sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Longos são os dias sem Jonas

A primeira vez que vi o Jonas jogar foi pelo telemóvel. Estávamos a viajar e enquanto a C. via um Porto-Braga (3-1?) no iPad, eu tive que sofrer com um Benfica-Arouca que esteve 0-0 até aos 70 minutos até Talisca (que se Eusébio quiser vai passar 2018/2019 a treinar com a equipa B de lançamento do peso, com a devida escolta de elementos ligados às claques do Benfica, que o levarão ao carro depois dos treinos) abrir a lata. Jonas entrou, marcou de cabeça e correu a apontar para Ola John - desconhecendo ainda que aquele centro perfeito vinha num pacote que incluía uma atitude imperdoável para os adeptos (eu ainda tenho esperanças no Ola John, vejam lá). Em primeiro lugar, notem que tive que ver o jogo no telemóvel e a C. num ecrã maior - roubados, outra vez - e em segundo: Jonas foi uma paixão imediata e assolapada, que dura até hoje. Pesquiso todos os dias novidades sobre a sua lesão, desespero por notícias como se fosse uma mulher da época dos Descobrimentos cujo marido partiu para enfrentar o Adamastor.

É-me difícil gostar mesmo de um jogador do Benfica. Já gostei de vários, mas a percentagem que me ganha é baixa. Embirro com Fejsa porque está sempre a sair da posição, não suporto quando o Salvio ou o Guedes não levantam a cabeça. Renato Sanches parecia-me tecnicamente inferior a mim mesmo, Di Maria era intrinsecamente estúpido, Lisandro é um perigo, Raul Jimenez joga com demasiada pressa. Sou uma pessoa horrível para estar ao lado a ver futebol. Acho sempre que a galinha do vizinho é sempre melhor. Na verdade, o meu pessimismo leva-me a achar que a galinha do vizinho é um dinossauro gigante com a inteligência de um robot do ano 2380 e armas que nós desconhecemos. Sou uma pessoa que desesperou pela partida de Jackson Martinez do futebol português, rumo à brilhante e feliz carreira internacional que lhe vaticinei. 


No Benfica vejo sempre defeitos, coisas a corrigir, fraquezas que os rivais vão explorar sem piedade. Mas em Jonas vejo a paz, o farol que ilumina todo o nosso jogo, a voz da calma no meio do pânico que é a minha cabeça quando o meu clube joga. O que eu mais amo em Jonas - e é "amo", não é "gosto", não é "adoro" nem "venero" - são os braços dele a dar indicações. Jonas várias vezes desce no terreno, recebe e começa com os braços a posicionar os colegas, com uma paciência paternal de quem ensina os filhos a fazer os trabalhos de casa.
Por exemplo: neste vídeo, Jonas parece dar apenas um toque para isolar Gaitan no tempo certo. Mas o que este vídeo não mostra, mas outros disponíveis na net na altura e que eu agora não encontro mostravam, é que Jonas, antes de receber de Raul, tem Renato na sua linha de passe. E grita-lhe e aponta com o braço que deve sair dali e correr para a frente. Renato, bem mandado, avança e leva o defesa (como se vê na imagem), a linha de passe abre, Jonas recebe e assiste. O golo é dele, por esse grito, por essa ordem.
Jonas é o treinador que eu sempre quis o banco. Passo os jogos a gritar indicações: "Abre!", "Olha o Hortinha, Grimaldo!", "MATA, JARDEL, MATA!", "Olha o Liedson ali, olha o Liedson, caralho! Foda-se, quero lá saber se estamos a atacar, olha o Liedson!", etc. Com Jonas, sinto que me posso poupar, sinto que ele faz isso por mim.


A imagem anterior mostra isso mesmo: o Benfica precisa de ganhar ao Setúbal e numa entrada generosa e muito anos 90, resolve sofrer um golo no primeiro minuto. Os próximos 20 minutos são de pressão intensa, mas com algumas precipitações. Jonas faz o empate, vai buscar a bola à baliza e no caminho dá indicações aos colegas. Jonas é o amor: é tudo o que queremos na vida, porque faz o golo do empate, e é ternurento e paciente, aceitando o erro, corrigindo, perdoando a Salvio cada vez que ele não toca a bola no tempo certo, acertando agulhas com Pizzi - com quem se entende às mil maravilhas - gritando horrores a Elizeu. Nunca grito a Jonas quando erra, não lhe peço nada, limito-me a confiar.
Não sei se vai ser um símbolo do Benfica, se sente ou não a camisola, mas digo-vos que pouco me interessa. Porque não lhe posso pedir mais. Eu sofria com Cardozo, sentia os falhanços dele como se fossem meus, mas não confiava em Cardozo. Tinha uma fé inabalável, mas sabia que muito daquilo estava misturado com a minha devoção. O meu amor por Jonas não é fé, é ciência. Se Jonas não tentou aquele passe que eu queria, era porque não dava e eu aceito isso. 


Tinha acabado de trabalhar quando li online que Jonas se lesionara, há uns tempos atrás. Dei um gritinho e senti-me todo a tremer. E agora? Em quem confiar? Quem é que vai conduzir os ataques, quem é que vai organizar a equipa meticulosamente até ao golo? Quem vai finalizar com classe, tabelar, pausar e acelerar? Terei outra vez que gritar para o campo? Sim. E sofrer? Muito. E até quando? Não sabemos. Vejo diariamente notícias à espera da sua recuperação, acredito nas capas do Correio da Manhã, dos desportivos - mesmo quando se contradizem - e de utilizadores do twitter com 4 seguidores. Acho que em todos os jogos vamos perder pontos. Em todas as jogadas sinto a falta dele e acho que sempre que corre mal é porque Jonas não está, e há um "se ele estivesse cá" recorrente, a martelar-me a cabeça. Fujo sempre da pergunta "e quando ele não estiver?" sem ter coragem da resposta.
A equipa - quiçá treinada por ele? - tem-se aguentado bem, conquistado pontos e cimentado a confiança. Mas o inimigo é feroz e a luta é longa. Para a vencermos precisamos de Jonas. Do Jonas inteligente, matador, traiçoeiro, espertíssimo, sempre no lugar e tempo certo. Precisamos do Jonas que é Cardozo e às vezes é Aimar. Preciso que ele esteja em campo para voltar a confiar, para voltar a ter um mínimo de tranquilidade, para saber que tudo se desmonta com paciência, que não há nada a temer. Preciso de tê-lo em campo e anseio por vê-lo trocar a bola com Rafa.

Diz-se por aí que tudo o que nós queremos na vida é o amor. Eu quero o Jonas no ataque do Benfica. Porque amor é o que sinto quando ele tem a bola nos pés e a mete dentro da baliza. Até ao seu regresso, a vida será uma soma de inquietações que temos de vencer com a ajuda de tudo o que ele nos ensinou. Longos são os dias sem ti. Regressa rápido, Pistolas. Um abraço de coração apertado, à tua espera.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Carta da Maria ao Luisão

A nossa sobrinha mais velha, a Maria, que tem 9 anos e que a C. caracterizou como uma pequena Rui Gomes da Silva, é fã do Luisão. Quando pediu uma camisola do Benfica, disse que queria o número 4. 
"Porquê, Maria?" 
"Porque é o número do Luisão e ele é o chefe!"
  
Só por este episódio, a partir de agora, os capitães do Benfica deviam ser chefes, que é muito melhor.
Ora, a Maria está triste e preocupada com a saída do chefe e pediu esta manhã a morada do Estádio da Luz (que ela já visitou) para enviar uma carta ao Luisão. O blog dos tios, comprometido a ajudar, imprime a missiva deste jovem preocupada, espantada (porque quererá Luisão sair do melhor clube do mundo) e exigente (quer uma resposta).

Os tios adoram-te, Maria! 



segunda-feira, 11 de julho de 2016

Enquanto dormias

Às 20.35 do dia 10 de Julho de 2016, com o jogo Portugal-França a caminhar para o fim da primeira parte, o nosso filho adormeceu. Caiu no sono com ar de quem era capaz de dormir 12 horas, o que num bebé significa mais ou menos 3h de descanso para os pais. Enquanto o nosso filho dormia, a sucessão de eventos mais improvável e surrealista do desporto português aconteceu. Cristiano Ronaldo lesionou-se, a sempre patriota C. atirou um "só bolinha" na primeira repetição, um muito saudável "isto está tudo feito, este gajo só faz isso para as câmaras" quando Ronaldo tentou entrar em campo outra vez e eu disse umas três vezes "já está" quando os franceses ainda pensavam ser possível bater Rui Patrício. Os teus pais, P., não vibram muito com a selecção. 


Quando eu vi a primeira participação de Portugal numa grande competição - 1996 - vibrei e sofri muito, porque era a primeira vez (e a sensação de raridade faz-nos querer beber os pormenores todos). Fiz a colecção de bonecos de plástico d`"A Bola" - que guardo religiosamente e que tem o problema de ser tacticamente desequilibrada: Baía, P.Santos, Hélder, F.Couto (que cai para trás, devido ao peso do cabelo), Oceano, Paulo Sousa, JVP, Figo, Rui Costa, Sá Pinto e Domingos, obrigavam-me a adaptar Oceano a lateral e a dispor a equipa num arriscado 4-1-3-2 que anos mais tarde daria 3 campeonatos ao meu clube. Fiquei chateado cerca de 10 minutos com o golo do Poborsky e depois acabou e voltei ao sofrimentos dos anos 90 do Benfica. Sofreria duas vezes mais com a selecção na minha vida: o Alemanha-Portugal de Marc Batta, que vi colado à televisão com o meu primo N. e que me chateou profundamente, e com os quartos de final com a Inglaterra em 2004 (em 2000 disse logo que era penalty do Abel Xavier e tentei culpar Vitor Baía por ter largado a bola no lance, desconhecendo que 14 anos depois ele estaria sentado ao meu lado, com uma simpatia esmagadora, na apresentação do nosso livro). A selecção, P., sempre me passou ao lado. E isto não é uma coisa hipster para me armar em mais benfiquista do que os benfiquistas que sofrem por Portugal. É uma coisa que me aconteceu, como se o meu amor futebolístico tivesse sido todo canalizado para o vermelho da Luz. 


Espero que um dia percebas, no entanto, que o futebol é muito maior do que as nossas paixões. Às vezes emocionam-me relatos que não têm nada a ver comigo, por vezes fico com vontade de estar em bancadas só porque quero sentir aquele festejo de golo e acontece-me a mim e a muitas pessoas sonhar acordado com jogos, com emoções que nunca vamos sentir só porque sim, só porque o jogo nos permite isso. E apesar da selecção dizer pouco aos teus pais - podemos admitir publicamente que o golo de Éder foi o único que festejámos no torneio e já explico porquê adiante - é impossível uma pessoa não se emocionar com o país inteiro à nossa volta, como se toda a gente descobrisse um jogo que nos leva a loucuras há tantos anos. E, sobretudo, é impossível não ficar feliz pelas pessoas de quem gostamos e que estavam verdadeiramente felizes com a possibilidade de Portugal ser campeão europeu (o teu avô materno estava nervoso antes do prolongamento e a tua tia paterna telefonou-me hoje e contou a maneira como viveu o jogo e deixou os teus primos negligentemente à solta). Os teus pais podem ser doidos, mas não são nenhuns monstros: podemos chamar nomes ao Ronaldo e ao Adrien, mas também podemos estar contentes pela família e amigos (talvez este tenha sido o momento mais condescendente da história futebolística da internet, mas adiante).


O que é certo é que enquanto tu dormias, daquela maneira tranquila, amorosa e ao mesmo tempo falsa dos bebés de 3 meses, aconteceu um jogo absolutamente mítico. Rui Patrício fez uma exibição para os livros de história, Pepe tirou tudo o que havia para tirar, João Moutinho encheu o campo com inteligência com a sua entrada e o Éder transformou-se numa lenda. E foi por causa do Éder - que não é amigo nem é da família  - que os teus pais ficaram genuína e entusiasticamente felizes. Há muito que o teu pai - o mesmo pai que disse que Rui Vitória nem com o plantel do Bayern seria campeão português ou que Renato Sanches não era a solução para os problemas do Benfica (tendo Renato Sanches, após essa frase escrita pelo teu pai, sido campeão nacional, titular e campeão Europeu e nomeado Comendador pelo Presidente da República) - tem uma história para gozar consigo mesmo aqui no blog: quando o Benfica contratou o Lima - na altura com 29 anos, salvo erro - o idiota do teu pai confessou a dois ou três amigos que duvidava daquela contratação, porque o Lima já estava quase nos 30 e não parecia assim tão bom. Quem é que o teu pai achava que tinha mais potencial? O Éder, que jogava na Académica. Ora, o Lima transformou-se numa máquina de golos, assistências, bom futebol e deu dois títulos de campeão ao Benfica, e o Éder era só o ponta de lança mais gozado de sempre na internet. A história do meu palpite, que mais não servia do que para me rir para mim próprio, hoje seria ainda mais risível. 



Não sei se na altura em que tiveres idade para ler isto ainda existirão os registos, mas é quase impossível mostrar-te quão gozado e menosprezado era o Éder. O Éder tinha sido assobiado num amigável, havia uma petição on-line para o Éder não ser convocado para o Europeu e ir um civil e quando o André Silva marcou dois golos ao Braga na final da Taça perdida pelo clube da tua mãe em 2016, a opinião geral (incluindo dos teus dois pais) era que o miúdo de 19 anos merecia mais a convocatória do que o Éder. Basicamente, antes do Europeu, tu - com 3 meses - parecias um ponta de lança mais promissor do que o Éder. O mais fabuloso - e talvez isto não encontres logo quando quiseres saber coisas sobre o jogo - foi a maneira brutal como o Éder entrou na final (e só tinha entrado - e mal - nos dois primeiros jogos do grupo). Ganhou todas as bolas, segurou e deu com classe aos colegas. Apareceu muito bem num canto e quase resolvia a final antes do prolongamento. Fez uma mão estúpida, o árbitro achou que foi do francês e o Guerreiro mandou a bola à barra num livre. Confiante, astuto, descomplexado. Surpreendente.
"Estou pelo Éder", disse a tua mãe. E tu dormias, ignorando a História - com agá muito grande - que passava na televisão perto de ti. Eu e a tua mãe entrámos no espírito selecção (vamos esquecer a acusação que a tua mãe fez do Ronaldo ter simulado uma lesão no início do jogo para parecer mais heróico) e, sobretudo, entrámos no espírito Éder. Estávamos por ele. 


De repente - e oxalá que quando tu cresceres este flagelo que é o desfasamento entre televisões já tenha desaparecido - há um grito maravilhoso na rua. Um grito de estádio, daqueles que vem do fundo. Aquele grito do golo surpreendente, decisivo, maravilhoso, que marca vidas e do qual toda a gente vai falar a vida toda. Um grito de bancada argentina, misturado com o YEEEEEAAAAHHHH dos ingleses. Mas português e dali do lado. E quando os teus pais olham para a televisão, já sabem que não podem gritar golo porque tu estás a dormir. O Moutinho dá a bola ao Éder e eu digo à tua mãe "Vai ser do Éder!". Ela olha para mim e ri-se nervosa e eu ainda imagino que ele vá dar a alguém que vai aparecer na direita, mas ele chuta mesmo - com intenção, com certeza, à ponta de lança. História. História do patinho feio, história da equipa que se uniu com a saída do craque, história do futebol do nosso país. O Éder. 1-0, à França (a quem Portugal não ganhava há 41 anos - e que me lembrava derrotas infinitas em meias-finais e amigáveis, como aquele 3-2 no Parque dos Príncipes com golo do Rui Costa ao mítico Lama), em Paris, na final de um Europeu. Apeteceu-me que acordasses e que crescesses depressa, para eu te contar tudo. Mas felizmente tu acordaste só mesmo com o apito final, espreguiçaste-te daquela maneira irresistível e olhaste tranquilo para mim e para a tua mãe, com ar de quem pergunta se se passou alguma coisa de importante enquanto tu dormias.

P., enquanto tu dormias, aconteceu um conto de fadas de futebol. O dia em que o patinho feio ficou o cisne eterno. Um dia contamos-te tudo.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O homem que mudou o jogo

"Ideas are bulletproof" 
(Alan Moore - V for Vendetta)

A minha primeira memória de Cruyff é má e serve este texto para lhe pedir desculpa e para me penitenciar. Estamos em Abril de 1992 e o Benfica joga o apuramento para a final da Taça dos Campeões Europeus em Barcelona, enfrentando o Dream Team. Perdemos 2-1, com uma exibição horrível de José Carlos, e chorei como chorava sempre que o Benfica perdia. Cruyff, aquele senhor de casaco longo (quase sempre de gabardina), era o mentor de uma derrota do Benfica e isso fez-me não gostar dele (eu tinha 8 anos e a minha cabeça funcionava assim. Em parte ainda funciona, mas menos) e não compreendi como é que o meu pai torceu pelo Barça na final contra a Sampdoria (1-0, Koeman, de livre, com Vialli no banco a tapar a cabeça para não ver). 


Só anos mais tarde percebi que o Benfica tinha enfrentado história. História de futebol, história do jogo, uma ideia peregrina. Não que isso tivesse mitigado a minha dor na altura - lembro-me perfeitamente da minha excitação antes do jogo, de pedir à minha mãe para ir mais cedo para casa e do lancinante choro no 2-0 - mas teria aceitado a derrota com outra dignidade e, sobretudo, não tinha guardado rancor a uma personagem cujas ideias criaram um futebol que me dá prazer, que me arrepia como nenhuma música faz, que me faz sentir bem com o mundo. 

Há uns dias, a ver o Atleti-PSV para a Champions no sofá e à beira de ser pais, disse à C. que uma coisa que eu me lembro de invejar muitíssimo no meu pai era quando, num jogo que estivéssemos a ver, filmavam o treinador e ele dizia: "Este gajo era grande jogador". Eu invejava-o por nunca ter visto aquele tipo. E o exemplo que estava na minha cabeça era Cruyff. A C. completou, dizendo que um dia vamos dizer isso do Simeone e o nosso filho vai ter de ir vê-lo ao youtube. Mas mesmo se Simeone é hoje treinador do Atletico e foi um craque ou se Zidane é treinador do Real Madrid e foi campeão do Mundo e o melhor jogador do mundo, nenhum deles mudou o jogo como Cruyff mudou. Como jogador e depois como treinador. Porque é esse o seu legado, a sua ideia à prova de bala à qual todos aqueles amam o jogo têm de agradecer: o futebol é dos melhores. E os melhores são os mais inteligentes. E porra, a morte de Johan Cruyff chateia-me porque sublinha essa inveja: eu nunca o vi jogar nem sequer era suficientemente inteligente para o apreciar quando o enfrentámos. E agora, como é que eu lhe agradeço tudo?


Johan Cruyff foi 3 vezes Bola de Ouro, líder da mítica Laranja Mecânica e louco o suficiente para não ir ao Mundial de 1978 (por rebelião contra a ditadura ou por pressão da mulher, depende das versões). Fez a sua homenagem à Catalunha quando baptizou o filho como Jordi (em homenagem ao santo padroeiro da Catalunha), nome que era proibido pelo franquismo. Símbolo do Barça, símbolo do Ajax, mas mais do que isso: o génio que mudou o jogo. 
Até Pep Guardiola e Messi provarem ao mundo que não, o futebol era um jogo físico, para atletas, para corredores. Para os mais altos, para os mais fortes, para os que chegavam mais longe. Apesar de Cruyff já ter dito que não várias vezes: 

- We must make sure their worst players get the ball the most. You’ll get it back in no time.
- There is only one ball, so you need to have it.
Technique is not being able to juggle a ball 1000 times. Anyone can do that by practicing. Then you can work in the circus. Technique is passing the ball with one touch, with the right speed, at the right foot of your team mate.
There’s only one moment in which you can arrive in time. If you’re not there, you’re either too early or too late.

Estava lá tudo e Cruyff já o tinha visto antes. Mas talvez tenha chegado demasiado cedo a esta ideia, o senhor da gabardina. E nós chegámos todos tarde. A verdade é que hoje, no FC Barcelona, os treinos começam com aquele meinho que Cruyff sonhou. Os mais inteligentes (Busquets, Xavi e Iniesta, esse meio campo dos deuses) são preferidos aos mais fortes. A onda alastrou para a Alemanha e para o mundo, que precisou de ver resultados antes de acreditar no holandês que perdeu uma final por 4-0 contra o Milan de Capello. O futebol que Cruyff sonhou está todo nesta conversa com Xavi, um almoço para o qual eu dava tudo para estar presente:



Um dia, com o meu filho ao colo, hei-de ver um jogo com Guardiola no banco. Talvez ele esteja concentrado num jogador qualquer que admira, talvez até seja contra o Benfica e o P. estará demasiado nervoso a compor a nossa defesa para reparar quando eu disser: "Este gajo era grande jogador" quando filmarem Pep. Talvez o faça já no Bayern-Benfica, apesar de achar que, para um recém-nascido, já vai ser suficientemente complicado perceber à primeira porque é vamos abdicar dos dois avançados. Mas o que interessa é que um dia vou explicar ao P. quem foi Guardiola, como é que aquele senhor que fala as línguas todas mudou o jogo. Mas para isso vou falar-lhe de Cruyff. Porque foi Cruyff quem sonhou isto tudo. Quem pensou primeiro. Quem teve esta ideia, à prova de bala e à prova de matulões, "que o futebol se joga com os pés e as pernas estão lá para ajudar". Foi Cruyff o mentor deste maravilhoso mundo onde agora Messi se diverte. 
E eu, a primeira vez que o vi, não percebi isso. As minhas desculpas ao senhor da gabardina. As minhas desculpas ao senhor que mudou o jogo. Obrigado, muito obrigado.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Não foi, mas podia ter sido...

Rui Costa bem tentou. Aquele golo anulado ao Brahimi aos 62 minutos tinha tudo para nos estragar a noite. Um Porto que não fosse Porto teria cruzado os braços e deixado os rivais fugir na luta pelo título. Um Porto que não fosse Porto não teria lutado nem acreditado até ao fim. Mas esse, como sabemos, não é o FCPorto de 2015/2016, nem nunca foi o FCPorto de João Pinto, Jorge Costa, Vítor Baía ou Paulinho Santos, nem nunca deixará de ser um FCPorto centrado na sua mística, que sabe bem a importância de colocar a identidade à frente dos números.

Ora, e nem sei por que divaguei tanto por este cenário irreal. Voltemos, então, àquele golo anulado de maneira tão ridícula que até o Pedro Guerra teve de admitir, na segunda-feira, e passo a citar, que “o Porto realmente é muito roubado pelos árbitros e eu sou realmente demasiado gordo para caber nas vossas televisões”, tendo depois abandonado o estúdio numa atitude de grande elevação moral que aproveito para aplaudir. Bem, mas o que o árbitro fez, naquele lance, sem querer, foi acordar-nos.

A maneira como todos os nossos jogadores o rodearam, de peito feito, aos gritos, fez-me acreditar que ainda pode haver fé na Humanidade e que nem todos os rapazes da minha geração se conformam perante tamanhas injustiças. Talvez Aboubakar tenha exagerado naquela chapada ao fiscal-de-linha, mas ele é assim, intempestivo, incontrolável, e vamos lá admitir: quem é que não quis fazer exactamente o mesmo naquele momento? E devemos ser penalizados por exteriorizarmos assim as nossas emoções, quando ainda por cima temos razão? Confesso apenas que não estava à espera que até Iker Casillas, um símbolo do futebol mundial, um gentleman, fosse cuspir no único jogador adversário que não fugiu daquela horda de homens corajosos e irreverentes, mas, provavelmente, após ter visto Sara Carbonero na bancada, grávida, a insultar o hijo de puta do árbitro, percebeu que também tinha de dar o exemplo aos mais novos.

Muitos dirão: não foi um momento bonito de futebol. Não, não foi propriamente o equivalente a um golo do Ricardinho contra a Sérvia em futsal, admito. Mas tenho a certeza que, se nos tivéssemos deixado comer naquele momento, nunca mais tínhamos ganho aquele jogo e iríamos agora à luz com seis vergonhosos pontos de desvantagem. Infelizmente, não estou a conseguir encontrar no YouTube as imagens deste episódio para que nunca se esqueçam do que acontece quando se metem com o Porto, mas deixo-vos aqui um outro exemplo, igualmente belo, de uma grande roubalheira que não passou impune:



Estava, então, dado o mote para uma noite de raça. O habitual, aliás, no Estádio do Dragão, onde qualquer adversário, seja o Arouca ou o Bayern de Munique, tem medo de entrar. O mérito, na verdade, não foi apenas do nosso aguerrido plantel. A forma como o público se levantou da cadeira, correu para a primeira fila e atirou tudo o que estava à mão (moedas, telemóveis, filhos, a merda das pipocas que só servem mesmo para isto, etc) para cima do fiscal-de-linha também terá inspirado os artistas. Aos 62 minutos daquele domingo não houve selfies para o concurso do Instagram, se bem que aquela que o Aboubakar tirou com um telemóvel que tinha sido atirado para o relvado e onde se vê ele a sorrir e, atrás, o fiscal-de-linha a gemer de dores no chão bem merecia ganhar.

Mas ainda havia muito por jogar. E quem diria que, apenas uns minutos depois, nos íamos distrair tanto e deixar que um central nosso ficasse perante dois adversários tão perto da nossa área. Felizmente, esse central era Maicon, o nosso grande capitão, que sabe muito bem que um erro daqueles pode acontecer a qualquer um, mas que é o que acontece a seguir que separa os coninhas dos heróis. Ora, também não estou a encontrar no YouTube as imagens do lance, mas curiosamente o M. publicou um muito semelhante, e igualmente belo, no texto anterior:



Maicon foi expulso, claro, porque Rui Costa continuou a ser um grande ladrão, mas o Walter não conseguiu passar, o Arouca falhou o livre e o capitão saiu do relvado com uma ovação de pé dos adeptos. Só mesmo no nosso Porto ainda existe esta comunhão perfeita entre o que nós sentimos na bancada e o que eles lutam lá dentro. Talvez, vá, Maicon tenha ido longe demais quando deu uma cabeçada ao irmão Maurides, que estava no banco de suplentes do Arouca sossegado mas com cara de quem não concordava com aquele bonito gesto do irmão, só que nestas coisas do futebol já se sabe que “a única família que importa é o nosso clube”, como escreveu a mulher do Maicon nas redes sociais. Sábia senhora.

Tal como no caso do ligeiro toque do Secretário ao João Vieira Pinto, o avançado Walter sobreviveu, mas neste caso ainda bem, porque ninguém estava à espera que ele marcasse aquele golo na própria, que levou até Casillas - um gentleman, lembrem-se - a pedir-lhe desculpa, ironicamente, na sua conta do Instagram. Este guarda-redes espanhol saiu-me cá um maluco! É impressionante como eles chegam cá, vindos de qualquer lugar e em qualquer altura da vida, e ficam logo com a cassete azul e branca. Ora, às tantas não é muito comum ver a equipa e os adeptos do FCPorto a festejar tanto uma vitória em casa contra o Arouca, mas a verdade é que houve ali um segundo, após o golo mal anulado ao Brahimi, em que todos tínhamos visualizado o que podia ter acontecido se fôssemos uns morcões.

Naquele segundo, vimos um Porto conformado, uma equipa desistente, uns adeptos com chama apenas quando se trata de queimar os nossos e não os outros. Vimos não só os rivais mais longe, mas todos nós mais distantes desse clube com o qual seria impossível identificarmo-nos. O que seria de um Porto que agora iria à luz já derrotado, porque desistir de ganhar é a maior derrota de todas? O que seria de um Porto sem raça, sem heróis? O que seria de um clássico contra o benfica sem ódio, sem rivalidade? Bem, foi só um segundo a imaginar isto, mas foi terrível, daí tantos festejos no fim. Até Pinto da Costa, sempre presente nos bons e nos maus momentos, fez questão de vir mostrar que a fina ironia está bem viva, quando lhe perguntaram pela actuação do árbitro e ele respondeu: "Rui Costa? A única coisa que fez bem na vida foi aquele golo à Inglaterra no Euro 2004..."

Felizmente, vamos à luz a depender de nós próprios para sermos campeões, o que, como toda a gente sabe, é motivo mais do que suficiente para eles tremerem de medo. Não que eles precisem de olhar para a tabela para isso, pois chega a ser embaraçosa a memória do jogo do ano passado, quando três jogadores vermelhos fizeram xixi nas cuecas só de verem a estratégia demolidora de Lopetegui e quando Maxi Pereira, na altura o caceteiro do defesa direito do benfica, saiu do relvado a chorar e a chamar pela mãe, porque estava farto de ser gozado pelo Brahimi. Ai ai, que belas lembranças. Pena termos empatado, mas também fomos tão roubados que foi impossível fazer mais. Valeu pela reacção do Óliver e do treinador a mais uma expulsão injusta, quem diria que aquele pequenote os podia irritar tanto! Não estou a encontrar as imagens (não sei o que se passa hoje no YouTube) mas deixo aqui um momento muito parecido, com Yuran e Robson, a partir do minuto 1:05, só para que sexta-feira saibam no que se vão meter:

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Um clássico é sempre um clássico, "se calhar"

Temos escrito menos, muito menos, mas temos boas novas para as quatro pessoas que ainda clicam neste blog: em breve seremos três e, cá em casa, já manda ele. É impressionante o que um ser humano que ainda não está cá fora ocupa: entre berço, carrinho e roupa, os meus pertences estão reduzidos a um espaço cada vez menor. Talvez tenha de sair de casa, como o Maicon. Mas vem aí um Benfica-Porto e cá vimos, explicar-lhe por que sofrem tanto os pais e por que telefonam tanto os avós nesta altura.

Em primeiro lugar, é extremamente injusto que o meu filho cresça na barriga da C. É como jogar no sector visitante nove meses. Suponho que saia sob escolta e que já tenha graffitado a placenta toda com inscrições como "BENFICA CAMPEÃO", "1904", "AWAY DAYS: 7 MESES AND COUNTING", etc. É óbvio que já fez a mãe vomitar e enjoar porque percebeu que era uma azul, só depois de eu o informar que era a mãe dele é que ele parou e a C. passou a ter uma vida mais calma. Suponho que eles resolvam as coisas quando ele sair cá para fora.


Depois do União da Madeira - Benfica, uma das piores exibições de sempre da equipa de futebol profissional do meu clube e quando uma jogada de futebol me parecia um sonho inalcançável, assumi que 2016 seria o ano da paternidade (além do Europeu e Jogos Olímpicos) e, confesso, escapa-me o milagre que sucedeu. O que é certo é que o Benfica arrancou, passou a jogar um futebol apoiado (muito longe daquela coisa que fazíamos no princípio da época), mais seguro e com um ataque demolidor (já decidimos o nome e tenho a dizer-vos, com alguma pena e surpresa, que Jonas Pistolas não foi aceite pela C. A criança ainda não nasceu, mas talvez se o Jonas ganhar a Bota de Ouro ela se convença). Serve isto para dizer ao meu futuro filho que, numa época de crise e em que eu devia estar a poupar para o infantário e brinquedos, é possível que o pai (eu) tenha prometido comprar 20 livros do Rui Vitória se o Benfica for campeão. Além da enorme alegria que isso me vai dar, espero que os livros sejam o suficiente para o ensinar a ler e entreter, porque não sei se vai haver depois dinheiro para brinquedos e escola. Se o Benfica for campeão, eu e o gajo que comprou o Taarabt vamos ficar felicíssimos, mas com aquele sentimento de culpa de quem gastou um dinheiro que não devia.   

Mas, para sermos campeões, muito passa por sexta-feira, dia de clássico, um clássico que o nosso filho ainda não vai viver. O Benfica-Porto dele não vai ser o clássico da minha infância, que se resume neste lance:


Foi contra esta malta que eu tive que crescer. Há aqui várias coisas a salientar: a impunidade era tal, que Secretário fez esta entrada já com cartão amarelo. Vamos fazer uma pausa para tentar imaginar como é que o Secretário teria entrado à bola se não tivesse ainda nenhum cartão. Depois, Preud`Homme a correr para ver se JVP está vivo, claramente sem ainda ter percebido o futebol português, enquanto Paneira, heróico, afasta a equipa daqueles animais todos. Paulinho Santos empurra Domingos para cima do Pratas sem motivo aparente e Rui Jorge, que tem um ar de quem nem na reunião de condomínio levanta a voz, metido ao barulho. E, no fim, a indignação de Mourinho e das Antas. Em boa verdade, não temos acesso ao primeiro amarelo e talvez tenha sido injusto. Se calhar - como dizia o comentador - é por isto que eu detesto o Porto.

(A tua mãe está a ver este vídeo e a dizer que tem saudades destes jogadores. Espero que ela não tenha qualquer influência na tua educação porque é óbvio que ela não tem bons valores a passar-te)

O Benfica-Porto é uma luta, uma guerra, aquelas tretas todas de "mais do que um jogo". Queria que o meu filho crescesse a admirar Paneira por ser frio nestas situações, a querer ser como o Isaías, que partiu os rins ao Couto e a odiar aquela malta toda de azul. O problema é que o Benfica-Porto já pouco tem disto, já não é entendido e jogado a sério. Não que eu tenha saudades daquele Porto, prefiro mil vezes este, que tem um capitão que sai a meio de um jogo em que fez asneira. Mas tenho saudades do Benfica mais Benfica, não quero amar o Jonas e perdê-lo para o ano, quero que ele jogue cá épocas e épocas para sentir estes jogos como nós e jogá-los também por nós. O Benfica-Porto hoje parece jogar-se mais nos negócios com a NOS, nos painéis de comentadores, nos likes no facebook. Falta-me um Mozer a lixar a cabeça ao Couto. Até aqueles animais do vídeo acima me merecem mais respeito que o Maicon. 

Eu detesto o Porto e quero ganhar todos os Benfica-Portos muito por coisas como este vídeo. Porque se o Benfica-Porto é uma luta do Bem contra o Mal, não há maneira deste vídeo não o demonstrar. Eu julgo que é pacífico dizer que derrotar isto é lutar pela civilização. As razões de ordem humanitária para a NATO invadir as Antas nos anos 90 eram evidentes e foi um escândalo que não o fizessem.

Meu querido filho, quando um dia vires este vídeo - e não sei se vou esperar pelos teus 18 anos, dada a violência das imagens, ou se to mostre à nascença e te vacine contra eles para todo o sempre - perceberás que este jogo é para ganhar sempre. Esta sexta-feira, porque pode ser um passo importante para um título, mas noutro dia qualquer porque somos o Benfica e o Benfica não esquece. Não me interessa se eles estão em crise, se já não têm estes animais. Não há perdão nem se um dia eles forem todos tão bonzinhos que até batam palmas se nós marcarmos um golo. Sentir um Benfica-Porto é sentir este clássico, mesmo que tenha sido antes de tu nasceres, é amar Paneira, Isaías e Mozer e odiar João Pinto, Jorge Costa e essa quadrilha. 

Se um dia o meu filho me perguntar "Pai, porque é que odiamos o Porto?" é este vídeo que lhe vou mostrar. E é este vídeo que todos os adeptos e jogadores do Benfica deviam ver antes de entrarem em campo para que não hesitem em correr aquele centímetro a mais, para que os adeptos gritem um bocado mais pelos nossos. 

Sexta-feira, é pelo 35, mas é também pelo meu filho e por todos os "se calhares" que sofremos. Vamos a eles, Benfica!

PS: já agora, se um jogador do Benfica, ainda sem amarelo, puder fazer uma entrada destas ao Maxi - mesmo correndo o risco de levar o amarelo injusto que o Secretário levou - também me parece um vídeo didáctico.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Os milhões

"O que se passa no futebol não é nada diferente do que se passa noutras áreas de actividade no nosso país. As estatísticas mostram que as grandes fortunas aumentam e o grosso da população cada vez tem maiores dificuldades. Quando todos os meios são canalizados para poucas pessoas ou entidades, é evidente que não sobra nada para os restantes"


Chegou o dia: finalmente citei um grande filósofo da actualidade, capaz de misturar as frases mais complexas de Camões com as teorias mais evidentes de Marx. Falo, claro, de Manuel Machado. O treinador do nacional foi questionado, depois de um jogo até muito bom da sua equipa, sobre os contratos que os três grandes assinaram com duas operadoras de televisão, o que, só por si, diz muito da loucura generalizada a que temos assistido nos últimos dias. A pergunta é pertinente, claro, porque é o assunto do momento e os clubes mais pequenos têm uma palavra a dizer. O problema é que nós, adeptos (?), andamos demasiado obcecados com isto.

Claro que não sou ingénua. Quando se fala destes valores astronómicos, trata-se de uma injecção nunca antes vista nos três grandes, com óbvios reflexos no futebol português da próxima década. E sim, acho muito bem que estes se discutam. E foi isso que Manuel Machado fez. Só que, curiosamente, não é esta a conversa que estamos a ter na bancada. Entre adeptos (?), o que interessa agora é saber se o meu milhão é maior do que o teu. De repente, parece que o cachecol se levantou da cadeira azul, vermelha ou verde e se sentou à mesa de negócios. Parece que decidimos trocar todos o equipamento pelo fato e gravata e já todos falamos de "sponsors" e "direitos de exploração" de um canal com a mesma paixão daquele penálti por assinalar ou fora-de-jogo mal tirado.

Mas está tudo maluco? Andamos aqui a queixar-nos tanto de como os nossos clubes se esqueceram de nos tratar como adeptos e, afinal, queremos todos ser clientes? Queremos tanto que os rapazes suem as camisolas e, afinal, estamos mortinhos por vestir uma da Meo ou da NOS? Pagamos tanto por bilhetes de maus espectáculos de futebol e, afinal, estamos dispostos a pagar mais para ficar no sofá com a operadora que assinar contrato com o nosso clube? Vendemo-nos por 400 ou 500 milhões? Vá lá, até o Banif vai custar bem mais do que isso.

Claro que se me dissessem assim "C., nos próximos 10 anos o teu clube vai ganhar mais dinheiro com a transmissão dos jogos e, ao mesmo tempo, as bancadas vão ter mais 400 ou 500 milhões de adeptos ferrenhos" a conversa era outra. Nada me parte tanto o coração de adepta como bancadas vazias ou repletas de assobiadores/pipoqueiros/clientes profissionais. Isso é que me preocupa. Se os três grandes assinassem um contrato para proibir a debandada de clientes que saem aos 80 minutos de um jogo por resolver só para não apanhar trânsito, isso sim, seria aplaudido por mim. Se os clubes pequenos assinassem um contrato para baixar os preços dos bilhetes e que proibisse os treinadores de jogarem todo o santo campeonato para o empate, isso sim, seria de louvar.

Eu bem sei que os tempos não estão fáceis para falarmos de futebol. O novo ano está aí à porta e são demasiado poucos os jogos que nos ficaram na memória até agora pela qualidade. Não há nenhuma equipa que nos deixe de boca aberta, de treinadores então é melhor nem falarmos e, nesta altura, escolher o melhor jogador do campeonato é basicamente distinguir aquele que, entre os maus desempenhos colectivos, mais conseguiu resolver as coisas sozinho. Tudo isto é feio, não entusiasma e tira pessoas das bancadas para as discussões nas redes sociais sobre contratos televisivos.

Por isso é que a culpa não é só destes adeptos (?). Há muito tempo que digo que os clubes querem isto. Faltam três dias para o jogo mais importante da época até agora, entre dois rivais que precisam desesperadamente de ser campeões este ano por razões diferentes e com protagonistas que, mal ou bem, provocam muitas paixões e muitos ódios e, mesmo assim, parece que anda tudo adormecido com os milhões. Não tenho dúvidas que, no sábado, nas bancadas de alvalade, vão estar milhares de adeptos ferrenhos a puxar pelas suas equipas (no caso do FCPorto, com a enorme vantagem de não jogar com os adeptos (?) do Dragão). Mas no campo, nos bancos e nas tribunas VIP já não confio. Se me querem como cliente, a adepta torce pelo seu clube, sempre, mas não pelo futebol que vocês querem.

Vou resistir até não poder mais aos contratos milionários, aos sponsors e aos namings. Não vou comprar camisolas de outras cores e formatos. Vou fechar a boca às pipocas e à Coca-Cola. Não vou participar nos concursos de selfies ou na "kiss cam" (até porque teria de beijar outro homem que não o meu marido e seria eventualmente chato). Vou continuar a esperar que o meu clube se lembre que em 2014 fiz 25 anos de sócia. Não me vou importar de ficar para trás neste mundo das marcas, das operadoras e dos likes nas redes sociais. Já há muita gente paga nos clubes para se preocupar com isso, e sei que tem de ser assim. Agora a mim, a nós, não nos deviam arrastar para isto.

Por isso, fica o apelo: não vão com a corrente. Libertem-se das amarras do futebol moderno e voltem às discussões estúpidas e irracionais sobre o penálti e o fora-de-jogo. Imaginem o que será o campeonato nos próximos 10 anos, disputado mais entre duas operadoras do que entre três rivais. Lembrem-se daqueles domingos na bancada, com o rádio colado ao ouvido e a ansiedade de chegar a casa para ver os resumos. Vão lá buscar o álbum de fotografias ao baú para recordarem a vossa primeira camisola ou cachecol e mostrem-no aos vossos filhos, que neste momento têm tanta vontade de ser do vosso clube como do Barcelona ou do real madrid. Saiam do sofá e vão à bola, não para assobiar ou recordar o momento no instagram, mas para exigir que não nos tirem a paixão. Porque, meus caros, sem ela, não há milhão que nos salve.