twitter, e cenas. #neymarélindo #neymaréomelhordomundo #neymarlevou7daalemanha #neymarselevasodaniloemboratemosproblemas. Pelo menos a camisola é para usar num campeonato de inter-turmas que abrange craques desde o Barcelona ao Ramaldense? “Não, cruzes, foi tão cara, não é para sujar”.
Como é que chegámos até aqui? Como é que, de repente, passámos das bancadas molhadas para o coração seco de um miúdo que sabe citar todos os golos, todas as assistências e todos os penteados do Cristiano Ronaldo? Como é que o tempo passou tão depressa desde aquela taça nas mãos do João Pinto até um hino da Liga dos Campeões que é música para os ouvidos de tantos mini-adeptos do PSG? Como é que não lhes soubemos mostrar que, por mais belo que seja o futebol mundial, é a bola lá da rua que nos distingue?
Queixamo-nos que o futebol já não nos dá valor, que pagamos bilhetes caros, que não temos ídolos nos nossos clubes. Tudo verdade. Tudo mudou. O espectáculo virou moda e a moda virou vaidade. Os jogadores são galácticos, as equipas são montras e para quê insistir na paixão se é o dinheiro que nos move?
Vamos desistir, então. Vamos deixar que as nossas crianças cresçam a saber escrever Lewandowski, mas sem saber o que é a traição de sair para o rival. Vamos deixá-las invejar as tatuagens de um Ibrahimovic, sem perceberem a diferença entre uma Juventus, um Barcelona ou um PSG. Vamos entretê-las com o duelo Ronaldo-Messi, sem as levarmos ao estádio para sentirem, para aprenderem, para sofrerem.
Ou então vamos dar luta. Vamos pegar nelas e ensinar-lhes o que é ter clube, ter uma identidade, apoiar os nossos. Vamos dar-lhes aquele cachecol antigo, vamos cantar-lhes aquela música mais ou menos insultuosa para com os tristes coleguinhas que não partilham este bem comum. Vamos explicar-lhes tudo o que não tem sentido nisto e vamos deixá-las descobrir como só torcer assim faz sentido. Vamos mostrar-lhes que, por muito que tentem afastar-nos das estrelas, dos golos, das vitórias, das derrotas, do futebol... nós nunca vamos separar-nos deste nosso amor.
A nós, casal de doentes de clubes diferentes, perguntam-nos muitas vezes como iremos fazer com um filho. É um drama, já se sabe. Será que vai ser um lampião detestável só para agradar ao pai? Ou será que vai ser um portista exemplar só porque vai gostar de ganhar mais e, vá, para deixar a mãe em êxtase? Não sei, não faço ideia. Tenho um desejo, admito, e prometo tentar tudo para que se realize. Mas de uma coisa tenho a certeza: seja com o M. ou comigo, e apesar de toda a lavagem cerebral que vai levar para decorar toda a história do futebol mundial, o raio da criança nunca irá, durante um jogo essencial com um Arouca, incomodar um verdadeiro adepto com estas merdas. Haja respeito.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Conversa sobre árbitros
Como é que um casal de fanáticos, ele do Benfica e ela do Porto, vivem na mesma casa? Como é que gostam um do outro se detestam tanto o clube do outro? Como é que, nestes dias em que não se fala de outra coisa, não andam constantemente a discutir arbitragens?
Pois, a verdade é que grande parte do segredo desta relação está aqui: não discutir árbitros ou, não o conseguindo evitar, fazendo-o sempre no pressuposto de que o outro vai defender o contrário e não vai mudar de opinião. Não há fanático que o faça racionalmente, não há doente que admita um favorecimento nem há adepto que se esqueça que foi prejudicado.
Na verdade, se nos assumíssemos, a nossa vida seria basicamente isto:
M: Bom dia, C.
C: Colinho. Andas ao colinho.
M: Queres que te faça o pequeno-almoço? Talvez... fruta com café com leite?
C: Não preferes pagar ao Capela para ele mo fazer?
M: Apito Dourado.
C: Vá, M., faz lá isso que estou atrasada. Ao contrário do Maxi, que estava um bocadinho adiantado...
M: Estás atrasada? Mas vais a Penafiel? Lá podes andar à vontade que toda a gente considera que estás atrasada...
C: Calabote.
M: Pronto, vou despachar-me que tenho de ir trabalhar. Tu hoje vais à festa de despedida do Proença não é?
C: Eu e o Cardozo, que ainda se lembra daquelas duas mãos que deu no jogo que vocês tanto falam do Maicon.
M: Escutas.
C: Este fim de semana vamos para a tua casa no Algarve? Tipo Estoril?
M: Sim, mas não vamos pela Cosmos.
C: Rennie.
M: Achas que esta casa é segura? Ou é melhor chamares o Guarda Abel?
C: Vê lá se não faço um túnel no corredor...
M: Azia.
C: Ainda estou à espera que me expulses desta casa. O Cosme demora muito?
M: Calma, não és assim tão caceteira como o Jorge Costa, Paulinho Santos, Bruno Alves, Casemiro...
C: Só choradinho.
M: O Jorge Sousa é dos Super Dragões.
C: O fiscal-de-linha do Guimarães-FCPorto gosta da página de Facebook do Benfica.
M: Andor. Temos de ir trabalhar.
C: Kompensan.
M: Amo-te.
C: Amo-te.
Gostávamos de agradecer aos nossos leitores que enchem a caixa de comentários com argumentos deste género pela preciosa ajuda nesta conversa imaginária.
Também gostaríamos, neste cenário, que alguém do Sporting pudesse viver cá em casa só para acrescentarmos a estes poderosos argumentos os que temos guardados para eles. Mas, infelizmente, como toda a gente sabe, só Benfica e Porto estão unidos pelo casamento. O nosso, portanto. Vamos então tentar mantê-lo.
Pois, a verdade é que grande parte do segredo desta relação está aqui: não discutir árbitros ou, não o conseguindo evitar, fazendo-o sempre no pressuposto de que o outro vai defender o contrário e não vai mudar de opinião. Não há fanático que o faça racionalmente, não há doente que admita um favorecimento nem há adepto que se esqueça que foi prejudicado.
Na verdade, se nos assumíssemos, a nossa vida seria basicamente isto:
M: Bom dia, C.
C: Colinho. Andas ao colinho.
M: Queres que te faça o pequeno-almoço? Talvez... fruta com café com leite?
C: Não preferes pagar ao Capela para ele mo fazer?
M: Apito Dourado.
C: Vá, M., faz lá isso que estou atrasada. Ao contrário do Maxi, que estava um bocadinho adiantado...
M: Estás atrasada? Mas vais a Penafiel? Lá podes andar à vontade que toda a gente considera que estás atrasada...
C: Calabote.
M: Pronto, vou despachar-me que tenho de ir trabalhar. Tu hoje vais à festa de despedida do Proença não é?
C: Eu e o Cardozo, que ainda se lembra daquelas duas mãos que deu no jogo que vocês tanto falam do Maicon.
M: Escutas.
C: Este fim de semana vamos para a tua casa no Algarve? Tipo Estoril?
M: Sim, mas não vamos pela Cosmos.
C: Rennie.
M: Achas que esta casa é segura? Ou é melhor chamares o Guarda Abel?
C: Vê lá se não faço um túnel no corredor...
M: Azia.
C: Ainda estou à espera que me expulses desta casa. O Cosme demora muito?
M: Calma, não és assim tão caceteira como o Jorge Costa, Paulinho Santos, Bruno Alves, Casemiro...
C: Só choradinho.
M: O Jorge Sousa é dos Super Dragões.
C: O fiscal-de-linha do Guimarães-FCPorto gosta da página de Facebook do Benfica.
M: Andor. Temos de ir trabalhar.
C: Kompensan.
M: Amo-te.
C: Amo-te.
Gostávamos de agradecer aos nossos leitores que enchem a caixa de comentários com argumentos deste género pela preciosa ajuda nesta conversa imaginária.
Também gostaríamos, neste cenário, que alguém do Sporting pudesse viver cá em casa só para acrescentarmos a estes poderosos argumentos os que temos guardados para eles. Mas, infelizmente, como toda a gente sabe, só Benfica e Porto estão unidos pelo casamento. O nosso, portanto. Vamos então tentar mantê-lo.
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