James Rodriguez é um futebolista colombiano de 27 anos que joga atualmente no Bayern de Munique. Ontem, em pleno Estádio da Luz, além de uma boa exibição e de uma assistência para golo, fez um gesto ao público: levantou a mão e exibiu cinco dedos enquanto era substituído debaixo de um coro de assobios. Mais tarde, confirmou o que já esperávamos: fê-lo para lembrar aquele dia em que o Benfica levou 5-0 do FCPorto no Estádio do Dragão. Podia tê-lo feito em alusão ao falhado penta, ou ainda aos aspersores avariados daquele mesmo local, mas afinal foi bastante específico e não andou para aí a gozar com tudo ao mesmo tempo. E ainda justificou: porque é portista.
James esteve três anos connosco. Foi tricampeão, ganhou uma Liga Europa e cresceu muito como jogador de classe mundial (em plantéis que hoje nos parecem tão distantes, de tanta qualidade que tinham), mas também viveu os melhores anos desta rivalidade. Não foram só os 5-0. James foi campeão na Luz e brincou com as luzes apagadas e o sistema de rega, James festejou o golo do Kelvin aos 92, James lembra-se daquela reviravolta para a Taça. Se James se tivesse esquecido do que é ser do FCPorto, seria estranho. Mas, se James se tivesse esquecido - ali, em plena Luz, ao ouvir a reação que ainda lhes provoca - do que significou ganhar tanto ao Benfica, então seria mesmo doido.
O que eu vejo naquele gesto é muito simples: rivalidade. FCPorto e Benfica são rivais, todos os dias, em todas as competições, e devem sê-lo para todos os profissionais que entendam estes clubes. E, já agora, para todos os adeptos dignos disso mesmo. Não se trata de desrespeitar o futebol. Trata-se, sim, de senti-lo verdadeiramente. Ao levantar aquela mão, James deu-nos uns segundos de pureza no meio de uma competição em que os grandes estão cada vez mais enormes, em que FCPorto e Benfica têm cada vez menos hipóteses, em que os sentimentos dos adeptos pouco importam quando comparados aos interesses dos clientes. James provocou, mas James, sobretudo, fez-nos (e fê-los) sentir vivos.
Mas, claro, entendo que do outro lado não tenham gostado. O M., pessoa mais calma do mundo quando ninguém está a provocar o Benfica, tornou-se um hooligan. E eu percebo isso. Se fosse comigo, com o meu clube, ficaria igual. E é aqui que isto se confunde tudo. Quando entra a brigada da moral e dos bons costumes e nos separa. Porque só um ex-jogador do FCPorto seria capaz de fazer aquilo. Porque só um adepto do Benfica seria capaz de querer bater-lhe. Epa, parem com isso, a sério. Não estraguem a beleza daquele momento. Se fosse ao contrário, não só o M. ficaria orgulhoso com o ex-jogador do Benfica, como eu viraria uma hooligan. Sabem porquê? Porque somos rivais. E vivemos muito bem com isso.
O que eu não percebo é esta necessidade de “limpeza” no futebol. Agora, de repente, parece que temos de ser todos amigos, dar as mãos e cantar uma canção sobre a paz mundial durante um clássico. Parece que o grau de satisfação do adepto deve medir-se apenas na quantidade de Coca-Colas e pipocas disponíveis e nunca em vitórias nossas e derrotas dos outros. Parece que pagamos bilhete para apreciar aquele movimento do Lewandowski no primeiro golo do Bayern, mesmo que seja contra nós. Parece que é normal levantarmo-nos para aplaudir um golo do adversário, só porque é bonito (no caso de Renato Sanches, até posso tentar compreender por ser um miúdo da casa, porque o jogo já estava perdido e porque as palmas seriam mais para o pedido de desculpa. Mas recordem-se do que aconteceu após o golo de Cristiano Ronaldo em Turim no ano passado). Parece que nos querem, a todos os adeptos, iguais, certinhos, respeitadores, bons pagadores de bilhetes, a bater palmas ou a cantar para ficar bonito na televisão, mas sempre sem interferir com o espetáculo que nos querem vender. Parece que nos tratam como clientes. E parece que muitos gostam disso.
Quem não percebe o quão genuíno é aquele gesto de James só pode viver num de dois mundos: ou é incapaz de perceber a incoerência que seria aquilo acontecer ao contrário e ter a reação exatamente oposta, ou é precisamente um produto desta nova mentalidade. Quanto aos primeiros, nunca fui de perder tempo com esses. Quanto aos segundos, espero que ainda possamos ir a tempo de salvar alguns. Porque pode ser só ignorância. Se, por exemplo, acharem que são adeptos de futebol, mas nunca foram ver um Benfica-FCPorto ou um FCPorto-Benfica para o lado dos visitantes, se nunca foram insultados ou insultaram só por estarem de um lado da bancada, se nunca festejaram um golo com ar de grunho para aquele desconhecido que está do outro lado da grade com outra camisola, se nunca chegaram ao trabalho numa segunda-feira e foram gozados por um rival, bem, para mim falta-vos alguma coisa. E não falo de violência, falo sempre de rivalidade. Falta-vos viver isso, perceber isso, sentir isso.
E quando, numa quarta-feira à noite qualquer, num jogo da Liga dos Campeões em que nem está a vossa equipa, um ex-jogador vosso lembrar aos adeptos do vosso clube rival que um dia já lhes espetámos 5-0 e foi incrível, então vocês vão perceber rapidamente o que está ali em causa. Não é uma atitude pequenina, não é um desrespeito ao futebol. É provocador, porque nos provoca emoções. Não usa palavras ou gestos feios, mas desperta memórias negativas. Não bate ou maltrata alguém, mas faz-lhes mal pensar naquilo. Para mim, para nós, para o nosso lado, foi uma declaração de amor. E é, a meu ver e de quem consegue apreciar um momento destes, uma ótima maneira de nos lembrar que FCPorto e Benfica são rivais ali, dentro do campo, sempre.














