segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A arte de ser um bom rapaz

Sísifo é uma personagem que, segundo a mitologia grega, estava condenado a empurrar uma pedra até ao cimo de uma montanha. Quando o conseguia, a pedra rolava de novo até cá abaixo, tornando todo o seu esforço infrutífero.

Eu tenho 31 anos. Se me perguntassem quais eram os meus objectivos de vida aos 10 anos ou aos 15 ou aos 18 ou aos 20 ou aos 25 ou aos 31 a minha resposta ia mudar com várias nuances. Aos 10 anos queria ser jogador do Benfica, aos 18 queria entrar em Medicina, aos 25 queria viajar pelo mundo, etc. Mas, em todas essas idades, em todos os dias desta vida, um dos meus 5 principais objectivos de vida (para não dizer o primeiro, que ficava mal) era ver o Benfica bem. Durante toda a minha existência da qual me lembro, o meu maior desejo - o mais profundo, o mais sentido, aquele à qual dediquei mais tempo a pensar - era em ver o Benfica bem. Como é óbvio, já dediquei mais tempo ao Benfica do que a qualquer outro assunto na minha vida: para cada segundo em que eu penso na minha relação com a C., dedico cerca de 22 horas a analisar o meu clube (acho que é esta a proporção).

Eu, como Sísifo, dediquei horas a empurrar uma pedra imaginária até ao cimo de uma montanha. E depois a pedra caía. Sempre. Muito provavelmente porque eu não tenho nada a ver com a pedra: nenhuma das minhas análises, conclusões e planos podia superar o duro facto de que a pedra ficar lá em cima ou cair em cima de mim como um golo aos 92 não dependia absolutamente nada de mim. E a pedra foi caindo, mas eu, como qualquer estúpido de bola, tentei sempre. Até que a pedra ficou.

O Benfica era bicampeão (apesar do sofrível futebol do segundo campeonato), tinha um treinador que é um filho da puta, mas já cá estava há 6 anos, e - depois de 20 anos inenarráveis e mais uns 7 ou 8 incrivelmente penosos (porra da pedra que caía sempre com estrondo) - o clube parecia mais ou menos estável. Não quer isto dizer que o Benfica fosse ficar bem ou que eu fosse tornar-me num optimista (ahah!), mas eu achei que podia dobrar a atenção que dou à C. e subir a proporção para dois segundos para ela e 21horas, 59 minutos e 59 segundos para o Benfica. Obviamente, a pedra rolou cá para baixo, batendo-me consecutivamente com todo o seu peso na minha cabeça.



Odeio perder com o Sporting. Em primeiro lugar, porque não estou habituado. Foi a segunda vez desde 2009 e ambas com roubo (ontem há um penalty por assinalar a nosso favor. No golo "mal anulado" a bola passou por fora da linha, da Via do Infante e da Ria Formosa antes de regressar ao campo de jogo). Em segundo lugar porque se o ano passado já foi estranho não lhes ser superior (e isto é um simpático eufemismo para o jogo de Alvalade), ontem eles foram tão melhores do que nós que o próprio Rui Gomes da Silva é capaz de ter algumas dificuldades em não o ver. E muito disto porquê? Por Rui Vitória.

Eu não gosto do Rui Vitória. Nunca gostei e já o tinha escrito em 2013. É o professorzinho de Educação Física, é o gajo porreiro, que faz óptimas conferências de imprensa e é o único homem em Portugal que consegue falar mais tempo e dizer menos do que o António Costa. 
Rui Vitória é aquele gajo que, depois de apontarmos os 150 mil erros que o Benfica cometeu ontem, vai ser defendido por alguém com o sólido argumento "mas ele é boa pessoa". E isso enerva-me porque o "mas ele é boa pessoa" quer dizer "apesar da sua gritante incompetência, falta de carisma, ideias, inteligência, sentido de humor ou beleza ou qualquer outra qualidade, ele nem é um tipo mau".

Rui Vitória tem ar de ser um divertido professor de Educação Física que dá carolos aos alunos que chegam atrasados, que lhes diz "meu g`anda malandro!" com ar cúmplice antes de distribuir as equipas de mata e meter cunha à professora de Matemática para não chumbar o gajo que tem 18 anos e está no sexto ano, porque ele dá um jeitaço nas inter-turmas. Infelizmente, treinar o Benfica é um bocado mais difícil do que o inter-escolas de Alverca.

Rui Vitória tem todo o ar de gajo que debita 350 banalidades por segundo. Se perguntarem a Paulo Fonseca o que é que ele pensa da Premier League, provavelmente ele responder-vos-à que o Bayern de Munique é favorito, mas depois até corrigirá e vai dizer 3 ou 4 coisas que qualquer um de nós - leigos da bola - nunca pensou. A Rui, imagino-o no seu restaurante do costume, onde come sempre  o mesmo, a dizer ao empregado: "A Premier League é muito forte. Tem grandes equipas como o  Chelsea, Man Utd e Man City, e qualquer um pode ganhar". A frase, fictícia, não está ao nível desta pérola filosófica, que, ao contrário da minha frase imaginária, é bem real: "No meu caso, sou por natureza uma pessoa que, por norma, não se desequilibra com nada. Mas isso não significa que não seja humano. " - pag.89 d` "A arte da guerra - para treinadores" do próprio Rui Vitória. Ou desta, que é todo um tratado filosófico e que vos vai surpreender pela pujança e originalidade: "Quando penso na relação que tenho com os membros da equipa técnica sei que, de facto, tem de funcionar muito bem". Esperemos pelas traduções em grego, para quando ele estiver a treinar o Panionios daqui a dois anos.


(Acho que agora podias dedicar-te ao treino, Rui)

E agora vocês dizem: porra, M., não é muita porrada para um homem só e apenas depois de um jogo? Não, óbvio que não. Era um derby importante e que tinha de ser ganho nem que fosse preciso mandar atropelar o autocarro do Sporting na A2. E a Margarida Rebelo Pinto dos treinadores achou que entrámos "um pouco receosos" e que foi um jogo equilibrado, isto apesar de termos mudado de táctica umas 5 vezes, de não haver processo ofensivo nem defensivo de equipa grande nem sequer de média. O que eu vi foram os chutões para a frente do Guimarães para o Baldé, depois para o Mazzou e - num gesto de argúcia táctica infinita - para a corrida do Hernâni, serem agora chutões para o Jonas. Não sei como é que se chamam os filhos do Jonas, mas sei que o futebol que se adequa ao Jonas não é o do pontapé para a frente ("Lá em casa também sabemos de táctica" - vai ser o título do meu livro). Talvez o problema de Jonas seja a falta de leitura: "Todos os jogadores têm de ser muito combativos nos duelos individuais." O problema de Jonas é ser somente inteligente e ter bons pés, quando Rui procura "uma visão total do jogador" - daí que Jonas agora tenha de ser mais estimulado, buscando longas bolas nas alturas. Rui Vitória, em tom mais confessional, diz que "até me inclino para os aspectos psicológicos e contextuais excessivamente" e aqui a minha dúvida é como é que ele insistiu no Talisca, dado o contexto psicológico daquele penteado.




(um aparelho que pode ser útil a Jonas durante a época)

Eu sei, eu sei, é cedo. O campeonato começa para a semana e toda a gente tem zero pontos. Mas o que eu vi ontem foi um regresso aos tempos das conferências de imprensa de Quique Flores, de eyeliner, entrevistas porreiras e tantos problemas na equipa que dava para escrever um livro. Rui vai brindar-nos com aquelas frases super irritantes como "temos o nosso caminho" ou "perdemos este jogo com o Arouca, mas ganhámos uma equipa". Talvez a nossa grande vitória da época vá ser uma convocatória à selecção do Nélson Semedo lá para Março, num amigável. 

Talvez a culpa nem seja dele (ele até é bom rapaz!), seja de quem o pôs lá. Talvez até vá correr tudo bem (depois de ontem até aquele ministro iraquiano fica com vontade de desistir, mas pronto), mas eu confesso que odeio este tipo de personagem incompetente, sem qualquer prova dada (não, aquela Taça não conta, ao Benfica pós-Kelvin e pós-Chelsea até o Sporting do Vercauteren teria ganho) seja dado não o benefício da dúvida, mas a responsabilidade social mais importante do planeta que é ser treinador do Benfica. 

Este texto, como já viram, foi escrito a quente, depois de meses lixado por termos ido buscar um treinador a quem sempre tive um ódio particular e depois de perdermos um derby. Talvez não tenha sido a pessoa mais justa do mundo. Talvez esteja só cansado de andar a carregar uma pedra que acaba sempre por cair lá para baixo. Em todo o caso, fica já aqui prometido que, se formos campeões com este gajo, compro 20 exemplares d`"A arte da guerra - para treinadores". 

Porque, como diria Rui Vitória, na sua espectacular obra e naquele seu estilo de quem vai dar um excelente comentador: "para ganhar um jogo é preciso marcar golos".




quarta-feira, 8 de julho de 2015

Moutinho, Maxi e a adepta vidente

Se há coisa que eu não faço questão de ter, no que ao FCPorto diz respeito, é razão. Por este clube, sou capaz de pôr de lado todo o orgulho e de até me sentir bem com toda a minha profunda ignorância e incapacidade de ver um bocadinho mais além do que a notícia que sai hoje ou amanhã num jornal. Quando percebo que não tive razão noutro aspecto qualquer da vida – no trabalho ou, Pinto da Costa me livre, numa discussão com o M., por exemplo, -, fico frustrada, zangada, furiosa. Com o FCPorto, a verdade é que não me importo de parecer ter o QI de um pedaço de relva.

Com isto não quero dizer que podem fazer do FCPorto o que quiserem que eu não estarei atenta. Não, alto lá. Eu tenho passado os dias a fazer de conta que me preocupo com a situação na Grécia, mas na verdade o meu Eurogrupo é outro. Serão Imbula e Danilo compatíveis? Estarão André André e Sérgio Oliveira prontos para isto? Terão Casillas e Drogba noção dos cortes aos pensionistas que o Passos quer fazer? Vida de adepta parece fácil quando não é preciso andar a fazer quilómetros de um lado para o outro e a gastar dinheiro, mas procurar respostas para tudo isto é uma canseira.

E todos os anos é isto. A época acaba, normalmente bem mas ultimamente mal, e damos por nós, num instante, mergulhados nesta exasperante preparação da próxima. Enquanto a nossa vida profissional, por muito cansativa e stressante que seja, ainda nos dá uns 22/25 dias de descanso por ano, os nossos clubes não. Nada. Não há um dia em que eu possa estar descansada, um “ufa, hoje não tenho que me preocupar com o negócio do Jackson”, um “ai que alívio, hoje ninguém deu uma entrevista a dizer que não gosta do treinador”. Nunca.

Há sempre um que vai sair e outro que vai entrar, há sempre milhões de um lado para o outro, há sempre o problema da baliza, e o lateral direito que saiu, e a falta de um central possante, e o lateral esquerdo que é um moina, e o meio-campo que foi desfeito, e o ponta-de-lança que me faz chorar, e o treinador que tem de fazer quase tudo de novo, e a falta de FCPorto no balneário, e podíamos ficar aqui um dia inteiro nisto. Tanto podíamos que isto é, afinal, o que eu passo o dia inteiro a pensar.

E é inevitável: chega uma altura em que me convenço mesmo que não só a minha opinião foi construída com base em informações sólidas como a conversa no café, mas também que ela vale alguma coisa. Há um momento em que, de repente, parece que sou eu que está a negociar o Jackson e que só ao perguntar “Como é que é possível que alguém ache o atlético de madrid melhor do que o FCPorto?” vou convencê-lo a não ir. Vá, confessem. Vocês também não acham que, com toda a bagagem negocial que um adepto vai adquirindo ao longo dos anos, tinham conseguido baixar o preço do Imbula? Vocês também não desconfiam, porque negociadores implacáveis como nós são sempre desconfiados, que o Casillas e o Drogba querem é ter um fim de carreira descansados?

O que é engraçado é que, todas as épocas, eu falho redondamente. A equipa nunca é a que eu tenho na cabeça, nunca joga como eu a preparei no estágio em Bedernsshtifadaregeitmafield, nunca ganha todos os jogos por 10-0 como eu lhes passei estes meses a mostrar que era perfeitamente possível. É incrível, estão sempre a desiludir-me. Vá lá que, de vez em quando, há um ou outro que se safa. João Moutinho, por exemplo.

O engraçado de ter um blog onde escrevo desabafos inúteis sobre o meu clube é que depois posso ir ler o que pensava há cinco anos, quando Pinto da Costa foi buscar “um jogador à Porto” a um clube podre. Vou passar a citar a minha parte preferida:

“Quanto aos contras, vejo milhares. O que vale o Moutinho? Nunca vai "explodir", não vai ser melhor do que é. Parece-me um médio banal, com menos de 1,50m, um chorão que está sempre no chão.”

Digam lá: eu não sou brilhante? Previ que o Moutinho não ia explodir e, como todos sabem, não rebentou literalmente nenhuma bomba no Dragão nos anos em que ele esteve cá (M., não vale pensar “infelizmente”). O Moutinho não era exactamente banal no dia em que o fomos buscar - ou, como hoje sabemos mais apropriado dizer, salvar? E não vos parecia mais pequeno? E não se tornou entretanto um atleta que deixou de se atirar para o chão? Enfim, é quase inacreditável como a minha primeira análise foi tão certeira.

Tudo isto para que também fique por escrito o que penso sobre Maxi Pereira.







Serviu este pequeno espaço para eu respirar fundo e contar até 10.







E agora outra vez.







Só mais uma vez.







Falar de Maxi Pereira não é fácil. Foram muitos anos do outro lado. Daquele lado. Muitos anos de luta, de bocas e, sobretudo, de cacetadas (por falar em Moutinho, lembram-se disto?)



Eis o que escrevi na altura:

“O que me impressiona mais não é aquele golpe de kung fu aplicado ao Moutinho. É quando ele se levanta, com a mão no ar, certamente não a pedir desculpa mas antes a alegar que não foi nada – mas o quê, já não se pode espetar um pontapé noutro gajo? –, espera que o árbitro se concentre nos nossos protestos e depois, quando já sente, já sabe, que não vai ser expulso - e juro que nunca mais me vou esquecer deste momento -, ele sorri. Sorri, o grande cabrão.”

Enquanto me lembro disto, cresce-me cá dentro uma vontade de assassinar com as minhas próprias mãos aquele ser muito pouco humano. Não deixa, no entanto, de ser engraçado: o “anão” que “só se atira para o chão” a ser varrido pelo “cabrão” que “só sabe dar pau”. Esperemos, então, que esta memória seja só um bom prenúncio da minha profunda incapacidade de planear uma época do FCPorto.

Daqui a uns dias, ao ver Maxi de azul e branco (só de escrever isto morreu mais um unicórnio fofinho), e sabendo que Moutinho entretanto nos trocou pelo dinheiro do principado, não prometo que, ao rever estas imagens, não note que, afinal, o médio banal de 1,50m não tenha, enfim, exagerado um bocado e que aquele antigo Maxi Pereira do benfica, uma besta abominável, até, vá, tenha pedido mesmo desculpa. Talvez daqui a uns meses, se tudo correr normalmente e eu nunca tiver razão, como eu desejo!, o novo Maxi Pereira seja... hum... falta-me a palavra exacta... Ah, já sei: um cavalheiro.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

1993

Nota prévia: este texto é todo escrito assumindo a ida de Jorge Jesus para o Sporting. Já se confirmou que não fica no Sport Lisboa e Benfica, 34 vezes campeão de Portugal, e tudo indica que irá para os verdes. 

Eu adorava o homem. Sabia do feitio doente, da sobranceria e do ego quase ridículo para quem faz madeixas no cabelo. Suportei os erros de português, a incoerência, humilhações duras (2010/2011, Eusébio me faça esquecer), percebi muito depressa que não íamos ganhar sempre (mas foram metade das vezes), mas senti o salto qualitativo. O futebol. A equipa alinhada a defender, imprevisível a atacar, as bolas paradas trabalhadas, o treino a saltar-nos para os olhos em cada jogo. Aquela disciplina táctica, a jogar com 9 em Turim, num momento de alta pressão, como o aluno que já sabe tudo e que já nem precisa de pensar para saber a resposta.


JJ, num clube de loucos, tornou-nos competitivos, perigosos, manhosos, temidos. Passámos a contar para o totobola. Aprendi muito sobre futebol a ver o Benfica de JJ, para o bem ou para o mal. Defendi a sua continuidade até em Maio de 2013 e queria mais. Queria (e espero) que Vieira tenha feito tudo para o manter cá. Estava relativamente preparado para a sua saída para o estrangeiro, mas - apesar de já conhecer os rumores - não para os verdes.

Para que isto fique bem claro: JJ não passa a mau treinador por ir para o Sporting, não vai desaprender nada, não me vão ler que ele afinal é o José Mota. Mas, para mim, é persona non grata. É um traidor. Sim, um traidor. Oh, mas ele sempre foi do Sporting! Caguei, amigos. Jorge Jesus, génio da linha defensiva, ia continuar a treinar Bragas e afins não fosse a oportunidade de vestir o manto sagrado do Benfica. E o mínimo dos mínimos que eu peço a quem veste esta camisola é que nunca vá para os rivais (a não ser que sejas o Pesaresi). Chegará o dia, quando eu for presidente do Benfica, que qualquer funcionário do Glorioso será capaz de citar todos os nossos títulos, os dois 11 campeões da Europa e o número de golos do Eusébio no Benfica (773). Mas, até lá, o mínimo dos mínimos, os serviços quase-zero que eu exijo, é não jogar depois num rival. O pai dele, ai o pai dele, que é tão do Sporting e ele foi sempre do Sporting! Então nunca tinha assinado. Ficava um lagarto orgulhoso a treinar o Belenenses, a ficar em 6º lugar e treinar as transições defensivas perfeitinhas no Restelo ou no Bonfim ou em Felgueiras (e sim, talvez ninguém reparasse nele. O homem já treinava na primeira divisão desde 1997 ou assim e ainda ninguém o tinha agarrado). Mas não, veio para o Benfica. Quem vem para o Benfica, deve sentir-se orgulhoso. Deve amar cada canto do clube, cada centímetro quadrado do estádio da Luz. Deve pensar: "Porra, estou no mesmo clube onde jogou o Coluna" e chorar de emoção. O mínimo é não ir para um rival a seguir. 



Vou explicar-vos: eu tenho amigos do Sporting. Grandes amigos, grandes sportinguistas, pessoas que eu adoro. Mas, para mim, é como se elas não fossem do Sporting. Eu não concebo o bem no Sporting, o meu cérebro entra em dissociação cognitiva. A minha sogra diz-me, olhos nos olhos, que acha que eu e o meu Pai somos demasiado boas pessoas para ser do Benfica. Eu adoro a minha sogra e adoro-a mais por dizer isto. Eu percebo: quando nós somos malucos por um clube, não somos selvagens que não conseguimos comer à mesa com pessoas de outro clube. Mas há algo no nosso cérebro que separa as duas coisas, retirando essa característica daquela pessoa de quem gostamos. (And that, kids, is how I met your mother).

O Benfica é um clube que foi fundado por gente pobre e que, anos após aparecer, viu um clube de gente rica roubar-lhe jogadores. Era um clube que no primeiro ano da fundação não tinha militância para jogar futebol, só para fazer bailes. Para jogar futebol, teve de nos roubar jogadores. Esse clube, com um equipamento metade cor de ranho, metade a imitar a cor dos calções do Benfica, nasceu em oposição a nós. É o nosso nemesis, o nosso rival, o nosso oposto. Se o Sporting gosta de carne, eu gosto de peixe. Se o Sporting pensa de uma maneira, eu penso de outra. Imediata e automaticamente. E eles igual. É assim, sempre há-de ser. Nós bons, bonitos, altos e fortes. Eles maus, feios, baixos e fracos. Nós espectaculares, eles uma merda. Eu não consigo perceber como é que alguém com mais de 5 anos e 3 neurónios aceita ser do Sporting quando tudo isto é evidente. 
Jorge Jesus, exímio explorador daquele corredor entre a ala e o corredor central (apanha a quina da grande área), quando assinou por nós em 2009, devia ter percebido uma coisa: uma vez nosso, devia ter sido sempre nosso. Podia sair para o Zenit, para o Austria de Viena ou para o Real Madrid. Mas não para eles (nem para os de azul, claro). Chama-se ética, chama-se respeito, chama-se futebol. Ah, e o Simão? O Simão foi um grande jogador mal formado, que cuspiu no prato que o fez crescer e que agora está à procura de tacho no Benfica. Não é dos meus, meus. Nunca foi. Foi o melhor jogador de uma equipa do Benfica? Sim, mas nunca teve o meu amor. 


Isto parece estúpido, estamos em 2015, mas sim, eu sinto aqueles roubos de 1907 do clube dos Holtremans como se fossem hoje. E os do Verão de 1993. É uma coisa imperdoável, histórica, que pode ter mil anos que nós nunca vamos perdoar. Tivemos a pequena vingança de um dia comprarmos um júnior deles do Sporting de Lourenço Marques, mas se ali ficasse, Eusébio nosso senhor ia ser mordomo de um Ricciardi ou assim. Se JJ assinou em 2009 connosco, assina pelo nosso lado da história (o correcto, claro) e, para mim, não pode voltar atrás. Não aceito, não quero saber de mais nada. Se assinar pelo Sporting, Jorge Jesus é dos outros e a partir daqui é um alvo como eles. E temos de trabalhar agora para o derrotar, recordando sempre que o Benfica é um clube que se fez na adversidade, é um clube que se tornou grande porque era de gente orgulhosa, mas que trabalhava, enquanto os vizinhos tudo tinham. 

Eu não acho - não sou assim tão totó - que o ADN do Benfica seja o mesmo da sua fundação, nem sequer de há 20 anos. Longe vão os tempos em que jogadores como Paneira, depois do Verão quente de 1993, queriam marcar o sétimo em Alvalade porque queriam vingar um resultado menos feliz num derby de uma equipa que nos deu uma dobradinha. Mas é esse ADN que é preciso ir buscar para voltarmos a ganhar. Andávamos alegres e contentes, mas a realidade bateu-nos à porta. É hora de trabalhar, de ir buscar forças, competência, dedicação. Ser do Benfica, ser Benfica. Sim, eu sei, eu sei, isto parece só conversa fiada. Mas a história já nos provou que pode não ser só conversa. Se fosse só isso, se fosse impossível, não havia Benfica. 

Da minha parte, Jesus nem um obrigado levará se assinar por eles. Eu adorava o homem. Mas lembrei-me que ele é do Sporting e não há boas pessoas do Sporting. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Os velhos

Tinha 2 ou 3 anos e estava a passar férias com a família. Estava calor, íamos a caminhar e tudo o que eu queria era chegar ao local onde podia brincar. Tinha, portanto, toda a motivação que um pequeno humano consegue juntar para andar depressa. No entanto, os meus avós iam connosco. Os meus avós tinham, nessa altura, a capacidade física do Obikwelu, mas eu estava convencida que eles não iam muito além do Mestre Yoda (sábios, muito sábios, mas já não dispostos a grandes aventuras). Conta a minha mãe que tentou acalmar a minha falta de paciência (há quem diga que não mudei muito neste aspecto, um ultraje) dizendo que era preciso “esperar” pelos avós e que era “natural” que eles andassem mais devagar. Ao que parece, a minha mãe acreditava em ser racional com uma criança de 2 ou 3 anos. Mas eu, que não me orgulho muito deste momento, virei-me para trás, olhei furiosa para os meus avós e desabafei:

“Rais’ parta os velhos!”

Os meus avós, que como todos os avós já não tinham a pressão de educar uma criança mas só de a estragar, desataram a rir-se. Riram-se tanto que me atrasaram ainda mais, enfim. A frase eternizou-se na família e é daquelas que repetimos a todos os aniversários e Natais, sempre que é necessário lembrar a alguém que está a demorar muito a fazer algo.

No que diz respeito ao FCPorto, a minha pressa é ganhar. Admito-o: estou habituada a tal e não tenho muita paciência para tudo o que não seja conquistar títulos. Já não sou tão radical como aos 2 ou 3 anos, é certo, mas continuo a ter a mesma motivação para chegar lá o mais rápido possível.

Já aqui o tinha escrito e todos sabíamos: o campeonato estava entregue. Nem que tivéssemos largado tudo e desatado a correr, ele não seria nosso. Agora que somos adultos, não adiantava “esperar” outro cenário, porque um golo de Kelvin aos 92 minutos é tudo menos “natural”. Ora, o problema é que eu acho que um adepto tem a inteligência emocional de uma criança de 2 ou 3 anos. Só isso explica que, perante uma reunião de família a um domingo, o M. tenha faltado para ir a Guimarães, mas, pior ainda, eu tenha saído mais cedo para ir a Belém. Se, no primeiro caso, o cérebro de qualquer humano é capaz de reconhecer a perseguição da felicidade e do prazer em momentos raríssimos, no segundo é mais difícil explicar o que me levou ali.

Não vou chatear-vos com a conversa do ser portista a ganhar ou a perder. Se estão a ler este blog, confio que sabem o que isso é e que partem sempre desse princípio. Se não, podem ter vindo parar aqui porque “Lá em casa mando eu” soa a blog de culinária, mas convido-vos a ficar na mesma.

Eu não fui ao Restelo só por causa dessas lamechices. Fui porque a minha pressa é tanta que já estava a pensar mais à frente. Se eles tivessem corrido, se tivessem tentado andar mais depressa pelo menos, eu teria ficado satisfeita. Mesmo perdendo, conseguiria perceber que estaríamos mais perto da meta: ganhar. Parece estúpido, eu sei. Como é que, a perder, alguém pode pensar que se aproximou de ganhar? Vou tentar explicar como a uma criança de 2 ou 3 anos: o FCPorto, o meu FCPorto, só sabe, só pode ganhar à Porto. Se não corrermos, se não quisermos, estaremos sempre mais longe disso.

Infelizmente, vivemos numa época em que nós, os adeptos e os portistas como eu os entendo, estamos em vias de extinção. A culpa não é só nossa. O futebol, lá em cima, quer-nos assim: a pagar muito e a sentir pouco. Enquanto nós, na bancada, gritávamos a plenos pulmões pelo FCPorto, eles, no campo, ficavam para trás. Devagar. A atrasar-nos.

“Rais’ parta os velhos!”

Senti-me insultada quando, no final, ainda acharam que podiam virar-se para nós, à espera de palmas. Aquela gente (vestida de cor-de-rosa, felizmente, porque se estivessem de azul e branco às riscas eu podia tê-los confundido com o meu clube) vive em que mundo? O que é que lhes passou pela cabeça para não saírem dali depressa, com vergonha do que fizeram, e não terem pedido desculpa imediatamente a seguir, quando usaram os microfones para falar de contratos em vez de portismo? Eles insultaram-me, insultaram-nos e insultaram o nosso clube. Eles, os de cor-de-rosa, e todos os que acham que o caminho é este. Que mais importante do que correr no Restelo é correr para apanhar o comboio de uma Liga dos Campeões repleta de dinheiro, de clubes mercenários e de adeptos que preferem uma Coca-Cola e um 5-5 do que apanhar chuva na bancada e ganhar “meio a zero”.

Neste assunto, sei que não evoluí muito em relação àquele tempo em que era uma criança de 2 ou 3 anos. Continuo a preferir ver os rádios colados no ouvido em Belém, do que as pipocas coladas à boca no Dragão. Até gosto que os telemóveis nos dêem os onzes mesmo antes do aquecimento, mas não percebo que nos tirem selfies quando acabámos de perder não só um campeonato, mas sobretudo a dignidade. Compreendo que um adepto se sente no sofá a apreciar um Barcelona-Bayern, mas nunca que não lhe passe pela cabeça ir sofrer para Penafiel numa noite de temporal. Sei que o mundo mudou, mas não sou obrigada a gostar dele.

“Rais’ parta os velhos!”

Eu sei, eu sei, é uma luta inglória. Vamos sempre perder, não adianta. Mas foi por isso que fui ver o último jogo da época. O meu clube sabe que não o deixo, a ganhar ou a perder, lá está o cliché. Mas, se não sabe devia saber, também não o vou deixar ir por este caminho sem dar luta. Bem podem tentar apanhar-me naquela espécie de “kiss cam” que procura os adeptos com uma Coca-Cola na mão para lhes dar um lugar privilegiado no estádio, que vão sempre encontrar-me, como em Belém, num maldito zoom, a cantar que foram uma vergonha. Peço desculpa pela falta de paciência, mas, se não valorizam os poucos que assim restam, aviso já que vai ser difícil verem-se livres destes, porque são os mesmos que, depois de Munique, vão à luz, a Setúbal e ao Restelo, seja à sexta ou ao domingo, faça chuva ou faça sol, corram os de cor-de-rosa ou não corram.

Mas talvez estejamos errados. Talvez não estejamos a perceber que, mesmo no jogo em que já não há nada para ver, se possa meter umas fotos do Reyes e do Herrera no Facebook, com legenda em espanhol, e ganhar mais uns likes mexicanos. Talvez isso seja mais importante do que aqueles malucos que estiveram calados e que foram assobiados ao cantar o hino. O hino... Os malucos parece que sabem a letra... E sentem-na... Talvez o caminho não seja esse e bom, bom, era se fôssemos todos como o atrasado mental atrás de mim, que passou o ano a tratá-los mal, a chamar-lhes nomes, a ser muito “exigente” porque pagou bilhete, mas que, neste jogo, batia palmas a cada passe para trás, naquele sistema que há umas semanas apelidava de “uma p$%/ de uma pouca vergonha”. Esse não o vi no Restelo, não sei porquê. Nem em Penafiel, sem conseguir insultá-los em voz alta porque a roupa encharcada, parecendo que não, afecta a projecção da voz. A esse não o vejo levantar-se e cantar o hino, não percebo...

Bom, bom, é se conseguirmos vender uns quantos jogadores e meter na cabeça aos que ficam que o que é preciso é passar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Se continuarmos assim, de certeza que isto vai correr bem. Qual é o problema do rival ser bicampeão, afinal? Para o atrasado mental atrás de mim, nenhum, porque ele foi mais agressivo com os malucos que protestaram em silêncio neste jogo do que com o Maxi Pereira, que fez à vontade o lançamento para o primeiro golo na linha que fica mesmo à nossa beira. O estádio parecia um cemitério sem os malucos a cantar, mas, para ele, a vergonha foram os malucos, como eu, terem saído mais cedo só neste jogo, em protesto, e não o que aconteceu no Restelo, na luz e na Madeira, onde os mesmos malucos apoiaram o clube até ao fim. Porque bom, bom, são os que saem mais cedo para não apanhar trânsito e jantar mais cedo. E desengane-se quem pensa que o atrasado mental é só um atrasado mental: ele é um reflexo do que este futebol, lá em cima, quer que ele seja.

Mas, com ele, de certeza que vamos longe. Com ele, vamos em frente, e depressa, como uma criança de 2 ou 3 anos que quer ir brincar. Enquanto houver dinheiro para as pipocas, lá estará ele na linha da frente. Enquanto houver likes nas redes sociais, ele não dormirá mal por perdermos. Enquanto houver um “Somos Porto” ou “Sempre Preparados” para os de camisola cor-de-rosa usarem sem saberem o que significa, não precisaremos de nos preocupar com nada. E, para trás, ficarão todos os que, mais do que as derrotas, vão demorar a aceitar a falta do Futebol Clube do Porto.

“Rais’ parta os velhos!”




sábado, 23 de maio de 2015

O mea culpa do pessimista

Um pessimista é um homem que olha para os dois lados antes de atravessar a estrada - Laurence J Peter em "O princípio de Peter"
Nunca acreditei. Mesmo quando tudo já parecia decidido, quando toda a evidência já me devia estar a entrar pelos olhos, eu mantive-me no meu confortável casulo do pessimista, como aqueles soldados japoneses que foram encontrados mais de 20 anos depois da II Guerra Mundial ter acabado. Dois anos depois, talvez o minuto 92 tenha ficado um bocadinho mais para trás. 2 campeonatos vencidos de seguida talvez me façam agora ver que aquele minuto acabou. Nunca será esquecido - e grande parte deste bicampeonato está aí - mas pode ser ultrapassado. Mas depois daquele golo do Kelvin, onde se provou que Deus não existe (exceptuando Eusébio e Coluna, mas esses têm um estatuto muito superior à divindade, como me parece óbvio e universalmente aceite), era impossível não olhar duas, três, quatro vezes para cada lado da estrada. 
Não há nada pior para um paranóico do que ser, efectivamente, perseguido. Quando a época começou, com o Benfica a vender tudo, o Porto a reforçar-se a sério e Jackson a anunciar a renovação, temi - como sempre, é verdade - o pior. Não acreditei que aguentássemos a super equipa deles. Posso-vos dizer que o meu pessimismo era sincero e honesto. Não sou gajo para depois ficar a chatear toda a gente com "eu disse-vos! Eu disse-vos!". O meu pessimismo é a minha preparação para a infinita tristeza que se abate sobre mim quando o Benfica perde. Ainda bem que eu não tinha razão. Li uma vez, numa discussão de facebook: "Quanto ao Benfica, não faço questão de ter razão". É uma frase brutal. É brutal porque em tudo o resto quero ter razão, quero acertar, quero validar a minha opinião. Quero estar do lado político correcto, quero acertar eticamente nas decisões difíceis.  Mas quanto ao Benfica não. Só quero que o Benfica ganhe. Não interessa se com o onze ou táctica que eu acho melhor. Nem me interessa se com X ou Y a presidente. Eu quero que o Benfica ganhe. Felizmente para mim, falhei a minha previsão. Oxalá seja sempre assim.
Acho que também há aqui um fundamento cristão, o que é irónico num ateu como eu. Estou plenamente convencido que esta minha humildade, que os meus frequentes elogios ao Porto (que são sentidos, juro), que a constante procura por limpar os nossos pecados – procurando incessantemente os nossos defeitos, como se muitos tweets sobre o assunto os pudessem mudar – abrem-me as portas do céu (no caso, de campeonatos). Isto não quer dizer que eu, na verdade, seja um bazófias como o benfiquista irritante de café que diz “P`RA CIMA DELES!” nem que estejamos a jogar com o Bayern em Munique, eu sinto que o meu papel de adepto é este. É o ser crítico, é o de encontrar elogios nos rivais para os copiarmos e defeitos em nós para os corrigirmos. Para a maioria das pessoas, o futebol é uma festa, mas para mim é uma missão.
Escrevo-vos hoje para dizer alegremente que errei. Que as minhas previsões deram para o torto, que sou o José Peseiro do totobola. Escrevo-vos para dizer que o Velho do Restelo (não o Tiago Caeiro, o dos Descobrimentos, seus ignorantes que só pensam em bola) não tinha razão, e que sim, que os navegadores vão chegar à Índia. Escrevo hoje, feliz, para vos dizer que afinal Jonas é melhor que Rodrigo e que Samaris pode ser um bom 6, apesar de nunca vir a ser um Matic. Que o Pizzi só serve para os jogos em casa, mas não faz mal (ou faz, mas depois falamos disso).
O Benfica, felizmente, não é composto por pessimistas crónicos como eu (se bem que teria a sua graça ouvir a Luz em uníssono a cantar “Alinha com os outros três da defesa, Eliseu!”, em vez do “Glorioso SLB”). É feito daquela gente que ocupou todas as pontes do Porto a Guimarães só para levantar o cachecol aos que viajavam. O Benfica é aquela multidão enlouquecida no Aeroporto do Porto, que não precisou de andaimes nem de colunas para sair à rua. O que eu mais gosto no Benfica é, quando ganhamos, de ver as festas em todas as aldeolas, de ver a festa em Cabo Verde, em Paris, de ver o Benfica na rua. Este ano até um vídeo de 6 malucos a acenderem tochas na República Checa vi. O Benfica, popular, universal, louco, é a maior alegria do mundo.
É por querer, mais do que tudo, essa alegria, que eu todos os anos me preparo para a tristeza de não a ter. Porque eu a quero mesmo muito. Para o ano, vou olhar outra vez seis, sete vezes para cada lado da estrada antes de a atravessar. Vou antecipar perigos, sofrer antecipadamente, ver cada defeito nosso na ânsia de que se corrija. E oxalá – oxalá! – não tenha razão outra vez.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Lo-pe-te-gui

A época correu mal. Não pode tirar-se outra conclusão quando se trata do FCPorto e, por isso, se trata de ganhar. Não há desculpas, não há atenuantes: a época correu mal porque não ganhámos.

Reconhecer o óbvio não pode passar, no entanto, pelo esquecimento. A “desculpa”, dizem, são as arbitragens. Recorremos a elas para justificar um pedaço do falhanço. Mas lembremo-nos sempre que, a determinado momento, quando o primeiro classificado tremia, foram cruciais. Ainda assim, o FCPorto chegou a cinco jornadas do fim com a possibilidade de ir ao estádio do rival discutir o título. “Ainda assim”, aqui, é a expressão fundamental.

Mais. A “atenuante” foi a maneira como chegámos lá. Com uma carreira muito boa na Liga dos Campeões, por um lado, e uma derrota tão humilhante quanto esperada, por outro. Estávamos cansados, fisicamente e de espírito. Ninguém se pode esquecer daqueles 3-1 ao Bayern, pois está claro. Nem dos 6-1.

Recorrer a estas “desculpas” e “atenuantes” é pouco para o que estamos habituados. Ganhar contra tudo e contra todos, lembram-se? O mínimo que tinha de exigir-se naquele jogo decisivo era o que sempre se exigiu ao FCPorto: meter mais o pé, querer mais. Nada disto aconteceu. Bater palmas àquilo envergonha-nos.

Do outro lado, um vazio. O campeão em título podia ter acabado com uma equipa de miúdos, desmotivados pela goleada sofrida, de rastos. Imaginem o cenário ao contrário: no Dragão, o FCPorto que viria a ser bicampeão tinha esmagado o rival. O KO desta época não seria um amigo gil vicente ou guimarães, não mais se falaria em capelas, não seriam necessários mais bate-bocas nem trocas de nomes. Seria um murro em cheio nas “desculpas” e “atenuantes” dos outros. É a isso que estamos habituados. Eles não.

A nós, no entanto, interessa-nos a lição a tirar de duas épocas seguidas sem sermos campeões. O que aconteceu depois daquele golo do Kelvin? Fácil: enquanto nós dançávamos, eles agarraram-se às feridas e voltaram à luta. Não venderam tanto quanto precisavam, seguraram o treinador falhado. E nós a dormir. O 92 sempre na nossa cabeça. Fomos buscar um “treinador da moda”, um daqueles que os comentadores tornam no melhor do mundo mas depois fazem de conta que não ficaram surpreendidos com o fracasso. Não construímos um plantel. No FCPorto, até um Paulo Fonseca é campeão. Não foi, claro.

As feridas, desta vez, eram nossas, e eram muitas. Como também estamos habituados, a estratégia mudou, e para melhor. Fomos à luta. Fomos buscar um treinador, um daqueles que ninguém gosta, e é chato, e é arrogante, e fala muito, e mexe-se ainda mais. Incomoda. Ainda por cima fala espanhol. “O basco”. Que horror. Fomos buscar uma ideia. Fomos buscar jovens, talentosos, com vontade de se mostrar e de jogar bom futebol. Fizemos um esforço raramente visto e conseguimos manter Jackson. Boa. Vamos a eles, então.

Eu não me esqueço das expectativas, assim como não me esqueço do que falhou. No início, faltou criar um 11. Depois, faltou conhecer bem o campeonato português. Já antes, tinha faltado o que nos falta há uma década. Faltou-nos pegar neles e explicar-lhes o que isto é. Faltou-nos algum dos nossos entre eles. Faltou-nos o que os maluquinhos como eu ainda acham possível neste futebol global dos likes no facebook e equipamentos cor-de-rosa. Faltou-nos Porto.

Coube ao treinador disfarçar isso. Foi ele que nos defendeu, foi ele que falou, foi ele que foi à luta. Cada vez que o ouvi a falar de arbitragens, a virar-se contra jornalistas e rivais, quis e quero acreditar que o fazia e faz por perceber o que é o FCPorto. Contra tudo e contra todos, lá está. A equipa cresceu, melhorou, levou-nos a gostar dela e de futebol, outra vez. Mas falhou, outra vez, caraças. Falhou na Madeira e na luz. Ensinou-nos, espero, que o FCPorto não luta só em conferências de imprensa. Luta, sobretudo, em campo.

Resumo assim o ponto onde ficamos: estamos muito melhores do que há um ano, mas muito piores do que o FCPorto nos habituou. Temos de ir à luta, outra vez. Entre as vendas inevitáveis, os empréstimos e as manias das estrelas que querem “dar o salto”, temos de encontrar o nosso equilíbrio. Temos de crescer, mas crescer à Porto. Não podemos querer ganhar a Liga dos Campeões para mostrar ao mundo o que é o Porto e ao mesmo tempo não ir a casa do rival mostrar-lhes quem somos.

Não se pode ganhar sempre, mas também não se pode perder sempre da mesma maneira. O ano passado perdemos por falta de comparência, este ano perdemos com “desculpas”, “atenuantes” e erros que não podemos repetir. Não podemos voltar a ficar surpreendidos com equipas pequenas que só defendem, dão pau e perdem tempo. Não podemos voltar a ficar indignados cá fora, mas uns anjinhos lá dentro. Não podemos assobiar quando se está a tentar construir alguma coisa, nem podemos bater palmas quando se destruiu tudo. Também precisamos de encontrar esse equilíbrio na bancada, já agora.

Porque o benfica vai ser bicampeão. Não o benfica dos 15-0, mas também não o benfica dos 5-0 no Dragão, nem o que nos deixou ser campeões em sua casa. Nem sequer o benfica do Maicon e do Kelvin. O benfica que vai ser bicampeão é o benfica que Jorge Jesus demorou quatro anos a construir. É um benfica esperto mas saloio, feio mas duro. É um benfica que goleia mortos, mas que não tem coragem de nos matar. É um benfica que já percebeu que nós não somos o FCPorto a que nos habituámos, mas que também já percebeu que eles não são o benfica que apregoam.

E Jorge Jesus vai ser campeão pela terceira vez em seis anos. No benfica, temos de admitir que é um feito. E vai sê-lo porque aprendeu com os erros. Deixou de gostar de futebol, abdicou de tudo pelo resultado. Em seis anos, mudou muito. Só continua o mesmo asco. O mesmo que quando ganha diz “eu”, mas quando perde diz “nós” ou “eles”. O mesmo que nunca admite um erro, mas dá raspanetes públicos a qualquer “Manel”. O mesmo que agride jogadores adversários ou funcionários do seu clube, o mesmo que não fala mal só porque não sabe falar, mas sobretudo porque não diz nada de jeito. O mesmo que não teve a coragem de vencer este campeonato contra o FCPorto, mas que precisou de vir cá para fora tentar humilhar quem não teve a coragem de vencer o campeonato contra ele.

É Jorge Jesus no seu “melhor”. O treinador que achou que ia ser considerado o melhor do mundo no belenenses nunca poderia acertar no nome do treinador que lhe pediu satisfações. Não podia ficar calado quando, dias depois, sentiu finalmente o título no papo. O Jorge Jesus que foi humilhado de mil maneiras diferentes pelo FCPorto não provocou só Lopetegui, provocou-nos a todos. Não é um nome ou uma época que estão em causa. É que, quando ganha uma luta desta forma, Jorge Jesus esquece-se não só do manto protector que o cobriu, mas sobretudo do manto sagrado da ver-go-nha. Ou Governha. Ou Nhavergo. Como quiserem.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Prazer e guerra

Quando Leo Messi dobrou Boateng e o mandou ao chão, encontrando, pela enésima vez, o pé de apoio do adversário e fintando-o para esse lado (o lado do pé preso), levantei-me do sofá. Uma onda de prazer já me tinha percorrido o corpo, mas torci para que a obra de arte ficasse completa - uma finta daquelas tem de dar golo - mas nunca pensei que Messi, sempre à frente do mundo inteiro, resolvesse fazer um chapéu com o seu pé "mau", quando Neuer e todos nós esperávamos algo daquele pé esquerdo. Messi faz-me ter prazer a ver bola. É o jogador por quem eu torço, o homem que me faz feliz a ver futebol. É o jogo pelo jogo. Messi é futebol. O futebol. Perfeito, irreverente, imprevisível, genial. Todas as palavras são poucas, mas as melhores que vi foram estas:


Quando Suljemani, num gesto muitíssimo inteligente, centrou em vez de chutar no primeiro golo em Barcelos, o meu coração parou meio segundo com medo que Jonas e Maxi se atrapalhassem e a bola não entrasse. Fiquei aflito, dobrado já pela dor que seria desperdiçar tão soberana oportunidade em tão importante jogo. O meu festejo foi o de sempre no primeiro golo do Benfica contra estas equipas pequenas: um grunho de sílabas que soa qualquer coisa como "GOOOOOOOOOOOOOAAAHAAAARAAAGHAHCARALHOOOOFODA-SEBORAAAAAAAAAAHHHHHLOOOOOOOOOO". É um misto de alívio, sofrimento (porque já marcámos o 1-0, mas eles agora podem fazer o 1-1 e a equipa desmoraliza e falta o Salvio, e a falta que o Enzo faz! Defende JJ! Não, ainda não, que se eles empatam mesmo depois não temos ninguém para meter para a frente! `Bora Benfica! Grande Maxi! Defender! BEN-FI-CA! BEN-FI-CA!) e uma dose exagerada de irracionalidade. Um bocadinho distante de comparações com pinturas de Picasso. É um misto de cobardia, sofrimento e alívio. No segundo golo o meu coração já consegue festejar um bocadinho e admito que festejei o quinto golo acima das minhas possibilidades, cometendo a loucura de acreditar que, com longos 15 minutos por disputar, o penúltimo classificado Gil Vicente já não ia conseguir marcar 5 golos ao Benfica. O mais estúpido é que assim que eu festejo os 3 pontos, algo em mim sussurra: "Se eles empatarem, a culpa é tua".

É também por isso que eu adoro ver Leo Messi. Os jogos do Benfica são para ver contraído, com concentração máxima, como se eu fosse um soldado americano no meio do Vietname, sempre com medo de pisar uma mina. Artur Semedo, que era um sofredor como eu, dizia que se punha debaixo da mesa quando o Benfica jogava. A maioria das pessoas não percebe que não há ali metáfora nenhuma. O homem metia-se debaixo da mesa com os nervos, esmagado pelo peso do jogo. Quando eu vejo Leo Messi, não tenho que me esconder debaixo da mesa. Posso deitar-me no sofá, descalço, de pernas cruzadas, e sei que é como abrir um bom livro. Se correr mal, fecho o livro e pronto, espero pelo próximo. Quando corre bem, só me apetece contar o livro a toda a gente. Eu não gosto de falar do Benfica às 2ª feiras, depois do jogo, porque, exceptuando algumas vitórias demasiado doces para não serem partilhadas, os jogos do Benfica são para mim demasiado sérios para serem discutidos com leviandade enquanto se põe açúcar no café. O Benfica é para ser discutido com correlegionários, com pessoas que também sentem o campeonato como uma guerra, quer o enfrentem com coragem ou se ponham debaixo da mesa. 

Leo Messi não. Leo Messi é a ópera, a literatura, é brincar na praia com os meus sobrinhos. Messi é o prazer descomprometido, o futebol onde cada passe é para ser apreciado, onde cada finta é uma sobremesa. É ler uma crónica do Lobo Antunes, um livro do Saramago. As fintas de Messi, como aquela coisa que ele fez a Boateng (por amor de Eusébio, aquilo é tão bonito) criam a antecipação que eu tinha quando era miúdo antes de abrir uma carteirinha de cromos. Messi é o último cromo da caderneta, é marcar o golo decisivo no intervalo da escola, é toda a alegria do mundo. 
Não deixa de ser curioso que esta minha alegria com o mago argentino só possa acontecer porque ele não é do Benfica. Se Messi fosse do Benfica (vamos fazer uma pausa para pensarmos nisto. Suspiro), eu não ia ter este prazer todo. Ia-me zangar quando uma finta saísse mal ("dá a bola, porra!", "Foda-se, tu hoje não estás bem!"), ia passar-me quando os companheiros não o percebessem ("não passes a bola a esse burro!") e ia perder a distância que me permite admirá-lo tanto. 

Escrevo isto para vos dizer, com alguma vergonha, que falei sem parar sobre o golo de Messi nas últimas 48 horas. Foi o acontecimento mais bonito de 2015, em todas as artes. Mas festejei mais aquele encostar do Maxi, e faria desaparecer aquele drible para garantir que amanhã ganhávamos com um golo do Eliseu, de barriga. E escrevo isto por me sentir culpado. Enquanto o Benfica não for campeão, não nos devemos distrair com nada. Estamos no Vietname. Não há tempo para artes, para descobrir a penicilina, para apreciar escultura. Temos é de ganhar ao Penafiel. Eu amo futebol, adoro ver Messi com a bola colada ao pé esquerdo, mas o meu amor pelo Benfica é maior. Pelo Benfica, eu queimava a Guernica e partia a escultura de Miguel Ângelo. A minha doença pelo Benfica fazia cair dez Boatengs. Força, rapaziada. Ganhem a guerra, que não há maior prazer no mundo.

Correcção: O acontecimento mais bonito de 2015 foi a recepção do Jonas contra o Braga. O golo de Messi fica num honroso segundo lugar.