quinta-feira, 4 de junho de 2015

1993

Nota prévia: este texto é todo escrito assumindo a ida de Jorge Jesus para o Sporting. Já se confirmou que não fica no Sport Lisboa e Benfica, 34 vezes campeão de Portugal, e tudo indica que irá para os verdes. 

Eu adorava o homem. Sabia do feitio doente, da sobranceria e do ego quase ridículo para quem faz madeixas no cabelo. Suportei os erros de português, a incoerência, humilhações duras (2010/2011, Eusébio me faça esquecer), percebi muito depressa que não íamos ganhar sempre (mas foram metade das vezes), mas senti o salto qualitativo. O futebol. A equipa alinhada a defender, imprevisível a atacar, as bolas paradas trabalhadas, o treino a saltar-nos para os olhos em cada jogo. Aquela disciplina táctica, a jogar com 9 em Turim, num momento de alta pressão, como o aluno que já sabe tudo e que já nem precisa de pensar para saber a resposta.


JJ, num clube de loucos, tornou-nos competitivos, perigosos, manhosos, temidos. Passámos a contar para o totobola. Aprendi muito sobre futebol a ver o Benfica de JJ, para o bem ou para o mal. Defendi a sua continuidade até em Maio de 2013 e queria mais. Queria (e espero) que Vieira tenha feito tudo para o manter cá. Estava relativamente preparado para a sua saída para o estrangeiro, mas - apesar de já conhecer os rumores - não para os verdes.

Para que isto fique bem claro: JJ não passa a mau treinador por ir para o Sporting, não vai desaprender nada, não me vão ler que ele afinal é o José Mota. Mas, para mim, é persona non grata. É um traidor. Sim, um traidor. Oh, mas ele sempre foi do Sporting! Caguei, amigos. Jorge Jesus, génio da linha defensiva, ia continuar a treinar Bragas e afins não fosse a oportunidade de vestir o manto sagrado do Benfica. E o mínimo dos mínimos que eu peço a quem veste esta camisola é que nunca vá para os rivais (a não ser que sejas o Pesaresi). Chegará o dia, quando eu for presidente do Benfica, que qualquer funcionário do Glorioso será capaz de citar todos os nossos títulos, os dois 11 campeões da Europa e o número de golos do Eusébio no Benfica (773). Mas, até lá, o mínimo dos mínimos, os serviços quase-zero que eu exijo, é não jogar depois num rival. O pai dele, ai o pai dele, que é tão do Sporting e ele foi sempre do Sporting! Então nunca tinha assinado. Ficava um lagarto orgulhoso a treinar o Belenenses, a ficar em 6º lugar e treinar as transições defensivas perfeitinhas no Restelo ou no Bonfim ou em Felgueiras (e sim, talvez ninguém reparasse nele. O homem já treinava na primeira divisão desde 1997 ou assim e ainda ninguém o tinha agarrado). Mas não, veio para o Benfica. Quem vem para o Benfica, deve sentir-se orgulhoso. Deve amar cada canto do clube, cada centímetro quadrado do estádio da Luz. Deve pensar: "Porra, estou no mesmo clube onde jogou o Coluna" e chorar de emoção. O mínimo é não ir para um rival a seguir. 



Vou explicar-vos: eu tenho amigos do Sporting. Grandes amigos, grandes sportinguistas, pessoas que eu adoro. Mas, para mim, é como se elas não fossem do Sporting. Eu não concebo o bem no Sporting, o meu cérebro entra em dissociação cognitiva. A minha sogra diz-me, olhos nos olhos, que acha que eu e o meu Pai somos demasiado boas pessoas para ser do Benfica. Eu adoro a minha sogra e adoro-a mais por dizer isto. Eu percebo: quando nós somos malucos por um clube, não somos selvagens que não conseguimos comer à mesa com pessoas de outro clube. Mas há algo no nosso cérebro que separa as duas coisas, retirando essa característica daquela pessoa de quem gostamos. (And that, kids, is how I met your mother).

O Benfica é um clube que foi fundado por gente pobre e que, anos após aparecer, viu um clube de gente rica roubar-lhe jogadores. Era um clube que no primeiro ano da fundação não tinha militância para jogar futebol, só para fazer bailes. Para jogar futebol, teve de nos roubar jogadores. Esse clube, com um equipamento metade cor de ranho, metade a imitar a cor dos calções do Benfica, nasceu em oposição a nós. É o nosso nemesis, o nosso rival, o nosso oposto. Se o Sporting gosta de carne, eu gosto de peixe. Se o Sporting pensa de uma maneira, eu penso de outra. Imediata e automaticamente. E eles igual. É assim, sempre há-de ser. Nós bons, bonitos, altos e fortes. Eles maus, feios, baixos e fracos. Nós espectaculares, eles uma merda. Eu não consigo perceber como é que alguém com mais de 5 anos e 3 neurónios aceita ser do Sporting quando tudo isto é evidente. 
Jorge Jesus, exímio explorador daquele corredor entre a ala e o corredor central (apanha a quina da grande área), quando assinou por nós em 2009, devia ter percebido uma coisa: uma vez nosso, devia ter sido sempre nosso. Podia sair para o Zenit, para o Austria de Viena ou para o Real Madrid. Mas não para eles (nem para os de azul, claro). Chama-se ética, chama-se respeito, chama-se futebol. Ah, e o Simão? O Simão foi um grande jogador mal formado, que cuspiu no prato que o fez crescer e que agora está à procura de tacho no Benfica. Não é dos meus, meus. Nunca foi. Foi o melhor jogador de uma equipa do Benfica? Sim, mas nunca teve o meu amor. 


Isto parece estúpido, estamos em 2015, mas sim, eu sinto aqueles roubos de 1907 do clube dos Holtremans como se fossem hoje. E os do Verão de 1993. É uma coisa imperdoável, histórica, que pode ter mil anos que nós nunca vamos perdoar. Tivemos a pequena vingança de um dia comprarmos um júnior deles do Sporting de Lourenço Marques, mas se ali ficasse, Eusébio nosso senhor ia ser mordomo de um Ricciardi ou assim. Se JJ assinou em 2009 connosco, assina pelo nosso lado da história (o correcto, claro) e, para mim, não pode voltar atrás. Não aceito, não quero saber de mais nada. Se assinar pelo Sporting, Jorge Jesus é dos outros e a partir daqui é um alvo como eles. E temos de trabalhar agora para o derrotar, recordando sempre que o Benfica é um clube que se fez na adversidade, é um clube que se tornou grande porque era de gente orgulhosa, mas que trabalhava, enquanto os vizinhos tudo tinham. 

Eu não acho - não sou assim tão totó - que o ADN do Benfica seja o mesmo da sua fundação, nem sequer de há 20 anos. Longe vão os tempos em que jogadores como Paneira, depois do Verão quente de 1993, queriam marcar o sétimo em Alvalade porque queriam vingar um resultado menos feliz num derby de uma equipa que nos deu uma dobradinha. Mas é esse ADN que é preciso ir buscar para voltarmos a ganhar. Andávamos alegres e contentes, mas a realidade bateu-nos à porta. É hora de trabalhar, de ir buscar forças, competência, dedicação. Ser do Benfica, ser Benfica. Sim, eu sei, eu sei, isto parece só conversa fiada. Mas a história já nos provou que pode não ser só conversa. Se fosse só isso, se fosse impossível, não havia Benfica. 

Da minha parte, Jesus nem um obrigado levará se assinar por eles. Eu adorava o homem. Mas lembrei-me que ele é do Sporting e não há boas pessoas do Sporting. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Os velhos

Tinha 2 ou 3 anos e estava a passar férias com a família. Estava calor, íamos a caminhar e tudo o que eu queria era chegar ao local onde podia brincar. Tinha, portanto, toda a motivação que um pequeno humano consegue juntar para andar depressa. No entanto, os meus avós iam connosco. Os meus avós tinham, nessa altura, a capacidade física do Obikwelu, mas eu estava convencida que eles não iam muito além do Mestre Yoda (sábios, muito sábios, mas já não dispostos a grandes aventuras). Conta a minha mãe que tentou acalmar a minha falta de paciência (há quem diga que não mudei muito neste aspecto, um ultraje) dizendo que era preciso “esperar” pelos avós e que era “natural” que eles andassem mais devagar. Ao que parece, a minha mãe acreditava em ser racional com uma criança de 2 ou 3 anos. Mas eu, que não me orgulho muito deste momento, virei-me para trás, olhei furiosa para os meus avós e desabafei:

“Rais’ parta os velhos!”

Os meus avós, que como todos os avós já não tinham a pressão de educar uma criança mas só de a estragar, desataram a rir-se. Riram-se tanto que me atrasaram ainda mais, enfim. A frase eternizou-se na família e é daquelas que repetimos a todos os aniversários e Natais, sempre que é necessário lembrar a alguém que está a demorar muito a fazer algo.

No que diz respeito ao FCPorto, a minha pressa é ganhar. Admito-o: estou habituada a tal e não tenho muita paciência para tudo o que não seja conquistar títulos. Já não sou tão radical como aos 2 ou 3 anos, é certo, mas continuo a ter a mesma motivação para chegar lá o mais rápido possível.

Já aqui o tinha escrito e todos sabíamos: o campeonato estava entregue. Nem que tivéssemos largado tudo e desatado a correr, ele não seria nosso. Agora que somos adultos, não adiantava “esperar” outro cenário, porque um golo de Kelvin aos 92 minutos é tudo menos “natural”. Ora, o problema é que eu acho que um adepto tem a inteligência emocional de uma criança de 2 ou 3 anos. Só isso explica que, perante uma reunião de família a um domingo, o M. tenha faltado para ir a Guimarães, mas, pior ainda, eu tenha saído mais cedo para ir a Belém. Se, no primeiro caso, o cérebro de qualquer humano é capaz de reconhecer a perseguição da felicidade e do prazer em momentos raríssimos, no segundo é mais difícil explicar o que me levou ali.

Não vou chatear-vos com a conversa do ser portista a ganhar ou a perder. Se estão a ler este blog, confio que sabem o que isso é e que partem sempre desse princípio. Se não, podem ter vindo parar aqui porque “Lá em casa mando eu” soa a blog de culinária, mas convido-vos a ficar na mesma.

Eu não fui ao Restelo só por causa dessas lamechices. Fui porque a minha pressa é tanta que já estava a pensar mais à frente. Se eles tivessem corrido, se tivessem tentado andar mais depressa pelo menos, eu teria ficado satisfeita. Mesmo perdendo, conseguiria perceber que estaríamos mais perto da meta: ganhar. Parece estúpido, eu sei. Como é que, a perder, alguém pode pensar que se aproximou de ganhar? Vou tentar explicar como a uma criança de 2 ou 3 anos: o FCPorto, o meu FCPorto, só sabe, só pode ganhar à Porto. Se não corrermos, se não quisermos, estaremos sempre mais longe disso.

Infelizmente, vivemos numa época em que nós, os adeptos e os portistas como eu os entendo, estamos em vias de extinção. A culpa não é só nossa. O futebol, lá em cima, quer-nos assim: a pagar muito e a sentir pouco. Enquanto nós, na bancada, gritávamos a plenos pulmões pelo FCPorto, eles, no campo, ficavam para trás. Devagar. A atrasar-nos.

“Rais’ parta os velhos!”

Senti-me insultada quando, no final, ainda acharam que podiam virar-se para nós, à espera de palmas. Aquela gente (vestida de cor-de-rosa, felizmente, porque se estivessem de azul e branco às riscas eu podia tê-los confundido com o meu clube) vive em que mundo? O que é que lhes passou pela cabeça para não saírem dali depressa, com vergonha do que fizeram, e não terem pedido desculpa imediatamente a seguir, quando usaram os microfones para falar de contratos em vez de portismo? Eles insultaram-me, insultaram-nos e insultaram o nosso clube. Eles, os de cor-de-rosa, e todos os que acham que o caminho é este. Que mais importante do que correr no Restelo é correr para apanhar o comboio de uma Liga dos Campeões repleta de dinheiro, de clubes mercenários e de adeptos que preferem uma Coca-Cola e um 5-5 do que apanhar chuva na bancada e ganhar “meio a zero”.

Neste assunto, sei que não evoluí muito em relação àquele tempo em que era uma criança de 2 ou 3 anos. Continuo a preferir ver os rádios colados no ouvido em Belém, do que as pipocas coladas à boca no Dragão. Até gosto que os telemóveis nos dêem os onzes mesmo antes do aquecimento, mas não percebo que nos tirem selfies quando acabámos de perder não só um campeonato, mas sobretudo a dignidade. Compreendo que um adepto se sente no sofá a apreciar um Barcelona-Bayern, mas nunca que não lhe passe pela cabeça ir sofrer para Penafiel numa noite de temporal. Sei que o mundo mudou, mas não sou obrigada a gostar dele.

“Rais’ parta os velhos!”

Eu sei, eu sei, é uma luta inglória. Vamos sempre perder, não adianta. Mas foi por isso que fui ver o último jogo da época. O meu clube sabe que não o deixo, a ganhar ou a perder, lá está o cliché. Mas, se não sabe devia saber, também não o vou deixar ir por este caminho sem dar luta. Bem podem tentar apanhar-me naquela espécie de “kiss cam” que procura os adeptos com uma Coca-Cola na mão para lhes dar um lugar privilegiado no estádio, que vão sempre encontrar-me, como em Belém, num maldito zoom, a cantar que foram uma vergonha. Peço desculpa pela falta de paciência, mas, se não valorizam os poucos que assim restam, aviso já que vai ser difícil verem-se livres destes, porque são os mesmos que, depois de Munique, vão à luz, a Setúbal e ao Restelo, seja à sexta ou ao domingo, faça chuva ou faça sol, corram os de cor-de-rosa ou não corram.

Mas talvez estejamos errados. Talvez não estejamos a perceber que, mesmo no jogo em que já não há nada para ver, se possa meter umas fotos do Reyes e do Herrera no Facebook, com legenda em espanhol, e ganhar mais uns likes mexicanos. Talvez isso seja mais importante do que aqueles malucos que estiveram calados e que foram assobiados ao cantar o hino. O hino... Os malucos parece que sabem a letra... E sentem-na... Talvez o caminho não seja esse e bom, bom, era se fôssemos todos como o atrasado mental atrás de mim, que passou o ano a tratá-los mal, a chamar-lhes nomes, a ser muito “exigente” porque pagou bilhete, mas que, neste jogo, batia palmas a cada passe para trás, naquele sistema que há umas semanas apelidava de “uma p$%/ de uma pouca vergonha”. Esse não o vi no Restelo, não sei porquê. Nem em Penafiel, sem conseguir insultá-los em voz alta porque a roupa encharcada, parecendo que não, afecta a projecção da voz. A esse não o vejo levantar-se e cantar o hino, não percebo...

Bom, bom, é se conseguirmos vender uns quantos jogadores e meter na cabeça aos que ficam que o que é preciso é passar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Se continuarmos assim, de certeza que isto vai correr bem. Qual é o problema do rival ser bicampeão, afinal? Para o atrasado mental atrás de mim, nenhum, porque ele foi mais agressivo com os malucos que protestaram em silêncio neste jogo do que com o Maxi Pereira, que fez à vontade o lançamento para o primeiro golo na linha que fica mesmo à nossa beira. O estádio parecia um cemitério sem os malucos a cantar, mas, para ele, a vergonha foram os malucos, como eu, terem saído mais cedo só neste jogo, em protesto, e não o que aconteceu no Restelo, na luz e na Madeira, onde os mesmos malucos apoiaram o clube até ao fim. Porque bom, bom, são os que saem mais cedo para não apanhar trânsito e jantar mais cedo. E desengane-se quem pensa que o atrasado mental é só um atrasado mental: ele é um reflexo do que este futebol, lá em cima, quer que ele seja.

Mas, com ele, de certeza que vamos longe. Com ele, vamos em frente, e depressa, como uma criança de 2 ou 3 anos que quer ir brincar. Enquanto houver dinheiro para as pipocas, lá estará ele na linha da frente. Enquanto houver likes nas redes sociais, ele não dormirá mal por perdermos. Enquanto houver um “Somos Porto” ou “Sempre Preparados” para os de camisola cor-de-rosa usarem sem saberem o que significa, não precisaremos de nos preocupar com nada. E, para trás, ficarão todos os que, mais do que as derrotas, vão demorar a aceitar a falta do Futebol Clube do Porto.

“Rais’ parta os velhos!”




sábado, 23 de maio de 2015

O mea culpa do pessimista

Um pessimista é um homem que olha para os dois lados antes de atravessar a estrada - Laurence J Peter em "O princípio de Peter"
Nunca acreditei. Mesmo quando tudo já parecia decidido, quando toda a evidência já me devia estar a entrar pelos olhos, eu mantive-me no meu confortável casulo do pessimista, como aqueles soldados japoneses que foram encontrados mais de 20 anos depois da II Guerra Mundial ter acabado. Dois anos depois, talvez o minuto 92 tenha ficado um bocadinho mais para trás. 2 campeonatos vencidos de seguida talvez me façam agora ver que aquele minuto acabou. Nunca será esquecido - e grande parte deste bicampeonato está aí - mas pode ser ultrapassado. Mas depois daquele golo do Kelvin, onde se provou que Deus não existe (exceptuando Eusébio e Coluna, mas esses têm um estatuto muito superior à divindade, como me parece óbvio e universalmente aceite), era impossível não olhar duas, três, quatro vezes para cada lado da estrada. 
Não há nada pior para um paranóico do que ser, efectivamente, perseguido. Quando a época começou, com o Benfica a vender tudo, o Porto a reforçar-se a sério e Jackson a anunciar a renovação, temi - como sempre, é verdade - o pior. Não acreditei que aguentássemos a super equipa deles. Posso-vos dizer que o meu pessimismo era sincero e honesto. Não sou gajo para depois ficar a chatear toda a gente com "eu disse-vos! Eu disse-vos!". O meu pessimismo é a minha preparação para a infinita tristeza que se abate sobre mim quando o Benfica perde. Ainda bem que eu não tinha razão. Li uma vez, numa discussão de facebook: "Quanto ao Benfica, não faço questão de ter razão". É uma frase brutal. É brutal porque em tudo o resto quero ter razão, quero acertar, quero validar a minha opinião. Quero estar do lado político correcto, quero acertar eticamente nas decisões difíceis.  Mas quanto ao Benfica não. Só quero que o Benfica ganhe. Não interessa se com o onze ou táctica que eu acho melhor. Nem me interessa se com X ou Y a presidente. Eu quero que o Benfica ganhe. Felizmente para mim, falhei a minha previsão. Oxalá seja sempre assim.
Acho que também há aqui um fundamento cristão, o que é irónico num ateu como eu. Estou plenamente convencido que esta minha humildade, que os meus frequentes elogios ao Porto (que são sentidos, juro), que a constante procura por limpar os nossos pecados – procurando incessantemente os nossos defeitos, como se muitos tweets sobre o assunto os pudessem mudar – abrem-me as portas do céu (no caso, de campeonatos). Isto não quer dizer que eu, na verdade, seja um bazófias como o benfiquista irritante de café que diz “P`RA CIMA DELES!” nem que estejamos a jogar com o Bayern em Munique, eu sinto que o meu papel de adepto é este. É o ser crítico, é o de encontrar elogios nos rivais para os copiarmos e defeitos em nós para os corrigirmos. Para a maioria das pessoas, o futebol é uma festa, mas para mim é uma missão.
Escrevo-vos hoje para dizer alegremente que errei. Que as minhas previsões deram para o torto, que sou o José Peseiro do totobola. Escrevo-vos para dizer que o Velho do Restelo (não o Tiago Caeiro, o dos Descobrimentos, seus ignorantes que só pensam em bola) não tinha razão, e que sim, que os navegadores vão chegar à Índia. Escrevo hoje, feliz, para vos dizer que afinal Jonas é melhor que Rodrigo e que Samaris pode ser um bom 6, apesar de nunca vir a ser um Matic. Que o Pizzi só serve para os jogos em casa, mas não faz mal (ou faz, mas depois falamos disso).
O Benfica, felizmente, não é composto por pessimistas crónicos como eu (se bem que teria a sua graça ouvir a Luz em uníssono a cantar “Alinha com os outros três da defesa, Eliseu!”, em vez do “Glorioso SLB”). É feito daquela gente que ocupou todas as pontes do Porto a Guimarães só para levantar o cachecol aos que viajavam. O Benfica é aquela multidão enlouquecida no Aeroporto do Porto, que não precisou de andaimes nem de colunas para sair à rua. O que eu mais gosto no Benfica é, quando ganhamos, de ver as festas em todas as aldeolas, de ver a festa em Cabo Verde, em Paris, de ver o Benfica na rua. Este ano até um vídeo de 6 malucos a acenderem tochas na República Checa vi. O Benfica, popular, universal, louco, é a maior alegria do mundo.
É por querer, mais do que tudo, essa alegria, que eu todos os anos me preparo para a tristeza de não a ter. Porque eu a quero mesmo muito. Para o ano, vou olhar outra vez seis, sete vezes para cada lado da estrada antes de a atravessar. Vou antecipar perigos, sofrer antecipadamente, ver cada defeito nosso na ânsia de que se corrija. E oxalá – oxalá! – não tenha razão outra vez.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Lo-pe-te-gui

A época correu mal. Não pode tirar-se outra conclusão quando se trata do FCPorto e, por isso, se trata de ganhar. Não há desculpas, não há atenuantes: a época correu mal porque não ganhámos.

Reconhecer o óbvio não pode passar, no entanto, pelo esquecimento. A “desculpa”, dizem, são as arbitragens. Recorremos a elas para justificar um pedaço do falhanço. Mas lembremo-nos sempre que, a determinado momento, quando o primeiro classificado tremia, foram cruciais. Ainda assim, o FCPorto chegou a cinco jornadas do fim com a possibilidade de ir ao estádio do rival discutir o título. “Ainda assim”, aqui, é a expressão fundamental.

Mais. A “atenuante” foi a maneira como chegámos lá. Com uma carreira muito boa na Liga dos Campeões, por um lado, e uma derrota tão humilhante quanto esperada, por outro. Estávamos cansados, fisicamente e de espírito. Ninguém se pode esquecer daqueles 3-1 ao Bayern, pois está claro. Nem dos 6-1.

Recorrer a estas “desculpas” e “atenuantes” é pouco para o que estamos habituados. Ganhar contra tudo e contra todos, lembram-se? O mínimo que tinha de exigir-se naquele jogo decisivo era o que sempre se exigiu ao FCPorto: meter mais o pé, querer mais. Nada disto aconteceu. Bater palmas àquilo envergonha-nos.

Do outro lado, um vazio. O campeão em título podia ter acabado com uma equipa de miúdos, desmotivados pela goleada sofrida, de rastos. Imaginem o cenário ao contrário: no Dragão, o FCPorto que viria a ser bicampeão tinha esmagado o rival. O KO desta época não seria um amigo gil vicente ou guimarães, não mais se falaria em capelas, não seriam necessários mais bate-bocas nem trocas de nomes. Seria um murro em cheio nas “desculpas” e “atenuantes” dos outros. É a isso que estamos habituados. Eles não.

A nós, no entanto, interessa-nos a lição a tirar de duas épocas seguidas sem sermos campeões. O que aconteceu depois daquele golo do Kelvin? Fácil: enquanto nós dançávamos, eles agarraram-se às feridas e voltaram à luta. Não venderam tanto quanto precisavam, seguraram o treinador falhado. E nós a dormir. O 92 sempre na nossa cabeça. Fomos buscar um “treinador da moda”, um daqueles que os comentadores tornam no melhor do mundo mas depois fazem de conta que não ficaram surpreendidos com o fracasso. Não construímos um plantel. No FCPorto, até um Paulo Fonseca é campeão. Não foi, claro.

As feridas, desta vez, eram nossas, e eram muitas. Como também estamos habituados, a estratégia mudou, e para melhor. Fomos à luta. Fomos buscar um treinador, um daqueles que ninguém gosta, e é chato, e é arrogante, e fala muito, e mexe-se ainda mais. Incomoda. Ainda por cima fala espanhol. “O basco”. Que horror. Fomos buscar uma ideia. Fomos buscar jovens, talentosos, com vontade de se mostrar e de jogar bom futebol. Fizemos um esforço raramente visto e conseguimos manter Jackson. Boa. Vamos a eles, então.

Eu não me esqueço das expectativas, assim como não me esqueço do que falhou. No início, faltou criar um 11. Depois, faltou conhecer bem o campeonato português. Já antes, tinha faltado o que nos falta há uma década. Faltou-nos pegar neles e explicar-lhes o que isto é. Faltou-nos algum dos nossos entre eles. Faltou-nos o que os maluquinhos como eu ainda acham possível neste futebol global dos likes no facebook e equipamentos cor-de-rosa. Faltou-nos Porto.

Coube ao treinador disfarçar isso. Foi ele que nos defendeu, foi ele que falou, foi ele que foi à luta. Cada vez que o ouvi a falar de arbitragens, a virar-se contra jornalistas e rivais, quis e quero acreditar que o fazia e faz por perceber o que é o FCPorto. Contra tudo e contra todos, lá está. A equipa cresceu, melhorou, levou-nos a gostar dela e de futebol, outra vez. Mas falhou, outra vez, caraças. Falhou na Madeira e na luz. Ensinou-nos, espero, que o FCPorto não luta só em conferências de imprensa. Luta, sobretudo, em campo.

Resumo assim o ponto onde ficamos: estamos muito melhores do que há um ano, mas muito piores do que o FCPorto nos habituou. Temos de ir à luta, outra vez. Entre as vendas inevitáveis, os empréstimos e as manias das estrelas que querem “dar o salto”, temos de encontrar o nosso equilíbrio. Temos de crescer, mas crescer à Porto. Não podemos querer ganhar a Liga dos Campeões para mostrar ao mundo o que é o Porto e ao mesmo tempo não ir a casa do rival mostrar-lhes quem somos.

Não se pode ganhar sempre, mas também não se pode perder sempre da mesma maneira. O ano passado perdemos por falta de comparência, este ano perdemos com “desculpas”, “atenuantes” e erros que não podemos repetir. Não podemos voltar a ficar surpreendidos com equipas pequenas que só defendem, dão pau e perdem tempo. Não podemos voltar a ficar indignados cá fora, mas uns anjinhos lá dentro. Não podemos assobiar quando se está a tentar construir alguma coisa, nem podemos bater palmas quando se destruiu tudo. Também precisamos de encontrar esse equilíbrio na bancada, já agora.

Porque o benfica vai ser bicampeão. Não o benfica dos 15-0, mas também não o benfica dos 5-0 no Dragão, nem o que nos deixou ser campeões em sua casa. Nem sequer o benfica do Maicon e do Kelvin. O benfica que vai ser bicampeão é o benfica que Jorge Jesus demorou quatro anos a construir. É um benfica esperto mas saloio, feio mas duro. É um benfica que goleia mortos, mas que não tem coragem de nos matar. É um benfica que já percebeu que nós não somos o FCPorto a que nos habituámos, mas que também já percebeu que eles não são o benfica que apregoam.

E Jorge Jesus vai ser campeão pela terceira vez em seis anos. No benfica, temos de admitir que é um feito. E vai sê-lo porque aprendeu com os erros. Deixou de gostar de futebol, abdicou de tudo pelo resultado. Em seis anos, mudou muito. Só continua o mesmo asco. O mesmo que quando ganha diz “eu”, mas quando perde diz “nós” ou “eles”. O mesmo que nunca admite um erro, mas dá raspanetes públicos a qualquer “Manel”. O mesmo que agride jogadores adversários ou funcionários do seu clube, o mesmo que não fala mal só porque não sabe falar, mas sobretudo porque não diz nada de jeito. O mesmo que não teve a coragem de vencer este campeonato contra o FCPorto, mas que precisou de vir cá para fora tentar humilhar quem não teve a coragem de vencer o campeonato contra ele.

É Jorge Jesus no seu “melhor”. O treinador que achou que ia ser considerado o melhor do mundo no belenenses nunca poderia acertar no nome do treinador que lhe pediu satisfações. Não podia ficar calado quando, dias depois, sentiu finalmente o título no papo. O Jorge Jesus que foi humilhado de mil maneiras diferentes pelo FCPorto não provocou só Lopetegui, provocou-nos a todos. Não é um nome ou uma época que estão em causa. É que, quando ganha uma luta desta forma, Jorge Jesus esquece-se não só do manto protector que o cobriu, mas sobretudo do manto sagrado da ver-go-nha. Ou Governha. Ou Nhavergo. Como quiserem.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Prazer e guerra

Quando Leo Messi dobrou Boateng e o mandou ao chão, encontrando, pela enésima vez, o pé de apoio do adversário e fintando-o para esse lado (o lado do pé preso), levantei-me do sofá. Uma onda de prazer já me tinha percorrido o corpo, mas torci para que a obra de arte ficasse completa - uma finta daquelas tem de dar golo - mas nunca pensei que Messi, sempre à frente do mundo inteiro, resolvesse fazer um chapéu com o seu pé "mau", quando Neuer e todos nós esperávamos algo daquele pé esquerdo. Messi faz-me ter prazer a ver bola. É o jogador por quem eu torço, o homem que me faz feliz a ver futebol. É o jogo pelo jogo. Messi é futebol. O futebol. Perfeito, irreverente, imprevisível, genial. Todas as palavras são poucas, mas as melhores que vi foram estas:


Quando Suljemani, num gesto muitíssimo inteligente, centrou em vez de chutar no primeiro golo em Barcelos, o meu coração parou meio segundo com medo que Jonas e Maxi se atrapalhassem e a bola não entrasse. Fiquei aflito, dobrado já pela dor que seria desperdiçar tão soberana oportunidade em tão importante jogo. O meu festejo foi o de sempre no primeiro golo do Benfica contra estas equipas pequenas: um grunho de sílabas que soa qualquer coisa como "GOOOOOOOOOOOOOAAAHAAAARAAAGHAHCARALHOOOOFODA-SEBORAAAAAAAAAAHHHHHLOOOOOOOOOO". É um misto de alívio, sofrimento (porque já marcámos o 1-0, mas eles agora podem fazer o 1-1 e a equipa desmoraliza e falta o Salvio, e a falta que o Enzo faz! Defende JJ! Não, ainda não, que se eles empatam mesmo depois não temos ninguém para meter para a frente! `Bora Benfica! Grande Maxi! Defender! BEN-FI-CA! BEN-FI-CA!) e uma dose exagerada de irracionalidade. Um bocadinho distante de comparações com pinturas de Picasso. É um misto de cobardia, sofrimento e alívio. No segundo golo o meu coração já consegue festejar um bocadinho e admito que festejei o quinto golo acima das minhas possibilidades, cometendo a loucura de acreditar que, com longos 15 minutos por disputar, o penúltimo classificado Gil Vicente já não ia conseguir marcar 5 golos ao Benfica. O mais estúpido é que assim que eu festejo os 3 pontos, algo em mim sussurra: "Se eles empatarem, a culpa é tua".

É também por isso que eu adoro ver Leo Messi. Os jogos do Benfica são para ver contraído, com concentração máxima, como se eu fosse um soldado americano no meio do Vietname, sempre com medo de pisar uma mina. Artur Semedo, que era um sofredor como eu, dizia que se punha debaixo da mesa quando o Benfica jogava. A maioria das pessoas não percebe que não há ali metáfora nenhuma. O homem metia-se debaixo da mesa com os nervos, esmagado pelo peso do jogo. Quando eu vejo Leo Messi, não tenho que me esconder debaixo da mesa. Posso deitar-me no sofá, descalço, de pernas cruzadas, e sei que é como abrir um bom livro. Se correr mal, fecho o livro e pronto, espero pelo próximo. Quando corre bem, só me apetece contar o livro a toda a gente. Eu não gosto de falar do Benfica às 2ª feiras, depois do jogo, porque, exceptuando algumas vitórias demasiado doces para não serem partilhadas, os jogos do Benfica são para mim demasiado sérios para serem discutidos com leviandade enquanto se põe açúcar no café. O Benfica é para ser discutido com correlegionários, com pessoas que também sentem o campeonato como uma guerra, quer o enfrentem com coragem ou se ponham debaixo da mesa. 

Leo Messi não. Leo Messi é a ópera, a literatura, é brincar na praia com os meus sobrinhos. Messi é o prazer descomprometido, o futebol onde cada passe é para ser apreciado, onde cada finta é uma sobremesa. É ler uma crónica do Lobo Antunes, um livro do Saramago. As fintas de Messi, como aquela coisa que ele fez a Boateng (por amor de Eusébio, aquilo é tão bonito) criam a antecipação que eu tinha quando era miúdo antes de abrir uma carteirinha de cromos. Messi é o último cromo da caderneta, é marcar o golo decisivo no intervalo da escola, é toda a alegria do mundo. 
Não deixa de ser curioso que esta minha alegria com o mago argentino só possa acontecer porque ele não é do Benfica. Se Messi fosse do Benfica (vamos fazer uma pausa para pensarmos nisto. Suspiro), eu não ia ter este prazer todo. Ia-me zangar quando uma finta saísse mal ("dá a bola, porra!", "Foda-se, tu hoje não estás bem!"), ia passar-me quando os companheiros não o percebessem ("não passes a bola a esse burro!") e ia perder a distância que me permite admirá-lo tanto. 

Escrevo isto para vos dizer, com alguma vergonha, que falei sem parar sobre o golo de Messi nas últimas 48 horas. Foi o acontecimento mais bonito de 2015, em todas as artes. Mas festejei mais aquele encostar do Maxi, e faria desaparecer aquele drible para garantir que amanhã ganhávamos com um golo do Eliseu, de barriga. E escrevo isto por me sentir culpado. Enquanto o Benfica não for campeão, não nos devemos distrair com nada. Estamos no Vietname. Não há tempo para artes, para descobrir a penicilina, para apreciar escultura. Temos é de ganhar ao Penafiel. Eu amo futebol, adoro ver Messi com a bola colada ao pé esquerdo, mas o meu amor pelo Benfica é maior. Pelo Benfica, eu queimava a Guernica e partia a escultura de Miguel Ângelo. A minha doença pelo Benfica fazia cair dez Boatengs. Força, rapaziada. Ganhem a guerra, que não há maior prazer no mundo.

Correcção: O acontecimento mais bonito de 2015 foi a recepção do Jonas contra o Braga. O golo de Messi fica num honroso segundo lugar.


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Uma semana

Boa noite, caro leitor. Enquanto lhe escrevo estou a ouvir uma música triste. Comecei a fazer isto quando tinha desgostos amorosos com rapazes. Agora tenho um marido maravilhoso, por isso posso finalmente fazê-lo só quando tenho desgostos amorosos com o meu clube.

É que eu levo isto mesmo muito a sério. Quando o FCPorto ganha, o meu pensamento não é “vou gozar o meu marido”, embora isso tornasse este blog (e este casal) muito mais interessante. Quando o FCPorto ganha, eu fico mesmo é feliz. Sou mais eu, não sei explicar. Quando o FCPorto perde, eu venho escrever-lhe porque nem sequer consigo dormir. E eu, caro leitor, gosto mesmo de dormir. Quase tanto como do FCPorto.

Mas tenho de admitir que há uma semana quase que vim aqui escrever-lhe. Não sei o que me travou, caro leitor. Provavelmente, o saber que tudo podia mudar em breve. Não arrisquei ouvir uma música mais alegre, dançar até um bocadinho, e agora estou arrependida. Devia ter aproveitado. Devia ter dançado. Devia ter escrito.

Vamos lá imaginar o que teria saído. Que o FCPorto fez um jogão. Que estou mesmo feliz. Que o Lopetegui é a nossa melhor contratação. Que o Jackson é o melhor do mundo. Que o Quaresma está feito um jogador de equipa. Que estes rapazes querem mesmo. Que só podemos acreditar. Caro leitor, seja sincero: a música alegre deixa-me mais estúpida ou ainda se lembra que isto era mesmo assim?

Hoje, a música é outra. Tenho de escrever que já vi amigáveis mais emocionantes do que este clássico. Que eles não jogam nadinha. Que nós não quisemos nadinha. Que não festejo épocas sem títulos. Que não me revejo em beijos e abraços a rivais. Que estou triste e não é só pelo desgosto do empate. É porque temo, caro leitor, que esta história esteja a tornar-se repetitiva.

Há uns anos, a verdade é que eu não teria hesitado em escrever. Há uns anos, o FCPorto também não teria hesitado em vencer. Falhámos os dois. Não adianta, caro leitor, pensar muito sobre quem tem mais culpa. Se eu, por ter mudado de texto numa semana, se o FCPorto, por ter mudado de vontade numa semana. O mundo não vai acabar por causa disso. O campeonato, muito provavelmente.

domingo, 26 de abril de 2015

Dia de exame

Em primeiro lugar: perdoem a longa ausência. Devido às vicissitudes da vida de médico, os últimos meses da minha vida foram um longo período de hibernação para fazer um exame. Já está feito, correu bem, mas agora falta o mais importante. Falta o exame de hoje, Benfica.

Quando alguém descobria que eu estava em Medicina, um dos primeiros comentários era, quase invariavelmente, que nós estudávamos muito e que sacrificávamos muita coisa. Dá para contornar a afirmação de várias maneiras, e há, sobretudo, muitas histórias para a confirmar: enquanto estudava para Anatomia em Junho/Julho de 2003, se me esquecia do telemóvel ligado, acordava quase sempre com os meus amigos a ligarem-me da noite, pelas 5h da manhã ou coisa assim. Uma pessoa só queria estar umas horas a dormir sem decorar coisas e, se se distraía, acordava com a música do MacGyver, que era a música que fechava a noite num bar em Faro. Portanto, sim, quando acordava de madrugada a saber que os meus amigos estavam bebedíssimos e eu tinha que acordar daí a umas horas para ir estudar a articulação do cotovelo ou uma coisa assim que agora não me lembro, punha em causa se teria feito as melhores escolhas na minha vida.

Mas uma das minhas maiores dores, ou a primeira coisa que me vem à cabeça quando me lembro dos sacrifícios que fiz durante o curso e o internato, é a quantidade de vezes que tive que pôr a Medicina à frente do Benfica, ou, vá, empatada. Faltei ao clássico de 2003/2004 (1-1, Costinha para eles, Simão para nós) por ser véspera do exame de Neuroanatomia. Ouvi os quartos de final da taça desse mesmo ano na rádio, o Benfica-Nacional que ganhámos 2-1 no fim, já com o Argel a ponta de lança, por ter frequência de Bioquímica no dia a seguir. Perco as contas às deslocações que não fiz por ficar a marrar. Quando alguém me pergunta pelos sacrifícios por estar em Medicina, normalmente espera que eu diga: "Oh, sim, dorme-se pouco e estuda-se muito. Quem me dera estar mais tempo com a família e amigos!". Mas eu, como sou doente, penso que foi por causa deste curso e desta vida que não vi o último título de andebol no pavilhão (o D. e o T. mandaram-me mensagens de alegria desde lá), ou que estava a estagiar em Salamanca nas meias-finais com a Juventus do ano passado. 

E nestas épocas de hibernação - insultuosamente frequentes em Medicina - em que estamos fechados em casa, afastados de contactos sociais ao ponto de depois termos alguma dificuldade em interagir com as pessoas normais quando temos ordem de soltura (eu não sei quais são as últimas tendências de literatura, música ou de basicamente nada. No entanto, sei a epidemiologia de linfoma de células do manto, que não interessa a ninguém), o Benfica sempre foi a minha pausa de estudo, o último reduto da saúde mental (ahah, saúde mental e Benfica na mesma frase, a ironia). Em 2008, a estudar para o exame da especialidade, assisti à tímida ascensão e estrondosa queda da equipa cujo treinador era Quique Flores (estive para escrever "era treinada por Quique Flores", mas apercebi-me que são afirmações de valor diferente), em 2006 cheguei a levar uma tabela de qualquer coisa que me estava sempre a esquecer para o intervalo de um jogo, onde a li mais uma vez inutilmente. E, nestes meses, os dias de Benfica eram os dias no meu calendário de estudo (sim, aos 31 anos ainda fiz calendários de estudo e isto é triste) onde não estava lá quase nada porque eu sei que a minha disponibilidade mental nos dias de Benfica é zero e eu penso mais movimentações do Gaitan a vir receber ao meio do que na fisiopatologia de doenças de plaquetas. Não faltei aos jogos na Catedral e enervei-me muito em todos os jogos fora, especialmente nos que correram mal e sabendo que no dia a seguir tinha que voltar a fechar-me com os livros e não podia ir para o Seixal ensinar ao Jardel a sair melhor a jogar quando está apertado.

Quando me disseram a data deste exame, a minha alegria imediata foi saber que foi marcado para antes do clássico. Seria impossível conciliar as duas coisas, tal é o meu estado de nervos. Aliás, o meu habitual pessimismo para estes jogos agrava-se com o facto de eu não ter conseguido ter ficado (muito) nervoso para este clássico nos últimos dias porque estou tão cansado do pós-exame que só consigo dormir.  
Benfica, em Setembro escrevi-te que esta seria a nossa época de exame. Hoje é dia do exame final. É dia de fazeres com que todos os sacrifícios valham a pena, é dia de fazeres valer todas as noites em que não foste sair, ou todas as tardes em que estava a dar um derby de Manchester e ficaste a trabalhar. É hoje o dia, Benfica. Pelos que se sacrificam por ti, pelos que sonham com a festa pós-exame, pelos que se enervaram todos os fins-de-semana, como aqueles alunos que vão às teóricas todas. Força, rapazes. Tirem boa nota.