Temos escrito menos, muito menos, mas temos boas novas para as quatro pessoas que ainda clicam neste blog: em breve seremos três e, cá em casa, já manda ele. É impressionante o que um ser humano que ainda não está cá fora ocupa: entre berço, carrinho e roupa, os meus pertences estão reduzidos a um espaço cada vez menor. Talvez tenha de sair de casa, como o Maicon. Mas vem aí um Benfica-Porto e cá vimos, explicar-lhe por que sofrem tanto os pais e por que telefonam tanto os avós nesta altura.
Em primeiro lugar, é extremamente injusto que o meu filho cresça na barriga da C. É como jogar no sector visitante nove meses. Suponho que saia sob escolta e que já tenha graffitado a placenta toda com inscrições como "BENFICA CAMPEÃO", "1904", "AWAY DAYS: 7 MESES AND COUNTING", etc. É óbvio que já fez a mãe vomitar e enjoar porque percebeu que era uma azul, só depois de eu o informar que era a mãe dele é que ele parou e a C. passou a ter uma vida mais calma. Suponho que eles resolvam as coisas quando ele sair cá para fora.
Depois do União da Madeira - Benfica, uma das piores exibições de sempre da equipa de futebol profissional do meu clube e quando uma jogada de futebol me parecia um sonho inalcançável, assumi que 2016 seria o ano da paternidade (além do Europeu e Jogos Olímpicos) e, confesso, escapa-me o milagre que sucedeu. O que é certo é que o Benfica arrancou, passou a jogar um futebol apoiado (muito longe daquela coisa que fazíamos no princípio da época), mais seguro e com um ataque demolidor (já decidimos o nome e tenho a dizer-vos, com alguma pena e surpresa, que Jonas Pistolas não foi aceite pela C. A criança ainda não nasceu, mas talvez se o Jonas ganhar a Bota de Ouro ela se convença). Serve isto para dizer ao meu futuro filho que, numa época de crise e em que eu devia estar a poupar para o infantário e brinquedos, é possível que o pai (eu) tenha prometido comprar 20 livros do Rui Vitória se o Benfica for campeão. Além da enorme alegria que isso me vai dar, espero que os livros sejam o suficiente para o ensinar a ler e entreter, porque não sei se vai haver depois dinheiro para brinquedos e escola. Se o Benfica for campeão, eu e o gajo que comprou o Taarabt vamos ficar felicíssimos, mas com aquele sentimento de culpa de quem gastou um dinheiro que não devia.
Mas, para sermos campeões, muito passa por sexta-feira, dia de clássico, um clássico que o nosso filho ainda não vai viver. O Benfica-Porto dele não vai ser o clássico da minha infância, que se resume neste lance:
Foi contra esta malta que eu tive que crescer. Há aqui várias coisas a salientar: a impunidade era tal, que Secretário fez esta entrada já com cartão amarelo. Vamos fazer uma pausa para tentar imaginar como é que o Secretário teria entrado à bola se não tivesse ainda nenhum cartão. Depois, Preud`Homme a correr para ver se JVP está vivo, claramente sem ainda ter percebido o futebol português, enquanto Paneira, heróico, afasta a equipa daqueles animais todos. Paulinho Santos empurra Domingos para cima do Pratas sem motivo aparente e Rui Jorge, que tem um ar de quem nem na reunião de condomínio levanta a voz, metido ao barulho. E, no fim, a indignação de Mourinho e das Antas. Em boa verdade, não temos acesso ao primeiro amarelo e talvez tenha sido injusto. Se calhar - como dizia o comentador - é por isto que eu detesto o Porto.
(A tua mãe está a ver este vídeo e a dizer que tem saudades destes jogadores. Espero que ela não tenha qualquer influência na tua educação porque é óbvio que ela não tem bons valores a passar-te)
O Benfica-Porto é uma luta, uma guerra, aquelas tretas todas de "mais do que um jogo". Queria que o meu filho crescesse a admirar Paneira por ser frio nestas situações, a querer ser como o Isaías, que partiu os rins ao Couto e a odiar aquela malta toda de azul. O problema é que o Benfica-Porto já pouco tem disto, já não é entendido e jogado a sério. Não que eu tenha saudades daquele Porto, prefiro mil vezes este, que tem um capitão que sai a meio de um jogo em que fez asneira. Mas tenho saudades do Benfica mais Benfica, não quero amar o Jonas e perdê-lo para o ano, quero que ele jogue cá épocas e épocas para sentir estes jogos como nós e jogá-los também por nós. O Benfica-Porto hoje parece jogar-se mais nos negócios com a NOS, nos painéis de comentadores, nos likes no facebook. Falta-me um Mozer a lixar a cabeça ao Couto. Até aqueles animais do vídeo acima me merecem mais respeito que o Maicon.
Eu detesto o Porto e quero ganhar todos os Benfica-Portos muito por coisas como este vídeo. Porque se o Benfica-Porto é uma luta do Bem contra o Mal, não há maneira deste vídeo não o demonstrar. Eu julgo que é pacífico dizer que derrotar isto é lutar pela civilização. As razões de ordem humanitária para a NATO invadir as Antas nos anos 90 eram evidentes e foi um escândalo que não o fizessem.
Meu querido filho, quando um dia vires este vídeo - e não sei se vou esperar pelos teus 18 anos, dada a violência das imagens, ou se to mostre à nascença e te vacine contra eles para todo o sempre - perceberás que este jogo é para ganhar sempre. Esta sexta-feira, porque pode ser um passo importante para um título, mas noutro dia qualquer porque somos o Benfica e o Benfica não esquece. Não me interessa se eles estão em crise, se já não têm estes animais. Não há perdão nem se um dia eles forem todos tão bonzinhos que até batam palmas se nós marcarmos um golo. Sentir um Benfica-Porto é sentir este clássico, mesmo que tenha sido antes de tu nasceres, é amar Paneira, Isaías e Mozer e odiar João Pinto, Jorge Costa e essa quadrilha.
Se um dia o meu filho me perguntar "Pai, porque é que odiamos o Porto?" é este vídeo que lhe vou mostrar. E é este vídeo que todos os adeptos e jogadores do Benfica deviam ver antes de entrarem em campo para que não hesitem em correr aquele centímetro a mais, para que os adeptos gritem um bocado mais pelos nossos.
Sexta-feira, é pelo 35, mas é também pelo meu filho e por todos os "se calhares" que sofremos. Vamos a eles, Benfica!
PS: já agora, se um jogador do Benfica, ainda sem amarelo, puder fazer uma entrada destas ao Maxi - mesmo correndo o risco de levar o amarelo injusto que o Secretário levou - também me parece um vídeo didáctico.












