Agora que somos pais, a pergunta que mais nos fazem - quase imediatamente a seguir à idade, porque as pessoas perguntam sempre a idade dos bebés - é de que clube o nosso filho vai ser. Sorrimos, brincamos com o assunto e fica um silêncio desconfortável. A verdade é que o nosso filho não é sócio de nenhum e não dorme com pijamas de nenhum clube. Os ataques só devem começar quando ele for mais velho e aí um de nós sofrerá um desgosto enorme. Dado que desde o nascimento dele o único troféu de futebol que entrou no museu do FC Porto foi uma segunda liga conquistada pela equipa B (aliás, é o único troféu de futebol que ganharam desde a abertura do museu. A minha mulher rectifica-me e diz que ganharam um troféu - com nome estrangeiro e tudo - há pouco tempo. Pobrezinha, já está maluca de todo.), tenho a secreta esperança que o FC Porto desapareça durante a infância dele, ficando ele do Benfica porque a mãe já não tem clube.
Ora, o que as pessoas que não nos conhecem não sabem é que nós não imaginamos que o P. não seja ou do Benfica ou do Porto e que o nosso horror nem é que ele fique do Sporting - porque nem sequer colocamos essa hipótese, há limites - mas que ele seja, sei lá, do Chelsea. Ou do Paris-Saint-Germain. Ou de uma equipa chinesa que eu nem sei o nome. Ou do Red Bull Leipzig. O futebol do P. não vai ser ouvido na rádio, com jogos à mesma hora, vai ser o futebol dos trinta jogos na TV por fim-de-semana, em que o Belenenses lhe vai dizer menos do que o Manchester City. E isto põe-nos desconfortáveis, porque o futebol, cá em casa, é uma coisa mágica, que deve ser vivida com a família, com os amigos, com os colegas na escola. O futebol é a nossa máquina do tempo. Quero que ele se lembre de jogadores enquanto estava na primária, que recorde com exagero o primeiro golo que viu no estádio, que me pergunte quem são os cinco jogadores do Benfica que ganharam os quatro campeonatos do tetra e que imagine, por isso, o André Almeida como o melhor lateral de sempre do futebol português. Se o P. gostar do Real Madrid e do Ronaldo (Eusébio nos guarde), isso vai equivaler a uma daquelas simpatias estranhas, como gostar dos Charlotte Hornets na NBA. Ou seja, vai ser só estranho, artificial e sem graça nenhuma.
Numa era em que não há símbolos, onde se fala mais dos valores de ordenados e de comissões do que de jogadores de futebol - apesar de nunca ter havido tanto futebol tão acessível - o que nós queremos é que o P. ame um clube como Lorenzo ama o Torino.
Lorenzo com o cromo de Belotti, o seu ídolo do Torino
A história já corre a internet, mas vale a pena pensar nela e esmiuçá-la: Lorenzo é o filho de Bonucci, central da Juventus. Bonucci é, para mim, o melhor central do mundo da actualidade. Sentido posicional ímpar, rápido, forte e com uns pezinhos de ouro para sair a jogar. É titular da selecção italiana, conquistou o título pela Juventus hexacampeã e vai jogar dentro de uns dias a final da Champions. E o filho mais velho é do Torino. Que ficou em nono na série A (fui ver ao google). Do Torino, que nenhuma pessoa em Portugal (tirando o Rui Tovar e mais três ou quatro doidos) deve conseguir dizer dois jogadores do onze titular. Lorenzo é fã de Belotti, que eu não reconheceria na rua. E se o Bonucci não tem poder para o filho dele ser do clube dele, não sei que poder teremos nós sobre o clube do P.
Lorenzo, durante a festa do scudetto da Juventus
Mas a imagem que nos fez apaixonar-nos por Lorenzo é a sua entrada em campo durante a festa do título da Juve. Lorenzo, vestido à Juventus, entra em campo cabisbaixo, humilhado. O irmão mais novo corre para o pai, recebe a medalha, goza aquilo que qualquer miúdo da Juventus dava um rim para viver. Lorenzo caminha como se estivesse nu, na escola, com toda a gente a olhar. Apaga as lágrimas, não olha para cima. Não veste uma camisola com o seu nome nem o do pai. Provavelmente pensa nos amigos do Torino que amanhã olharão para si, embaraçados. Não sabe o que lhes há-de dizer, como desculpar-se por ter que estar ali. Que culpa tem ele de ser filho de Bonucci? Não podia o pai ser bombeiro ou polícia ou advogado, como os pais dos outros meninos?
Se o meu pai fosse um craque do Benfica, era provável que eu não conseguisse fazer a primária ou brincar ou viver, em geral. Não ia ser capaz de viver com a excitação. Um pequeno exemplo: o meu pai tem um amigo que é o Ricardo. Não tem clube, não percebe puto de futebol. Mas é um sósia de Ricardo Gomes. Quando eu tinha quatro anos e conheci o Ricardo, ia morrendo. O meu pai gozou o prato e disse que aquele era O Ricardo. Era, provavelmente, a única visita lá de casa a quem eu ligava. Pedia-lhe para dar toques e ele dizia que não podia. Chorava na escola quando não acreditavam em mim quando dizia que o Ricardo Gomes tinha lá jantado. Até ao dia de um Roma-Benfica (1-0, Voeller?) em que o Ricardo apareceu lá em casa e ruiu o mito. Foi das minhas desilusões de infância.
Se isto foi assim com Ricardo que nem era o Ricardo, se o meu pai fosse o Luisão, é provável que eu ainda estivesse na Luz, sozinho, a festejar o Tetra. Com uma alegria igual à de Matteo, o irmão mais novo de Lorenzo, que um dia vai ter um doente da Juventus a pedir-lhe todos os detalhes desta festa, a escavar-lhe a memória só para se aproximar um bocadinho deste dia, para sentir que também lá esteve.
Lorenzo, provavelmente, lembrar-se-á melhor da festa. Não só por ser mais velho, mas porque as recordações más são mais difíceis de apagar que as boas. Lorenzo vai-se lembrar dos cheiros, da impressão que lhe fez a camisola, da aberração dos cânticos, do nó do estômago que só passou quando chegou a casa e que só volta quando se lembra daquele dia. Para estar na pele de Lorenzo, tenho de me imaginar filho de um jogador do Porto ou do Sporting e ser assim. E ter que viver aquilo. Entrar em Alvalade com o Sporting campeão, as claques a cantarem, a alegria na cara de pessoas que eu quero ver sempre tristes. E aquela camisola horrível no meu corpo. As listas, aquele verde horroroso. Mesmo com uma camisola interior a proteger-me, é aquela camisola. E ter que andar naquele estádio, de mão dada, cheio de vergonha. Lorenzo, a tua dor é a minha.
Lorenzo vê o Chelsea, o Leipzig, o PSG e não quer saber deles. Vê o pai a jogar na Juventus, pode ter os cromos da caderneta da Juventus todos assinados, pode ter camisolas, calções, botas, fatos de treino e meias da Juventus. Pode ir conhecer Buffon, Daniel Alves, pode pedir ao pai para trocar a camisola com Messi enquanto o marca. Mas Lorenzo quer ver o Torino-Sampdoria, quer tifar pelo seu Toro. Lorenzo escolheu o seu clube independentemente do pai, independentemente da lógica, independentemente de tudo. Lorenzo é um símbolo de resistência, um exemplo de que a paixão desinteressada por um clube, mesmo de que meio da tabela, é muito maior do que a lógica. O filho de LeBron será sempre do clube/franchise que o pai for. O filho de Cristiano Ronaldo será sempre do clube do pai, porque vai ver o pai acima de qualquer clube. Mas Lorenzo, o último romântico, é o Asterix que nos faz ter esperança.
Enquanto houver Lorenzos, o futebol não morre. E é desse futebol que eu quero que o meu filho goste.
Lorenzo, hoje, com Belotti, com o sorriso que nunca fará quando a Juve ganhar o campeonato





