Sísifo é uma personagem que, segundo a mitologia grega, estava condenado a empurrar uma pedra até ao cimo de uma montanha. Quando o conseguia, a pedra rolava de novo até cá abaixo, tornando todo o seu esforço infrutífero.
Eu tenho 31 anos. Se me perguntassem quais eram os meus objectivos de vida aos 10 anos ou aos 15 ou aos 18 ou aos 20 ou aos 25 ou aos 31 a minha resposta ia mudar com várias nuances. Aos 10 anos queria ser jogador do Benfica, aos 18 queria entrar em Medicina, aos 25 queria viajar pelo mundo, etc. Mas, em todas essas idades, em todos os dias desta vida, um dos meus 5 principais objectivos de vida (para não dizer o primeiro, que ficava mal) era ver o Benfica bem. Durante toda a minha existência da qual me lembro, o meu maior desejo - o mais profundo, o mais sentido, aquele à qual dediquei mais tempo a pensar - era em ver o Benfica bem. Como é óbvio, já dediquei mais tempo ao Benfica do que a qualquer outro assunto na minha vida: para cada segundo em que eu penso na minha relação com a C., dedico cerca de 22 horas a analisar o meu clube (acho que é esta a proporção).
Eu, como Sísifo, dediquei horas a empurrar uma pedra imaginária até ao cimo de uma montanha. E depois a pedra caía. Sempre. Muito provavelmente porque eu não tenho nada a ver com a pedra: nenhuma das minhas análises, conclusões e planos podia superar o duro facto de que a pedra ficar lá em cima ou cair em cima de mim como um golo aos 92 não dependia absolutamente nada de mim. E a pedra foi caindo, mas eu, como qualquer estúpido de bola, tentei sempre. Até que a pedra ficou.
O Benfica era bicampeão (apesar do sofrível futebol do segundo campeonato), tinha um treinador que é um filho da puta, mas já cá estava há 6 anos, e - depois de 20 anos inenarráveis e mais uns 7 ou 8 incrivelmente penosos (porra da pedra que caía sempre com estrondo) - o clube parecia mais ou menos estável. Não quer isto dizer que o Benfica fosse ficar bem ou que eu fosse tornar-me num optimista (ahah!), mas eu achei que podia dobrar a atenção que dou à C. e subir a proporção para dois segundos para ela e 21horas, 59 minutos e 59 segundos para o Benfica. Obviamente, a pedra rolou cá para baixo, batendo-me consecutivamente com todo o seu peso na minha cabeça.
Odeio perder com o Sporting. Em primeiro lugar, porque não estou habituado. Foi a segunda vez desde 2009 e ambas com roubo (ontem há um penalty por assinalar a nosso favor. No golo "mal anulado" a bola passou por fora da linha, da Via do Infante e da Ria Formosa antes de regressar ao campo de jogo). Em segundo lugar porque se o ano passado já foi estranho não lhes ser superior (e isto é um simpático eufemismo para o jogo de Alvalade), ontem eles foram tão melhores do que nós que o próprio Rui Gomes da Silva é capaz de ter algumas dificuldades em não o ver. E muito disto porquê? Por Rui Vitória.
Eu não gosto do Rui Vitória. Nunca gostei e já o tinha escrito em 2013. É o professorzinho de Educação Física, é o gajo porreiro, que faz óptimas conferências de imprensa e é o único homem em Portugal que consegue falar mais tempo e dizer menos do que o António Costa.
Rui Vitória é aquele gajo que, depois de apontarmos os 150 mil erros que o Benfica cometeu ontem, vai ser defendido por alguém com o sólido argumento "mas ele é boa pessoa". E isso enerva-me porque o "mas ele é boa pessoa" quer dizer "apesar da sua gritante incompetência, falta de carisma, ideias, inteligência, sentido de humor ou beleza ou qualquer outra qualidade, ele nem é um tipo mau".
Rui Vitória tem ar de ser um divertido professor de Educação Física que dá carolos aos alunos que chegam atrasados, que lhes diz "meu g`anda malandro!" com ar cúmplice antes de distribuir as equipas de mata e meter cunha à professora de Matemática para não chumbar o gajo que tem 18 anos e está no sexto ano, porque ele dá um jeitaço nas inter-turmas. Infelizmente, treinar o Benfica é um bocado mais difícil do que o inter-escolas de Alverca.
Rui Vitória tem todo o ar de gajo que debita 350 banalidades por segundo. Se perguntarem a Paulo Fonseca o que é que ele pensa da Premier League, provavelmente ele responder-vos-à que o Bayern de Munique é favorito, mas depois até corrigirá e vai dizer 3 ou 4 coisas que qualquer um de nós - leigos da bola - nunca pensou. A Rui, imagino-o no seu restaurante do costume, onde come sempre o mesmo, a dizer ao empregado: "A Premier League é muito forte. Tem grandes equipas como o Chelsea, Man Utd e Man City, e qualquer um pode ganhar". A frase, fictícia, não está ao nível desta pérola filosófica, que, ao contrário da minha frase imaginária, é bem real: "No meu caso, sou por natureza uma pessoa que, por norma, não se desequilibra com nada. Mas isso não significa que não seja humano. " - pag.89 d` "A arte da guerra - para treinadores" do próprio Rui Vitória. Ou desta, que é todo um tratado filosófico e que vos vai surpreender pela pujança e originalidade: "Quando penso na relação que tenho com os membros da equipa técnica sei que, de facto, tem de funcionar muito bem". Esperemos pelas traduções em grego, para quando ele estiver a treinar o Panionios daqui a dois anos.
(Acho que agora podias dedicar-te ao treino, Rui)
E agora vocês dizem: porra, M., não é muita porrada para um homem só e apenas depois de um jogo? Não, óbvio que não. Era um derby importante e que tinha de ser ganho nem que fosse preciso mandar atropelar o autocarro do Sporting na A2. E a Margarida Rebelo Pinto dos treinadores achou que entrámos "um pouco receosos" e que foi um jogo equilibrado, isto apesar de termos mudado de táctica umas 5 vezes, de não haver processo ofensivo nem defensivo de equipa grande nem sequer de média. O que eu vi foram os chutões para a frente do Guimarães para o Baldé, depois para o Mazzou e - num gesto de argúcia táctica infinita - para a corrida do Hernâni, serem agora chutões para o Jonas. Não sei como é que se chamam os filhos do Jonas, mas sei que o futebol que se adequa ao Jonas não é o do pontapé para a frente ("Lá em casa também sabemos de táctica" - vai ser o título do meu livro). Talvez o problema de Jonas seja a falta de leitura: "Todos os jogadores têm de ser muito combativos nos duelos individuais." O problema de Jonas é ser somente inteligente e ter bons pés, quando Rui procura "uma visão total do jogador" - daí que Jonas agora tenha de ser mais estimulado, buscando longas bolas nas alturas. Rui Vitória, em tom mais confessional, diz que "até me inclino para os aspectos psicológicos e contextuais excessivamente" e aqui a minha dúvida é como é que ele insistiu no Talisca, dado o contexto psicológico daquele penteado.
(um aparelho que pode ser útil a Jonas durante a época)
Eu sei, eu sei, é cedo. O campeonato começa para a semana e toda a gente tem zero pontos. Mas o que eu vi ontem foi um regresso aos tempos das conferências de imprensa de Quique Flores, de eyeliner, entrevistas porreiras e tantos problemas na equipa que dava para escrever um livro. Rui vai brindar-nos com aquelas frases super irritantes como "temos o nosso caminho" ou "perdemos este jogo com o Arouca, mas ganhámos uma equipa". Talvez a nossa grande vitória da época vá ser uma convocatória à selecção do Nélson Semedo lá para Março, num amigável.
Talvez a culpa nem seja dele (ele até é bom rapaz!), seja de quem o pôs lá. Talvez até vá correr tudo bem (depois de ontem até aquele ministro iraquiano fica com vontade de desistir, mas pronto), mas eu confesso que odeio este tipo de personagem incompetente, sem qualquer prova dada (não, aquela Taça não conta, ao Benfica pós-Kelvin e pós-Chelsea até o Sporting do Vercauteren teria ganho) seja dado não o benefício da dúvida, mas a responsabilidade social mais importante do planeta que é ser treinador do Benfica.
Este texto, como já viram, foi escrito a quente, depois de meses lixado por termos ido buscar um treinador a quem sempre tive um ódio particular e depois de perdermos um derby. Talvez não tenha sido a pessoa mais justa do mundo. Talvez esteja só cansado de andar a carregar uma pedra que acaba sempre por cair lá para baixo. Em todo o caso, fica já aqui prometido que, se formos campeões com este gajo, compro 20 exemplares d`"A arte da guerra - para treinadores".
Porque, como diria Rui Vitória, na sua espectacular obra e naquele seu estilo de quem vai dar um excelente comentador: "para ganhar um jogo é preciso marcar golos".









